16.5.08
Infantilidades
O Expresso desta semana fala de "infantilização da política" a propósito do pedido de desculpas de Sócrates pela violação da lei que proibe o fumo nos transportes aéreos, atribuindo o caso a "uma clara importação das práticas da política norte americana".
Ora eu aplaudo todas as importações americanas que tenham em vista sublinhar a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Por isso espero que o pedido de desculpas não proteja o Primeiro-Ministro de sofrer a penalização correspondente à infracção que cometeu, de nada lhe valendo alegar que desconhecia ter agido erradamente.
Dito isto, eu gostaria que os media portugueses revelassem um poucochinho mais de sentido de responsabilidade na avaliação dos actos próprios. "Infantilização da política"? Certamente, mas da parte do Público - e temo que, também, da parte do Expresso - ao fazer manchetes com conversas da treta deste jaez.
Há coisas que se admitem no Correio da Manhã ou nos gratuitos, mas não na imprensa que faz gala em ser chamada "de referência".
Ora eu aplaudo todas as importações americanas que tenham em vista sublinhar a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. Por isso espero que o pedido de desculpas não proteja o Primeiro-Ministro de sofrer a penalização correspondente à infracção que cometeu, de nada lhe valendo alegar que desconhecia ter agido erradamente.
Dito isto, eu gostaria que os media portugueses revelassem um poucochinho mais de sentido de responsabilidade na avaliação dos actos próprios. "Infantilização da política"? Certamente, mas da parte do Público - e temo que, também, da parte do Expresso - ao fazer manchetes com conversas da treta deste jaez.
Há coisas que se admitem no Correio da Manhã ou nos gratuitos, mas não na imprensa que faz gala em ser chamada "de referência".

Rauschenberg.
Choque de expectativas
Parece-me justo afirmar-se que o mau desempenho da economia no primeiro trimestre apanhou toda a gente de surpresa (Presidente da República incluído, por muito que lhe custe admiti-lo). Olhando para os gráficos, o período até parece um outlier só explicável por causas especiais, não podendo descartar-se a hipótese de, após um ajustamento brusco, as coisas regressarem em seguida à normalidade.
Os números ontem divulgados são tanto mais inesperados quanto é facto que os dados até então disponíveis sugeriam que as exportações estavam a crescer bem (pelo menos até Fevereiro), que o turismo progredia a bom ritmo e que o desemprego estava em baixa.
Teremos que esperar mais três semanas para saber como evoluiram as diferentes componentes da procura, mas é provável que o principal problema esteja, não na procura externa, mas no consumo privado e no investimento.
A eventual retracção do investimento será pouco preocupante, na medida em que poderá indiciar apenas uma demora no arranque de projectos que aguardam a sua aprovação no âmbito do QREN. Quanto ao consumo privado, o pior ainda poderá estar para vir, tendo em conta as crescentes pressões inflacionistas.
Texeira dos Santos esperaria um abrandamento da economia, mas não contaria que fosse tão significativo. O corte drástico na taxa de crescimento projectada para este ano e o próximo pode ter essa explicação, mas também é possível que a perspectiva de poder ultrapassar facilmente uma fasquia colocada tão baixo tenha também influenciado essa decisão.
Os números ontem divulgados são tanto mais inesperados quanto é facto que os dados até então disponíveis sugeriam que as exportações estavam a crescer bem (pelo menos até Fevereiro), que o turismo progredia a bom ritmo e que o desemprego estava em baixa.
Teremos que esperar mais três semanas para saber como evoluiram as diferentes componentes da procura, mas é provável que o principal problema esteja, não na procura externa, mas no consumo privado e no investimento.
A eventual retracção do investimento será pouco preocupante, na medida em que poderá indiciar apenas uma demora no arranque de projectos que aguardam a sua aprovação no âmbito do QREN. Quanto ao consumo privado, o pior ainda poderá estar para vir, tendo em conta as crescentes pressões inflacionistas.
Texeira dos Santos esperaria um abrandamento da economia, mas não contaria que fosse tão significativo. O corte drástico na taxa de crescimento projectada para este ano e o próximo pode ter essa explicação, mas também é possível que a perspectiva de poder ultrapassar facilmente uma fasquia colocada tão baixo tenha também influenciado essa decisão.
Outra vez o maldito mercado
Lido no Jornal de Negócios de hoje:
"Resgatar o dinheiro aplicado em fundos é mais caro em Portugal do que nos restantes 18 países analisados. As sociedades gestoras nacionais cobram, em média, 2% em comissões de resgate. O que contrasta com a realidade de outros países europeus, como a Alemanha e a Itália, onde não são cobrados custos pelo resgate. Os fundos portugueses têm ainda das comissões mais altas da amostra, cobrando em média 1,875%. Custos anuais mais elevados, só se verificou na Coreia do Sul, cujos fundos cobram em média 2,199%."Que se há-de fazer? É o mercado!
15.5.08
O mercado tem as costas largas
Há pouco tempo, a Sonae escolheu o sucessor de Belmiro de Azevedo. Dizia-se que havia vários candidatos com hipóteses, mas, no final, a Presidência do grupo foi previsivelmente atribuida a Paulo de Azevedo.
É provável que ele fosse o melhor homem para o lugar, no mesmíssmo sentido em que é provável que - digo isto sem qualquer ironia - a escolha de Armando Vara para o BCP não tenha tido nada a ver com a sua relação de amizade com José Sócrates.
Perdoar-se-nos-á porém a nós, simples mortais, que fiquemos com algumas dúvidas. É que a experiência mostra-nos que, ao menos em Portugal, grandes empresas cotadas na Bolsa que supostamente deveriam dispor de uma gestão profissionalizada em extremo continuam na prática a ser governadas como coutadas familiares.
A descendência de Picasso não singrou na pintura, nem a de Einstein na ciência. Assim de repente, nas artes, a única dinastia de sucesso que me ocorre é a da família Bach. Na gestão empresarial, porém, parece haver um gene que se propaga de pais para filhos.
Belmiro de Azevedo irritou-se com a hipótese de a União Europeia poder vir a interferir na fixação dos salários dos administradores das empresas, declarando que "os políticos não mandam nos empresários". É certo que os políticos não devem dar ordens aos empresários; mas fazem as leis que a todos obrigam, empresários incluídos.
Logo, a questão, é esta: deve o poder político imiscuir-se neste tema das remunerações? Belmiro, Mexia, Ulrich e outros declararam a sua oposição, argumentando que os salários dos gestores são fixados pelo mercado. Não é exacto, a menos que aceitemos que o mercado são eles.
Ora eles não são os donos das empresas. As empresas são dos accionistas, e eles dispõem usualmente de participações minoritárias em empresas de que pretendem dispor como coisas suas.
A agitação por que passou o BCP revelou até que ponto são quotidianamente espezinhados os direitos dos accionistas em proveito de pequenos grupos de familiares e amigos que na prática detêm todo o poder. Ora é aqui - e não na eventual fixação de salários máximos - que os governos europeus deveriam intervir, defendendos os direitos dos accionistas contra os abusos de minorias entrincheiradas nos postos de comando.
Talvez seja oportuno recordar que Adam Smith levava a sua embirração pelas sociedades anónimas ao ponto de defender a sua interdição, precisamente porque no modo como eram governadas ele não vislumbrava a mão invisível do mercado mas a manipulação de muitos por muito poucos.
É provável que ele fosse o melhor homem para o lugar, no mesmíssmo sentido em que é provável que - digo isto sem qualquer ironia - a escolha de Armando Vara para o BCP não tenha tido nada a ver com a sua relação de amizade com José Sócrates.
Perdoar-se-nos-á porém a nós, simples mortais, que fiquemos com algumas dúvidas. É que a experiência mostra-nos que, ao menos em Portugal, grandes empresas cotadas na Bolsa que supostamente deveriam dispor de uma gestão profissionalizada em extremo continuam na prática a ser governadas como coutadas familiares.
A descendência de Picasso não singrou na pintura, nem a de Einstein na ciência. Assim de repente, nas artes, a única dinastia de sucesso que me ocorre é a da família Bach. Na gestão empresarial, porém, parece haver um gene que se propaga de pais para filhos.
Belmiro de Azevedo irritou-se com a hipótese de a União Europeia poder vir a interferir na fixação dos salários dos administradores das empresas, declarando que "os políticos não mandam nos empresários". É certo que os políticos não devem dar ordens aos empresários; mas fazem as leis que a todos obrigam, empresários incluídos.
Logo, a questão, é esta: deve o poder político imiscuir-se neste tema das remunerações? Belmiro, Mexia, Ulrich e outros declararam a sua oposição, argumentando que os salários dos gestores são fixados pelo mercado. Não é exacto, a menos que aceitemos que o mercado são eles.
Ora eles não são os donos das empresas. As empresas são dos accionistas, e eles dispõem usualmente de participações minoritárias em empresas de que pretendem dispor como coisas suas.
A agitação por que passou o BCP revelou até que ponto são quotidianamente espezinhados os direitos dos accionistas em proveito de pequenos grupos de familiares e amigos que na prática detêm todo o poder. Ora é aqui - e não na eventual fixação de salários máximos - que os governos europeus deveriam intervir, defendendos os direitos dos accionistas contra os abusos de minorias entrincheiradas nos postos de comando.
Talvez seja oportuno recordar que Adam Smith levava a sua embirração pelas sociedades anónimas ao ponto de defender a sua interdição, precisamente porque no modo como eram governadas ele não vislumbrava a mão invisível do mercado mas a manipulação de muitos por muito poucos.
Vergonhoso mamarracho

A estátua de Humberto Delgado ontem inaugurada no Porto mais parece um insulto do que uma homenagem. Aquilo é o General sem medo ou um cauteleiro a fazer uma sorte de capote com a bandeira nacional? Foi o Rio quem encomendou o mostrengo?

Rauschenberg.
14.5.08
Em quê?
Depois de escutar parte substancial da entrevista de Manuela Ferreira Leite hoje à noite, pasmado com uma vacuidade e uma incoerência que excederam largamente as minhas piores expectativas, interrogo-me: afinal em que é que, do ponto de vista estritamente político, ela é superior a Luis Filipe Menezes?
Afinal ela diz coisas certas
Manuela Ferreira Leite hoje à noite na SIC-Notícias: "[Os cidadãos] fazem zapping quando nos ouvem falar".
Olhem para mim a fazer zapping. Pronto, já está.
Olhem para mim a fazer zapping. Pronto, já está.

Rauschenberg.
ASAE, cumpre o teu dever
Se, como asseveram os especialistas e me parece lógico, a proibição de fumar se aplica também aos voos fretados, então não resta à ASAE senão aplicar uma pena exemplar à TAP e ao Primeiro-Ministro.
Já viram os problemas que isto resolvia? A ASAE tornava-se de um dia para o outro imensamente popular, e Sócrates humanizava-se ao submeter-se ao império da lei, sem falar de que o país inteiro adquiria uma patine instantânea de civilidade.
Já viram os problemas que isto resolvia? A ASAE tornava-se de um dia para o outro imensamente popular, e Sócrates humanizava-se ao submeter-se ao império da lei, sem falar de que o país inteiro adquiria uma patine instantânea de civilidade.
13.5.08
Santa ignorância
A mais recente polémica (chamemos-lhe assim) em torno da ASAE demonstrou que os jornalistas não entendem a diferença entre previsões e objectivos.
Não espanta muito, porque, afinal, os jornalistas não precisam de saber quase nada para pastorearem os espíritos.
Acabo de constatar, porém, que António Barreto e José Miguel Júdice - que em breve será presidente de um instituto público - também não fazem a mínima ideia.
Recomendo a Júdice um cursozito à pressa antes que assuma as suas novas funções.
Não espanta muito, porque, afinal, os jornalistas não precisam de saber quase nada para pastorearem os espíritos.
Acabo de constatar, porém, que António Barreto e José Miguel Júdice - que em breve será presidente de um instituto público - também não fazem a mínima ideia.
Recomendo a Júdice um cursozito à pressa antes que assuma as suas novas funções.

Rauschenberg.
Mudar de vida
Andava com vontade de dar uma volta à minha vida, de modo que comprei uma máquina de barbear eléctrica - um retrocesso civilizacional tanto mais preocupante quanto é facto que desde o 25 de Abril não recorria a essa tecnologia.
Estou encantado. Sem correr o risco de me cortar, não preciso mais de me olhar ao espelho enquanto me barbeio - uma prática responsável pelo alastramento do individualismo narcisista pelo mundo -, de modo que, embora gaste mais tempo a executar a tarefa, posso aproveitar para fazer outra coisa em simultâneo. Agora, faço a barba enquanto tomo o pequeno almoço, leio o jornal, vejo televisão ou recebo visitas - para não mencionar outras situações que poderiam chocar pessoas mais sensíveis.
Para falar verdade, a experiência é tão gratificante que dou por mim a barbear-me apenas porque não tenho mais nada que fazer. No próximo domingo de manhã vou levar a máquina para a esplanada. Deve ser bem agradável, principalmente se o dia estiver bonito.
Estou encantado. Sem correr o risco de me cortar, não preciso mais de me olhar ao espelho enquanto me barbeio - uma prática responsável pelo alastramento do individualismo narcisista pelo mundo -, de modo que, embora gaste mais tempo a executar a tarefa, posso aproveitar para fazer outra coisa em simultâneo. Agora, faço a barba enquanto tomo o pequeno almoço, leio o jornal, vejo televisão ou recebo visitas - para não mencionar outras situações que poderiam chocar pessoas mais sensíveis.
Para falar verdade, a experiência é tão gratificante que dou por mim a barbear-me apenas porque não tenho mais nada que fazer. No próximo domingo de manhã vou levar a máquina para a esplanada. Deve ser bem agradável, principalmente se o dia estiver bonito.

Rauschenberg.
Carole King: The Locomotion
A credibilidade não é um posto
Manuela Ferreira Leite tem carácter, e não serei eu que desvalorizarei essa qualidade, sobretudo nos tempos que correm.
Manuela Ferreira Leite acha-se uma pessoa credível, esquecendo porventura que quem crê, crê nalguma coisa. Ora, em que deve crer quem crê em Manuela Ferreira Leite? Esse é o problema, a dúvida e a dificuldade. Porque Manuela Ferreira Leite exige de nós a crença a troco de nada: nem orientações, nem ideias, nem programa, nada mesmo. Mas é preciso um Obama para levar as pessoas a vitoriarem o Escolhido só porque ele assim ordena.
Manuela Ferreira Leite apresenta-se como alguém sem apetência pela Presidência do PSD, tampouco pelo cargo de Primeiro-Ministro. Está nisto a fazer um frete, por mero sentido do dever. Não tem paciência, desde logo, nem para os jornalistas, nem para os militantes do PSD, aversões aliás eminentemente compreensíveis. Mas todos nós sabemos que uma pessoa contrariada não faz bem o seu trabalho, seja ele qual for.
Não seria melhor dedicar-se a algo de que possa tirar prazer? Por exemplo, a administrar o Banco Santander? Suspeito que ficaríamos todos - ela e nós - a ganhar com isso.
Manuela Ferreira Leite acha-se uma pessoa credível, esquecendo porventura que quem crê, crê nalguma coisa. Ora, em que deve crer quem crê em Manuela Ferreira Leite? Esse é o problema, a dúvida e a dificuldade. Porque Manuela Ferreira Leite exige de nós a crença a troco de nada: nem orientações, nem ideias, nem programa, nada mesmo. Mas é preciso um Obama para levar as pessoas a vitoriarem o Escolhido só porque ele assim ordena.
Manuela Ferreira Leite apresenta-se como alguém sem apetência pela Presidência do PSD, tampouco pelo cargo de Primeiro-Ministro. Está nisto a fazer um frete, por mero sentido do dever. Não tem paciência, desde logo, nem para os jornalistas, nem para os militantes do PSD, aversões aliás eminentemente compreensíveis. Mas todos nós sabemos que uma pessoa contrariada não faz bem o seu trabalho, seja ele qual for.
Não seria melhor dedicar-se a algo de que possa tirar prazer? Por exemplo, a administrar o Banco Santander? Suspeito que ficaríamos todos - ela e nós - a ganhar com isso.
12.5.08
O cisma de 68
Em Agosto de 68 encontrei um destacado comunista português, afastado da militância activa por razões que só mais tarde vim a conhecer e que são irrelevantes para o caso.
Questionou-me sobre as repercussões do Maio de 68 na minha universidade, mas, sem me dar tempo para responder-lhe, declarou-se feliz por, no seu entender, a juventude portuguesa ignorar movimentações insensatas inspiradas por anarquistas e estimuladas pela burguesia.
Eu não ignorava o incómodo do PCF e da CGT perante os recentes acontecimentos em França. Mesmo assim, fiquei chocado com a agressividade evidenciada pelo meu interlocutor - tão chocado, que ainda hoje me recordo perfeitamente do lugar e das circunstâncias em que a conversa ocorreu.
Dias depois, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia, e, como seria de esperar, ele exultou.
O ano de 1968 marcou, também entre nós, a ruptura definitiva entre a nova esquerda e os comunistas pró-soviéticos. Foi essa a sua principal e mais duradoura consequência política.
Entre os dois sectores da oposição ao antigo regime cavou-se um fosso que não fez senão aprofundar-se nos anos seguintes: bem notório na crise académica de Lisboa de 1970 (mas não na de Coimbra de 1969), ele revelou-se à luz do dia, com uma violência para muitos surpreendente, no imediato pós-25 de Abril.
Questionou-me sobre as repercussões do Maio de 68 na minha universidade, mas, sem me dar tempo para responder-lhe, declarou-se feliz por, no seu entender, a juventude portuguesa ignorar movimentações insensatas inspiradas por anarquistas e estimuladas pela burguesia.
Eu não ignorava o incómodo do PCF e da CGT perante os recentes acontecimentos em França. Mesmo assim, fiquei chocado com a agressividade evidenciada pelo meu interlocutor - tão chocado, que ainda hoje me recordo perfeitamente do lugar e das circunstâncias em que a conversa ocorreu.
Dias depois, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia, e, como seria de esperar, ele exultou.
O ano de 1968 marcou, também entre nós, a ruptura definitiva entre a nova esquerda e os comunistas pró-soviéticos. Foi essa a sua principal e mais duradoura consequência política.
Entre os dois sectores da oposição ao antigo regime cavou-se um fosso que não fez senão aprofundar-se nos anos seguintes: bem notório na crise académica de Lisboa de 1970 (mas não na de Coimbra de 1969), ele revelou-se à luz do dia, com uma violência para muitos surpreendente, no imediato pós-25 de Abril.
A sogra de Bill Clinton

No final da primeira década do século XXI já todos os interessados presenciaram um concerto dos Stones ao vivo, escutaram um CD dos Stones ao vivo ou assistiram a um video dos Stones ao vivo.
Que poderia acrescentar "Shine a Light", o filme de Scorsese agora estreado?
Alguns flashes de entrevistas antigas sem particular interesse limitam-se a sublinhar a longevidade da banda. Um ou noutro momento de intimidade com o que se passa no palco - a expressão de cansaço de Watts no final de um trecho mais puxado ou um vislumbre do alinhamento das canções rabiscado na face de um quadro negro invisível para o público, por exemplo - não são suficientes para justificar a empreitada.
À medida que os Stones envelhecem, cresce o protagonismo de Richards em detrimento de Jagger. Este já todos entendemos que é um genial farsante, mas o mistério do primeiro, com a sua impassível máscara de repugnante bardinas, adensa-se de dia para dia.
Só ele parece disposto a jogar o jogo até ao fim, excepto naquele raro momento em que, como qualquer pessoa normal, condescende num beijinho bem comportado à sogra de Bill Clinton, embevecida com aquela oportunidade única de privar com o mafarrico em pessoa.
Agora, que João Paulo II unilateralmente aboliu o Inferno, o diabo já não mete medo a ninguém. E os artistas malditos também não.
11.5.08
Despesismo
Porquê destacar uma guarda pessoal para proteger Ricardo Costa, se Carolina Salgado, a única pessoa que poderia mandar espancá-lo, já se encontra vigiada pela polícia?