10.7.09

.

.

Sob escuta

.
Mais tarde ou mais cedo, haveria de descobrir-se uma estória destas:
"Rupert Murdoch's News Group News­papers has paid out more than £1m to settle legal cases that threatened to reveal evidence of his journalists' repeated involvement in the use of criminal methods to get stories.

"The payments secured secrecy over out-of-court settlements in three cases that threatened to expose evidence of Murdoch journalists using private investigators who illegally hacked into the mobile phone messages of numerous public ­figures to gain unlawful access to confidential personal data, including tax records, social security files, bank statements and itemised phone bills. Cabinet ministers, MPs, actors and sports stars were all targets of the private investigators."
Aguardo com curiosidade para ver a cobertura que os nossos media concederão a isto.
.

Más notícias da frente ocidental

.


Se, nos EUA, os salários estagnam ao mesmo tempo que o desemprego aumenta e os activos detidos pelas famílias se desvalorizam, como será possível esperar uma retoma duradoura?
.

9.7.09

Grande Salto em Frente à portuguesa

.


Vítor Bento afirma no seu livro “Perceber a Crise...” que a origem das nossas presentes dificuldades remonta à entrada na União Económica e Monetária. Não creio que seja precisamente essa a origem, mas concedo que foi um momento crucial.

O argumento de V. Bento é conhecido. Concretizada a adesão à UEM, mais tarde confirmada com a adopção do euro, o país ficou privado de política monetária e cambial autónoma. Por conseguinte, não mais pode recorrer à desvalorização da moeda para compensar insuficiências internas.

Acresce que: 1) essa transformação coincidiu com um período de afirmação internacional das economias da China, da Índia e do leste europeu; 2) a simples introdução do euro implicou a imediata eliminação ou deslocalização para fora do país de muitas actividades de serviços, designadamente comerciais. Do primeiro factor, devidamente acentuado por V. Bento, resultou uma pressão competitiva muito agravada sobre as nossas empresas exportadoras; do segundo, que não refere, a súbita liquidação de muito emprego qualificado.

A convergência nominal arrastou a queda das taxas de juro. Como seria de esperar, disparou o endividamento das empresas, das famílias e também do Estado. (Aqui convém recordar que, à data, muitos académicos previram que isso não aconteceria, visto que, segundo as suas teorias, a ilusão monetária não existe, logo só as taxas de juro reais importam.)

Se tudo isso era previsível, como é que os partidários da adesão ao euro se permitiram ignorá-lo? É aqui que entramos num terreno decisivo.

Para V. Bento e para os economistas que pensam como ele, era tudo muito fácil. Bastaria que o governo português tivessa imposto flexibilidade adicional ao funcionamento dos mercados de trabalho e de produtos e que reduzisse as despesas públicas tanto quanto fosse necessário para contrariar o aumento do endividamento privado.

Esta recomendação é uma variante do “faz força, que eu gemo”. Certos economistas empurraram o país para uma camisa de onze varas e, depois de ele lá estar enfiado, exortam-no a desenrascar-se.

Por outras palavras, eles congeminam uma política muito certinha no papel, mas não cuidam de ponderar as condições políticas e sociais indispensáveis à sua consecução. É, aliás, em boa medida nesta despreocupação que consiste a alegada “pureza científica” desta forma de conceber a teoria económica. Eles dizem como é; quanto ao resto, os políticos, os empresários e os trabalhadores que resolvam.

Ora, há algumas perguntas que, até hoje, eu ainda não vi serem respondidas.

Por exemplo, como seria possível um país com as graves carências sociais que Portugal exibia cortar drasticamente a sua despesa pública? Qual é a ideia: cortar na educação e na saúde, visto ser aí que se concentra a grande fatia de funcionários? Ou antes cortar no investimento público - e exactamente em quê?

Mais: qual deveria ser a dimensão do excedente das contas públicas necessário para contrariar o inevitável acréscimo do endividamento privado, dado que o país não controla a taxa de juro? E qual a dimensão da recessão que resultaria dessa loucura?

Usualmente, evade-se essas questões alegando que, se a Espanha e a Irlanda conseguiram equilibrar as suas contas públicas e ainda assim crescerem mais que nós, também nós poderíamos tê-lo feito.

Este argumento inverte o sentido de causalidade: como esses países continuaram a crescer, não lhes foi difícil reduzir ou eliminar o défice em proporção do produto. Tanto isto é verdade que, mal o seu crescimento estancou, logo se revelaram neles desequilíbrios orçamentais bem maiores do que o nosso.

A minha conclusão, por conseguinte, é que a adesão ao euro foi imposta ao país sem sentido de responsabilidade e a pretexto de ilusórias vantagens que, de facto, jamais se concretizaram. Foi o nosso Grande Salto em Frente doméstico, promovido por políticos e economistas sem mundo nem cultura a quem a ideologia toldou o juízo.

Agora, que não podemos sair nem podemos ficar, a dimensão do erro é manifesta para todos. Mas nem assim os que nos atiraram para aqui são capazes de fazer mea culpa. Eles estavam e estão certos, o país de incapazes e mandriões que nós somos é que está errado.

(Continua)
.

"Rasgar, ninguém vai rasgar nada"

.


Julien Freud: Lying by the rags.
.

O novo aeroporto está quase pago

.
Se querem perceber por quê, leiam este post de Pedro Lains e o artigo do Jornal de Negócios que ele linka.

A crítica ao manifesto dos 28 que publiquei no mesmo jornal previa esta evolução, mas não há nada como termos os números na mão para a confirmar.

(O meu título é demagógico, mas não muito em comparação com o que diariamente se ouve nas nossas televisões.)
.

8.7.09

.

.

6.7.09

Dos vícios do moralismo na análise económica

.


Vítor Bento abre "Perceber a Crise..." com uma melancólica citação que interpreta como prova de que "os problemas que actualmente nos ocupam (...) nada têm de novo", visto que, no fundo "são o resultado de mais uma recorrência de atávicas características comportamentais que, infelizmente, parecem inscritas no nosso ADN cultural".

Se isso fosse verdade, V. Bento deveria interromper logo ali o seu trabalho. Para quê dar-se à colossal maçada de escrever um livro interpretando a crise e propondo soluções para ela, se a sua origem (o nosso ADN cultural mandrião) está identificada e se, sendo ela congénita, o mal não tem solução? Concluo eu daí que o autor não acredita demasiado na sua tese fundadora.

Cabe, de facto, perguntar: se há algo de intrinsecamente errado no nosso ADN, como se explica que ele às vezes produza bons resultados e outras vezes nos empurre para a mais negra desgraça?

A explicação moralista afigura-se-lhe, porém, demasiado útil como muleta argumentativa, de forma que V. Bento socorre-se dela cada vez que não quer ou não pode aprofundar as causas especificamente sociais e políticas dos problemas que discute.

V. Bento elogia o Portugal do tempo dos Descobrimentos, mas critica a decadência que se teria instalado a partir do final do século dezasseis (um equívoco que não me dá agora jeito desmontar). Do mesmo modo, sustenta que, em tempos recentes, só trocámos a atitude da formiga pela da cigarra depois da adesão do euro, de modo que, afinal, o malfadado ADN parece que tem dias, ou melhor décadas.

Mas, afinal, em quê e como se distinguem precisamente nos planos dos comportamentos e das políticas económicas as cigarras cavaquistas das formigas guterristas? V. Bento não entra em grandes detalhes, e ainda bem para ele. Parece que tudo se resume aos problemas da poupança e do endividamento. Tentarei mostar que isso não faz grande sentido.

Resta como calcanhar de Aquiles da análise de V. Bento esta ideia pueril segundo a qual a economia progride quando as pessoas se portam bem e regride quando caem no pecado.

O desenvolvimento, meus amigos, não é o prémio da virtude. Se fosse, o caso resolver-se-ia fazendo penitência - o que, como adiante veremos, é afinal a única coisa que V. Bento tem para nos propor.

(Continua...)
.

Não há recuperação à vista

.
Extractos do artigo de Wolfgang Munchau no Financial Times de hoje:
"I would expect the US to have something approaching a genuine recovery at some point in the next decade, but probably not in 2010 or 2011. Judging by the co-ordination failure at the level of the European Union, the persistent failure to deal with the continent’s 40 or so cross-border banks at European level, and in particular Germany’s inability to sort out its toxic-asset contaminated Landesbanken, the economic prospects for the eurozone are infinitely worse."

"With several European countries now obsessing with premature crisis exit strategies, which may kick in as early as 2010, the chances of a vicious cycle of fading economic growth, falling tax receipts, deficit cuts and further output losses are high. If Ms Yellen is right about the US economy, there will be no bail-out of the European and Asian economies through the US consumer."

"The economic policy framework of Europe’s monetary union only barely succeeded during a normal economic cycle, during which its most important framework of policy co-ordination, the stability and growth pact, was dislodged. The policy framework proved utterly dysfunctional during this economic crisis, as leaders like Angela Merkel or Nicolas Sarkozy have resorted to their nationalist instincts. It would take an even bigger crisis for them to agree on a joint resolution strategy for the banking system."

"There is a good chance they might get it."
Em resumo, é isensato planear o futuro como se pudéssemos contar com uma inversão acentuada da conjuntura económica algures entre o final deste ano e o início do próximo. Iludir as opiniões públicas a este respeito terá consequências desastrosas assim que elas se cansem de esperar e decidam começar a cobrar.
.

3.7.09

.


James Ensor: Esqueletos disputando um arenque, 1891.
.

Más notícias da frente ocidental

.

.

2.7.09

Discutir a sério

.


Há entre nós uma enorme carência de pensamento fundamentado e estruturado sobre os problemas que nos afligem.

Por isso é tão bem-vindo este contributo de Vítor Bento, tanto mais que o autor conhece bem o assunto e se esforça por discuti-lo com seriedade.

Escrever um livro de quase 200 páginas, com um argumento consistente de ponta a ponta, é uma prova intelectualmente muito mais exigente do que o sound-byte ou mesmo um breve artigo de jornal.

Fazia muita falta que alguém se desse ao trabalho de compilar e analisar uma grande massa de informação relevante acerca do desempenho recente da economia portuguesa. Devemos estar todos reconhecidos a Vítor Bento por ter assumido essa empreitada.

Espero, sem excessivas ilusões, que muita gente leia e discuta este livro.

Pela minha parte, encontro nele muitas coisas com que concordo, mas divirjo no essencial da análise e da estratégia propostas. Espero ter oportunidade de explicar em quê e por quê.
.

Em busca de um rumo

.


O artigo do Rui Tavares no Público de ontem é uma excelente demonstração de como um país deve ser pensado estrategicamente antes de poder concluir-se se ele precisa de aeroportos ou TGVs:

"Seguindo esta lógica [da estruturação de redes de cidades], nós deveríamos “amarrar” o corredor Lisboa-Porto-Corunha, de que a componente portuguesa já conta mais de dois terços, aproximando-lhe a componente galega. E deveríamos ligar este corredor à Grande Ilha de Madrid no interior da península. Este “arquipélago de arquipélagos” seria mais interessante dentro da Europa e no Mundo."
.

30.6.09

.


Paul Signac: La Calanque.
.

Abstenções

.
Extractos da entrevista de Adriano Moreira publicada no Diário Económico de ontem:

"Neste momento o que está a acontecer é o despertar da sociedade irresponsável. E isso é mais inquietante do que a acção que pode ter o poder, porque há uma espécie de afastamento da sociedade que se manifesta na abstenção."

"A abstenção revela uma demissão da responsabilidade social."

"Este é um fenómeno global, básico: a sociedade deve ser responsabilizada. Ir votar é ser chamado à responsabilidade e a abstenção é uma renúncia a essas responsabilidades."
.

29.6.09

O abalozinho, últimas notícias

.
Uma crise como a actual não tem uma única causa, tem muitas.

Para percebermos o que poderá acontecer daqui para a frente, porém, basta olhar para os actuais desequilíbrios financeiros internacionais. Nos últimos anos, um pequeno grupo de países (China, Japão e Alemanha) acumulou poupanças colossais, as quais financiaram níveis igualmente enormes de despesa em muitos outros países.

É hoje claro que este desequilíbrio não pode persistir porque os consumidores e as empresas que se endividaram entendem que a situação atingiu os limites. Por isso, estamos a assistir a um rapidíssimo aumento da poupança na generalidade dos países devedores, com reflexos imediatos na queda das suas importações.

A longo prazo isto é indubitavelmente bom. Porém, se a procura cair a pique nos EUA e num bom número de países da UE, o Mundo poderá mergulhar numa recessão profunda e duradoura, geradora de desemprego e miséria numa escala a que já não estamos habituados.

A melhor forma de o evitar seria a China, o Japão e a Alemanha reduzirem a poupança e o seu excedente comercial. A China e o Japão parecem estar a fazer isso mesmo, embora com relutância.

Surpreendementemente, a Alemanha, cuja política económica tem repercussões mais directas sobre a conjuntura europeia em geral, e portuguesa em particular, recusa-se a cooperar. Em vez de, como seria racional, expandir a procura interna, o governo alemão pretende sair da crise pela via do crescimento das exportações. Pior ainda, comprometeu-se com a aprovação de uma regra constitucional que proibe a existência de défices orçamentais, o que equivale a fechar o cofre e deitar fora a chave.

Angela Merkel esquece-se que, para vender Mercedes, é preciso que alguém compre Mercedes. A Alemanha optou por uma via neo-mercantilista que faz do excedente comercial um valor absoluto, independentemente de quaisquer outras circunstâncias.

O resultado será desastroso para a Alemanha e para a União Europeia. Não tardará muito até tornar-se evidente como é absurda a descoordenação da política económica europeia que se instalou. Tudo indica que, graças à clarividência de Barroso e seus amigos, podemos contar com um recessão profunda e prolongada.
.

Armadilhas

.


Paul Samuelson criticou numa recente entrevista à Atlantic o modo como evoluíu nas últimas décadas o ensino da macroeconomia.

Fez nessa ocasião notar que se tornou corrente os manuais não mencionarem sequer a "armadilha da liquidez", e referiu que uma edição do de Greg Mankiw (possivelmente o mais usado na actualidade) que consultou não incluía sequer a expressão no índice temático.

Mankiw, qua anda um bocado picado por causa deste tipo de críticas, respondeu-lhe que, nas edições mais recentes (a 5ª e a 6ª)do seu livro o tema é abordado, e que, na última, até figura no tal índice. Logo, a observação de Samuelson não é inteiramente correcta.

A questão, porém, não é essa, mas antes como foi possível que um conceito central da teoria keynesiana fosse retirado do cânone ensinado a gerações de economistas desde os anos 80 para cá. Note-se que Mankiw, um keynesiano politicamente alinhado com os republicanos, nem sequer é um dos casos mais flagrantes de viés ideológico.

A história da evolução da teoria económica nas últimas décadas foi a do progressivo abandono do keynesianismo e reversão da ciência ao estado em que ela se encontrava no tempo de Pigou. No fundo, trata-se de questionar a autonomia e necessidade da macroeconomia e de considerar que só a teoria microeconómica é boa ciência da economia. Isso seria perfeitamente aceitável, claro está, se as ideias de Keynes tivessem sido substituídas por algo melhor.

Em vez disso, o seu lugar foi tomado pela teoria das "expectativas racionais", a qual sustenta que, na ausência de interferência estatal, os mercados se ajustam de forma perfeita e rápida em resposta a choques externos de qualquer tipo. Por outras palavras, o sistema de mercados livres produz sempre e em quaisquer circunstâncias o melhor resultado possível. Logo, as crises têm necessariamente origem fora do sistema económico, nunca dentro dele.

A coisa extraordinária é que, embora destituída de fundamentação empírica, essa reformulação da teoria clássica foi prontamente adoptada pela academia um pouco por todo o Mundo e imposta a gerações de estudantes como única e indiscutível verdade.

Quem leu a Teoria Geral, sabe que a crítica de Keynes se dirigiu antes de mais à lei de Say, segundo a qual, visto que a oferta gera a sua própria procura, os mercados tendem sempre naturalmente a ajustar-se. A principal contribuição de Keynes consistiu em demonstrar a falácia desse raciocínio, demonstração em que, precisamente, desempenha um papel central a possibilidade da armadilha da liquidez, isto é, de uma situação em que, face ao risco percebido, a preferência das famílias e das empresas pela detenção de dinheiro líquido ameaça paralizar a economia.

Foi o que sucedeu na Grande Depressão e é o que pode voltar a suceder se aqueles a quem cabe a condução da política económica deixarem cegar-se por preconceitos ideológicos do género daqueles que assentaram arraiais nas universidades.

Por isso, se alguém invocar a sua condição de professor de economista para nos dar conselhos, verifiquem primeiro que tipo de coisas andou ele a ensinar aos seus alunos nos últimos anos.
.

28.6.09

Ignorância generalizada

.
O Paul Krugman anda há meses a batalhar nisto:
"Even in macroeconomics, you could build a career without ever understanding what Keynes and Hicks were driving at — and if you’re under a certain age, perhaps without even ever having heard about it. Arguments like “deficits drive up interest rates and that’s contractionary” basically have the feel of someone who doesn’t have any sense of how the pieces fit together — probably because they don’t."
Eis algo que, por exemplo, os subscritores do Manifesto dos 28 ignoram, já para não falar da multidão dos comentadores e jornalistas que se permitem debitar palpites sobre o assunto.

Não, o acréscimo do investimento público não conduz ao aumento da taxa de juro numa situação como a actual, em que a poupança das empresas e das famílias cresceu bruscamente como reacção à percepção de risco acrescido dos agentes económicos.
.

27.6.09

.


Paul Signac.
.

O debate deve ser centrado em prioridades: só com emprego se pode reconstruir a economia

.
Estamos a atravessar uma das mais severas crises económicas globais de sempre. Na sua origem está uma combinação letal de desigualdades, de especulação financeira, de mercados mal regulados e de escassa capacidade política. A contracção da procura é agora geral e o que parece racional para cada agente económico privado – como seja adiar investimentos porque o futuro é incerto, ou dificultar o acesso ao crédito, porque a confiança escasseia – tende a gerar um resultado global desastroso.

É por isso imprescindível definir claramente as prioridades. Em Portugal, como aliás por toda a Europa e por todo o mundo, o combate ao desemprego tem de ser o objectivo central da política económica. Uma taxa de desemprego de 10% é o sinal de uma economia falhada, que custa a Portugal cerca de 21 mil milhões de euros por ano – a capacidade de produção que é desperdiçada, mais a despesa em custos de protecção social. Em cada ano, perde-se assim mais do que o total das despesas previstas para todas as grandes obras públicas nos próximos quinze anos. O desemprego é o problema. Esquecer esta dimensão é obscurecer o essencial e subestimar gravemente os riscos de uma crise social dramática.

A crise global exige responsabilidade a todos os que intervêm na esfera pública. Assim, respondemos a esta ameaça de deflação e de depressão propondo um vigoroso estímulo contracíclico, coordenado à escala europeia e global, que só pode partir dos poderes públicos. Recusamos qualquer política de facilidade ou qualquer repetição dos erros anteriores. É necessária uma nova política económica e financeira.

Nesse sentido, para além da intervenção reguladora no sistema financeiro, a estratégia pública mais eficaz assenta numa política orçamental que assuma o papel positivo da despesa e sobretudo do investimento, única forma de garantir que a procura é dinamizada e que os impactos sociais desfavoráveis da crise são minimizados. Os recursos públicos devem ser prioritariamente canalizados para projectos com impactos favoráveis no emprego, no ambiente e no reforço da coesão territorial e social: reabilitação do parque habitacional, expansão da utilização de energias renováveis, modernização da rede eléctrica, projectos de investimento em infra-estruturas de transporte úteis, com destaque para a rede ferroviária, investimentos na protecção social que combatam a pobreza e que promovam a melhoria dos serviços públicos essenciais como saúde, justiça e educação.

Desta forma, os recursos públicos servirão não só para contrariar a quebra conjuntural da procura privada, mas também abrirão um caminho para o futuro: melhores infra-estruturas e capacidades humanas, um território mais coeso e competitivo, capaz de suportar iniciativas inovadoras na área da produção de bens transaccionáveis.

Dizemo-lo com clareza porque sabemos que as dúvidas, pertinentes ou não, acerca de alguns grandes projectos podem ser instrumentalizadas para defender que o investimento público nunca é mais do que um fardo incomportável que irá recair sobre as gerações vindouras. Trata-se naturalmente de uma opinião contestável e que reflecte uma escolha político-ideológica que ganharia em ser assumida como tal, em vez de se apresentar como uma sobranceira visão definitiva, destinada a impor à sociedade uma noção unilateral e pretensamente científica.

Ao contrário dos que pretendem limitar as opções, e em nome do direito ao debate e à expressão do contraditório, parece-nos claro que as economias não podem sair espontaneamente da crise sem causar devastação económica e sofrimento social evitáveis e um lastro negativo de destruição das capacidades humanas, por via do desemprego e da fragmentação social. Consideramos que é precisamente em nome das gerações vindouras que temos de exigir um esforço internacional para sair da crise e desenvolver uma política de pleno emprego. Uma economia e uma sociedade estagnadas não serão, certamente, fonte de oportunidades futuras.

A pretexto dos desequilíbrios externos da economia portuguesa, dizem-nos que devemos esperar que a retoma venha de fora através de um aumento da procura dirigida às exportações. Propõe-se assim uma atitude passiva que corre o risco de se generalizar entre os governos, prolongando o colapso em curso das relações económicas internacionais, e mantendo em todo o caso a posição periférica da economia portuguesa.

Ora, é preciso não esquecer que as exportações de uns são sempre importações de outros. Por isso, temos de pensar sobre os nossos problemas no quadro europeu e global onde nos inserimos. A competitividade futura da economia portuguesa depende também da adopção, pelo menos à escala europeia, de mecanismos de correcção dos desequilíbrios comerciais sistemáticos de que temos sido vítimas.

Julgamos que não é possível neste momento enfrentar os problemas da economia portuguesa sem dar prioridade à resposta às dinâmicas recessivas de destruição de emprego. Esta intervenção, que passa pelo investimento público económica e socialmente útil, tem de se inscrever num movimento mais vasto de mudança das estruturas económicas que geraram a actual crise. Para isso, é indispensável uma nova abordagem da restrição orçamental europeia que seja contracíclica e que promova a convergência regional.

O governo português deve então exigir uma resposta muito mais coordenada por parte da União Europeia e dar mostras de disponibilidade para participar no esforço colectivo. Isto vale tanto para as políticas destinadas a debelar a crise como para o esforço de regulação dos fluxos económicos que é imprescindível para que ela não se repita. Precisamos de mais Europa e menos passividade no combate à crise.

Por isso, como cidadãos de diversas sensibilidades, apelamos à opinião pública para que seja exigente na escolha de respostas a esta recessão, para evitar que o sofrimento social se prolongue.

Manuel Brandão Alves, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Carlos Bastien, Economista, Professor Associado, ISEG; Jorge Bateira, Economista, doutorando, Universidade de Manchester; Manuel Branco, Economista, Professor Associado, Universidade de Évora; João Castro Caldas, Engenheiro Agrónomo, Professor Catedrático, Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural do Instituto Superior de Agronomia; José Castro Caldas, Economista, Investigador, Centro de Estudos Sociais; Luis Francisco Carvalho, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; João Pinto e Castro, Economista e Gestor; Ana Narciso Costa, Economista, Professora Auxiliar, ISCTE-IUL; Pedro Costa, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Artur Cristóvão, Professor Catedrático, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; Álvaro Domingues, Geógrafo, Professor Associado, Faculdade da Arquitectura da Universidade do Porto; Paulo Areosa Feio, Geógrafo, Dirigente da Administração Pública; Fátima Ferreiro, Professora Auxiliar, Departamento de Economia, ISCTE-IUL; Carlos Figueiredo, Economista; Carlos Fortuna, Sociólogo, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; André Freire, Politólogo, Professor Auxiliar, ISCTE; João Galamba, Economista, doutorando em filosofia, FCSH-UNL; Jorge Gaspar, Geógrafo, Professor Catedrático, Universidade de Lisboa; Isabel Carvalho Guerra, Socióloga, Professora Catedrática; João Guerreiro, Economista, Professor Catedrático, Universidade do Algarve; José Manuel Henriques, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Pedro Hespanha, Sociólogo, Professor Associado, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; João Leão, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; António Simões Lopes, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Margarida Chagas Lopes, Economista, Professora Auxiliar, ISEG; Raul Lopes, Economista, Professor Associado, ISCTE-IUL; Francisco Louçã, Economista, Professor Catedrático, ISEG; Ricardo Paes Mamede, Economista, Professor Auxiliar, ISCTE-IUL; Tiago Mata, Historiador e Economista, Universidade de Amesterdão; Manuel Belo Moreira, Engenheiro Agrónomo, Professor Catedrático, Departamento de Economia Agrária e Sociologia Rural, Instituto Superior de Agronomia; Mário Murteira, Economista, Professor Emérito, ISCTE- IUL; Vitor Neves, Economista, Professor Auxiliar, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; José Penedos, Gestor; Tiago Santos Pereira, Investigador, Centro de Estudos Sociais; Adriano Pimpão, Economista, Professor Catedrático, Universidade do Algarve; Alexandre Azevedo Pinto, Economista, Investigador, Faculdade de Economia da Universidade do Porto; Margarida Proença, Economista, Professora Catedrática, Escola de Economia e Gestão, Universidade do Minho; José Reis, Economista, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; João Rodrigues, Economista, doutorando, Universidade de Manchester; José Manuel Rolo, Economista, Investigador, Instituto de Ciências Sociais; António Romão, Economista, Professor Catedrático, ISEG-UTL; Ana Cordeiro Santos, Economista, Investigadora, Centro de Estudos Sociais; Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo, Professor Catedrático, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Carlos Santos, Economista, Professor Auxiliar, Universidade Católica Portuguesa; Pedro Nuno Santos, Economista; Mário Rui Silva, Economista, Professor Associado, Faculdade de Economia do Porto; Pedro Adão e Silva, Politólogo, ISCTE; Nuno Teles, Economista, doutorando, School of Oriental and African Studies, Universidade de Londres; João Tolda, Economista, Professor Auxiliar, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra; Jorge Vala, Psicólogo Social, Investigador; Mário Vale, Geógrafo, Professor Associado, Universidade de Lisboa.
.