30.3.07

60s Crash Course - Jefferson Airplane: Crown of Creation



É interessante notar que estas coisas passavam no horário nobre da televisão americana e, ainda por cima, no show de maior audiência da época.

Os amigos são para as ocasiões

Subitamente, os britânicos descobriram que são europeus e declaram-se a favor da Europa política e de uma política externa comum. É pena que não se tenham lembrado disso quando resolveram colaborar com a invasão americana do Iraque.

29.3.07

A coisa mais divertida que se pode fazer sem ter que tirar a roupa

Hoje, chegou a vez da publicação da minha resposta ao inquérito do Luís Carmelo. Quem estiver interessado poderá lê-la aqui.

60s Crash Course - The Band/ Staple Singers: The Weight/ Ol' Time Religion

"You get to see places tourists never do. We're like tourists with guns."



Primeiro facto indesmentível: os militares britânicos estavam muito mais longe de casa do que os iranianos que os capturaram.

Segundo facto indesmentível: à luz da lei internacional e das resoluções da ONU, os militares britânicos não tinham qualquer direito de andar a passear-se em "águas iraquianas".

28.3.07

Enquanto é tempo

Era fundamental que alguém dissesse isto, e é excelente que alguém o tenha dito tão bem.

Raio do cigano

"Dali, a oposição não leva nada"

Mais um comentário sensato de alguém que não finge ser especialista a propósito do absurdo Prós e Contras de 2ª feira à noite.

Lidar com a memória

Não, Paulo, não é indiferente a maneira como gerimos a nossa relação com o passado, porque disso depende uma relação saudável com o presente.

Pedir desculpa por aquilo que um povo fez de errado é indispensável se quisermos que a nossa memória colectiva contribua para a consolidação de uma ética pública marcada pelo sentido da responsabilidade.

Sem esse noção de responsabilidade histórica não há propriamente países, mas apenas sítios habitados por bandos que não se respeitam a si próprios.

Em Portugal, por exemplo, desconhece-se como o esclavagismo marcou durante séculos a nossa sociedade, porque os historiadores optaram na sua maioria por esconder essa realidade que justamente reputam vergonhosa.

A consequência prática é não se entender como isso envenenou os nossos comportamentos e moldou atitudes que hoje permanecem vivas, sem que consigamos entender as suas origens. Estou a pensar, por exemplo, na escassa dignididade que persistimos em atribuír ao trabalho - uma coisa que, como dizem alguns mais sinceros ou desbocados, "é bom para o preto".

A psicanálise destas patologias através da crítica histórica teria sem dúvida efeitos muito superiores ao dos sermões moralistas que os intelectuais de serviço nos servem com tanto afã.

Todos os países civilizados, Vaticano incluído, acham normal pedir desculpa pelas barbaridades cometidas. Também nisso a nossa classe dirigente se distingue desses bons exemplos pela negativa. Não admira que ande sempre tão zangada com a "Europa".

27.3.07

60s Crash Course - The Doors: Love Me Two Times

Uma cruzada fundamentalista para impedir a poluição da água que abastece um milhão de pessoas

Diverti-me imenso com o bocadinho do Prós e Contras de ontem a que tive paciência para assistir.

Dos comentários que li, destaco este, este, este e ainda mais este, fundamentalmente por, independentemente da conclusão a que chegam, os seus autores revelarem uma sensatez muito acima da média.

Por mim, direi apenas que achei desnecessário uma parte substancial do engenheiral presente ter declarado sem mais a protecção do ambiente uma cruzada fundamentalista. Nem era preciso que o afirmassem: viajando pelo país a gente percebe que é de facto isso que muitos engenheiros pensam.

60s Crash Course - The Kinks: A Well Respected Man

Democracia para a Europa

A Europa já se uniu e desuniu várias vezes ao longo dos milénios que leva de história. Porém, nós, que fomos quase sempre um país extrínseco aos grandes movimentos políticos europeus, tendemos a ignorar esse facto e a acreditar que a experiência dos últimos 50 anos é uma experiência sem precedentes.

Vistas as coisas neste horizonte longo é, pois, aconselhável não fazer planos definitivos para o futuro longínquo. O mais provável é mesmo que, um dia, sabe-se lá quando, os povos europeus voltem a decidir ir cada um para o seu lado.

De modo que, em princípio, inclino-me para soluções flexíveis, abertas às contingências e aos azares da história.

Sucede, porém, que, pelo menos desde Maastricht, cada vez mais poderes foram sendo transferidos para o centro sem que esse movimento fosse acompanhado da instituição de mecanismos de controlo democrático desses mesmos poderes.

O resultado é conhecido: a política nacional esvaziou-se e a democracia empobreceu-se. Não admira que os cidadãos se desinteressem, porque sabem que o seu voto cada vez decide menos.

É por isso que, se quisermos que a democracia não seja totalmente esvaziada de sentido, considero indispensável alguma forma de federalismo.

Reparem que chegámos agora a esta situação bizarra em que a UE cada vez se parece mais com a defunta EFTA que, em tempos longínquos, um conjunto de países cépticos liderados pelo Reino Unido, procurou apresentar como alternativa à então CEE.

Derrotada a EFTA, os britânicos juntaram-se ao outro clube. Porém, como também eles, por razões históricas, pretendem manter-se longe da política continental, a sua ideia sempre foi apoiar a união económica e retardar a união política.

A entrada em tropel desordenado dos países do leste, sem apego às tradições demo-liberais nem outro interesse pela Europa que não seja o de ela os proteger da Rússia, criou a oportunidade única de criar uma frente de países decididos a boicotar por todos os meios o projecto federalista.

A Inglaterra e os seus amigos querem que o tratado constitucional se limite a consagrar alguns arranjos que facilitem o funcionamento das instituições comunitárias. Mas o desafio verdadeiro consiste em dar o poder aos cidadãos eleitores.

Com a xenofobia instalada a leste e o nacionalismo em crescendo na maioria dos países do ocidente, não é de prever que tão cedo o problema se resolva a contento.

60s Crash Course - Judy Collins: Daddy You've Been on My Mind

26.3.07

O Sr. L.

Dou às vezes comigo a pensar que, num país em que abunda o talento, mas não a disciplina mental, os blogues podem ter o efeito perverso de desviar gente capaz de produzir obras mais dignas do seu engenho.

Voltou-me hoje à cabeça essa ideia ao ler o Sr. R., uma tocante história contada pelo Lutz Bruckelmann. É certo que ele é apenas "quase português", mas, também nisto, parece ter já assimilado os hábitos da terra.

O que levará um homem que escreve assim a perder tempo com blogues?

Ligeiro equívoco

O Paulo Pinto Mascarenhas está ligeiramente equivocado. Quem dizia que o importante é falarem de nós ("all publicity is good publicity") era o P. T. Barnum. E o negócio dele não era a política. Era o circo.

23.3.07

Os meninos perdidos

A carreira de Paulo Portas só pode ser avaliada, de um ponto de vista estritamente político, como uma interminável sucessão de fiascos. Recorde-se que nunca logrou sequer aproximar-se do score eleitoral do seu ex-títere Manuel Monteiro.

Dizer-se que levou ao governo um partido que dele se encontrava afastado há décadas só pode ser piada: qualquer um que lá se encontrasse naquele momento teria conseguido o mesmo resultado.

Desculpa-se que, em tempos já distantes, alguns tenham acreditado ver no Independente inconfundíveis sinais de modernidade. A modernidade do semanário estava só no design e na linguagem. Quanta à substância, trava-se de jornalismo rasca que se entretinha a caluniar as pessoas a quem o seu director decidia declarar guerra.

A política de Portas segue o mesmo modelo. O mais importante é vestir como manda o figurino e saber escolher uma gravata para dar aquele ar de cavalheiro que os néscios confundem com as boas maneiras. Nada existe por detrás dessa aparência, senão a tragédia de um homem que tem uma ideia demasiado boa de si próprio.

Não tendo nada para oferecer no plano político, o que poderá então justificar a adoração de um indefectível núcleo de seguidores?

Portas pode ser melhor entendido como um fenómeno religioso. Esta espécie de pastorinho enfarpelado, este eterno menino birrento, este Peter Pan português em busca da sua sombra excita as fantasias de homens crescidos que, também eles, prefeririam não ter que crescer jamais.

Tenho a impressão que é chegado o momento de partirem todos para a Terra do Nunca. Acompanhados, já agora, de Vasco Pulido Valente, seu apoiante de última hora.

Propaganda

Lê-se hoje na primeira página do Público:
"Juíza invoca Corão para negar divórcio."

Este título é falso. Basta lermos o texto que se lhe segue para ficarmos a saber que a juíza não negou o divórcio, mas apenas a sua urgência. Todavia, como qualquer jornalista sabe, a grande maioria das pessoas só lê os títulos, de modo que é o que neles se diz que é retido.

Continuando. Esta notícia tem depois direito a desenvolvimento nas páginas 18 e 19 - muito mais, recorde-se, do que a da redução do défice do OGE há alguns dias atrás. Enfim, mistérios dos critérios jornalísticos...

Aí ficamos a saber que a tal juíza já foi afastada do caso, pelo que, na verdade, o próprio sistema judicial alemão resolveu prontamente o problema que criara. Em resumo: na verdade não há caso, e o alarme não tem razão de ser. Uma juíza tonta asneou, e foi posta na ordem.

Porquê então tanto barulho? A resposta revela-se na página 46: todo o barulho criado pelo diário serviu apenas para estender o tapete vermelho ao sermão que o seu Director hoje nos serve sob a forma de editorial. Diz-nos ele, em jeito de conclusão:
"Há muitos que pensam, como ela [a juíza], que tolerância é sinónimo de cedências em nome do que se julga ser a herança de outras culturas."

Viu-se que a juíza não representa nada nem ninguém senão a sua própria demência. Mas José Manuel Fernandes quer à viva força convencer-nos de que a Alemanha e a Europa inteiras partilham essa atitude de subserviência perante o Corão. Conhecemos o método: daqui a uns dias voltará à carga dando por adquirido que isso mesmo ficou indiscutivelmente provado por este caso.

Estanos todos familiarizados com a ladainha do último neocon do hemisfério ocidental. Ainda assim, parece incrível que um jornal como o Público se preste a empolar de forma tão pouco rigorosa uma notícia (ou seria melhor dizer: uma pseudo-notícia?) com a única finalidade de satisfazer a agenda doutrinária do seu Director.

Alex Budovsky: Bath Time

22.3.07

60s Crash Course - The Who: My Generation



Um adolescente perturbado gagueja o manifesto da sua geração. Sai isto:

People try to put us d-down (Talkin' 'bout my generation)
Just because we get around (Talkin' 'bout my generation)
Things they do look awful c-c-cold (Talkin' 'bout my generation)
I hope I die before I get old (Talkin' 'bout my generation)

This is my generation
This is my generation, baby

Why don't you all f-fade away (Talkin' 'bout my generation)
And don't try to dig what we all s-s-say (Talkin' 'bout my generation)
I'm not trying to cause a big s-s-sensation (Talkin' 'bout my generation)
I'm just talkin' 'bout my g-g-g-generation (Talkin' 'bout my generation)

This is my generation
This is my generation, baby

Um testemunho

Quando acabei o meu curso, a secretaria descobriu que, afinal, ainda me faltava fazer dez cadeiras. Dez, digo bem!

A coisa era tão disparatada, que nem sequer o esquema de precedências tinha sido respeitado. Por exemplo, a secretaria reconhecia que eu fizera Economia II, mas não Economia I.

Caso a caso, tive que provar que a escola estava errada e que eu estava certo. Não foi fácil, visto que, inclusive, um professor já morrera.

No fim, ficaram dois casos por resolver: o primeiro, por manifesta má vontade do professor, apesar de ele admitir lembrar-se que eu tinha feito exame e passado; o segundo, porque o docente se tornara governante e, nessas circunstâncias, era mais difícil falar com ele do que com o Papa.

Mandei-os passear. Nessa altura já trabalhava, e a licenciatura não era decisiva para poder ganhar a vida.

Anos depois, a instâncias da família, lá fui pela segunda vez acabar o curso. As duas cadeiras haviam-se transformado em três devido a alterações curriculares. Despachei o assunto em três meses.

Durante mais de vinte anos acontecia-me acordar a meio da noite a sonhar que me telefonavam da secretaria do velho ISCEF para me dizerem que, afinal, tinham chegado à conclusão de que ainda me faltava mais uma cadeira para concluir a licenciatura.

Um amigo a quem reportei o facto confessou-me ter recorrentemente o mesmo pesadelo. Fiquei a saber que casos semelhantes tinham ocorrido com vários outros alunos da mesma escola.

Não faço a mínima ideia se houve ou não alguma irregularidade com a licenciatura de José Sócrates. Não conheço nenhum dos envolvidos.

A única coisa que posso afirmar por experência própria é que, infelizmente, a desorganização grassa em muitas universidades públicas e privadas. É verdade que passou muito tempo desde a minha absurda história, mas não creio que tenha havido grandes melhorias. Tanto quanto me parece, a única coisa que a investigação do Público prova é isso mesmo.

Mas, então, se o Público não apurou nada de substancial, por que é que publicou a peça? Não foi bonito.

60s Crash Course - Moody Blues: Go Now



Os primeiros Moody Blues, com Mike Pinder e Denny Lane, tinham muito pouco a ver com o que veio depois. Eis uma amostra.

A última palavra

A palavra definitiva sobre a questão da Ota acaba de ser escrita - adivinharam! - pelo João Miranda:
Todos os técnicos envolvidos têm um interesse próprio nesta matéria. Não lhes é indiferente se se constrói um grande aeroporto ou não. Eles dedicaram a sua vida ao planeamento de aeroportos e esta é a oportunidade de uma vida. Se não colocarem em prática as suas ideias agora, nunca o poderão fazer. O mesmo acontece com todas as organizações que fazem estudos sobre o novo aeroporto. Todas têm interesse em participar na sua construção, todas têm interesse em concluir que o aeroporto é necessário e viável.

Por conseguinte, se qualquer opinião competente e fundamentada é suspeita, só restam duas soluções: pedir um parecer ao João Miranda - ou, em alternativa, lançar uma moeda ao ar. Mal por mal, recomendo a segunda.

21.3.07

Argumentário anti-OTA

1. Atacar o investimento público em geral

2. Comparar o investimento na OTA com o investimento nos estádios do Euro 2004

3. Misturar a questão da OTA com a do TGV

4. Propor o adiamento da decisão até o país ter o OGE equilibrado

5. Dar como provado que o investimento nunca poderá ser rentável

6. Criticar as fortunas gastas em estudos

7. Exigir novos estudos

8. Pedir a divulgação de todos os estudos

9. Argumentar que as conclusões de certos estudos contradizem as de outros

10. Criticar a divulgação de pareceres e estudos irrelevantes

11. Fazer notar que a informação não está disponível para invisuais

12. Invocar pareceres de pessoas e entidades de quem nunca ninguém ouviu falar

13. Revelar que, inacreditavelmente, fulano de tal nunca foi ouvido

14. Misturar argumentos gerais com objecções de pormenor

15. Sempre que os estudos demonstrarem que o adversário está certo, sustentar que todos os estudos são falíveis

16. Perguntar o que acontecerá se, daqui a quarenta anos, as premissas do projecto vierem a revelar-se falsas

17. Introduzir questões laterais sem relação lógica com o tema

18. Quando se prova que determinada objecção não tem fundamento, perguntar se é possível garantir que não venham a surgir no futuro objecções com fundamento

19. Afirmar que o horizonte de vida do empreendimento é demasiado reduzido

20. Afirmar que não é possível fazer projecções de procura sérias a tão longo prazo

21. Tirar conclusões gerais sobre a inviabilidade do empreendimento com base em premissas particulares limitadas

22. Adjectivar sistematicamente a argumentação de forma a descredibilizar o ponto de vista adverso

23. Apresentar-se como a parte sensata do debate e taxar o adversário de aventureirismo

24. Mudar de assunto quando a conversa tomar um rumo desfavorável

25. Pôr na boca dos defensores do projecto coisas que eles não disseram

26. Recusar explicar-se sobre um ponto em que não se está seguro alegando que a questão está mal colocada

27. Extrair consequências indevidas dos argumentos contrários

28. Produzir afirmações falsas que só um especialista está em condições de refutar

29. Citar a despropósito uma autoridade ausente, de preferência fora de contexto

30. Acusar o oponente de pretender aumentar a carga fiscal

31. Perguntar se é possível garantir que os custos efectivos não irão exceder os orçamentados

32. Pedir garantias de que haverá investidores interessados no projecto

33. Pedir garantias de que o empreendimento não ficará em mãos estrangeiras

34. Insinuar que o adversário está a perder o debate

35. Recorrer a jargão técnico que o próprio não entende para confundir o público

36. Concentrar o fogo em pontos de pormenor e fazer crer que a viabilidade do projecto foi inteiramente refutada

37. Insinuar que o adversário está ao serviço de interesses ocultos

38. Insinuar que o adversário é ingénuo e está a deixar-se manipular por interesses ocultos

39. Alardear competência técnica que não se tem

40. Insinuar que certas informações escondidas do grande público poderão em breve ser divulgadas

41. Insinuar conspirações para manipular os resultados dos estudos

42. Confundir meras opiniões ou pareceres com estudos

43. Confundir meras prevenções com objecções de fundo

44. Alegar que um amigo (ou vizinho, ou familiar) engenheiro descobriu uma fragilidade insanável no projecto

45. Exigir a revogação da legislação ambiental

46. Exigir a promulgação de nova legislação ambiental mais restritiva

47. Provar que o dinheiro dos fundos comunitários não faz falta para financiar o projecto

48. Fazer notar que a indisponibilidade de fundos comunitários é mais uma razão para desistir do projecto

49. Fazer muitas perguntas ao mesmo tempo

50. Proclamar a descoberta, por simples inspecção do mapa das estradas, de uma nova localização alternativa às dezassete já estudadas

51. Silenciar o facto de os estudos terem sido iniciados há 40 anos e a primeira decisão a favor da Ota ter sido tomada há 34

52. Pedir tempo para repensar a decisão à luz de novas circunstâncias que poderão um dia vir a ocorrer

53. Pedir a convocação de um referendo

54. Questionar se o país precisará mesmo de aeroportos

60s Crash Course - Kinks: All Day & All of the Night

20.3.07

Simulacros e simulações



Considerando apenas o aspecto - mas haverá mais alguma coisa para considerar? - parece-me Bayrou o melhor candidato às presidenciais francesas.

Segolène é uma típica betinha, que sem dúvida faz muito o género dos socialistas europeus nos tempos que correm.

Sarkozy? Um facies de perfeito pantomineiro com algo de Marcello, ou, se preferirem um eufemismo: um comediante. Nota oito, pois.

Bayrou, pelo contrário, aparenta ser uma pessoa normal e decente, um tipo que não esconde com creme refirmante as rugas que tem na cara, um criador de cavalos que promete devolver à política alguma autenticidade. Mas, como talvez opinasse o recém falecido Baudrillard, se calhar é só caracterização.

Ainda as notícias sem ponta de interesse

Os jornalistas passam o tempo a exigir que os políticos se expliquem perante os cidadãos.

Pois muito bem: não deveria também o director do Público explicar aos seus leitores com que direito decidiu hoje o seu jornal: a) esconder tanto quanto lhe foi possível a notícia da redução do défice do OGE para 3,9%; b) optar por um título que dá a entender tratar-se de uma má notícia?

Porque a verdade é esta: se eu não tivesse ouvido a notícia ontem ao princípio da noite na TSF, o mais natural é que ela me tivesse passado despercebida ao folhear hoje os jornais da manhã.

Como interpretar o que se passou? Parece-me a mim que só há duas alternativas. Ou se tratou de uma grave falha jornalística, ou, então, o jornal agiu de forma inexplicavelmente sectária.

Vejamos. Que critérios jornalísticos justificam que, em vez do tema do défice, a Direcção do Público tivesse puxado para a primeira página títulos de importância tão transcendente como:
Joana Vasconcelos vai cobrir torre de castelo com croché

O evangelho de Judas segundo Jeffrey Archer sai hoje em Portugal

Benfica paga 600 mil euros ao FC Porto

Será que o Público está à espera da confirmação da notícia? Deve ser isso, porque se amanhã o comissário Almunia, a exemplo do que fez no passado, colocar reticências à classificação orçamental desta ou aquela despesa pública, o assunto merecerá sem dúvida um grande destaque.

Será antes que os editores de economia do Público discordam do modo como o Governo apresentou os números? Mas, então, estarão no direito de apresentarem a sua própria opinião.

O que não é sério é passar cinco anos a massacrar a opinião pública com a questão do défice e, depois, sabe-se lá com que intenção, pura e simplesmente ocultar as boas notícias quando elas ocorrem.

Até quando, Público, abusarás da nossa paciência?

Regresso às notícias sem ponta de interesse

À hora de almoço, comprei o DN para comparar o modo como abordou o tema da redução do défice.

Más notícias para o Pacheco Pereira: parece que o João Marcelino está em vias de se passar para o lado no Governo.

Apesar de tudo, tal como o Público, agora seu compagnon de route na oposição, o DN também não concede ao caso honras de primeira página. Em matéria de economia, os destaques vão para as perspectivas do investimento no Benfica e a entrada da Carlyle no capital do outlet de Alcochete.

Mas, enfim, lá aparece a notíciazinha a abrir o suplemento de Economia, com desenvolvimento nas páginas 4 e 5. Milagre dos milagres, as palavras do Ministro das Finanças são citadas correctamente, dizendo que a contracção da despesa "contribui em 80% para a redução do défice orçamental". O resto da notícia é factualmente correcta e os comentários sóbrios.

A finalizar, Perez Metelo ressalta a importância de se ter conseguido travar o crescimento do endividamento externo.

Como diria o professor Marcello: nota 12.

Pérolas jornalísticas

Lido no DN de hoje:
"Tratava-de de uma carrinha em completo mau estado, queimada. No seu interior foi encontrado o cadáver de José d'Orey, irreconhecível, dado o avançado estado de decomposição."

60s Crash Course - Tim Buckley: Song to the Siren

Notícias sem ponta de interesse

A notícia de que o défice do OGE em proporção do PIB se quedou pelos 3,9% em 2006 é relegada pelo Público de hoje para a quarta página da secção de Economia, sem direito a qualquer menção na primeira página do diário.

Mais surpreendente ainda, o título da notícia faz parecer que se trata de uma coisa má, dado que, segundo Sérgio Aníbal e José Manuel Rocha, a redução do défice "força Governo a rever metas para este ano".

Logo a seguir, o mesmo Sérgio Aníbal explica-nos que "Clima económico ameça ritmo da retoma", alegação desmentida pelos dados factuais referidos pelo jornal. De facto, as exportações continuam a crescer a ritmo elevado, ao passo que o consumo público e privado e, por decorrência, as importações, permanecem controlados.

O que não há maneira de acabar é a crise da informação económica em Portugal.

18.3.07

Na despedida de Paolo Pinamonti




Trecho da Traviata, interpretado pelo Coro dell'Accademia di Santa Cecilia de Roma. Trata-se de um extracto do DVD "L'Opéra Imaginaire (L'Opéra comme vous ne l'avez jamais vu)", editado por FRANCE 2 FRANCE 3 DISTRIBUTION em 2001.

16.3.07

Importa-se de repetir?

Aparentemente, Campos e Cunha poderia estar de acordo se a concentração de polícias e sistemas de informação fosse colocada sob a dependência directa de várias pessoas.

Ora aí está uma ideia

O artista conceptual Jonathan Keats inspirou-se em 4' 33'', de John Cage para criar um toque de telemóvel originalíssimo: a exemplo do que acontece na peça, o telemóvel não toca durante 4 minutos e 33 segundos.

Consta que os herdeiros de Cage pretendem processar Keats por violação de direitos de autor.

Peter Fischli & David Weiss: The way things go



Comprometi-me sob juramento a não revelar onde descobri isto.

60s Crash Course - Neil Young: Mr. Soul

Português, demasiado português

António Costa deu-se ao trabalho de explicar por escrito a Vasco Pulido Valente que o Cartão Único é um mero porta-chaves que permite o acesso em separado a quatro bases de dados distintas.

"Ahá!", exclama Vasco, "apanhei-te! Se o Estado tem um duplicado do porta-chaves, nada o impede de o usar. E, como cada chave leva sempre a mais quatro, a vida qualquer cidadão fica aberta a qualquer polícia. E, pior ainda, ao governo."

Confuso? Não admira, visto que Vasco não tem as mínimas luzes sobre o assunto que escolheu debater.

Em primeiro lugar, a expressão "a vida de qualquer cidadão fica aberta" é manifestamente abusiva. Na sua idolatrada Inglaterra compra-se baratinho em qualquer fornecedor de bases de dados de marketing muito mais informação sobre qualquer cidadão (e, aposto, sobre o próprio Vasco) do que o Estado português alguma vez terá.

Em segundo lugar, como o próprio conceito de base de dados é um mistério para Vasco, ele não imagina que possa haver vários níveis de segurança, logo várias chaves, num mesmo sistema. Por exemplo, uma chave para aceder ao computador, outra para aceder à base de dados, outra para aceder a um determinado tipo de ficheiros, etc.

Em terceiro lugar, nada o autoriza a supor que, se um departamento do Estado tiver acesso a uma parte do sistema, necessariamente terá acesso a todos. Dizer: "o Estado tem um duplicado do porta-chaves" é o mesmo que dizer: "o Estado é careca e usa óculos" pelo simples facto de essa asserção ser verdadeira em relação ao Ministro da Administração Interna.

Em quarto lugar, a esta luz, a expressão "cada chave leva sempre a mais quatro" é em absoluto destituída de sentido.

Concluindo e resumindo, podemos constatar que, como qualquer bom português, Vasco acredita que a esperteza dispensa o conhecimento técnico. É só esse o problema.

PS - Quanto à questão do SISI, Vasco não tem nada de novo para dizer, embora gaste muitas linhas para dizê-lo. Limita-se, no fundo, a garantir: "António Costa não me convenceu". Mas alguém estaria à espera que alguém o convencesse de alguma coisa?

15.3.07

Gostava de perceber (2)

Afinal não sou o único estúpido. Há pelo menos mais um que não percebe.

Cada oposição tem o jornal que merece

A notícia da semana é que a oposição ganhou um jornal: o Diário de Notícias marquesmendizou-se e Pacheco Pereira não cabe em si de contente.

60s Crash Course - Isaac Hayes: Walk on By

Tiranetes



Não, não creio que corra o risco de estar a ser injusto: há coisas que a gente não precisa de ver para conseguir imaginar.

Tiranetes que não toleram a dissensão, que confundem subserviência com lealdade, que acima de tudo temem a independência de espírito, que, em consequência, recrutam de preferência no terreno da mediocridade - já todos vivemos o suficiente para sabermos que o país está cheio disso.

Leiam a entrevista de Paolo Pinamonti no Público de hoje, e, no final, se tiveram vergonha de fazê-lo em público, vão para um canto - e chorem, chorem à vontade.

60s Crash Course - The Association: Requiem for the Masses

14.3.07

Gostava de perceber

Tenho procurado seguir com alguma atenção os argumentos dos que se opõem ao chamado SISI, e que o Paulo Gorjão nos fez o favor de compilar no seu blogue.

Mentir-vos-ia se pretendesse que entendo a razão do alarme. Consolo-me imaginando que os indignados escribas também não estão muito seguros da matéria sobre a qual se pronunciam.

Parece-me este um caso manifesto de efeito bandwagon (em português: maria-vai-com-as-outras) em que todos os aspirantes a paladinos das liberdades se apressam a condenar o SISI sem entenderem muito bem o que está em causa.

As minhas dúvidas são simples e exprimem-se de uma forma chã: afinal, o que é que de facto muda em relação à situação presente no que toca às liberdades e garantias dos cidadãos?

Adolfo Mesquita Nunes fala de ameaça à separação de poderes. Como assim, se tanto o Governo como as polícias se enquadram no poder executivo?

Actualmente, as polícias reportam aos ministros da tutela, e estes reportam, por sua vez, ao primeiro-ministro. Se se cria um coordenador de corpos policiais que reportam a mais do que um ministro, a quem haveria esse coordenador de reportar senão ao chefe do Governo? Ou consideram os críticos que a coordenação não é necessária?

Além disso, seria interessante explicarem-nos não só que informação perigosa imaginam que a PSP ou a GNR, que não são polícias de investigação, possuem sobre os cidadãos, como ainda o que os faz pensar que a coordenação das policias tem directamente algo que a ver com a recolha centralizada de informação sobre indivíduos particulares.

Pilriteiro dá pilritos...

Há dias, o Paulo Gorjão surpreendeu-se por eu afirmar que a nomeação de João Marcelino para Director do Diário de Notícias era uma boa notícia para o Público.

Ora, as fabulásticas primeiras páginas do DN desde domingo - sim, desde domingo - comprovam à evidência que o Correio da Manhã ganhou o novo concorrente que o Público acaba de perder, ficando sozinho no mercado dos diários ditos de referência.

Só espero agora que o Público faça por merecer a benesse. Se, por acaso, fracassar - menos mal, que nos queda El País!

13.3.07

60s Crash Course - Jimi Hendrix: The Wind Cries Mary

Será mesmo a Google o melhor sítio para se trabalhar?



Depois de ler a descrição dos quadros de pessoal da PSP publicada nos jornais de ontem, já não sei se acredite que a Google seja de facto o melhor sítio para se trabalhar. Para além de terem muitas das regalias que este video da NBC exibe, os polícias portugueses ainda disfrutam de alguns benefícios extra: a) têm barbeiro e sapateiro; b) não precisam de sorrir; c) a EMEL passou recentemente a ocupar-se das multas de estacionamento, uma das poucas missões que pareciam estar a cargo da PSP.

Ah, e não se esqueçam: em cada 200 portugueses, 1 é polícia, de modo que cada guarda vigia o seu criminoso privativo.

Haverá futuro para a imprensa diária?



Haverá futuro para os jornais diários? É possível que não. Mas, se acaso houver, terá forçosamente que assentar no entendimento de qual é de facto o seu negócio.

Dizer-se que o negócio dos diários é informação é tão absurdo como acreditar que o negócio de um fabricante de automóveis é montar motores em carroçarias.

Vivemos numa época em que toda gente se encontra submergida pelo excesso de informação. Logo, ninguém vai pagar para ter mais se não souber o que fazer com ela.

A informação é um meio para um fim. Qual é esse fim? Isso depende, até certo ponto, de que jornal estivermos a falar.

O anúncio que reproduzo acima mostra que o Economist acredita que, entre outras coisas, os seus leitores encontram nele ajuda para progredirem nas suas carreiras. Porquê? Porque no Economist eles encontram algumas das coisas de que necessitam para serem melhores executivos.

Essa é sem dúvida uma razão, mas decerto não a única, para alguém comprar a revista. Outro conhecido anúncio do Economist diz o seguinte: "Would you like to sit next to you at dinner?" Por outras palavras: está certo de que é capaz de fazer uma conversa interessante com as outras pessoas?

É claro que quem lê habitualmente o Correio da Manhã procura no seu jornal algo diferente de quem prefere o Público. Por sua vez, isso indicia que essas pessoas frequentam meios sociais e culturais diversos com interesses bem demarcados.

Se nos concentrarmos no mercado daquilo a que se convencionou apelidar imprensa de referência, parece claro que a compra desse tipo de jornal sinaliza, quer se queira quer não, a pertença a uma élite exclusiva que, ao menos implicitamente, retira alguma íntima satisfação da demarcação em relação aos gostos mais populares dos frequentadores da imprensa tablóide.

Ficaríamos muito surpreendidos se soubéssemos que António Lobo Antunes, Vasco Graça Moura ou Cavaco Silva genuinamente preferiam o 24 Horas ao Diário de Notícias, porque isso seria um puro contrasenso.

Logo, os compradores do Público, por exemplo, procuram nele certas pontes com as preocupações dos concidadãos com os quais se identificam culturalmente, sem prejuízo de poderem distanciar-se deles em muitas questões particulares. Seja como for, a partilha de um jornal de referência cria uma plataforma comum de entendimento entre os seus leitores acerca da importância relativa que certas coisas ou certos temas têm na vida em comparação com outros.

E que papel desempenha aqui o jornal, ou seja, qual é exactamente a mais-valia que ele aporta a esta comunidade de leitores?

Esta pergunta faz hoje ainda mais sentido do que no passado, na medida em que já não necessitamos dos jornais para ter acesso a informação ilimitada ou, mais especificamente, para sabermos o que se passa no mundo. A televisão e a rádio - quando não o telemóvel ou o email - trazem-nos instantaneamente as notícias do dia, e se quisermos saber melhor o que se passou, aí estão a internet e os motores de busca para descobri-lo.

Tradicionalmente, os jornais desempenham um papel de intermediação entre o mundo e os leitores. Num passado, já distante, os jornais recoliam as notícias, directamente ou através de correspondentes, e punham-nas à nossa disposição. Depois, começaram a recorrer aos serviços de agências noticiosas especializadas, reservando para si o papel de escrutínio, hierarquização e comentário. Logo, os jornais são agregadores de conteúdos.

O advento da internet não reduz a necessidade de intermediação, bem pelo contrário. Quanto mais cresce a informação ao nosso dispor, mais necessitamos de que nos ajudem a seleccioná-la e a dar-lhe sentido, e isso só pode ser feito por alguém competente e credível. Essa é a competência essencial que os jornais devem possuir e que é a condição da sua sobrevivência, mesmo quando o suporte de papel tiver deixado de fazer sentido.

A novidade a ter em conta é o novo poder que a digitalização da informação sob todas as suas formas colocou ao dispor dos cidadãos. O público não é mais puramente passivo: o receptor é agora também emissor, e participa activamente no processo de produção e circulação da informação. Os novos media estão nas mãos dos cidadãos.

O resultado imediato é uma grande confusão. Se toda a gente fala ao mesmo tempo, é bem possível que o caos se instale e o público se fragmente até ao infinito. Alguém disse que, com os blogues, nunca tantos falaram para tão poucos. Por outro lado, se há no mundo qualquer coisa como 70 milhões de blogues, alguns deles têm que ser bons.

Quem se chega à frente para ajudar a emergir a nova ordem comunicacional?

(To be continued)

12.3.07

60s Crash Course - The Ronettes: Be My Baby



"Be My Baby" é frequentemente citado como o melhor exemplo da técnica de arranjo instrumental e gravação inventada por Phil Spector e conhecida pelo nome de "muro de som" ("Wall of Sound"). Spector tornou-se numa vedeta paga a peso de ouro e o seu estilo foi imitadíssimo, mas, quando Lennon insistiu que fosse ele a produzir "The Long and Winding Road", o resultado provocou tais conflitos entre os memberos do grupo que acabou por ser uma das principais causas do desmembramento dos Beatles.

Eu fui ao cinema



1. Achei "Babel" um bom filme, mas não um grande filme. Compreendo perfeitamente, sem as partilhar, certas objecções que lhe foram feitas. Porém, quando um crítico o classifica como "a evitar", só pode estar a tentar enviar-nos uma mensagem sobre si próprio que eu, pela minha parte, prefiro fingir que não compreendi.

2. O interesse de "Flags of Our Forefathers"/ "Letters of Iwo Jima" esgota-se na ideia do díptico em si mesmo, na dupla perspectiva que resulta de olhar sucessivamente uma mesma batalha dos dois lados da contenda. Mas é tudo. "Flags" promete muito, mas decai rapidamente a partir da primeira meia hora. "Letters", a meu ver, ainda é pior: a humanização do "outro lado" não só não é algo novo no cinema de guerra, como dispensaria o branqueamente do brutal militarismo japonês.

3. Um crítico cujo nome não recordo opinou que, nas mãos de um Coppolla, "O Bom Pastor" teria ganho o suplemento de asa de que carece para chegar a ser uma obra inesquecível. Sobre o mesmo tema e com os mesmos personagens recomendo mais uma vez o romance histórico "The Company" de Robert Littel (pai do outro Littel que ganhou o Goncourt em 2006).

4. Os maneirismos de Cate Blanchett denunciam a falsa boa actriz que ela de facto é. Em "O Bom Alemão", empenha-se menos em representar uma mulher judia alemã que se degradou para sobreviver à guerra do que em representar o modo como ela acha que uma actriz alemã representaria o papel. Por outro lado, só um grande actor como o George Clooney seria capaz de beijar Cate com tanta convicção. O filme é um bocadinho prejudicado por duas coisas. Em primeiro lugar, certos detalhes inverosímeis prejudicam uma intriga extremamente verosímil nos seus traços gerais. Em segundo lugar, a preocupação de fazer um filme de época é levada um nadinha demasiado longe.

5. Como pôde ainda alguém surpreender-se com o desempenho do Di Caprio em "Diamantes de Sangue"? Surpreendente, sim, é que para fazer o papel daquela sonsinha tivessem ido buscar a Jenniffer Connelly. Que desperdício!

11.3.07

60s Crash Course - The Small Faces: All or Nothing

8.3.07

60s Crash Course - The Zombies: Time of the Season

Livre arbítrio: um exercício aplicado

Já alguma vez assistiram ao show da Oprah Winfrey? Pode-se dizer sobre ele algumas coisas boas, mas hoje só me apetece falar das más.

O segredo do sucesso do programa deve ser procurado, creio eu, nas sessões de tortura psicológica que Oprah inflige em frente das câmeras a infelizes que padecem de males tão variados como a obesidade, o tabagismo, o desemprego ou o insucesso escolar, todos eles óbvias manifestações da perversa influência do demónio.

A tese geral é muito simples: se uma pessoa tem problemas graves, a culpa é dela. Logo, é não só legítimo como um dever cívico humilhá-la perante uma audiência de milhões de telespectadores até forçá-la a confessar em pranto que, de facto, não passa de um monte de esterco e que está eternamente grata à Oprah por, ao fazê-la ver a Luz, dar-lhe uma oportunidade de se emendar.

Na plateia está sempre presente uma psicóloga de pacotilha que reforça com argumentos científicos a tese da incontornável culpa da vítima. O público chora baba e ranho, aplaude com frenesi e faz interiormente acto de contrição dos seus próprios pecados. Como é infinitamente superior a este espectáculo a confissão católica!

Cabe porém perguntar como é que as pessoas se sujeitam a estes vexames. A minha explicação é que, antes dos sofrimentos particulares que sobre si se abateram, elas são acima de tudo vítimas da doutrina do livre arbítrio com que diariamente, durante toda a sua existência, os media lhes lavaram o cérebro.

PS - O esquema descrito é também aplicado nos programas do Dr. Phil. Ao contrário da Oprah, porém, o Dr. Phil é um pateta.

Atropelados

Aqui há uns anos, era Presidente da Câmara João Soares, a vereação lisboeta decidiu que, para melhorar a fluidez do trânsito, seria adequado proceder, numa vasta área compreendida entre as Picoas e Entre Campos, a uma alteração consistente em pôr os carros a circular pela esquerda em vez de pela direita.

O sentido desse ímpeto reformista sempre me escapou, mas o facto é que causou um grande aumento do número de atropelamentos na zona, dado que os peões, antes de atravessarem a rua, olhavam para o lado errado, ou seja, para o lado que estavam habituados. Perante tal massacre, a Câmara ainda tentou uma outra solução, que foi pintar no chão umas letras a dizer "olhe para a direita" ou "olhe para a esquerda" para prevenir os mais distraídos.

Com o tempo voltaram o bom senso e a circulação à direita na qual nos encontramos rotinados. Uma relíquia do velho sistema subsiste, porém, precisamente na rua onde se situa a redacção do Público.

Conjecturo que tenha sido essa a inspiração para o rearranjo gráfico que o jornal introduziu há algumas semanas.

Pode-se circular com segurança tanto à esquerda ou à direita; porém, quando as pessoas se habituam a uma convenção, alterá-la pode ter custos elevados. Do mesmo modo, as páginas de comentário podem ser colocadas no princípio ou no fim de um jornal. Em Inglaterra preferem a segunda opção; os leitores do Público estavam habituados à primeira.

A quebra das referências habituais dos leitores do jornal, concebida por um ilhéu inglês que, como é típico dessa nação, aprecia mais os hábitos da sua paroquia, criou-lhes um evidente sentimento de desconforto. Portugal é, como já outras vezes tive ocasião de fazer notar, um país em permanente estado de confusão semiótica, que é como quem diz, um país onde a sinalização serve para confundir em vez de orientar.

O novo desarranjo do Público trouxe essa desorganização para dentro do jornal. Também nós, os leitores, nos sentimos atropelados. Também a nós nos choca a indiferença dos visionários reformadores. Também nós nos perguntamos se, em vez de encherem o jornal de cabeçalhos que pretendem obrigar-nos a olhar para o outro lado, não seria melhor desistirem de vez da ideia abstrusa que tiveram e voltarem ao modelo anterior.

60s Crash Course - Alan Price Set: The House that Jack Built

7.3.07

O mito da escolha

Não tenho a mínima esperança de convencer alguém, mas o que se diz aqui acerca da mitologia da escolha individual é não só a pura das verdades, confirmada por uma montanha de evidência empírica acumulada em várias disiciplinas, como suficiente para derrubar pela raiz as superstições das variantes dogmáticas e doutrinárias do liberalismo que, infelizmente, são as preferidas cá na terra.

5.3.07

60 Crash Course - Jefferson Airplane: The House at Pooneil Corners



Este registo de uma performance dos Jefferson Airplane, em 1968, nos telhados de Nova Iorque, ilustra as limitações da transgressão numa sociedade aberta. A iniciativa foi sem dúvida programada para provocar reacções iradas, como sugerem tanto a tonitruante exortação inicial como a letra da canção.

Em vez disso, os vizinhos e circunstantes aplaudiram encantados, e a polícia limitou-se a cumprir com enfado sem excessos de zelo o seu dever de reestabelecer a ordem pública. Grace Slick teria ficado giríssima de algemas, mas os chuis não lhe fizeram a vontade.

Um blogger que se perdeu

"Tudo lhe servia para composições mais ou menos interessantes. Sem energia decisiva, satisfazia-se registando no papel submisso, que obedece a tudo, as lucubrações nebulosas do seu espírito. (...) Escrevia tudo, porque o seu espírito, sem energia nem profundidade, tinha, todavia, a extensão própria da gente indeterminada. Os seus tratados são um compêndio das cogitações do tempo, e podem considerar-se o diário da sua vida. Um dia redigia as regras de governar (...); outro dia, dissertava sobre as regras de bem cavalgar (...). Depois, a economia doméstica: do que se deve aos criados; depois, a economia política: das valias do pão conforme as valias do trigo; depois, sermões e glosas místicas; depois, observações mineralógicas, astronómicas, biológicas (...); depois, dissertações morais; depois, notas de estado, papéis políticos sobre as questões acesas; depois, regras de demonologia. (...) O enciclopedismo é o traço característico da indeterminação do pensamento. (...) Meticuloso, como letrado que era, não lhe bastava ler: carecia de reproduzir por escrito as leituras próprias, coando-as pelo seu espírito bastante incolor."

Oliveira Martins, em "Os Filhos de D. João I", acerca dos devaneios intelectuais d' El-Rei D. Duarte.

Parabéns ao Público

A nomeação de João Marcelino para director do Diário de Notícias terá sido o melhor presente que o Público recebeu no dia do seu 17º aniversário.

Há horas de sorte.

4.3.07

A Situação

Não tenho uma opinião formada sobre qual das duas soluções teria sido melhor para a economia portuguesa no caso da OPA da Sonae.com sobre a PT.

Acredito que a Sonae tornaria a PT numa empresa mais enxuta. Isso seria bom para os accionistas, mas não necessariamente para os clientes: porque os preços dependem mais da concorrência do que dos custos, e porque não me impressionam muito as competências do candidato a comprador no que respeita a qualidade do serviço.

Acresce que pessoas conhecedoras do assunto asseguram ser esta uma má altura para se vender a participação da PT na Vivo, algo que Belmiro imprescindivelmente teria que fazer para conseguir suportar o endividamento exigido pela operação.

Uma das coisas boas do mercado, porém, é que, para que as coisas corram bem, não é preciso haver alguém omnisciente a decidir o que deve ser feito. Entrega-se o caso aos interessados, e eles resolverão o melhor que podem e sabem.

Ora, o que o Governo fez foi impedir que isso pudesse acontecer. É facto que, mesmo que o Estado e a CGD tivessem ambos votado a favor da desblindagem dos estatutos, isso não teria sido suficiente para alterar o sentido do voto. Porém, o Estado não influencia o desenlace de uma operação destas apenas com o seu voto, mas também com os sinais que envia às partes interessadas, e estas entenderam perfeitamente que o Governo não queria ir por ali.

Foi além do mais infeliz a decisão de o Estado se abster ao mesmo tempo que a Caixa votava contra. Toda a gente entendeu como esperteza saloia essa tentativa de simular neutralidade. Ser neutral, neste caso, significaria votar a favor da desblindagem e deixar depois que os potenciais compradores e vendedores fizessem livremente as suas escolhas.

De modo que o resultado final pode ser resumido em poucas palavras: uma vez mais, o Estado colocou-se do lado dos interesses do grupo Espírito Santo; uma vez mais, como já acontecera aquando da privatização da banca e da segunda fase da privatização da Portucel, o Estado hostilizou a Sonae. Confirma-se que dá muito jeito ter sede em Lisboa e, de preferência, garantir ministros amigos no Governo.

Vira o disco e toca o mesmo: em Portugal, continua a ser o Estado - e pouco interessa qual o Governo da altura - que decide quem enriquece e quem empobrece, quem tem ou não acesso ao poder económico, quem pode ou não controlar os sectores económicos protegidos da concorrência que proporcionam rendas mais apetecíveis.

Há semanas, o pobre Manuel Pinho foi crucificado, primeiro pela opinião pública, depois pelo primeiro-ministro em privado, por ter proclamado numa visita à China que a conversa do esforço de qualificação da mão de obra portuguesa não passava de um slogan vazio para iludir os ingénuos.

Agora, é o próprio Sócrates quem, ao colaborar no boicote à OPA da Sonae.com sobre a PT, confessa que os sermões que diariamente nos serve sobre a necessidade de estimular a competitividade e de premiar a capacidade empresarial não são para tomar a sério.

Em Portugal, os bons negócios são para os que mantêm relações próximas com o poder. Chama-se isso a Situação. Destituído de uma ideia estratégica clara e rodeado de uma corte de ministros em que conta mais a obediência ao chefe do que a competência, não creio que o chefe de governo esteja em condições de libertar-nos dela.

Dos sofrimentos do mundo

Não há, depois de uma semana de trabalho duro, como uma manhã de sábado desavergonhadamente passada na cama.

Começa-se por dormir até bem tarde, o que, para hábitos madrugadores, pode ser, por exemplo, até às dez. Seguem-se abluções sumárias, o quanto baste para estar de volta à vida. O pequeno almoço entre lençóis pode ser motivo para voltar a passar uns minutos pelas brasas.

Chegado a este ponto, o espírito está pronto para mergulhar em jornais da véspera que ficaram por ler, ou talvez num dos livros empilhados ao lado da cama. Pode ser, por exemplo, Dos Sofrimentos do Mundo, uma leitura quase ideal para a ocasião, e que me faz pensar, enquanto preguicosamente palito os dentes com a unha, como neste Schopenhauer se combinavam de modo tão harmonioso a inteligência e a tacanhez de espírito. Nada que umas quantas manhãs na cama não pudessem ter resolvido.