29.3.09

Nunca me passaria pela cabeça acusar Miguel Portas de ter as ideias arrumadas

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Eis uma recente declaração de Miguel Portas a propósito das eleições para o Parlamento Europeu transcrita no DN de ontem:
"José Sócrates e Vital Moreira não querem que nas próximas eleições europeias se discuta Portugal, querem que seja conversa de sofá sobre assuntos que não têm nada a ver com as nossas vidas. Eles gostariam, mas não vão ter essa sorte."
Confirma-se, portanto, que, para o Bloco, a política europeia "não tem nada a ver com as nossas vidas".

Nada de novo, note-se. Quem tiver lido a declaração de Miguel Portas na sessão de apresentação da lista do Bloco não poderá ter deixado de notar que ela dedica uns três quartos a tratar de problemas de política interna, misturando ataques a José Sócrates com temas como o fracasso da supervisão bancária em Portugal, a gestão da Caixa Geral de Depósitos ou o aumento dos despedimentos colectivos.

É claro que Portas tem aquilo que julga ser uma boa justificação para isso: "Quando falamos de Europa," diz ele, "falamos de Portugal e vice-versa." Eu diria mesmo mais: quando falamos da Europa falamos da China, quando falamos de Portugal falamos da fome no mundo e quando falamos do Bloco falamos da teoria do caos.

Tudo está ligado com tudo, um lema que justifica a confusão mental de que o próprio faz alarde, saltando continuamente de assunto em assunto sem abordar nenhum com seriedade.

De modo que Portas, o Miguel, está convicto de ter na algibeira soluções simples, rápidas e indolores para os mais intratáveis problemas do país e do Mundo. Não custa nada: basta, segundo a tal declaração, encerrar o off-shore da Madeira, registar os movimentos de capitais para o exterior (o que é que isto quer dizer?), abandonar o controlo orçamental, aplicar uma taxa às deslocalizações industriais dentro da Europa (porque não também dentro de Portugal?) e europeizar os custos do trabalho (?).

Naturalmente, Portas acredita que a Europa não precisa do Tratado de Lisboa. Do que ela precisa é de "coragem e de união" e também de "atrevimento" porque, na sua visão profunda, "nenhum tratado substitui a vontade politica". Decidirá ele um dia exigir a abolição da Constituição portuguesa a pretexto de que ela não pode "substituir a vontade política"?

De "atrevimento", pelo menos, já nós sabemos que o Bloco está bem servido.
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26.3.09



Turner: Negreiros lançando borda fora mortos e moribundos.
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Prestem atenção

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A generalizada embirração que votamos ao Manuel Maria Carrilho é tal que já ninguém presta atenção quando o homem diz alguma coisa certa.

O engenheiral que nos governa parece ter conseguido convencer toda a gente que do que o país precisa é de ciência e tecnologia para rumar aos amanhãs que cantam, sem sequer se dar ao trabalho de perguntar que miríficas indústrias irão dar emprego a tanto saber técnico.

Note-se que o genuíno milagre económico português do último meio século foi o turismo, actividade universalmente detestada por se supor que consiste em servir bicas a bifes.

Ora um turismo de valor acrescentado necessita de muita gente qualificada nas áreas das humanidades para escrever e traduzir guias, organizar museus, recuperar monumentos e patromónio histórico de todo o género, organizar espectáculos culturais e por aí fora - tudo coisas que os engenheiros não sabem fazer ou fazem mal.

Escreveu Carrilho ontem no DN:
"O sector cultural é hoje um importante dinamizador de actividades económicas e de emprego, que ajuda a criar riqueza e promove uma sociedade mais coesa. A cultura pode pois dar uma contribuição decisiva na resposta à crise que o país atravessa."
Tem toda a razão, é claro, mas o mais natural é que o governo faça de conta que não ouviu.
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25.3.09

O especulador de última instância

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Nesta fase da recessão mundial já deveríamos estar todos prevenidos contra mágicos esquemas de engenharia financeira que prometam resolver de forma rápida e simples problemas de enorme complexidade ao mesmo tempo que deixam toda a gente mais rica.

O mais recente de uma já longa série de milagres é o Plano Geithner anunciado no princípio da semana pela administração Obama.

Em síntese, a coisa funciona assim: Como os bancos estão atulhados de créditos de cobrança duvidosa, não têm condições para conceder créditos às empresas e aos particulares. Logo, é preciso resolver urgentemente o problema de capitalizá-los libertando-os dos activos de qualidade duvidosa que pesam negativamente nos seus balanços.

Para evitar a nacionalização, o governo americano inventou agora um mecanismo que consiste em vender esses créditos a parcerias público-privadas especialmente constituídas para gerirem activos tóxicos.

Faz-se um leilão para o mercado determinar o valor dos activos e constitui-se um fundo para cujo capital os privados e o Tesouro contribuem com parcelas iguais. O Estado dispõe-se ainda a emprestar até 85% do montante investido.

Tudo muito simples, não é verdade? Até aqui, sim, mas falta a parte mais difícil.

Primeira dificuldade: pode acontecer que o impropriamente chamado "mercado" não esteja disposto a pagar pelos activos um valor ao menos igual àquele que os bancos vendedores lhe atribuem. Nesse caso, não haverá negócio e o Plano saldar-se-á por um fiasco.

Mas alguns optimistas acreditam que os activos valem na realidade muito mais do que actualmente se supõe, de modo que, argumentam eles, haverá gente disposta a apostar nessa eventualidade.

Além disso, o que é que os investidores têm a perder? Se os activos se valorizarem, lucrarão com o negócio. Se se desvalorizarem, o grosso do prejuízo ficará para o Estado.

Caras, ganho eu. Coroas, perdes tu.

De modo que, olhando a coisa com frieza, a tentativa de evitar a nacionalização que muitos reputam inevitável conduz à promoção da especulação numa escala inaudita suportada com os dinheiros públicos.

Correrá bem? Correrá mal? Um dos aspectos mais surpreendentes deste plano é a dificuldade que os maiores especialistas têm revelado em entender todas as suas consequências. Quais os riscos reais corridos pelo Estado? Que probabilidade existe de o esquema dar para o torto? Como se safará o Estado americano nessa eventualidade? Ninguém sabe ao certo.

De modo que, depois de os privados terem criado instrumentos financeiros que de facto ninguém entendia, chegou agora a vez de o Estado procurar imitá-los.

É o Estado especulador de última instância.

PS - Isto não vos faz lembrar um bocadinho o negócio da Caixa com Manuel Fino? Pois é, tem certas semelhanças.
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19.3.09

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Turner: The Fighting Temeraire tugged to her last berth to be broken up.
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A educação para a ganância

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Jack Welch, o ex-CEO da General Electric, não inventou nada quando, há dias, criticou a concepção segundo a qual a criação de valor para o accionista deve ser o propósito central das empresas.

Eu diria mesmo que quase todos os principais teóricos da gestão, a começar por Peter Drucker, discordam de que o lucro deva ser o objectivo principal dos gestores. Drucker considerava que o lucro nem sequer é, a bem dizer, um objectivo, mas apenas uma condição de sobrevivência. "The purpose of business", diz ele algures, "is to stay in business".

O lucro empresarial é necessário porque é o custo do futuro. Uma empresa não lucrativa não pode assegurar a sua continuidade investindo nos activos tangíveis e intangíveis em que assenta o negócio.

Mais recentemente, as investigações de Jim Collins divulgadas nos seus livros "Built to Last" e "From Good to Great" confirmaram que as empresas com maior êxito nem sequer se preocupam muito com os lucros - eles resultam naturalmente de uma gestão competente asssente em ideários mobilizadores e lideranças capazes.

Nas escolas de gestão, a ênfase na criação de valor para o accionista (expressão eufemística para designar a ganância sem limites) foi introduzida por pessoas formadas na tradição da teoria económica oriunda de Chicago e sem qualquer espécie de contacto com o mundo empresarial (com excepção, talvez, do financeiro).

Como há um excesso de doutorados em economia e uma carência de doutorados em ciências empresariais, os departamentos de gestão foram progressivamente invadidos por cabeças recheadas de doutrinas dogmáticas mas desconhecedoras das mais elementares realidades empresariais.

E foi assim que, também nas escolas de gestão, gerações de jovens foram formadas nas ideias equivocadas e imorais que atribuem absoluta prioridade aos accionistas sobre todos os restantes stakeholders aos quais as empresas deveriam prestar contas.
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Economistas para quê?

Os comentários ao meu post sobre a proposta de redução dos salários como forma de o país superar as dificuldades fazem-me pensar que vale a pena aprofundar um bocadinho mais o assunto.

Em primeiro lugar, o Luis Aguiar-Conraria observou que, ao contrário de nós, os EUA podem desvalorizar a sua moeda, pelo que, dispondo dessa solução "fácil", não necessitam de reduzir os salários. Ora a verdade é que, embora o dólar tenha perdido quase metade do seu valor face ao euro na última meia dúzia de anos, nem assim conseguiu resolver o problema, de modo que talvez seja altura de algum economista português escrever ao Obama sugerindo-lhe uma redução dos salários americanos.

Ironias aparte, passemos então ao que mais interessa. Uma pessoa que olhe atentamente para os dados da contabilidade nacional não pode deixar de preocupar-se com o desequilíbrio externo da economia portuguesa. (Note-se que eu escrevo sobre esse assunto há anos.) Que diagnóstico fazer? Umas pessoas dirão que a procura é demasiado elevada, seja porque os salários estão altos, seja porque a poupança é baixa. Outras farão notar que a produção é baixa em resultado da baixa produtividade. Muitas notarão que a situação se deve uma combinação dos dois factores.

Ora bem, os contabilistas só olham para os custos, porque a sua formação não os habilita a entender como aumenta a produtividade e que factores são susceptíveis de estimulá-la. Logo, para eles, qualquer solução só pode vir da redução dos salários.

Pelo contrário os economistas sabem que o desenvolvimento das nações nunca se fez com vastos programas de redução de custos mas com esforços denodados para ampliar por diversas formas a capacidade produtiva.

Os problemas de qualquer género não se resolvem remoendo ameaças ou lambendo feridas, mas tirando partido das nossas capacidades para cavalgar as oportunidades que vão surgindo. "Build on strength" significa que nenhuma pessoa, empresa ou país se desenvolve centrando-se nas fraquezas mas capitalizando as competências.

Malabarismos elementares em torno dos agregados da contabilidade nacional são um sinal distintivo dos economistas da treta, bons a identificar problemas e a prever desgraças mas incapazes de propor soluções viáveis. Não valem, obviamente, o dinheiro que custam. São lídimos representantes da "dismal science" (ciência lúgubre) que De Qincey satirizou.

Outro traço distintivo destes impropriamente chamados economistas é a sua irresponsibilidade. Como eles separam a economia das restantes dimensões sociais dos problemas e, em particular, da política, não se sentem na obrigação de considerar a viabilidade genérica das "soluções" que propõem.

"Eu digo a verdade, os políticos depois que resolvam as minudências inerentes à redução generalizada dos salários". Enoja-me esta atitude - garantia de popularidade nos media para aqueles que a assumem - porque não enxergo nela um pingo de seriedade.

A consequência das opiniões irresponsáveis difundidas por tantos economistas preguiçosos é que, na verdade, o país nunca mais se concentra no trabalho que é necessário levar a cabo para desencadear um crescimento substancial da sua produtividade. O assunto é pouco mencionado, há pouca investigação orientada para esse problema, há pouco debate sério e há, sobretudo, pouca acção.

Para que precisamos nós, afinal, de economistas como estes?

18.3.09

Soluções

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Os problemas dos EUA resolviam-se prontamente se os salários sofressem um corte de 20%.

Já ouviram algum economista americano dizer isto? Claro que não, embora seja verdade.

E por que não o dizem eles? Primeiro, porque reconhecem não se tratar de uma solução aceitável, o que vale por dizer que não é uma solução. Segundo, porque o simples facto de isso ser dito torna o problema mais difícil de resolver.

Não se pode excluir que, no final, algo de semelhante possa vir a acontecer se tudo correr pelo pior, mas apenas porque todas as restantes alternativas terão falhado. Algo muito diferente, como é óbvio, de se fixar essa meta à partida.

Por que será que só em Portugal é possível escutar-se atoardas deste tipo travestidas de alta sabedoria? E por que serão elas tomadas a sério por quem teria obrigação de saber mais?
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17.3.09

Sindicatos e desigualdades

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É claro que a responsabilidade principal pelo grande aumento das desigualdades em Portugal cabe em primeiro lugar às classes dirigentes e aos governos do país.

Mas não terão também os sindicatos a sua quota parte de culpa na situação? Afinal, para que servem eles senão para combater as injustiças?

Bem sei que a transformação da estrutura empresarial do país não favoreceu o crescimento da sindicalização, e que a evolução tecnológica e a globalização reduziram o poder negocial dos trabalhadores.

Ainda assim, é difícil entender-se que a base de apoio dos sindicatos portugueses esteja hoje concentrada no funcionalismo público e num reduzido número de empresas públicas.

Percebe-se que esse terreno é o mais fácil para os sindicalistas, mas não certamente aquele em que a sua acção fará mais falta. Como se explica isto?
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Elevação e sentido de Estado

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O PM reuniu ontem com os partidos com representação parlamentar para ouvi-los a propósito da próxima cimeira da União Europeia.

À saída, Louçã contou aos jornalistas que transmitira a Sócrates os cumprimentos dos manifestantes de 6ª feira e que exigira a intervenção da Comissão Europeia para salvar a Qimonda.

Pelos vistos, é este o conceito de política europeia do BE. Não se esqueçam de votar neles em Junho.
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Turner: Quilleboeuf.
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16.3.09

15.3.09

Que propósito deve orientar uma empresa

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É muito reconfortante ouvir Jack Welch, ex-CEO da GE, dizer algo que, tal como muitas outras pessoas, venho defendendo há anos:
"On the face of it, shareholder value is the dumbest idea in the world," he said. "Shareholder value is a result, not a strategy... Your main constituencies are your employees, your customers and your products."
Confrontem isto com o que continuam a sustentar alguns dos nossos mais proeminentes capitães de indústria, incluindo António Mexia, Zeinal Bava e Belmiro de Azevedo, por exemplo.

(Via Helena Garrido.)
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12.3.09

Laboriosamente apagando as próprias pegadas

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O Bloco de Esquerda boicota a recepção no Parlamento ao Presidente de Angola argumentando tratar-se de um líder despótico e corrupto não-eleito.

Pode-se discutir interminavelmente a situação política angolana, mas não se pode negar que há lá hoje mais liberdade do que há dez ou vinte anos atrás. Admitamos, para evitar polémicas, que se trata de uma tirania com nuances.

Ora bem, se as pessoas não se recordam, eu lembro: o Bloco descende em linha directa da UDP, e a UDP manteve sempre uma relação de grande compreensão em relação ao MPLA enquanto Angola permaneceu governada por uma tirania sem nuances.

O Bloco mudou de roupagem para se adaptar aos novos tempos, mas, até hoje, nunca repudiu sem ambiguidades a ideologia dos seus pais fundadores. O que determinou então a viragem de atitude em relação ao estado angolano?

Só vejo uma explicação: o Bloco prefere tiranias sem nuances a teorias com nuances.
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O confisco das grandes fortunas como solução final para todos os problemas do país

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É preciso aumentar as pensões de reforma? Aplica-se um imposto sobre as grandes fortunas. Falta dinheiro no sistema nacional de saúde? A solução é um imposto sobre as grandes fortunas. Faltam fundos para financiar a escola pública? Por que não taxar as grandes fortunas? É preciso socorrer a indústria, a agricultura e as pescas? Não há problema, cria-se um imposto sobre as grandes fortunas.

Se bem entendo, é este o programa do Bloco de Esquerda para governar o país.

Mas por quê taxar as grandes fortunas e não expropriá-las pura e simplesmente? Tendo em conta que a riqueza acumulada de cada grande milionário é muito superior ao seu rendimento anual, o confisco renderia uma verba dezenas ou centenas de vezes superior à resultante do mais progressivo dos impostos.

Começando por Américo Amorim, segundo a Forbes o homem mais rico de Portugal, essa operação renderia imediatamente um valor líquido de 3,3 mil milhões de dólares (ou 2,6 mil milhões de euros).

A divisão dessa fortuna renderia a cada português a bela maquia de 260 euros, com a qual poderia fazer o que muito bem lhe apetecesse.

Bom, pensando melhor, não é assim muito... Mas, vendo bem, trata-se apenas de um milionário.

Vamos refazer as contas, abrangendo os quatro milionários portugueses incluídos nas contas da Forbes (Amorim, Belmiro, Berardo e Roque) e considerando antes os seus activos líquidos de 2008, ainda não afectados negativamente pela presenta crise.

Teríamos nesta alternativa 12,2 mil milhões de dólares (ou 9,5 mil milhões de euros) para repartir pelos portugueses. A cada um calhariam por conseguinte 952 euros. Já parece um número mais jeitoso.

Tendo em conta o baixo nível do salário médio em Portugal, não se pode negar que daria jeito. O problema é que a distribuição considerada teria lugar uma só vez, ou seja, uma vez realizada não poderia ser repetida nos anos seguintes.

Ocorre-me também agora outro problema... É que o grosso das grandes fortunas não se encontra disponível sob a forma monetária, mas antes aplicada, por exemplo, em terrenos e empresas.

Pois é, isto está a revelar-se um bocadinho mais complicado do que eu imaginara...
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A democracia e a Europa

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Diz o Rui Tavares na sua declaração de candidatura ao Parlamento Europeu na lista do Bloco de Esquerda:

1. A Europa não é uma democracia

2. A Europa tem um problema de democracia

Discordo de 1, concordo com 2.

Na maneira de ver do Rui, a democracia é algo que ou há ou não há. Na minha, pode haver mais ou menos democracia.

Será isto uma minudência? Não me parece, até porque o desenvolvimento do seu raciocínio leva-me a concluir que discordamos também quanto ao que é preciso fazer para tornar a Europa mais democrática.

O meu ponto de partida é este: a economia mundializou-se nas últimas décadas, ao passo que a política permaneceu doméstica. Como consequência, o poder político é constantemente utltrapassado pelos poderes fácticos. É evidente que isso mina a democracia liberal: de que serve eu votar se o meu voto não vai influenciar as decisões que são tomadas?

Parece-me que o fortalecimento da democracia passa, por conseguinte, pelo reforço das instâncias eleitas do poder europeu. Logo, é necessário dar mais poder ao parlamento e é necessário reforçar a componente federal da União Europeia.

Como se faz isto? O caminho é estreito, porque os adversários são vários e poderosos. Em primeiro lugar, há os tais poderes fácticos (neste momento enfraquecidos) que tiram partido do actual vazio. Em segundo lugar, há os preconceitos nacionais e chauvinistas que se opõem à transferência de poderes para o nível europeu. Finalmente, há a falta de iniciativa política ao nível popular favorável ao federalismo, um facto central que o Rui Tavares ignora por completo.

As posições do BE e do PCP não ajudam nada a resolver estes problemas. Em primeiro lugar, exactamente porque sustentam que a UE não é uma democracia, fazem continuamente propaganda contra a Europa (digam o que disserem, é de facto isto que se passa no dia a dia). Em segundo lugar, opõem-se a todas as iniciativas existentes em favor do federalismo e do reforço dos poderes do PE, como é o caso do Tratado de Lisboa. Em terceiro lugar, exigem referendos em que se aliam às forças xenófobas para boicotar a construção europeia.

Esta actuação negativa é disfarçada afirmando-se que se quer uma Europa, mas não esta. O PCP diz que é a favor da Europa dos trabalhadores contra a Europa dos capitalistas. O BE diz que é a favor do europeismo, conquanto que seja de esquerda.

Na verdade, estas forças políticas desempenham um papel muito nocivo impedindo o desenvolvimento de uma política europeia e de um debate político europeu. Para elas, como agora mais uma vez se vê, a Europa serve apenas de argumento para marcar pontos na luta política interna.

O raciocínio do Rui é sustentado por um basismo insustentável. Diz-nos ele que o Tratado de Lisboa só é aceitável se for referendado e que o mais importante é a maneira como se fazem as coisas. Esta posição é historicamente falsa, é demagógica e é paralisante. Fico com a sensação que, para o Rui, a única democracia legítima é a democracia directa, algo de que discordo profundamente.

Depois, noto com algum desapontamento que, tirando a insistência no referendo ao Tratado de Lisboa - uma exigência que, muito possivelmente, estará hoje obsoleta – o Rui de facto não propõe nada, desculpando-se com o argumento (fraquinho, muito fraquinho) de que deveriamos discutir "o que se fez" e não "o que se vai começar a pensar talvez em fazer". Lamento, mas o que os eleitores esperam dos candidatos é que façam história, não que a contem.

(A única proposta concreta é que fechemos o off-shore da Madeira antes de os outros fecharam os seus, o que é uma medida – absurda, diga-se – de política interna.)

De maneira que o Rui acaba por ficar-se por um apelo final à impaciência, que é tudo o que há de mais inapropriado nos tempos que correm. Se queremos que desta catastrófica depressão saia algo de positivo para a esquerda, do que precisamos é de muita ponderação e sentido estratégico, porque os tempos não correm (para já) a nosso favor.
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9.3.09

Eu próprio

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Um leitor perguntou-me há tempos numa caixa de comentários da Jugular: "Por acaso trabalha ou já trabalhou numa empresa privada?", ao que eu, por ser verdade, respondi: "Sim".

Reacção do comentador: "Extraordinário, caro João Castro. Enganei-me. Construí uma imagem a seu respeito que não corresponde à realidade. Tinha "engatilhado" uma resposta pressupondo um "não" mas agora fiquei desarmado. Só me resta meter a viola no saco e rever as minhas teorias sobre quem é quem com base no que escreve. Fiquei banzado. Chapeau."

Para ser mais exacto, eu deveria antes ter esclarecido que já fui funcionário público, já trabalhei numa empresa pública e já trabalhei em empresas privadas. Já trabalhei em empresas portuguesas e já trabalhei em multinacionais. Já trabalhei em empresas grandes, pequenas e muito pequenas. Já fui assalariado e patrão. Finalmente, já participei na criação de cinco empresas, das quais uma por conta de outrém e quatro como accionista.

Curiosamente, permaneci sempre a mesma pessoa. Não nego que essas metamorfoses alteraram (e, acredito eu, enriqueceram) o meu modo de entender as coisas, mas procurei sempre não ser escravo de uma visão exclusivamente condicionada pelos interesses inerentes a um estatuto particular.

Tampouco entendo que essa atitude seja exclusivo meu: ninguém é imune aos interesses pessoais e de grupo associados às funções que ocupa; mas a maioria das pessoas dotadas de um sentido mínimo de responsabilidade recusa deixar-se cegar por eles.
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7.3.09

Toda a gente usa o Twitter mas ninguém sabe para que serve

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O apelo do Twitter é evidentemente muito superior ao dos blogues ou redes sociais. Basta vermos a rapidez com que está a disseminar-se para concluirmos isso.

Mas em que consiste, precisamente, esse apelo? É difícil explicar.

E para serve? Que utilidade prática pode ter? Eis um ensaio de resposta que me parece plausível:
"By collecting millions of peoples' immediate thoughts, Twitter is building the Web's best database of "real time" information, these people argue. And that collection might be very valuable—when people want to know what's going on in the world right now, they'll increasingly check Twitter, not Google."
Recordo-me que, muitos meses antes de começar a twitar, já eu usava o motor de pesquisa Sumize (nessa altura exterior ao próprio Twitter) para saber o que as pessoas discutiam sobre qualquer assunto.
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6.3.09

Insustentável leveza

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Já está n'O Provador de Venenos o meu artigo desta semana no Jornal de Negócios: O fracasso da União Europeia low-cost.
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5.3.09

Se isto não é um grande depressão, o que é então?

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(Gráfico encontrado no blogue do Paul Krugman.)

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4.3.09

Saber do que se fala

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Ontem, algumas televisões confrontaram os comentadores convidados com um estudo da OCDE segundo o qual daqui a 20 anos as pensões de reforma dos portugueses baixariam para apenas 50% do salário.

Notei divertido que, embora nenhum dos interpelados conhecesse sequer superficialmente o estudo, todos se prestaram de boa vontade a tecer doutas considerações sobre as suas alegadas conclusões.

O que de facto lá se diz e como as previsões a longo prazo se comparam com a realidade actual é aqui explicado com toda a clareza pelo Eduardo Pitta.

Mas não queria deixar de mencionar a reacção do Fernando Rosas na SIC-Notícias quando questionado sobre o que poderia ser feito para assegurar pensões mais elevadas. Sem se atrapalhar, o Fernando resolveu de pronto o assunto propondo um imposto sobre as grandes fortunas.

Já perdi a conta à quantidade de problemas que o Bloco de Esquerda se propõe resolver com o imposto sobre as grandes fortunas. Não há nesse partido de professores ninguém capaz de fazer uns cálculos elementares e concluir que a ideia não tem ponta por onde se lhe pegue?

Se calhar há, mas não interessa fazê-los.
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2.3.09

Parabéns ao Vital Moreira

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Os mesmos comentadores que diariamente se queixam da falta de substância dos políticos criticam Vital Moreira por ter falta de carisma ou lá o que é. Hoje, qualquer pobre diabo que se "oponha" ao governo tem direito a tempo de antena ilimitado.

Por mim, fico muito contente por a lista do PS ao Parlamento Europeu ser liderada por alguém que não só tem ideias muito claras sobre a Europa e a política europeia como aproveitou logo o seu discurso de aceitação para tornar claro quais elas são.
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