30.1.12

Notícia ou opinião

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Título de uma notícia publicada no Negócios online: "Krugman recomenda corte de 20% nos salários da periferia do euro".

Vai-se procurar a entrevista no Le Monde, e o que se lê? Isto:
"Pour restaurer la compétitivité en Europe, il faudrait que, disons d'ici les cinq prochaines années, les salaires baissent, dans les pays européens moins compétitifs, de 20 % par rapport à l'Allemagne. Avec un peu d'inflation, cet ajustement est plus facile à réaliser (en laissant filer les prix sans faire grimper les salaires en conséquence)."
Um bocado diferente, certo? Para começar, nem neste trecho nem em qualquer outro da entrevista Krugman "recomenda", "sugere" ou "propõe" o que lhe é imputado.

Concordaria a jornalista que eu resumisse assim as ideias do entrevistado: "Krugman recomenda aumento de 20% nos salários da Alemanha"? Note-se bem que, como se fala de movimentos relativos, tanto faz, desse ponto de vista, que os salários desçam cá ou subam lá. Embora, é claro, as consequências económicas e políticas - já para não falar da factibilidade - das duas alternativas sejam muito diferentes.

O que Krugman tem repetidamente defendido é que seria bom que a taxa de inflação aumentasse significativamente na zona euro. Por um lado, isso facilitaria o processo de ajustamento salarial relativo que ele entende apropriado ao longo de um período dilatado de cinco anos; por outro, desvalorizaria o endividamento que presentemente sufoca as famílias, as empresas e os estados.

O que a jornalista nos transmite no citado título não é, pois, a opinião de Krugman, mas a sua. Tem naturalmente todo o direito a fazê-lo, mas não assim.

A minha opinião também diverge um tanto da de Krugman, mas isso é problema meu.
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29.1.12

As pessoas devem pagar mais pelo SNS que as suas empregadas

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Por muito estranho que pareça, uma larga maioria de pessoas acredita mesmo que o SNS é grátis. Sempre que num dos múltiplos focus groups sobre serviços de saúde a que assisti algum participante lembrava que todos o pagamos com os nossos impostos, os outros ficavam visivelmente surpreendidos com a ideia e, como tal, relutavam em aceitá-la.

Devemos por isso compreender que a proposta da direita de pôr as pessoas de mais rendimentos a pagarem os atos clínicos de que são beneficiárias tem junto dos pobres mais recetividade do que habitualmente se supõe.

E, no entanto, os cidadãos que disfrutam de rendimentos elevados já pagam, pela via fiscal, muito mais do que os pobres.

Quanto mais? Tendo em conta que quem aufere o rendimento mínimo ou algo similar não paga IRS e, devido ao seu reduzido consumo, paga pouco IVA, parece-me provável que uma pessoa como eu pague entre vinte a trinta vezes mais que alguém nessa situação.

Aposto que muito pouca gente faz estes cálculos.

Achei por isso curiosíssimo ler hoje no Público uma entrevista à historiadora Maria de Fátima Bonifácio onde ela se manifesta favorável à ideia de as pessoas de posses pagarem mais do que a sua empregada quando recorrem ao SNS.

Apreciei especialmente a parte em que diz: "A desculpa de que já descontam no IRS é uma desculpa de mau pagador. Não faz sentido."

Este argumento é muito bom, quase inultrapassável. Mas não quereria a senhora professora ter a bondade de desenvolver um pouco mais a ideia para as pessoas lá em casa, incluindo a sua empregada, conseguirem percebê-la?
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Thomas Adès: Asyla

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28.1.12

Um génio da política

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Pedro Passos Coelho prometeu que o ajustamento orçamental se faria sem sacrifício para a classe média, mediante a simples eliminação das gorduras do estado. Prometeu que jamais mexeria nos subsídios de féria e de Natal. Garantiu que, com ele, prontamente melhoraria o rating da república. Eleito, prontificou-se a "ir além da troika". Detetou um desvio colossal nas contas do primeiro semestre. Para colmatá-lo, lançou um impostos extraordinário sobre os rendimentos. Logo depois, os trabalhadores ao serviço do estado e das suas empresas viram definitivamente cancelados os 13º e 14º meses. O governo garantiu que estávamos perto do ponto de viragem.

Porém, mais uma agência baixou o rating de Portugal. O risco de bancarrota subiu para os 70% e, no mercado secundário, aumentaram em flecha os juros da nossa dívida pública. Nos primeiros dias de janeiro, veio a público que Gaspar se esquecera de incluir no orçamento de 2012 o pagamento das pensões dos bancários. Esta semana, tivemos a confirmação de que não houve qualquer desvio na despesa pública; inversamente, a receita caiu a pique no final do ano em resultado da recessão induzida pelo ataque ao rendimento disponível dos cidadãos.

Em pouco mais de seis meses, esvaíram-se em fumo todas as delicodoces juras de Passos Coelho. Eis a fatura de ir além da troika.

Será Passos Coelho um mentiroso? Não, apenas um tolo facilmente manipulado pela gente determinada que o rodeia.

Sabe-se que foi longamente preparado numa incubadoura controlada por figurões como Ângelo Correia e Ilídio Pinho. Como todas as pessoas incultas, dedica uma fé supersticiosa a gente como Gaspar, munida de diplomas académicos cuja natureza e valor não entende. Imaginamo-lo deslumbrado nos fóruns europeus no meio dos grandes da europa, com os quais pode trocar algumas palavras sobre a chuva que foi encontrar em Bruxelas em comparação com o lindo tempo que faz por cá.

Se amanhã o seu governo cair e Passos seguir rumo a um exílio dourado, não haverá mal. Ele terá conseguido, num brevíssimo período de tempo degradar o estado social, descapitalizar a segurança social, reforçar a precariedade laboral e operar uma significativa descida dos níveis salariais - numa palavra, terá finalmente conseguido cumprir o programa oculto do PSD sem sequer o ter submetido a sufrágio.

Se isto não é um génio, o que será um génio?
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27.1.12

José

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Qualquer apreciação rigorosa do José Mourinho deve ser capaz de distinguir duas realidades:

1. O Mourinho é um génio do futebol

2. O Mourinho é má pessoa

Assente a distinção, convém de imediato relativizá-la, pois a qualidade de psicopata que torna a pessoa odiosa não é inteiramente separável da obsessão que contribui para fazer dela uma personalidade superior na sua atividade profissional.

É mais fácil ser-se bom numa coisa quando não se pensa em mais nada, quando se aposta a vida numa definição estreita de sucesso, quando se está literalmente disposto a tudo para não perder.

Vale aqui recordar a afirmação do Dr. Johnson sobre o modo como o terror de que algo de horrível suceda contribui muito para a concentração de espírito.

Isto acontece em muitos outros domínios que não apenas o futebol. A fixação exclusiva e doentia num objeto de desejo não é condição sine qua non da excelência, mas ajuda bastante.
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26.1.12

Finalmente, somos a Grécia

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A escassa informação até agora disponibilizada permite concluir que, em 2011, a despesa do Estado terá ficado 1.713 milhões de euros abaixo do orçamentado, um valor duplo do gerado pelo imposto extraordinário sobre o subsídio de Natal.

Caso para nos congratularmos? Bem pelo contrário. A consequência imediata deste sonho húmido de "ir para além da troika" foi uma brusca contração económica que resultou na rápida redução dos impostos cobrados no final do ano. Resultado (previsto por qualquer pessoa racional): não só não se reduziu o défice público como se precipitou o país numa nova recessão que, por sua vez, voltará a fazer baixar as receitas fiscais. o que justificará mais austeridade, e assim sucessivamente.

Tal como o Capitão Ahab do romance Moby Dick, também Vítor Gaspar poderia exclamar: "Todos os meus meios são racionais, apenas os meus motivos e os meus propósitos são tresloucados."
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23.1.12

Lawrence Lessig: Cidadãos

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19.1.12

No Sporting ninguém percebe de comunicação

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A indignação a que o Público deu voz a propósito da decoração do acesso ao balneário da equipa visitante em Alvalade foi uma completa tolice. Pior mesmo só a reação da FIFA.

Só no Sporting se pode acreditar que algum adversário se intimidará com fotos de claques histéricas. Bem pelo contrário, os futebolistas visitantes tenderão a sentir que um clube que recebe os adversários com manifestações de descortesia não faz senão trair ele próprio um estranho estado de alma vizinho do pânico.

Forçado, por más razões, a corrigir o que fez, a direção do Sporting trocou os energúmenos por uma paisagem florida. Eles percebem, como nós percebemos, que estão a dizer o mesmo recorrendo a um signo que parece dizer o contrário. Por outras palavras, estão a dizer-nos: a) que permanece o medo do adversário, manifesto na pueril necessidade de provocá-lo; b) que o clube é controlado por amadores e engraçadinhos.

Decididamente, no Sporting ninguém percebe de comunicação.


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16.1.12

Fuga de capitais

Isto é muito interessante:
Take the Portuguese Bank BPI (the country’s fourth largest), which is making public tender offers to buy back its debt. If all concerned tender their bonds to BPI, BPI will pay something short of €1.5bn cash to investors. Mortgages which were previously sitting in one of their SPVs will return to their balance sheet, and ECB money will now be on the other side financing them allowing significant profits (and capital) to be reported. In this particular tender the smallest discount is 35% and the largest is 65%. Investors may initially baulk at the offer, since they will nurse a heavy loss (equal, naturally, to BPI´s profit) but ultimately they will probably be only too happy to be able to walk away from Portugal, and with some cash in their pocket to boot.

Iberian banks were already aware of the benefits of this kind of restructuring during the 2009-2010 liquidity wave, and went about quietly repurchasing their bonds (bank capital, securitizations, senior bonds) on a selective and private basis at a discount. Much of their reported profits in those years in fact came from either the ECB carry trade or this kind of transaction. So when we read that another Portuguese bank – Banco Espirito Santo – has just had €1 billion of debt guaranteed by the Portuguese state (a soverign which can’t itself go to the markets) it isn’t hard to imagine that the process going on in the background is something similar to that seen in the BPI case, and that the debt is being guaranteed so it can go over to the ECB to be posted as collateral.
Mas vale ler o post inteiro.

11.1.12

"Não há dinheiro para nada"

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9.1.12

7.1.12

Estamos a transformar-nos numa sociedade de castas

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Ninguém pode permitir-se ignorar as desigualdades sociais que persistem em Portugal. Ficámos todavia esta semana a saber que a austeridade imposta até meados do ano passado veio agravá-las ainda mais, apesar das melífluas declarações em contrário de quem nos dirige, presidente da república incluído.

Parece, porém, que o facto não causa excessiva preocupação na opinião publicada. Não só não merece um tratamento prioritário, como o espaço mediático é mais facilmente cedido a alguns dos homens mais ricos do país para que eles se chorem publicamente das aleivosias e perseguições de que são vítimas.

Chegámos agora a um momento crítico deste processo de consolidação das castas, consistente na assumpção de que as classes superiores devem ser julgadas por um código moral distinto daquele que se aplica aos intocáveis.

Assim, não é aceitável que quem trabalha se furte às obrigações fiscais inerentes a uma atitude patriótica e solidária. Já os gestores e investidores não só podem como devem fazê-lo na defesa da rentabilidade e competitividade das suas empresas.

Uma moral para os senhores, outra para os servos. Depois do socialismo para os ricos, temos agora o relativismo moral para os amos.
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Catástrofes alternativas

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Já se sabe que este ano não cumpriremos o objetivo do défice acordado com a União Europeia. Já se sabe que, para o ano, também não.

Já se sabe que em 2011 reentrámos em recessão e que assim continuaremos em 2012. Já se sabe que o desemprego continua e continuará a aumentar.

Já se sabe que os salários reais não pararão de degradar-se e que cada vez haverá menos meios disponíveis para assegurar o pagamento das pensões, das prestações sociais, da saúde e da educação.

Só ninguém sabe quando, persistindo as atuais políticas económicas, poderemos esperar sair desta situação.

E, no entanto, o mantra permanece inalterável: sair do euro seria uma catástrofe. Mas o que é isto que estamos a viver, senão uma catástrofe?
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6.1.12

Aretha Franklin/ Ray Charles: Eleanor Rigby

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Quem nunca ouviu isto - e, já agora, também o que se segue - não percebe bem a canção.


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5.1.12

As nossas maiores cabeças pensantes estão hoje no futebol

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Durante décadas, Portugal cresceu sistematicamente mais depressa que os países desenvolvidos. Parece razoável admitir-se - por muitos erros que a posteriori possamos inventariar - que as pessoas que nessa época traçaram as políticas económicas sabiam o que faziam.

A dado momento, porém, alguns economistas formados no estrangeiro (e, principalmente, nos EUA) regressaram à pátria com ideias novas e promissoras. Alegavam eles que não faziam falta políticas económicas sectoriais, fossem agrícolas, industriais ou outras, porque lhes tinham ensinado que na América não se gastava disso.

Vá-se lá saber porquê, a ideia pegou, de modo que, desde então, a política económica nacional consiste basicamente em distribuir os dinheiros da UE por quem mais eloquentemente chora e em aprovar cegamente, numa apropriada atitude de "bom aluno", tudo o que os de Bruxelas nos mandam fazer.

Agora, que o resultado de vinte anos de preguiçoso absentismo intelectual está à vista, toda a gente pede aos economistas "políticas de crescimento", esquecendo ou ignorando que, nas escolas que eles frequentaram, o próprio tema é considerado maldito.

Resta-nos então virar-nos para os práticos, para ver se deles virá algum alvitre apropriado. Por mim, sugiro que prestemos atenção às pragmáticas gentes do futebol.

Há um ano foi Paulo Futre que propôs uma estratégia de alavancagem do Sporting sustentada na criação de uma relação privilegiada com a China. Todos os doutores se riram. Porém, adquirido o controlo da EDP por uma empresa chinesa, proliferam as novas versões da "árvore das patacas".

Esta semana, a propósito de um alegado projeto de legislação visando dificultar a importação de jogadores estrangeiros que não sejam já internacionais pelos seus países, Jorge Jesus explicou singelamente que o ponto forte dos melhores clubes portugueses consiste em trazer para cá jogadores com potencial mas ainda sem nome feito e transformá-los em grandes futebolistas que depois (não antes) são chamados às seleções nacionais dos seus locais de origem.

Sabe-se que o homem tem poucas letras, mas sabe o que anda a fazer e entende o modelo de negócio que permite ao Porto, ao Benfica e ao Braga (o Sporting não aprendeu ainda a lição) competirem internacionalmente com relativo sucesso.

Repare-se que isto funciona porque: a) os portugueses têm boas relações com muitos países sul-americanos e africanos, entre outros; b) têm capacidade para detetar talentos numa fase embrionária; c) sabem transformar jovens promissores em jogadores maduros; d) promovem internacionalmente esses talentos nas competições europeias de clubes; e) fazem uma gestão inteligente do momento da venda dos jogadores.

Imaginem agora que muitas empresas portuguesas eram capazes de manter amplas redes de relacionamento por esse mundo fora, explorando afinidades culturais e históricas; que identificavam oportunidades de cooperação tendo em vista integrar o país em cadeias logísticas do Mundo para a Europa e da Europa para o Mundo; que aproveitavam competências organizativas e tecnológicas do país para construir plataformas que funcionassem como nós imprescindíveis dessas cadeias - bom, acho que vocês já compreenderam onde quero chegar.

No dia em que o governo português quiser mesmo estruturar mesmo uma estratégia de desenvolvimento não deverá chamar economistas de Chicago ou sucedâneos doutorados em ciências ocultas. Ficará muito mais bem servido se for antes assessorado por Paulo Futre e Jorge Jesus, já para não mencionar os imprescindíveis Pinto da Costa e José Mourinho. Eles explicam.
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Lucro, excelência empresarial e competências

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Os manuais de microeconomia pretendem que o propósito de uma empresas é a maximização do lucro, mas isso não é (nem deve ser) verdade.

A maximização do lucro é, nesses manuais, reduzida a um modelo de optimização sujeita a restrições; no mundo real, porém, a ideia é destituída de todo e qualquer alcance. Nenhum gestor sabe o que, em termos práticos, poderá significar a exigência da maximização do lucro, muito menos como alcançá-la.

Mais interessante ainda, Jim Collins demonstrou em Built to Last e Good to Great que as empresas mais rentáveis atribuem uma baixa prioridade à rentabilidade, a qual se revela, na prática, um resultado colateral, ou sub-produto, de uma série de coisas que podemos genericamente designar como paixão pela excelência estribada numa sólida visão de negócio.

A doutrina que concede toda a prioridade ao lucro não é, pois, uma teoria empírica, mas uma prescrição que visa justificar a total subordinação da gestão empresarial aos interesses dos acionistas em detrimento de todas as restantes partes interessadas (trabalhadores, clientes, parceiros, fornecedores, comunidade local e comunidade nacional).

Na verdade, a empresa bem gerida procura manter uma relação equilibrada com os diversos stakeholders, na consciência de que, se não o fizer, cedo ou tarde será penalizada, tanto mais quanto mais grosseiramente violar os direitos de alguma ou várias delas.

Pode-se argumentar que a Jerónimo Martins existe há mais de dois séculos, devendo por isso ser considerada bem gerida. Note-se, porém, que, ao longo de todo esse tempo, não conseguiu evoluir de forma consistente para atividades mais produtivas e de maior valor acrescentado. Começou no retalho alimentar e no retalho alimentar permanece ao cabo de tanto tempo.

Nos anos 50 do século passado beneficiou do regime protecionista de então para se associar à Unilever na FIMA, mas desde então falhou as tentativas para reforçar a sua componente industrial.

O desempenho do grupo é sem dúvida satisfatório para os acionistas, mas ele pouco ou nada tem contribuído para criar postos de trabalho qualificados ou desenvolver novos negócios assentes em tecnologias ou métodos de gestão inovadoras. Não iremos longe as grandes fortunas do país estiverem associadas a empresas com tão frágeis competências distintivas.
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4.1.12

Passarinhos e passarões

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Retomemos a frasezinha:
"Se os contribuintes individuais pudessem mudar o endereço fiscal para a Holanda e pagar menos 10 ou 20% de IRS não o fariam? Claro que sim."
Não pode passar sem reparo a ideia de que o recurso a habilidades para não pagar impostos tem igual gravidade quer se trate de um anónimo cidadão ou de uma grande empresa, quer se trate de alguém que vai meter gasolina a Espanha ou de uma empresa que esconde os seus lucros em paraísos fiscais.

O dirigentes das grandes empresas têm fácil acesso a presidentes da república, primeiros ministros, ministros, secretários de estado e deputados. Conseguem influenciar o processo legislativo e pressionar decisões executivas favoráveis aos seus interesses.

A sua atuação influencia positiva e negativamente a vida de muita gente. O que elas fazem não interessa apenas aos seus acionistas, mas também aos seus trabalhadores, aos seus clientes, aos seus parceiros, aos seus fornecedores, às comunidades locais em que se inserem a à comunidade nacional cujo destino partilham.

Elas afectam, por vezes decisivamente, o funcionamento dos mercados de bens, de trabalho e de capitais. Algumas delas, quando detêm ativos estratégicos ou monopolizam mercados, tornam-se inclusivamente imunes a boicotes organizados de cidadãos.

Tanto poder acarreta responsabilidades acrescidas dado que, quanto maior uma empresa, maior o impacto das suas atividades sobre a sociedade em que se integra. Para evitar um excesso de regulação, impõem por isso a si próprias alguma contenção no prosseguimento dos seus propósitos.

Chama-se a isso Responsabilidade Social, algo que a Jerónimo Martins declara aceitar, prevendo mesmo um pilar a que chama apoio à comunidade envolvente que inclui "apoios (...) a causas e a instituições que acompanham os grupos mais frágeis da sociedade, como sejam as crianças, os jovens e os idosos".

Mas faz algum sentido dar com uma mão aquilo que se retira com a outra?
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3.1.12

Uma pesada herança

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Pesada herança ou herança de peso?

Seja qual for o nosso julgamento, o importante será o que conseguirmos fazer com ela.

É esse o tema do meu artigo de hoje no Jornal de Negócios.
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A linguagem da força

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Li ontem no Twitter esta frase, escrita não interessa por quem:
"Se os contribuintes individuais pudessem mudar o endereço fiscal para a Holanda e pagar menos 10 ou 20% de IRS não o fariam? Claro que sim."
A palavra chave nesta frase é "pudessem", a terceira pessoa do plural do verbo "poder" na sua forma condicional.

A questão de saber se se deve é subrepticiamente substituída pela de saber se se pode, como se fosse a mesma coisa. A insinuação é clara: se se pode, não faz sentido perguntar se se deve. "Se tens poder, usa-o": é este o conselho, a moral e a lei.

Ora a civilização consiste nada mais nada menos que na contenção do poder, a qual inclui como elemento essencial a auto-contenção. Inversamente, quem entende que o poder sobreleva quaisquer outras considerações coloca-se ipso facto do lado da força bruta.

Cheira-me, porém, que não agradará muito àqueles que hoje podem o que um dia poderão vir a poder aqueles que, de momento, não podem.
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2.1.12

1.1.12

Música brejeira norte-americana

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