28.5.12

24.5.12

Lomba medita a Europa e fica exausto

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A redação de Pedro Lomba começa hoje muito bem no Público, com ele a reproduzir informações sobre a União Europeia recolhidas na Wikipedia que tinha mais à mão.

Chegado à linha dezanove, porém, tropeça logo da primeira vez que tem que acrescentar uma pequena elaboração mental própria, ao afirmar que cada país da União tem "um povo nacional".

Este deslize tem consequências para o argumento principal da prosa, a saber, que "jamais existiu no mundo uma democracia à escala transnacional".

Se tiver a bondade de deslocar-se a Badajoz, poderá, virando-se para leste, contemplar uma dessas democracias multinacionais cuja existência desconhece. Circunstância idêntica encontraria no Reino Unido e na Bélgica, já para não falar da quase totalidade dos países do leste europeu, de cuja solidez democrática é, porém, permitido duvidar-se.

Atravessando o Atlântico, mesmo que prefira ignorar o Brasil, poderá pôr os olhos nos EUA, um mosaico de variadas nações que recebe novos e originais influxos em cada ano que passa.

Coloca a multiplicidade de nações e culturas dificuldades particulares à edificação de uma democracia? Sim, mas já se fabricou disso e continuará a fabricar-se.

Vamos lá a pensar melhor no assunto.
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23.5.12

Santa ignorância

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A obra publicada de Miguel Sousa Tavares acaba de ser enriquecida com uma colectânea dos seus "escritos políticos" dispersos, ensejo para algumas entrevistas que lhe permitem de expor o pensamento com maior profundidade.

Ontem, na SICN, explicou-nos via Ana Lourenço que lhe dá vontade de chorar ver o país persistir em seguir por um caminho que ele, desde a sua mais tenra mocidade, avisou conduzir-nos ao desastre.

Os apertos financeiros em que nos encontramos devem-se, na sua essência, a todos nós - desde o poderoso homem de estado ao humilde trolha - não lhe termos dado ouvidos. Se Relvas fosse jornalista e Tavares primeiro-ministro, teríamos jornalistas objectivos e políticos competentes, mas assim está tudo trocado.

Tavares sempre soube que não somos "um país rico como o Brasil", logo não podemos fazer auto-estradas, TGVs e aeroportos como se o fossemos. "Nem estádios de futebol", acudiu Ana Lourenço, para demonstrar que estuda atentamente os escritos políticos de Tavares.

Tavares não sabe que o grosso do custo das auto-estradas foi pago pela UE e convém-lhe esquecer que nem o TGV nem o novo aeroporto chegaram a ser construídos. Por outro lado, nem Ana nem Miguel, questionados, saberiam dizer quanto custaram os estádios do Euro 2004, mas eu sempre os esclarecerei que foi muito menos que a nossa participação em aventuras militares na Bósnia e no Afeganistão.

Muito menos suspeitam que, por muito criticáveis que tenham sido os investimentos que o país fez no último quarto de século em infra-estruturas, isso em muito pouco contribuiu para o crescimento da dívida pública - de resto, muito inferior ao da privada. Se Tavares quer denunciar "loucuras" deveria antes concentrar a sua ira nas despesas com a saúde e a educação - como hoje faz o governo que ele justamente execra.

Tavares tem firmemente implantada nas sinapses uma interpretação da história de Portugal que detecta um fio condutor de ruína e desgoverno ligando o império do oriente ao ouro do Brasil e aos fundos europeus, e não se cansa de repeti-la. Sucede que esse pensamento, plasmado nas centenas de páginas que compõem a sua obra de análise política, sendo partilhado por uma esmagadora maioria de taxistas, professores primários e moços de forcados, nada tem de original.

A única originalidade da nossa condição - se é que alguma existe - reside na santa e atrevida ignorância que, ascendendo das profundezas da massa ignara que sabe pouco e não quer saber mais, chega aos meios supostamente incultos que, na verdade, pouco se distinguem em nível cultural do povinho que se comprazem em desprezar.

(Relevante adenda a este post: É só fazer as contas...)
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22.5.12

Hoje é dia de aprender uma palavra nova: evergetismo

"Na eterna busca de bens posicionais que os distingam dos pequenos e médios ricos, cujas fileiras engrossam a olhos vistos, mansões na Côte d’Azur, iates de 150 metros e ilhas privadas não bastam hoje para sinalizar o nababo genuíno. De modo que, quem quer ser alguém, compra antes um clube de futebol, como fizeram Abramovich ou o xeque Mansour Nayhan. Ou então, imitando Berlusconi, opta por comprar um cargo de primeiro-ministro, com os resultados que se sabe. Num plano incomensuravelmente mais perverso, pode fazer como Bin Laden, que aplicou a riqueza familiar na construção de uma rede terrorista internacional dedicada a chacinar infiéis."

O resto do meu artigo de hoje no Negócios pode ser lido aqui.

Regresso ao bucolismo

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In illo tempore, tínhamos na instrução primária livros de estudo impregnados de bendita ruralidade, famílias à volta da lareira, santinhos patrióticos e heróicos guerreiros façanhudos.

As crianças reuniam-se nas eiras ao luar nocturno escutando os pais debitarem provérbios populares que ressumavam humildade natural e respeito pela autoridade. Ao contrário das localidades e das habitações que conhecíamos, havia nessas páginas muitos animais de carga e nenhuns automóveis, nem cinema, nem rádios, nem jornais, nem qualquer espécie de electrodomésticos. Acima de tudo, não havia plásticos.

Segundo Crato e amigos, nessa época abençoada levava-se pancada da professora, fazia-se exames e aprendia-se a sério. Desse esforço desumano resultaram, como herança oferecida às novas gerações, milhões de cabeças brilhantes como a dele.

O bucolismo fifties está, evidentemente, out. As pessoas hoje precisam que lhes expliquem o que é aquele objeto recurvado que se vê na bandeira dos comunistas. (Refiro-me, é claro, à foice.)

A mentalidade retrógrada, porém, permanece viva, de modo que a utopia passadista que o ministro hoje se propõe implantar nas escolas inspira-se menos na agricultura de outrora e mais no artesanato industrial dos tempos felizes em que usava bibe e ia aos pardais.

Vamos, por isso, ter agora um ensino profissional inteiramente voltado para a caça do javali, a criação de gado, a pesca à linha, a carpintaria, a serralharia, a oficina automóvel (não esqueçam os bate-chapas!) e a soldadura.

Absolutamente out estarão a partir de agora os cursos de multimédia, informática, design, moda, marketing e animação cultural, actividades que, por não terem futuro e inocularem ideias malucas nas mentes infantis, passarão a ser ferozmente reprimidas pelo estado.
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16.5.12

"Como sabes que esse é o teu café?"

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14.5.12

Fui eu que escrevi isto?

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Vamos todos rezar para que a Grécia não arribe

"O problema da Grécia é um problema da Europa. Digam todo o mal que quiserem dos mercados, mas eles já perceberam isso.

De modo que sucedeu o que tinha suceder: nos últimos dias, o euro perdeu valor face ao dólar. "Haverá alguma exportador que não fique contente com a notícia, tanto mais que ela implica, simultaneamente, uma desvalorização em relação à moeda chinesa? "

Judas condenou-se à eterna perdição para assegurar o cumprimento da profecia. A Grécia sacrifica-se em prol de todos os europeus acumulando os défices que os restantes não ousam assumir. "

Não se concebe atitude mais nobre. Sem o excessivo consumo deles, o que seria da excessiva produção alemã? "

Oremos para que, tão cedo, não consigam voltar ao bom caminho."

Publicado aqui, em 21.12.09
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8.5.12

Histórias da carochinha para graúdos

Os portugueses estão habituados a esperar que alguém, de preferência o Estado, lhes arranje emprego. Falta-lhes capacidade de ir à luta, criar o seu próprio posto de trabalho e produzir riqueza. Vivem demasiado acomodados à sombra de direitos adquiridos. Esperam que alguém lhes resolva os problemas, enfronhados numa atitude resignada e fatalista.

Concordam? Eu também não.

7.5.12

Uma falácia que vamos ouvir muito nos próximos dias

Ouvi ontem Marcelo explicar que, se todas as pessoas que o desejassem entregassem aos bancos as suas casas para saldar os empréstimos à habitação, isso agravaria dramaticamente o equilíbrio dos bancos, com gravíssimas consequências para o sistema financeiro.

Isto é aquilo a que se chama uma visão parcial e interesseira.

Reparem que a degradação da situação patrimonial dos bancos seria exactamente simétrica à melhoria da situação patrimonial das famílias no caso de essa dação em pagamento ser autorizada. Vai daí, elas melhorariam os seus saldos bancários, o que, por sua vez, contribuiria para equilibrar a situação financeira dos bancos.

Logo, o que está em causa na operação proposta não é o risco de uma degradação dos equilíbrios do sistema financeiro - que não existe - mas uma redistribuição de recursos dos bancos para as famílias. Coisa que, naturalmente, os gestores e os accionistas dos bancos (e o professor Marcelo) não desejam.