6.2.04

Mentira ou...

Não foi uma mentira. Foi, como diria o Edmond Burke, uma tentativa para economizar na verdade.

Mistérios



Porque é que nenhum livro do W. G. Sebald está traduzido em português?




Porque é que nenhum livro do Pelevine está traduzido em português?




Porque é que nenhuma das aventuras do detective italiano Aurelio Zen inventadas por Michael Dibdin está traduzida em portugês?


Porque é que todos os livros do Saramago estão traduzidos em português?

5.2.04



Menez: Sem título, 1991.

É muito difícil encontrar obras de pintores portugueses na net. Talvez essa fosse uma coisa que o Ministério da Cultura pudesse resolver. Mas não tenho muitas esperanças: é demasiado fácil e barato.

Mea culpa?



Há dias, acusei o PS de não se preparar devidamente para discutir a estratégia de longo prazo para a política orçamental.

Terei sido injusto? Ao ler a lista de compras da Drª Manuela sou levado a crer que sim.

Dêem-se ao trabalho de decifrar o documento, e depois perguntem-se como é possível pretender-se governar o país com banalidades deste quilate.

Ou o Governo e a Ministra não gastaram cinco minutos a pensar no assunto, ou isto é mesmo o melhor que conseguem produzir.

P.S. -- Que excelente oportunidade o PS está a perder de fazer boa figura! Trabalhem, rapazes, trabalhem!

Isto não é um conto



Imaginem esta situação. A polícia localiza um conhecido facínora. Ele tenta escapar, é baleado e morre.

A polícia afirma que agiu em legítima defesa, porque o indivíduo estava armado e ameaçara disparar.

Faz-se um inquérito. Prova-se que ele não tinha nenhuma arma. A polícia é acusada de ter mentido.

Responde o comandante da polícia: «Mas digam lá se não estamos todos mais seguros com ele morto?»

Esta história não vos faz lembrar as justificações retroactivas da guerra preventiva contra a pretensa ameaça das armas iraquianas de destruição massiva?

Eu posso dizer que sou dos tais que se sentem enganados porque, na altura, hesitei bastante entre o apoio e a condenação à guerra.

Acho a guerra preventiva um mau princípio, mas não excluo que às vezes possa ser necessária. Não acreditava que o Saddam tivesse algo que ver com o Bin Laden e o 11 de Setembro, mas pensava que a possível existência de armas de destruição massiva não deveria ser ignorada. Além disso, pareceu-me que a posição ilógica da França, ao reforçar o sentimento de impunidade do Saddam, tornava a guerra inevitável.

Numa palavra: acordava anti-guerra e adormecia a pensar que talvez fosse o menor dos males.

Está hoje claro que tudo não passou de um enorme embuste, a tal ponto que os arrogantes de ontem argumentam agora humildemente que se enganaram para não terem que confessar que mentiram. A batata quente foi passada para os serviços secretos para baralhar a questão até que ninguém compreenda nada do que se passou.

(Este tema da intervenção dos serviços secretos seria interessante, mas fica para outro post.)

Agora quero referir-me, nem que seja brevemente, ao argumento segundo o qual o mundo estaria mais seguro com Saddam deposto e aprisionado.

Nem isso! O mundo está mais perigoso, porque o terrorismo tem hoje maior aceitação popular no Médio Oriente e noutras partes do mundo, porque os países ocidentais se dividiram, talvez irremediavelmente, porque os povos das democracias confiam menos nos seus líderes, porque a ONU sofreu um rude golpe, porque o frágil direito internacional foi espezinhado, porque a doutrina do mais forte conquistou adeptos, porque a liberdade de expressão foi fortemente condicionada nalguns países, porque passou-se a achar normal a detenção por tempo ilimitado sem culpa forma, porque se tornou menos clara a fronteira entre a verdade e a mentira.

Finalmente: quando um dia for de facto indispensável usar a força por uma boa causa, a maioria vai recusar o seu apoio.

No comments

Toda a gente deveria ler isto. Mais: este assunto deveria, num país civilizado, ser a notícia de abertura dos telejornais.

4.2.04




Larionov: Galito -- estudo raionista.

Os bois e os seus nomes

Levanta-se de novo por estes dias o coro contra a promiscuidade entre a política e o futebol.

Parece-me isto a mim um eufemismo incompreensível. O partido que está enfiado até ao pescoço no futebol é o PSD, não é mais nenhum.

É isso mesmo. Os outros partidos têm um ou outro militante envolvido, mas são meros amadores. Nenhum consegue, nem de perto nem de longe, rivalizar com esta linha de ataque: Gilberto Madáil, Valentim Loureiro, Santana Lopes, Fernando Seara, Lourenço Pinto, Pôncio Monteiro...

Querem mais? Eu nunca me rebaixei a comprar um jornal desportivo, de modo que tenho que me resignar a listar os que vejo na televisão e que sei de ciência certa que foram ou são ministros, presidentes de câmara ou deputados do PSD.

Aliás, isto é perfeitamente normal. Nunca é demais sublinhar que o PSD não é um partido «normal», querendo eu com isso significar que não é um partido que se rebaixe a ter uma ideologia ou princípios políticos reconhecíveis.

O PSD, herdeiro directo de outras forças políticas que, com variáveis designações, marcaram a vida política portuguesa dos últimos dois séculos é, na verdade, o partido dos poderes fácticos.

Se tem uma ideologia, é a ideologia do poder. Verdadeiramente, nada mais os une senão essa profunda e quase comovente convicção de que nasceram para mandar. Para mandar no país, para mandar no futebol, para mandar nos bancos, para mandar nos bombeiros, para mandar nas ordens profissionais, para mandar na polícia, e por aí fora.

A sua vocação é ser a União Nacional dos poderosos, daqueles que assumem e transmitem o poder de pais para filhos. Pensem um bocadinho e vejam lá se não é assim.

3.2.04

«Se o seu filho não quer estudar, é ele que está certo»



(Continuação da entrevista a Karl Marx)

Entrevistador -- Está outra vez a fugir ao assunto. Seja directo, por favor: prove-me que o que hoje se passa no mundo tem alguma coisa a ver com as suas propostas políticas.

Marx -- Eu nunca fiz muitas propostas concretas, tal como nunca fiz muitas previsões. Achava e continuo a achar que isso é uma perda de tempo. O que lhe digo é que, agora, pode-se viajar por toda a Europa sem ter a polícia sempre à perna. Vim a Portugal sem passaporte. No meu tempo, precisava de um passaporte para me deslocar dentro da própria Alemanha. Não acha que isto comprova o triunfo do ideal internacionalista?

Entrevistador -- Se, como pretende, o poder está agora nas mãos dos trabalhadores, porque é, então, cada vez menor o interesse das pessoas pela política?

Marx -- Não há razão para preocupações. Repare: o indiferentismo é o estádio supremo de desenvolvimento do socialismo. Saint-Simon sustentou que, no socialismo, o governo das coisas sobrepõe-se progressivamente ao governo dos homens. É a isso que, hoje, se chama tecnocracia. Eu apoiei essa tese com tanta insistência que muitas pessoas estão convencidas que ela é minha. Se as pessoas já não estão divididas por conflitos de valores políticos essenciais, que se há-de fazer? É um progresso, e também mais uma prova do termo da luta de classes e do fim da história. Pessoalmente, aprovo este estado de coisas.

Entrevistador -- E o desemprego e a desigualdade salarial?

Marx -- O economista Paul Krugman explicou-me que, à medida que os computadores forem substituindo as profissões técnicas, cada vez será mais valorizado o trabalho dos cozinheiros, dos jardineiros ou dos canalizadores. Se o seu filho não quer estudar, não se rale: provavelmente, é ele que está certo.

Entrevistador -- E o trabalho infantil, e a poluição, e a SIDA, e a clonagem?

Marx -- Calma, calma, uma pergunta de cada vez.

(Continua...)


El-Lissitzky: Proun 93.

Guerra e paz entre quatro linhas

Evidentemente, concordo com tudo o que de substancial este post afirma, mas presumir que o futebol é um espectáculo de «paz e amizade» faz-me perceber porque é que o Pacheco Pereira é, de facto, totalmente imune aos encantos deste ritual desportivo.

O segredo do enorme sucesso do futebol no século XX reside precisamente em ele ser uma espécie de guerra domesticada, um equilíbrio precário entre a barbárie e a civilização que, no entanto (ou por isso mesmo), a qualquer momento pode dar para o torto.

O futebol é uma forma de violência ritualizada, usualmente eficaz na sublimação de paixões primárias. Mas, quando o escape não funciona...


Prémio João Carreira Bom

Não morro de amores pela ficção portuguesa contemporânea. O Saramago e o Lobo Antunes desinteressam-me e, daí para baixo, é sempre a piorar.

Talvez esteja a ser injusto. Espero bem que sim: se calhar não li quem devia ter lido, e, quando o fizer, mudarei de opinião.

Não desprezo os escritores portugueses, entenda-se, só me parece que os melhores se dedicam hoje primordialmente à crónica e não à ficção. Estou a pensar em gente como o Jorge Silva Melo e o João Bénard da Costa, dois dos que me enchem as medidas e me fazem ficar sempre a chorar por mais.

É também por isso que fico feliz por ter sido criado o Prémio da Crónica João Carreira Bom.

Ganhou este ano o Prado Coelho, e não ganhou mal, embora eu, como se infere do que atrás afirmei, tivesse preferido outro. Já houve tempo em que às vezes me irritava com o que o EPC escrevia, mas hoje estou muito mais tolerante e presto mais atenção às qualidades do que aos defeitos.

O meu outro motivo de alguma felicidade (poderei chamar-lhe assim?) é ver justamente recordado o João Carreira Bom, uma pessoa notável que não recebeu nunca o reconhecimento que merecia e o mais paciente amigo que alguma vez tive.

2.2.04



El Lissitzky, Prounen-raum, 1923.

Marx confessa: «sempre fui a favor da globalização»



(Continuação da entrevista a Karl Marx)

Entrevistador (já a suar) -- Temo bem que os nossos leitores tenham dificuldade em acompanhar um raciocínio tão abstracto. Vamos passar a um tema mais acessível. O que pensa da globalização? Não admite que se trata de uma derrota do socialismo?

Marx -- Ó meu caro amigo, com franqueza! Pois se fui eu, tanto quanto sei, a primeira pessoa a prever e a defender a globalização!

Entrevistador -- O senhor foi a primeira pessoa...

Marx -- Sem dúvida. Sou o mais possível a favor, como tive ocasião de explicar no meu Discurso sobre o Livre Câmbio, pronunciado em 1848 perante a Liga dos Comunistas.

Entrevistador -- Mas por certo não ignora que, hoje, os comunistas são contra...

Marx -- Também no meu tempo eram! Nem queira saber como reagiram quando defendi o livre câmbio e a liberdade de circulação do capital como forma de acelerar o desenvolvimento capitalista e de precipitar o advento do socialismo. Um autêntico escândalo! Há pessoas muito míopes...

Entrevistador (desesperado)-- Vejo que está outra vez a tentar fugir às minhas perguntas. Afinal, estamos ou não no socialismo? Responda-me só: sim ou não?

Marx -- Sim.

Entrevistador -- Mas como é possível dizer uma coisa dessas e pretender ser tomado a sério? O senhor desconhece o que dizem o Dr. Espada, o Dr. Portas, o Dr. Marques Mendes?

Marx -- Uma coisa que me agrada em Portugal é a importância que se dá aos doutores. Faz-me lembrar a Alemanha do meu tempo.

(continua)

A facturinha vai a caminho

Marcello prestou ontem um grande serviço a Durão Barroso, ao fazer em postas a ministra Celeste Cardona.

A seu tempo será cobrado.


Tapiès: Três olhos vermelhos, 1992.

1.2.04



El Lissitzky: Vitória sobre os brancos com a cunha vermelha, 1919.

Segundo Karl Marx, «as grandes empresas americanas são controladas pelos trabalhadores»



(Continuação da entrevista a Karl Marx)

Entrevistador -- Os trabalhadores americanos controlam as empresas? Como assim?

Marx -- O capital das grandes empresas cotadas na bolsa é controlado pelos fundos de pensões nos quais os trabalhadores aplicam as suas poupanças. Por conseguinte, uma parte substancial da economia está nas mãos dos trabalhadores. Já há quase três décadas que é assim.

Entrevistador -- Não me está a querer dizer que já não há capitalistas nos EUA! Bill Gates, por exemplo, um dos homens mais poderosos do mundo!

Marx -- Depende do que se entenda por um capitalista. Segundo a minha teoria, o capital não é uma coisa, é uma relação social assente num elo de dependência. Ora, precisamente, no caso da Microsoft que citou, estou informado de que entre os seus empregados contam-se dezenas de milionários. E como se transformaram esses ditos assalariados em milionários?

Entrevistador -- Não vejo onde quer chegar.

Marx -- Quando os capitalistas têm que pedir por favor aos trabalhadores para trabalharem, as relações de produção são profundamente subvertidas. E isso sucede porque, hoje em dia, os meios de produção essenciais não são mais as máquinas ou as ferramentas. São a capacidade intelectual, o engenho, o know-how. Ora esses instrumentos pertencem ao trabalhador, são inseparáveis da sua pessoa.

Entrevistador -- Curioso, de facto...

Marx -- Desta forma, operou-se a apropriação colectiva dos meios de produção. O patrão já não manda. Quando muito, lidera -- ou pensa que lidera. Os assalariados não são mais assalariados, são impostores, são capitalistas encapotados.

Expliquei tudo isso com a razoável clareza que a minha linguagem razoavelmente obscura permite nos Grundrisse, uns rascunhos de ficção política publicados depois da minha morte.

Entrevistador -- Mas como se processa concretamente essa apropriação colectiva dos meios de produção?

Marx -- Através da escola, é claro! Nos países mais avançados, os filhos dos engenheiros e os filhos dos operários vão às mesmas escolas, onde todos adquirem as mesmas ferramentas intelectuais que lhes permitem, mais tarde, controlar o processo de produção. Em muitos desses países, nem sequer se paga nada pela educação - ou melhor, é a sociedade que a paga. A uniformização social é visível até no modo como os jovens se vestem e se divertem. Ao vê-los saír das escolas, todos de tee-shirt, jeans, sapatilhas e boné, julgo estar a assistir a um desfile de guardas vermelhos.

(continua...)


El Lissitzky: Poema-anel: «Amo».

Marx: «feliz por ver ditadura do proletariado implantada»



1ª Parte da entrevista a Karl Marx

Entrevistador -- Cento e cinquenta anos após a primeira edição do Manifesto do Partido Comunista, gostaria de conhecer, dr. Marx, a sua impressão geral sobre o mundo que veio encontrar.

Marx -- A minha impressão não podia ser melhor. Em primeiro lugar, estou feliz por verificar que a ditadura do proletariado se encontra tão solidamente implantada.

Entrevistador -- A ditadura do proletariado?

Marx -- Claro. Ao contrário do que se passava no século XIX, o sufrágio universal é hoje uma instituição indiscutível em qualquer país civilizado. Ora, com o sufrágio universal, os trabalhadores estão sempre em maioria no eleitorado. Daí o facto de conseguirem sempre impor a sua vontade. É a ditadura democrática dos trabalhadores.

Entrevistador -- Mas o senhor chama ditadura à vontade da maioria?

Marx -- Acha estranho? Pois olhe que, ainda há poucos anos, o dr. Mário Soares expôs uma ideia semelhante, quando afirmou que o governo do Professor Cavaco estava a impor uma ditadura da maioria.

Entrevistador -- De todo o modo, a opinião dominante hoje em dia é que o senhor se enganou redondamente nas suas previsões sobre a inevitável derrocada do capitalismo e subsequente triunfo do socialismo.

Marx -- São tolos, não entendem o mundo em que vivem. A verdade é que, olhe-se para onde se olhar, o que vemos é o progresso do socialismo triunfante. Recentemente, estive nos EUA, e pude constatar que, lá, os trabalhadores já controlam a economia.

(Continua...)