3.7.08

A versão autorizada

Começa a ficar claro que, para se entender o que Manuela Ferreira Leite quis dizer, é preciso esperar para ouvir a interpretação autêntica de Pacheco Pereira.

Para a coisa funcionar melhor, porém, seria melhor que trocasse a função de intérprete pela de ponto. Sempre escusava de ter que corrigi-la a posteriori com argumentos retorcidos.

Se calhar, seria mais prático pensarem em convocar um novo Congresso.

Pensar dentro da caixa

Há quem não entenda que a escrita nas caixas de comentários é um género literário inteiramente distinto do post, pelo que não pode ser avaliada pelos mesmo critérios.

Se eu afirmo taxativamente numa caixa que o Zizek não produziu nada que valha a pena ser lido, isto é prosa de alto calibre. Se alguém me denuncia por nunca ter lido nada desse autor, a reacção é supimpa. Se eu treplico que li mais do que o Zizek, que entrega à mulher a dias as provas dos seus livros para revisão, isto aproxima-se do génio.

Por regra, nas caixas não há argumentos, há interjeições: "Apoiado", "Cala a boca, ó palhaço", "Vai-te...", "O pm é vigarista", "O que tu queres sei eu!", ou algo similar. Há quem desvalorize esta forma de expressão. Há quem se indigne com isto. Há quem sonhe com o dia em que o último comentador será enforcado com as tripas do último blogger.

O mundo é injusto, por isso não tenho esperança que algum dia seja atribuído um Nobel a um comentador de caixa de blogue. Mas temos que reconhecer que há, neste género, autores inesquecíveis. Por exemplo, a zazie, o ac4117 ou o bzidroglio. E então o anónimo, senhores, o anónimo!

Digam o que disserem, o anónimo é o mais admirável ornamento da blogoesfera, o verdadeiro soldado desconhecido da guerra das ideias, sem cujo manso sacrifício nenhuma batalha poderia ser travada, muito menos vencida.

Certa vez topei com um post que gerara 138 comentários, a grande maioria assinados pelo tal anónimo. Pensem bem: 138 comentários! Quanto esforço, quanta convicção, quanta argúcia, quanta persistência, quanta toleima, quanto desvario empregues na confecção de 138 comentários, sem sequer, no final da linha, a compensação dos míticos quinze minutos de fama.

Heróis do nosso tempo, silenciosos e ignorados heróis do nosso tempo, é isso que os comentadores das caixas dos blogues verdadeiramente são. Para todos, um grande bem-hajam.

Vira o disco e toca o mesmo

João Cardoso Rosas, no Diário Económico de hoje:
"Confesso que tinha, à partida, uma disposição positiva em relação à nova liderança do PSD. Mas começo a ter alguma dificuldade em encontrar diferenças substantivas entre o populismo de Santana Lopes/Menezes e as propostas mais emblemáticas de Ferreira Leite."
(Via Câmara Corporativa).


Annie Leibowitz.

2.7.08

Bem observado

Lido no Goodnight Moon:
"Nos últimos dias, tem-se debatido muito, aqui e noutros sítios, sobre os índices de literacia científica dos estudantes de 15 anos.

"Mas o que podemos nós dizer sobre as actuais gerações de líderes? Em Portugal, qual é o nível de literacia científica dos juízes, dos deputados, dos governantes ou dos jornalistas, por exemplo?"

Emerson, Lake & Palmer: A Grande Porta de Kiev (Mussorgski)

Europe is failing to restore idealism

Larry Siedentop, no Financial Times de hoje:

"What does the EU offer in place of liberal democracy in the nation state? There is now a widespread impression across Europe – and especially among the young – that it is in danger of offering pseudo-democracy, remote bureaucratic government thinly disguised by a European parliament.

"That is why the most striking moral fact about Europe today is the loss of idealism. The EU has been unable to make up for the disappearance of its founding idealism – the abolition of war in Europe, through Franco-German reconciliation – by replacing it with the idealism that can be generated by self-government. Its contributions to creating a peaceful and prosperous continent are simply taken for granted."

Nós e o futebol alemão

Numa antevisão do Espanha-Alemanha do passado domingo, um jornalista do Público recuperou para título da sua peça o célebre obiter dicta de Gabriel Alves: "A força da técnica contra a técnica da força."

Para ele, como para a maioria dos portugueses, é preciso técnica para fazer um drible ou um centro de trivela, mas não para fazer um passe certeiro a trinta metros de distância ou para rematar com força ao ângulo da baliza.

A nossa quase universal detestação do futebol alemão é um sintoma insofismável do apreço pela incompetência com que encaramos qualquer actividade profissional.

A fantasia e a improvisação são extremamente valorizadas porque, no fundo, ninguém sabe o que anda a fazer, sendo muito comum as pessoas não dominarem as ferramentas essenciais do seu ofício. Daí a necessidade de inventar.

Os futebolistas alemães sabem que só precisa de inventar continuamente jogadas novas quem nunca se maçou a treinar a sua proficiência nas antigas. Sabem também que a criatividade produz melhores resultados quando devidamente enquadrada numa organização que funciona.

É assim que funciona o jazz, sabiam?

A invasão espanhola

O Jornal de Negócios informa-nos hoje que "Espanhóis geram em Portugal 9,8% da riqueza nacional".

A percentagem foi obtida comparando o volume de negócios produzido em Portugal pelas empresas espanholas presentes no país com o nosso Produto Interno Bruto.

A comparação não é válida, visto que o PIB apenas contabiliza o valor acrescentado (ou seja, a produção deduzida dos inputs adquiridos) e não a produção total, evitando assim duplas contagens.

Tendo em conta que as maiores empresas espanholas a operar em Portugal são gasolineiras e bancos, não vejo como poderão elas ter gerado mais que 2 a 3% da riqueza nacional.

(A expressão "riqueza nacional" utilizada no título também é ambígua, mas não vale a pena entrar nesses detalhes.)

Ser imbecil é...

"Temo que uma vez homologado o campeonato de 2007/08 com a perda de 6 pontos por parte do FC Porto, um recurso qualquer obrigue a Liga a devolver o que tirou e os portistas iniciem a provca de 2008/09 com 6 pontos... de avanço! Não é possível? Não estejamos tão seguros."

Alexandre Pais, Record (citado no Público de hoje)


Anne Leibowitz.

1.7.08

Verso e reverso

O dificultismo para o aluno é o facilitismo para o professor.

O naufrágio

Há poucas semanas, Ferreira Leite proclamou que os défices já não era um problema, pelo que as preocupações deveriam reorientar-se para a área social.

Hoje, diz que o problema não está resolvido, que não se pode baixar os impostos, que o país está endividado em extremo, e que não há dinheiro para nada, nem para investir nem para apoiar os pobres.

Não tem ideias sobre coisa nenhuma. Se o país quiser um cangalheiro, já sabe em quem votar.

O PSD não subsidiará subsídios

Manuela Ferreira Leite quer aumentar as despesas sociais, mas não atribuirá subsídios porque isso gera dependência.

São as ONGs que sabem o que é preciso fazer, logo o Estado deverá apoiá-las. Dando-lhes subsídios? Talvez.

Na verdade, ela admite que talvez seja aconselhável criar um ou outro subsídio. Aliás, não quer eliminar os subsídios que existem, até porque são muito insuficientes.

Agora percebi...

Manuela Ferreira Leite esclarece que o governo de Durão Barroso apenas aprovou o traçado das linhas do TGV, não o TGV.

A ideia, pelos vistos, era ficar pelos desenhos.

Populismo

Paulo Portas declara-se muito preocupado com o preço do leite, da carne e da manteiga.

E as gravatas? Ninguém fala do preço das gravatas?

Emerson, Lake & Palmer: Passeio, O Gnomo (Mussorgski)

A eles, a eles!

No sentido rigoroso do termo, não há instalações nucleares iranianas. Até que uma central nuclear entre em funcionamento, demorará muitos anos. Acresce que, segundo a CIA, os planos iranianos de construção de armas atómicas foram abandonados há cinco anos. Mas talvez o Tiago saiba sobre este assunto algo que eu desconheço.

"Em não havendo númaro dez, entró Rui"



Anne Leibowitz.