15.10.09

O Nobel e nós

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Paulo Trigo Pereira explica com concisão e clareza as contribuições de Williamson e Ostrom (os Nóbeis da Economia deste ano) e chama atenção para algumas consequências da perspectiva do primeiro para temas de alta relevância e actualidade em Portugal:
"Apesar de não ter sido muito explorado por Williamson, há uma aplicação importante da sua análise, nomeadamente no contexto português, que não queria deixar de realçar. Assistimos nos últimos anos a processos de desorçamentação significativos quer na administração central quer local. Quer na área hospitalar, onde muitos hospitais sairam das administrações públicas e são agora empresas, quer no sector rodoviário com a saída do Instituto Estradas de Portugal, IP e sua transformação em EP e agora SA (sociedade anónima). Ao nível local há também variados sectores que têm sido empresarializados. Aquilo para que a análise de Williamson chama a atenção, e que é frequentemente descurado por economistas, é que a opção pelo melhor arranjo institucional, não depende apenas da eficiência medida em termos de custos de produção. Depende também dos custos de transacção, associados à celebração de contratos incompletos de longo prazo a 20, 30 e mais anos. Nomeadamente no que toca às parcerias público-privadas a pouca “evidência empírica” existente sugere que este custos são muito significativos relativamente ao custo do investimento directo sobretudo em projectos de pequena e média dimensão."

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Para facilitar a vida aos historiadores vindouros

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Belo ensaio de história contemporânea do prodigioso Val:
"Nos finais de 2007 caíram dois pilares do sistema que os alimentava: BCP e BPN. As convulsões que ocorreram, e os receios que se antecipavam, explicam a aliança de Belém com a SONAE, de que o Público foi exuberante instrumento, já com caminho andado no assassinato de carácter. O primeiro semestre de 2008, o qual culminou com a manobra do bloqueio das transportadoras, foi um período onde se promoveu um ambiente catastrofista que tinha como finalidade fazer do Presidente da República o salvador da Pátria. Qual Açores, qual carapuça, o conflito entre Cavaco e Sócrates começa quando as figuras gradas do binómio banca-PSD se sentiram ameaçadas e perseguidas pelas autoridades, algures na viragem de 2007 para 2008. Como diz o outro: a senhora não é ingénua, eu também não."
E, na verdade, foi mesmo assim.
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14.10.09

The member

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"Com razão observam como esse órgão é independente, excitando-se muitas vezes inoportunamente e falhando noutras ocasiões; colocando-se em oposição directa à nossa vontade, recusando-se peremptoriamente a atender às nossas solicitações mentais ou físicas. Se, entretanto, tomassem como pretexto essa independência para condená-lo e me cumprisse defendê-lo, eu insinuaria caber parte da responsabilidade aos outros órgãos seus companheiros, os quais, invejando a sua importância e a sua agradável função, devem ter conspirado, sublevando toda a gente contra ele, imputando-lhe maldosamente uma culpa de que tampouco estão isentos."

Montaigne
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12.10.09

É extraordinário o que uma carinha laroca pode fazer por uma pessoa

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Os nossos jornalistas desportivos, todos gente muito séria, estavam alarmados com a possibilidade de os dinamarqueses facilitarem a vida aos vizinhos do Norte para prejudicarem a nossa nação valente.

De modo que constituí-me em comité de vigilância patriótica no sábado e eis o que apurei. Os dinamarqueses de facto não jogam nada: só sabem defender, passar a bola e marcar golos. Uma coisa primitiva.

Já que estava com a mão na massa e os olhos no visor, aproveitei para assistir pela primeira vez nesta fase de qualificação a um jogo dos nossos.

Ao cabo de dois anos de experiências, mesmo na hora H, o Queiroz desencantou finalmente uma jovem promessa capaz de desempenhar a contento as funções de médio defensivo.

Mas a ocorrência mais prometedora da jornada foi a lesão do Ronaldo. Com ele de fora, conseguimos finalmente ganhar à larguinha e até é possível que repitamos a graça na 4ª feira.

Oxalá não recupere a tempo do play-off. Valha-nos o bruxo.
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9.10.09

Nobel da Economia, o meu voto

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Suponho que Paul Romer seria este ano o Nobel da Economia mais consensual, e certamente um daqueles com quem, mercê das suas originalíssimas contribuições para a teoria do crescimento, mais temos a aprender.

Acresce que não só Romer tem um plano maluco para salvar o mundo, como decidiu mesmo há pouco despedir-se do seu confortável emprego na academia para poder dedicar-se a ele a tempo inteiro. Se ganhar o Nobel, vai falar-se muito do assunto; se não ganhar, falarei eu.

Em contrapartida, a premiação de Eugene Fama, o mais votado nalgumas apostas, seria, mais que um erro, um anacronismo, visto tratar-se de um dos mais proeminentes defensores e divulgadores da hipótese dos mercados eficientes, uma teoria mais errada do que útil cujos fundamentos têm sido especialmente criticados desde o início da presente crise.

Se fosse mesmo preciso premiar um propagador de ideias desacreditadas, eu escolheria antes Robert Barro, sobretudo pelo panache. Não se pode deixar de admirar um homem para quem o actual caos económico mundial não passa de uma ilusão de óptica.

Finalmente, começa a fazer-se sentir a falta de um Prémio Carreira que assegure o reconhecimento devido a grandes economistas como Baumol, Nordhaus, Baghwati ou Feldstein que, muito provavelmente, já não irão a tempo de receber o Nobel.

Disse.
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Calar

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Quando posto com frequência sobre isto e mais aquilo, não falta quem pense: "Quem julga este parvalhão que é?" Sei-o, porque alguns têm a franqueza de mo fazer sentir pelas mais diversas vias.

Ao invés, se me calo, há quem simpaticamente o lamente.

Aconselhável mesmo, para concitar simpatias e parecer sábio, é ter um blogue mas não escrever nele.
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O membro

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"The indocile liberty of this member is very remarkable, so importunately unruly in its timidity and impatience, when we do not require it, and so unseasonably disobedient when we stand most in need of it: so imperiously contesting in authority with the will, and with so much haughty obstinacy denying all solicitation, both of hand and mind. And yet, though his rebellion is so universally complained of, and that proof is thence deduced to condemn him, if he had, nevertheless, feed me to plead his cause, I should, peradventure, bring the rest of his fellow-members into suspicion of complotting this mischief against him, out of pure envy at the importance and pleasure especial to his employment."

Montaigne
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Só para lembrar como este gajo era bom

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7.10.09

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Isaac Cordal: Remembrance from nature.
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Requalificar o investimento

Robert Solow em entrevista ao MITNews:
"We have to expect consumer spending to be weak in our economy, not just for six months, but for the next few years. It will not be as strong a driving force as it has been the past several years. Something has to take its place. Government spending can't, since government will have a hard time financing the inevitable deficits and is not in a position to aggressively increase its deficit spending.

"That leaves two sources of expenditure to replace the pullback of consumers. One of those is net exports. That's a long story. The other is business investment. We need business investment to support the economy. We have every reason to want to divert our resources toward secure and renewable sources of energy, new materials and environmental improvement. It's our job, a place like MIT, to produce those new technologies, then it's the job of private industry to grab them, but I also think it's the job of the federal government to shift incentives, from incentives to consume more to incentives to invest more. Obama ran on this kind of platform, and if he can put some money behind that fundamentally correct view, he might generate something."
Eu diria que esta orientação é tão válida cá como lá.

Não saiam do vosso lugar, o filme ainda não acabou

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Visto aqui.
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29.9.09

Design de automóveis tipo tudo-ao-molho-e-fé-em-Deus

A mão que atirou a pedra

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Cantam os passarinhos na paisagem económica como se despontasse a Primavera após um Inverno frio e rigoroso, mas breve. Esquecem-se rapidamente as almas cândidas que o sistema financeiro mundial faliu efectivamente há apenas um ano, no sentido rigoroso em que as responsabilidades assumidas superaram largamente os activos existentes.

Ora o milagre que travou a descida aos abismos consistiu essencialmente em os estados taparem o buraco aberto pelo recuo do consumo e do investimento privado injectando verbas colossais nas economias, o que, por sua vez, determinou um aumento brutal do endividamento público.

Até aqui, tudo bem - ou quase.

Porém, ignoramos ainda se as intervenções já realizadas terão sido suficientes para repor a economia mundial nos carris. Em caso positivo, os governos poderão em breve começar a reduzir os défices á medida que recupera o sector privado.

Se isso não acontecer... Se isso não acontecer, das duas uma: ou se repete o erro que conduziu Á Grande Depressão, com os estados a retirarem cedo de mais os estímulos criados; ou se mantêm os níveis presentes de intervenção, com o inevitável agravamento da dívida pública.

Nesta última eventualidade, teremos mais inflação, mais impostos ou, com toda a probabilidade, uma combinação de ambos. Muita gente está consciente desta eventualidade.

Não deixa de ser curioso notar, nestas circunstâncias, a veemência com que tais perigos são denunciados por aqueles mesmos cujo irresponsável e mais ou menos interessado desleixo nos conduziu à situação em que hoje nos encontramos, um pouco como aqueles miúdos que escondem atrás das costas a mão com que atiraram a pedra que partiu a vidraça.
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Prioridades

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É muito provável que o desemprego venha a manter-se em níveis elevados, mesmo que a economia evolua positivamente. O mesmo é dizer que poderá ainda agravar-se, caso as coisas corram mal.

Logo, politiquices à parte, é forçoso que a primeira prioridade do novo governo PS venha a ser - adivinharam - a contenção e redução do desemprego.

Este pareceria, à primeira vista, um terreno favorável para a aprovação de medidas com o apoio do BE e do PCP. Porém, como ambos estão de má-fé, sabemos que declararão insuficiente o que quer que se faça.

Não é um drama um défice público entre os 6 e os 7% em 2009. O mesmo não poderá dizer-se se o prolongamento da crise obrigar à manutenção de despesas excepcionais no próximo ano.

É verdade que, se a má conjuntura internacional persistir, a UE não incomodará os países membros por causa dos défices excessivos. Todavia, níveis crescentes de endividamento público ao nível mundial acabarão por suscitar, mais tarde ou mais cedo, inflação ou aumento de impostos.

Assim, o governo terá de carregar ao mesmo tempo no travão e no acelerador, mantendo-se simultaneamente atento a dois perigos: o de relaxar antes de tempo a política económica anti-depressiva e o de deixar subir demasiado o endividamento público.

É isto que tornará especialmente difícil a gestão financeira nos próximos anos, com BE e PCP, por um lado, a exigirem mais despesa, e PSD e PP, pelo outro, a pressionarem descidas de impostos.
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26.9.09

Onde estavas em 27 de Setembro?

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Há quatro anos, eu não sabia muito bem o que esperar do primeiro-ministro José Sócrates. Agora, acho que o resultado foi muito melhor do que tinhamos direito a esperar, sobretudo dadas as circunstâncias extremamente difíceis da governação, agravadas desde o Verão de 2007 pela avassaladora crise internacional.

Mais, considero que tivemos o melhor governo em 35 anos de democracia.

Também a presente campanha foi uma das melhores e mais entusiásticas de sempre. Poucas vezes, como agora, se discutiram tanto os programas dos partidos, a poucos sobrando dúvidas acerca do muito que distingue uns dos outros. Os debates foram tão esclarecedores como o podem ser nestas circunstâncias. Os eleitores interessaram-se e estão mobilizados para votar.

Neste domingo, não somos apenas chamados a votar num rumo para o governo do país. Está também em causa saber o que pensamos sobre a tentativa de degradação do debate democrático que o PSD sistematicamente protagonizou nesta legislatura.

No dia 27 de Setembro, é indispensável que o voto popular traduza uma clara condenação da política suja que emporcalha a vida pública e boicota o debate racional e civilizado.

Vocês sabem o que está em jogo.
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24.9.09

O futuro pelo espelho retrovisor

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“Portugal sem potencial depois desta recessão.” “Crescimento do produto potencial será quase nulo nos próximos anos.” “Fraco potencial condena Portugal a crescimento medíocre”. Títulos deste género são comuns na imprensa portuguesa. Que verdade há neles?

Esta é a questão a que procuro responder no meu artigo desta semana no Jornal de Negócios.
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23.9.09

Esclarecimento

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Ao contrário do que se tem dito, este texto não é um discurso de Oliveira Salazar. É o guião que o Pacheco Pereira redigiu para orientar as prédicas da Drª Manelinha.
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2.9.09

Ver e pensar 2

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Relacionem isto com isto.

(Imagem do livro Who's Your City?, de Richard Florida.)
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Ver e pensar

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1.9.09

Revisão da matéria

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Parabéns ao Mankiw pela honestidade intelectual.
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