31.12.03

Mas este gajo não tem mesmo cara de pedófilo?



Tirando a da Al-Qaedah, eu não acredito em conspirações.

A malta e os utentes

Quando, há cerca de dois anos, viajei de comboio de Nova Iorque para Washington, notei que a voz que, através dos altifalantes do comboio, se dirigia aos passageiros, tratava-nos por folks (malta). Isto de uma forma natural, sem nenhuma espécie de má-educação, antes com um toque carinhoso notório em tudo o que nos dizia.

Por conseguinte, nos EUA não somos nem consumidores nem utentes: somos folks. Vejo aqui a marca de uma cultura genuinamente democrática, assente numa igualdade fundamental entre todos os cidadãos.

Tanto quanto sei, este problema, que mereceu um comentário do Abrupto e uma resposta de Vital Moreira não está bem resolvido em país nenhum da Europa.

É um facto que os utilizadores de serviços públicos não o são na qualidade de consumidores, mas na de cidadãos. Mas, como não nos sentimos confortáveis a chamar-lhes cidadãos ou camaradas, inventávamos essa coisa artificial do utente. (Digo artificial porque ninguém se considera a si próprio um utente.)

É nestas pequenas coisas que podem ser observadas profundas diferenças entre a Europa e a América. E, neste particular, a vantagem está toda do lado da América.

30.12.03

Eu sei que é para o nosso bem...



Eu sei que é para o nosso bem, mas, ainda assim, desejo a todos um Ano Novo de 2004 sem mais cortes.

29.12.03

O capital não tem pátria, excepto quando é estrangeiro

A venda da maioria do capital da Somague à espanhola Sacyr não configura nenhuma situação de conquista ou expoliação. Pura e simplesmente, a família Vaz Guedes troca capital corpóreo por capital incorpóreo; como em qualquer outra transacção, ambas as partes ficam a ganhar, porque cedem uma coisa a troco de outra que consideram mais valiosa.

Além disso, tanto os trabalhadores da Somague como os restantes cidadãos portugueses só têm a lucrar se, como é de esperar, se criarem condições para a empresa se tornar mais eficiente. Por consequência, de um ponto de vista estritamente económico, não há nada a lamentar.

Acontece que esta análise, em linha com a teoria económica dominante, esquece a questão o poder. Descontando o problema da eficiência, será a mesma coisa ter patrões portugueses ou estrangeiros? Obviamente, não é -- digo-o pela minha experiência pessoal do modo como funcionam as multinacionais.

A única razão pela qual tantas empresas americanas têm a sua sede europeia em Londres é a facilidade de entendimento com os indígenas, e não qualquer consideração de eficiência ou produtividade. Vai daí, as empresas multinacionais compreeendem muito melhor os problemas com que convivem directamente do que aqueles com que se defronta um longínquo gestor em Lisbon, Spain.

Acontece, porém, que a preservação a todo o custo dos centros de decisão nacionais não é uma solução, a menos que se esteja disposto a premiar a incompetência fomentando o proteccionismo.

Que fazer? A Volvo pertence hoje ao grupo Ford mas, apesar disso, ninguém sonha tirar a empresa da Suécia e mudá-la para os EUA. Porquê? Porque os engenheiros e os técnicos suecos detêm certas competências que não são facilmente replicáveis noutras latitudes.

O que demonstra que o essencial não é proteger centros de decisão mas estimular a emergência de centros de competência.

Tolkien meets George Bush



Aparentemente, o Senhor dos Anéis trata da luta entre o Bem e o Mal.

O conteúdo deste Bem e deste Mal é, todavia, mais estético do que ético. Além disso, não se está de um lado ou do outro por escolha, mas porque se nasceu lá. Certas pessoas nascem elvos, outras nascem orcs -- e é tudo.

Os orcs e os trolls não são maus por fazerem coisas más -- eles limitam-se a matar inimigos, tal e qual como os bons -- mas por serem feios e mostruosos, ou seja: diferentes.

A única acusação séria que podemos fazer contra estes maus é carecerem de individualidade, mas também nunca temos ocasião de saber como se relacionam com as suas mulheres, os seus filhos e os seus amigos -- será que os têm? Mas, vendo bem as coisas, isso também não interessa porque eles são apenas inimigos que devem ser abatidos sem piedade.

Pelo contrário, os bons são ecologistas e diferentes. Tão diferentes, aliás, que as diferentes castas não se misturam umas com as outras, e só algumas são predestinadas para mandar.

Diz-se que Tolkien era um católico tradicionalista. Percebo onde está o tradicionalismo, porque os temas que lhe são caros repetem o conhecido cânone anti-moderno que pode ser encontrado em Wagner, Spengler, Heidegger, Evola e outros proto-fascistas do género.

Mas o catolicismo, esse, escapa-me completamente. O que eu vejo aqui é um neo-paganismo de pacotilha, na sua essência oposto a todos os princípios essenciais do cristinianismo, que, para meu espanto, os católicos não cuidam de combater.

Tolkien busca inspiração e legitimação numa ordem natural-feudal distinta da linhagem humanista greco-romana e oposta à tradição iluminista fundadora do mundo moderno. À beira deste primarismo ideológico, o paganismo New Age da Guerra das Estrelas parece mais profundo e aceitável.

Mas este filme reflecte bem a ideologia dominante da nossa época e permite-nos entender melhor o pensamento político de George Bush e dos neo-conservadores de todo o mundo. É o perfeito filme de época para o pós 11 de Setembro.

Wunderkammer



The cabinet of curiosities, or Wunderkammer, was designed to facilitate an encyclopaedic enterprise, the aim of which was the collection and preservation of the whole of knowledge. The earliest encyclopaedic practices were set within a classical framework whereby new observations and practical experiments were seen as the continuation of work initiated by the great ancient thinkers, such as Aristotle and Pliny the Elder.

26.12.03

Nunca como neste ano houve tanta gente a desejar-me um «Santo Natal». Recrudescimento do sentimento religioso? Nalguns casos, talvez. Na maioria, não estou a imaginar.

Talvez queiram apenas dizer que, já que este Natal, pelas circunstâncias bem conhecidas, não pode ser feliz, ao menos que seja santo. E assim regressa e se insinua o estereotipo segundo o qual a santidade casa bem com a pobreza.

Cidades desertas, blogues desertos. Estranhos dias estes, com as pessoas ou as famílias dobradas sobre si mesmas.

23.12.03

Francis Bacon



Lembro-me como se fosse hoje. A primeira vez que vi uma pintura de Francis Bacon foi -- sim, é verdade! -- no Paris Match, há coisa de 40 anos, e ía no comboio Lisboa-Porto.

Retrospectiva



A reedição que o Público está a fazer das aventuras do Tintim fez-me compreender que a minha geração não é filha de Marx e da Coca-Cola (ambos proibidos em Portugal até ao 25 de Abril) mas do Cavaleiro Andante e da laranjada do Buçaco.

Roy Lichtenstein



Lichtenstein começou por propor-nos que olhássemos a arte comercial dos cartoons como se fosse pintura abstracta.

Em seguida, invertendo o processo, sugeriu-nos que observássemos a pintura abstracta através das lentes da arte comercial.

Suprematismo



Como pode alguém ter acreditado que «isto» era compatível com o comunismo soviético.

Mas Malevitch acreditou, e a esse equívoco devemos nós esta visão singular que desde a Perestrioka começou a reemergir das caves de coleccionadores particulares que arriscaram as suas vidas para a preservar.

22.12.03

A Era dos Autores

Pasmado com a velocidade a que eram editados novos livros no século XVII, Samuel Johnson considerou que a humanidade tinha entrado na Era dos Autores.

Que diria ele desta loucura dos blogues? Provavelmente insistiria em que esta proliferação de centros de proliferação de textos nos impõe a todos uma ética da concisão.

O respeito pelos outros e por nós mesmos impõe-nos que digamos depressa e bem o que temos para dizer.

Há mais gente na bicha.

A paragem

Em 1903, o homem conseguiu pela primeira vez fazer voar uma máquina mais pesada do que o ar. Se a primazia pertenceu a Santos Dumont ou aos irmãos Wright é coisa de somenos.

Em 1969, Neil Armstrong pisou o solo da lua.

Desde o momento em que o homem conseguiu erguer-se uns metros acima do solo e o instante em que pisou o solo de outro planeta decorreram apenas 66 anos.

E que aconteceu desde então? O que é que parou? O que é que foi aqui interrompido e porquê?

Em defesa do egotismo

Não posso gastar demasiado tempo com as ideias dos outros se quiser dedicar suficiente atenção às minhas.

Preocupação

O nosso ensino, ainda e sempre autoritário e de raiz livresca, consegue quando muito produzir gente obediente, executantes competentes das ideias alheias, jamais notáveis criadores ou conceptores.

Curiosamente, vejo pouca gente preocupada com isto e muita obcecada com o reforço da autoridade na sala de aula.

Por outro lado...

Por outro lado, não preciso de ler aquilo que consigo perfeitamente imaginar.

Mea culpa

Reconhecço que é muito fácil criticar-se as ideias de alguém quando se desconhece o que efectivamente disse ou escreveu.

Observação

Comecei a reparar que as pessoas que passam o tempo a exigir coisas mais práticas são usualmente destituídas de sentido prático.

Eu concordo com Boltzmann: «Não há nada mais prático do que uma boa teoria».

Sublinho: uma boa teoria.

Derrotado por KO

Em que estado terá ficado o Marcello depois de ler o Economist deste fim de semana?

Sim, como reagirá ele, o tal que lê um livro por dia, ao saber que há nos EUA uma autora de livros infantis que escreve um livro num dia?