31.7.09

Segunda parte, not so good...

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Hoje passa na RTP2 o segundo episódio de Mad Men

30.7.09

Pés no chão, cabeça no ar

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O meu artigo desta semana no Jornal de Negócios ("Pés no chão, cabeça no ar") discute as consequências da posição geo-estratégica do país para as suas prioridades económicas, e sugere que, "em vez de pormos as pessoas inteligentes a raciocinar como economistas, deveriamos tentar pôr os economistas a raciocinar como pessoas inteligentes."
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28.7.09

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23.7.09

Eles não sabem, nem sonham

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Tendo instintivamente a acreditar que, quando alguém dotado de um currículo relevante se pronuncia sobre um certo assunto, decerto saberá do que está a falar.

Se calhar vou ser obrigado a rever a minha atitude. Venham este extracto da entrevista de Abel Mateus no Jornal de Negócios de hoje.
Os estudos do Governo dizem que o valor negativo do projecto [TGV] é compensado por externalidades: factores ambientais, crescimento adjacente, IRC... Isso torna o projecto sustentável.

Isso é aritmética cosmética. É muito difícil estimar externalidades. Vale mais ser muito cauteloso do que estar a fazer sobreestimativas só para encher o número [sic].
Há dias foi Vítor Bento a afirmar que parte da rentabilidade esperada do TGV depende "de componentes da mais pura e arbitrária subjectividade", como os "benefícios obtidos com a redução do tempo médio de viagem das travessias sobre o Tejo", a "redução dos custos operacionais dos carros que dessa forma se consegue e pelo impacto positivo em termos ambientais" e o "aumento de produtividade".

Agora, é Abel Mateus a contestar que se introduza o cálculo de externalidades na análise custo-benefício, o que só pode significar que, afinal, eles pura e simplesmente não sabem o que é uma análise custo-benefício.
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22.7.09

Afinal, já não voto PS

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Um dos meus queridos amigos Ladrões manifestou-se um tanto indisposto pelo apelo do Simplex ao voto no PS nas próximas legislativas.

Relembra-nos ele que estamos, afinal, a apoiar "o mesmo [PS] que, por razões eleitorais, chumbou no parlamento o projecto-lei pela igualdade de acesso ao casamento civil por parte de pessoas do mesmo sexo; que estrangulou financeiramente as Universidades e aprovou cursos de mestrado em gestão e manutenção de campos de golfe; que aprovou, contra toda a oposição e parte do seu partido, um Código do Trabalho que retira direitos e benefícios aos trabalhadores mas foi incapaz de aprovar medidas efectivas contra a corrupção; que inventou os PIN para poder desafectar largas parcelas de reserva ecológica nacional e entregá-las à especulação imobiliária e ao apetite dos grandes grupos económicos; que se deixou envolver em trapalhadas com o Freeport, o TGV, o novo aeroporto, o terminal de contentores de Alcântara."

Embora não pareça, sou um sujeito muito influenciável. Dei por isso comigo a pensar que, se calhar, votar PS talvez não seja boa ideia.

Passado um pouco, porém, ocorreu-me o seguinte:

1. As forças políticas que são a favor da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo concertam posições entre si antes de avançarem com propostas legislativas, não passam rasteiras aos potenciais aliados para daí retirarem vantagens mesquinhas.

2. O Francisco Oneto deve saber tanto como eu sobre a procura de cursos para gestão de campos de golfe.

3. O novo código do trabalho contempla soluções equilibradas que asseguram uma protecção adequada dos interesses laborais, facto tanto mais notável quanto muitos dos países com os quais competimos directamente não o fazem.

4. Ainda não percebi por que é que, para o BE, a flexibilidade laboral é boa na Auto-Europa e má no resto do país.

5. Fico ansioso por conhecer as "medidas efectivas contra a corrupção" que o Francisco Oneto decerto tem no bolso.

6. Associar genericamente os PIN à especulação imobiliária revela uma pífia falta de engenho, sobretudo tendo em conta que se faz hoje já muito boa demagogia entre nós, ao nível do que de melhor há no mundo.

7. A mistura no mesmo saco do Freeport, do TGV, do novo aeroporto e do terminal de contentores é mais um triste exemplo de que como certa esquerda, cega pelo despeito, alinha em todas as campanhas de política suja promovidas pela direita.

Olha, afinal sempre voto PS outra vez.
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20.7.09

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Alô mundo

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Se lográssemos deitar mão a um extra-terrestre, fosse ele quem fosse, qualquer informação que lhe conseguissemos arrancar sobre a galáxia de onde viera seria considerada preciosa.

Parece que o Morgan Stanley, um dos maiores bancos de investimento do mundo, acaba de encontrar um extra-terrestre. Só que, em vez de vir do espaço sideral, ele chegou da Internet.

As coisas que um adolescente de 15 anos lhes contou sobre o estranho mundo que habita deixaram em estado de estupor as pessoas sensatas que nos governam quando foram divulgadas pela Bloomberg, pelo Financial Times e pelo Guardian.

Aparentemente, essas pessoas não têm filhos, sobrinhos, esposas, avôs ou sequer chóferes familiarizados com o mundo virtual e os costumes dos seus habitantes. De modo que um relato pessoal foi imediatamente transformado num relatório quasi-científico.

Gente estranha, estes banqueiros. Não admira, com esta dificuldade de estabelecer contacto com o mundo exterior, que quase tenham levado ao tapete o sistema financeiro mundial.
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Isto não se faz

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O Mandela não merece festas de aniversário tão pindéricas.

Este ano, apareceu o Sarkozy com a Carla Bruni – ou talvez ao contrário. Para o próximo, irá o Berlusconi acompanhado por uma daquelas senhoras deputadas ao Parlamento Europeu. Seguir-se-lhe-á talvez o Alberto João.

Há toda uma indústria organizada à escala mundial para parasitar o homem.
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Onde estavas no dia 20 de Julho de 1969?

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Há um grande mistério na história do século XX, talvez insignificante para a maioria, mas que a mim, pessoalmente, me perturba muito.

O mistério é que eu não recordo absolutamente nada acerca da noite de 19 para 20 de Julho de 1969, excepto que não assisti à alunagem nem às longas horas de emissão em directo que a RTP dedicou à chegada da Apolo 11 à Lua. Daí a dúvida angustiante: que coisa tão importante estaria eu a fazer ou a congeminar naquela ocasião para assim me ter alheado do evento?

Seria eu nessa altura demasiado blasé para me interessar por trivialidades dessas? Não me parece: talvez eu fosse blasé, mas não tanto.

Lembro-me de, no dia seguinte, a mulher a dias da minha mãe comentar que, sendo a Lua redonda, rebolaria se alguém lhe pusesse o pé. Lembro-me de muitas conversas em torno do tema, em que era possível escutar-se as opiniões mais extraordinárias.

Havia quem reduzisse o feito a um episódio da guerra fria, quem fizesse notar que os astronautas não tinham encontrado Deus lá no firmamento, quem anunciasse uma nova era na saga da humanidade rumo ao infinito, quem denunciasse a vergonha de se gastar fortunas em tais trivialidades com tanta fome no Mundo, quem argumentasse que a solução dos nossos problemas não estava no culto da técnica, mas na revolução social.

Lembro-me de tudo isso, mas não me lembro de ter testemunhado o momento.

É triste uma pessoa chegada à idade das memórias carecer de uma assim tão importante.
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15.7.09

As coisas como elas são

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À minha volta, certos entendidos, que classificam a crise actual de "extraordinariamente grave", começam um minuto depois a arengar sobre a recuperação de 2010. Ora, não é previsível nenhuma recuperação significativa da conjuntura internacional em 2010, como muito bem nota Martin Wolf no FT de hoje:
"Those who expect a swift return to the business-as-usual of 2006 are fantasists. A slow and difficult recovery, dominated by de-leveraging and deflationary risks, is the most likely prospect. Fiscal deficits will remain huge for years. The alternatives – liquidation of excess debt via either a burst of inflation or mass bankruptcy – will not be permitted. The persistently high unemployment and low growth may even threaten globalisation itself."
Esperam-nos ainda tempos difíceis por mais uns anos. Falta saber se a paciência de muitos não se esgotará entretanto.
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Pensem bem

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Economistas pedem descida de 10% nos salários. Polícias queixam-se por serem penalizados se atirarem a matar. Generais na reforma revelam convites para organizarem qualquer coisa. Oposicionistas pedem suspensão da democracia por seis meses. Comentadores proclamam fim do regime. Esquerdistas apelam a intervenção musculada do presidente.

Nas próximas eleições estará também em jogo saber-se se o centro do poder executivo permanecerá na Assembleia ou se se transferirá para o Presidente. Todos sabemos que tipo de resultado propiciará uma ou outra alternativa.

Pensem bem.
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14.7.09

A continuação do cavaquismo por outros meios

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Os capítulos 4 a 7 são o cerne do livro de Vítor Bento. Neles, o autor traça a evolução da presente crise desde o seu início até à actualidade, dividindo a análise em dois grandes períodos (1995-2000 e 2000-2007), o que lhe permite concentrar-se nas grandes tendências, sem se perder nos meandros das flutuações de curto prazo.

Vejo na periodização escolhida dois inconvenientes com relevantes consequências para o diagnóstico das causas do problema. O primeiro consiste em tomar o ano 2000 como ponto intermédio, uma decisão que me parece arbitrária por nada de especial nele se ter passado. Teria sido mais lógico escolher 2002, o ano em que o euro substituiu o escudo.

O segundo inconveniente – tomar 1995 como ponto de partida – é, a meu ver, mais importante. Temo bem que a única justificação para a escolha de Vítor Bento seja a substituição do PSD pelo PS no poder e o desejo de atribuir a essa mudança política a progressiva degradação da situação económica nacional.

Ora, é um facto inquestionável que as nossas contas externas se deterioraram quase ininterruptamente entre 1989 e 2000, o que sugere que o impacto positivo da adesão à então CEE foi muito mais passageiro e frágil do que vulgarmente se diz. Entre o primeiro desses anos e 1996, o desequilíbrio foi colmatado pelo afluxo de fundos europeus e de investimento estrangeiro, mas, desde então, isso nunca mais foi possível.

Tendo, por isso, a pensar que o impropriamente chamado guterrismo não foi mais do que a continuação do cavaquismo por outros meios, e que este último consistiu na organização de uma gigantesca máquina de distribuição de dinheiro sem grande critério pelas corporações empresariais e sindicais que souberam mobilizar-se para a patriótica finalidade de mostrarem ao país a via mais rápida para o prosperidade europeia.

Podemos encontrar desculpas mais ou menos aceitáveis para o que então se passou, mas não podemos ignorar que o resultado real de uma tal política consistiu afinal em proteger uma estrutura económico-social já então caduca, que encontrou nos celebrados “fundos europeus” o seu seguro de vida.

A principal crítica que se pode fazer aos governos de Guterres é eles não terem sabido ou querido romper com esse projecto mesquinho e sem futuro. Mas não se pode razoavelmente pretender que eles tenham inventado alguma coisa.

(Continua)
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10.7.09

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Sob escuta

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Mais tarde ou mais cedo, haveria de descobrir-se uma estória destas:
"Rupert Murdoch's News Group News­papers has paid out more than £1m to settle legal cases that threatened to reveal evidence of his journalists' repeated involvement in the use of criminal methods to get stories.

"The payments secured secrecy over out-of-court settlements in three cases that threatened to expose evidence of Murdoch journalists using private investigators who illegally hacked into the mobile phone messages of numerous public ­figures to gain unlawful access to confidential personal data, including tax records, social security files, bank statements and itemised phone bills. Cabinet ministers, MPs, actors and sports stars were all targets of the private investigators."
Aguardo com curiosidade para ver a cobertura que os nossos media concederão a isto.
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Más notícias da frente ocidental

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Se, nos EUA, os salários estagnam ao mesmo tempo que o desemprego aumenta e os activos detidos pelas famílias se desvalorizam, como será possível esperar uma retoma duradoura?
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9.7.09

Grande Salto em Frente à portuguesa

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Vítor Bento afirma no seu livro “Perceber a Crise...” que a origem das nossas presentes dificuldades remonta à entrada na União Económica e Monetária. Não creio que seja precisamente essa a origem, mas concedo que foi um momento crucial.

O argumento de V. Bento é conhecido. Concretizada a adesão à UEM, mais tarde confirmada com a adopção do euro, o país ficou privado de política monetária e cambial autónoma. Por conseguinte, não mais pode recorrer à desvalorização da moeda para compensar insuficiências internas.

Acresce que: 1) essa transformação coincidiu com um período de afirmação internacional das economias da China, da Índia e do leste europeu; 2) a simples introdução do euro implicou a imediata eliminação ou deslocalização para fora do país de muitas actividades de serviços, designadamente comerciais. Do primeiro factor, devidamente acentuado por V. Bento, resultou uma pressão competitiva muito agravada sobre as nossas empresas exportadoras; do segundo, que não refere, a súbita liquidação de muito emprego qualificado.

A convergência nominal arrastou a queda das taxas de juro. Como seria de esperar, disparou o endividamento das empresas, das famílias e também do Estado. (Aqui convém recordar que, à data, muitos académicos previram que isso não aconteceria, visto que, segundo as suas teorias, a ilusão monetária não existe, logo só as taxas de juro reais importam.)

Se tudo isso era previsível, como é que os partidários da adesão ao euro se permitiram ignorá-lo? É aqui que entramos num terreno decisivo.

Para V. Bento e para os economistas que pensam como ele, era tudo muito fácil. Bastaria que o governo português tivessa imposto flexibilidade adicional ao funcionamento dos mercados de trabalho e de produtos e que reduzisse as despesas públicas tanto quanto fosse necessário para contrariar o aumento do endividamento privado.

Esta recomendação é uma variante do “faz força, que eu gemo”. Certos economistas empurraram o país para uma camisa de onze varas e, depois de ele lá estar enfiado, exortam-no a desenrascar-se.

Por outras palavras, eles congeminam uma política muito certinha no papel, mas não cuidam de ponderar as condições políticas e sociais indispensáveis à sua consecução. É, aliás, em boa medida nesta despreocupação que consiste a alegada “pureza científica” desta forma de conceber a teoria económica. Eles dizem como é; quanto ao resto, os políticos, os empresários e os trabalhadores que resolvam.

Ora, há algumas perguntas que, até hoje, eu ainda não vi serem respondidas.

Por exemplo, como seria possível um país com as graves carências sociais que Portugal exibia cortar drasticamente a sua despesa pública? Qual é a ideia: cortar na educação e na saúde, visto ser aí que se concentra a grande fatia de funcionários? Ou antes cortar no investimento público - e exactamente em quê?

Mais: qual deveria ser a dimensão do excedente das contas públicas necessário para contrariar o inevitável acréscimo do endividamento privado, dado que o país não controla a taxa de juro? E qual a dimensão da recessão que resultaria dessa loucura?

Usualmente, evade-se essas questões alegando que, se a Espanha e a Irlanda conseguiram equilibrar as suas contas públicas e ainda assim crescerem mais que nós, também nós poderíamos tê-lo feito.

Este argumento inverte o sentido de causalidade: como esses países continuaram a crescer, não lhes foi difícil reduzir ou eliminar o défice em proporção do produto. Tanto isto é verdade que, mal o seu crescimento estancou, logo se revelaram neles desequilíbrios orçamentais bem maiores do que o nosso.

A minha conclusão, por conseguinte, é que a adesão ao euro foi imposta ao país sem sentido de responsabilidade e a pretexto de ilusórias vantagens que, de facto, jamais se concretizaram. Foi o nosso Grande Salto em Frente doméstico, promovido por políticos e economistas sem mundo nem cultura a quem a ideologia toldou o juízo.

Agora, que não podemos sair nem podemos ficar, a dimensão do erro é manifesta para todos. Mas nem assim os que nos atiraram para aqui são capazes de fazer mea culpa. Eles estavam e estão certos, o país de incapazes e mandriões que nós somos é que está errado.

(Continua)
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"Rasgar, ninguém vai rasgar nada"

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Julien Freud: Lying by the rags.
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