29.3.04

O que é o populismo (2)

O populismo é o endeusamento do povo.

«Voz do povo, voz de Deus» é uma afirmação que pretende deixar Deus mal visto -- uma calúnia sem fundamento, pois Deus prefere relacionar-se pessoalmente com cada um de nós e ignorar esse povo que se arvora em seu confidente.



Joan Mitchell

Solução para o despovoamento do interior

Só não é o post do dia porque foi escrito na 6ª feira.

O que é o populismo?

O populismo é toda a gente a falar daquilo que não sabe.

É presumir-se que para ter opinião basta ter boca.

É crer-se que o direito à indignação vem antes da obrigação de pensar seriamente sobre os assuntos.

É cada um acreditar que só ele mesmo é dotado de consciência moral e que todos os «outros» são ladrões.

É a ignorância militante.

É a intolerância travestida de exigência de justiça.

Há para aí muita a gente a pregar contra o populismo a quem esta carapuça serve na perfeição.


Cordula Guedemann: Im grunen, 1997.

A indignação do dia

A opinião pública portuguesa é tão tristemente previsível na sua ignorante mediocridade como o movimento das marés determinado pela sucessão das fases da Lua.

Israel abate o xeque assassino, e toda a gente se indigna com a morte violenta de um pobre e doente velhinho que os netinhos levavam ao jardim para apanhar sol na sua triste cadeira de rodas.

Um juíz decide que não há razão para proceder criminalmente contra ninguém no caso da ponte de Entre-Rios, e toda a gente que ignora tudo sobre o assunto se indigna com mais este inacreditável atropelo à justiça.

Hoje, a indignação do dia é a constatação de que só 42% das empresas pagam impostos sobre os lucros, visto que declaram não os ter.

Gerou-se desde há anos na sociedade portuguesa, e particularmente à esquerda, a ilusão de que, se as empresas pagassem o que deviam pagar, o Estado nadaria em dinheiro. Ora a verdade é que a fuga aos impostos é uma realidade marginal nas empresas que operam legalmente (a economia subterrânea é outra história), e os malefícios dela resultantes são principalmente as distorções que provocam na alocação dos recursos produtivos.

Devemos combater a fuga dos impostos porque é socialmente injusta e porque entrava o desenvolvimento do país, não porque os montantes envolvidos sejam de facto mirabolantes.

Na imaginação popular, um empresário (ou um patrão, como se diz na linguagem popular) é um tipo cheio de massa. Na realidade, porém, as empresas em nome individual, que predominam largamente na nossa economia, desenvolvem uma actividade irregular, camuflam situações de subemprego e remuneram muito mal os seus proprietários. Porque, na verdade, esses patrões que os nossos jornalistas ficcionam a acumular fortunas debaixo do colchão não são nem mais nem menos do que merceeiros, subempreiteiros da construção civil e comerciantes de feira que auferem vencimentos pouco acima do salário mínimo.

A maioria dessas empresas mal consegue cobrir os seus custos correntes. Quando, devido a factores ocasionais e irrepetíveis, logram gerar um pequeno excedente, é evidente que o distribuem sob a forma de suplemento salarial e não de lucros. Ou vocês imaginam que só os administradores dos bancos têm direito a prémios de desempenho?

O combate a essa dita fraude nunca se fez nem nunca se fará, nem aqui nem em nenhuma outra parte do mundo, e isso apenas porque: a) a fraude não existe; b) se existisse, a sua detecção não compensaria o custo inerente ao esforço adicional de fiscalização.

Todo este barulho resulta, portanto, de muita gente falar com enorme facilidade daquilo que não se sabe.

Venha daí a próxima indignação!

Mais uma infame conspiração sionista

Dos Prémios Nobel atribuidos entre 1951 e 2000, 32% dos de medicina, 32% dos de física, 30% dos de economia e 29% de todos os prémios de ciência foram para judeus. No entanto, os judeus são menos de 0,5% da população mundial.

Só não percebo por que raio foram dar um prémio ao Saramago. Terá sido para comprometê-lo?


Julius Bissier: Aguarela, 1959.

Insónia

Alguém tem ouvido falar do caso Isaltino?

26.3.04

Farejando vences

Quem vir a minúscula lista de links aqui à direita há-de julgar que sou um homem de poucos amigos.

Não é isso. A lista é curta porque só contem os blogues que de facto visito assiduamente. Não entendo aqueles tipos que listam 1.374 links, porque, para todos os efeitos, é a mesma coisa que não listarem nenhum.

Por outro lado, aqui não há lugar para permutas: «cita o meu blogue que eu cito o teu». Aliás, como podem confirmar, alguns dos que aí estão não remetem sequer para o meu, provavelmente nem o conhecem, ou talvez virassem a cara se se cruzassem com ele na rua. Eu recomendo segundo as minhas preferências, os outros segundo as deles, e é assim que está certo.

O que realmente me preocupa é a quantidade de baixas nas minhas melhores companhias que tenho contabilizado desde que isto começou. O primeiro foi o Cristóvão de Moura. Depois, o Flor de Obsessão. Agora, o A Oeste.

Por este andar, não sobra nenhum. Ou talvez eu tenha que me pôr outra vez a farejar por aí, em busca de algum tesouro que ainda não conheço.

Este é o guesultado de pagtiguem os dentes à gueacção

A pgefeguência pela evolução não é nada contga a guevolução. É só pogque o Mogais Sagmento não consegue dizegue os égues.

25.3.04

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Cordula Guedemann: Eskorte fur Asgern Jorn, 1997

A Al-Qaeda frequentou um MBA

A Al-Qaeda não é uma associação de malfeitores do tipo da Enron, afinal uma empresa típica do obsoleto capitalismo fortemente hierarquizado.

A Al-Qaeda é a primeira marca global a operar no sector do terrorismo, superando as limitações das marcas regionais de carácter artesanal e local.

A Al-Qaeda não está presa a causas particulares que só mobilizam um pequeno número de pessoas. Funciona no modo da mass-customization.

A Al-Qaeda segue o princípio think global, act local.

A Al-Qaeda não promete conversões, promete resultados, e esses resultados têm um significado operacional preciso: destruição e pânico.

A Al-Qaeda tem um branding eficaz, baseado na figura de Bin Laden, o seu presumível inspirador e arquitecto.

A Al-Qaeda integrou Bin Laden no star-system mundial, transformando-o num mito que inflama as imaginações tanto de simpatizantes como de inimigos.

A Al-Qaeda opera em regime de franchising construído na base da sua reputação.

A Al-Qaeda oferece aos franchisados acima de tudo a credibilidade que um grupo de maltrapilhos isolados nunca conseguiria: se é da Al-Qaeda, deve ser sério.

A Al-Qaeda oferece um serviço completo aos seus associados na preparação e implementação dos seus projectos, principalmente apoio logístico (contactos, refúgios, aconselhamento) e financeiro, quando necessário.

A Al-Qaeda é uma organização plana e horizontal, sem estruturas pesadas de comando e controlo.

A Al-Qaeda minimiza os seus custos e evita criar uma burocracia instalada e ineficiente.

A Al-Qaeda consegue desse modo permanecer muito próxima das necessidades e anseios dos seus apoiantes.

A Al-Qaeda recorre sistematicamente ao outsourcing para planear e organizar as suas acções terroristas.

A Al-Qaeda estimula o espírito empreendedor de pequenos grupos terroristas prometedores, cujos projectos são exclusivamente apreciados na base dos seus méritos.

A Al-Qaeda estimula e premeia a inovação.

A Al-Qaeda funciona como uma rede de geometria variável que continuamente se reconfigura em função das circunstâncias e dos objectivos tácticos.

Bush também fez um MBA. Ele deveria saber estas coisas.

O funil do cidadão

O que acham da ideia de o Estado criar um número de telefone único para onde todos obrigatoriamente ligaríamos quando tivéssemos qualquer problema para resolver?

Quer se tratasse de chamar a polícia ou uma ambulância, de falar com o Ministro da Economia ou com uma funcionária da Câmara Municipal de Pinhel, de chamar a brigada de esgotos da autarquia ou de solicitar uma informação ao ICEP, começaríamos sempre por ligar para lá, e só em seguida seríamos reencaminhados para o serviço competente.

Absurdo, não é verdade?

Todavia, é exactamente isso que o nosso e vários outros governos estão a fazer quando criam os chamados portais do cidadão.

Dir-se-á que é uma maneira de nos ajudar a encontrar o que procuramos no labirinto da net. Mas será que, na era do Googgle, alguém precisa que o Estado, que não sabe o que é feito do seu património imobiliário, nos mostre o caminho?

Com esta técnica de afunilamento, o que se consegue é criar sites pesadíssimos e lentos. Vendo bem, talvez seja mais rápido ir a pé.

Uma das grandes vantagens da internet é promover a descentralização e, por conseguinte, facilitar o contacto directo entre pessoas e instituições. Será que o Estado português não entende isto?

Próximo passo: criar o Blog do Cidadão com base no Abrupto.



24.3.04

Foi como invadir o México depois do ataque japonês a Pearl Harbour

O livro Against All Enemies de Richard Clarke, ex-Coordenador Nacional da Casa Branca para a Segurança, a Protecção de Infraestruturas e o Contra-Terrorismo no Conselho Nacional de Segurança do Presidente revela-nos como funciona a Administração Bush. A realidade confirma e supera o que se suspeitava.

Eis um extracto elucidativo:

By the afternoon on Wednesday (no dia seguinte ao 11 de Setembro), Secretary Rumsfeld was talking about broadening the objectives of our responses and "getting Iraq." Secretary Powell pushed back, urging focus on al Qaeda. Relieved to have some support, I thanked Colin Powell and his deputy, Rich Armitage. "I thought I was missing something here," I vented. "Having been attacked by al Qaeda, for us now to go bombing Iraq in response would be like our invading Mexico after the Japanese attacked us at Pearl Harbour."


Cordula Guedemann: La deutsche vita, 2000-01

22.3.04

Interesses e princípios

A ideia, recentemente reiterada pelo Liberdade de Expressão a propósito das sequelas do 11-M, segundo a qual «os países não têm princípios, têm interesses» parece muito plausível até ao momento em que nos interrogamos sobre como se define um interesse, como se conclui que certos países têm certos interesses e que vias adoptam esses países para decidir quais são os seus verdadeiros interesses.

Mais um bocadinho, e começa-se a perceber que, para os países como para as pessoas, adoptar princípios como regras de conduta pode poupar muita maçada, muito tempo e muita disputa inconclusiva.

Se não estou em erro, os liberais um bocadinho mais sofisticados já descobriram isto há muito tempo.

A não perder

Já tiveram oportunidade de visitar as chamadas «acessibilidades» dos novos estádios do Benfica e do Sporting?

Complicadas, perigosas, incompreensíveis -- trata-se de autênticos monumentos à estupidez nacional.

O Bin Laden de Israel

Tem razão o embaixador de Israel em Portugal quando diz que o seu país acaba de eliminar o seu Bin Laden. Quem tem o direito de criticá-los por isso?

Acaso ouviríamos as mesmas condenações unânimes se -- como, aliás, eu acredito que já aconteceu -- soldados americanos aniquilassem Bin Laden?

O xeque Yassin era, evidentemente, um alvo militar legítimo, dado que travava uma guerra aberta, embora suja e desleal, contra o estado de Israel.


Vieira da Silva: O sono, 1968-69.