Os políticos sempre tiveram opiniões muito sólidas sobre o modo como as empresas deveriam ser geridas.
Chegou agora a vez de os empresários ocuparem o seu tempo a redigir planos para administrar o Estado.
Toda esta gente falhou claramente a sua vocação.
E que tal se trocassem? O país certamente não melhoraria, mas nós ríamo-nos um bocadinho.
29.4.04
26.4.04
A lógica é uma chatice
«Eles mentem, eles perdem.»
Será por isso que, até hoje, o Bloco perdeu todas as eleições a que concorreu?
Será por isso que, até hoje, o Bloco perdeu todas as eleições a que concorreu?
Ensaio sobre a lucidez
Fez ontem 30 anos que Vasco Pulido Valente nos inflige periodicamente os seus ensaios sobre o 25 de Abril. Para comemorar a efeméride, publicou mais um no DN.
O mundo é confuso e o ser humano não é boa peça. Armado destas surpreendentes trivialidades, o valente Pulido está sempre pronto para dissertar sabiamente sobre todo e qualquer assunto sem correr grandes riscos de se enganar. Com a condição, obviamente, de jamais se deixar envolver por qualquer acontecimento ou influenciar por qualquer personagem real.
Apesar de todo o tempo que já teve para meditar sobre o assunto, a mensagem permanece pobre e a análise superficial. Mas escreve muito bem -- oh que bem que ele escreve! -- e, no país de iletrados que nós somos, a forma pesa muito mais do que a substância.
Vasco é mais um desses talentos indisciplinados em que somos férteis, como a Agustina ou o Luís Pacheco. Incapazes de trabalho sólido e pertinaz, não deixam nada de substancial atrás de si, excepto ruído e fúria -- e a inabalável convicção do seu próprio génio. Português, demasiado português.
De resto, tudo o que ele escreve sobre o 25 de Abril poderia sê-lo por alguém que apenas dele teve conhecimento num país distante pela leitura dos jornais. Único entre todos os portugueses, ele jamais se comoveu ou deixou iludir. Porque, ao contrário de todos nós, ele é essencialmente lúcido.
Mais um que nunca se enganou e raramente teve dúvidas -- ou será ao contrário?
O seu assunto pouco interessa, porque ao fim e ao cabo se limita a falar de si mesmo, ou melhor, da sua auto-imagem, sem suspeitar um momento que isso só lhe importa a ele.
(O melhor exemplo do que digo foi a descomposta nota que há poucos meses teve a infeliz ideia de enviar da cama do hospital a «arrasar» o best-seller de Miguel Sousa Tavares, como se disso dependesse a salvação do mundo.)
Todos os autênticos estalinistas que conheci eram assim. Para eles, o mundo divide-se em duas partes incomunicáveis: de um lado estão os outros, pobres tolos fantasistas que interminavelmente perseguem as abomináveis ilusões a que dão o nome de felicidade, sem recuarem perante a estupidez ou o crime; do outro lado estão eles, só eles e eles sós, irredutíveis na sua lucidez, na sua recusa da emoção, na sua lógica fria e incorruptível.
Eles são os guardiões da verdade, são puros, incorruptíveis no raciocínio e inabaláveis nos princípios. O preço que pagam para conservarem o respeito por si próprios é o cinismo.
Falta todavia explicar o mistério da extraordinária aceitação de que as suas doentias elucubrações disfruta nos nossos círculos dirigentes.
Desde a mais remota antiguidade, as cortes sempre tiveram um personagem estranho cujos comportamentos e ideias excêntricas serviam para exorcizar os demónios -- jester, chamavam-lhes os ingleses. Conjecturo eu que uma sociedade atrasada e supersticiosa como a nossa também não pode dispensar uma figura assim.
O mundo é confuso e o ser humano não é boa peça. Armado destas surpreendentes trivialidades, o valente Pulido está sempre pronto para dissertar sabiamente sobre todo e qualquer assunto sem correr grandes riscos de se enganar. Com a condição, obviamente, de jamais se deixar envolver por qualquer acontecimento ou influenciar por qualquer personagem real.
Apesar de todo o tempo que já teve para meditar sobre o assunto, a mensagem permanece pobre e a análise superficial. Mas escreve muito bem -- oh que bem que ele escreve! -- e, no país de iletrados que nós somos, a forma pesa muito mais do que a substância.
Vasco é mais um desses talentos indisciplinados em que somos férteis, como a Agustina ou o Luís Pacheco. Incapazes de trabalho sólido e pertinaz, não deixam nada de substancial atrás de si, excepto ruído e fúria -- e a inabalável convicção do seu próprio génio. Português, demasiado português.
De resto, tudo o que ele escreve sobre o 25 de Abril poderia sê-lo por alguém que apenas dele teve conhecimento num país distante pela leitura dos jornais. Único entre todos os portugueses, ele jamais se comoveu ou deixou iludir. Porque, ao contrário de todos nós, ele é essencialmente lúcido.
Mais um que nunca se enganou e raramente teve dúvidas -- ou será ao contrário?
O seu assunto pouco interessa, porque ao fim e ao cabo se limita a falar de si mesmo, ou melhor, da sua auto-imagem, sem suspeitar um momento que isso só lhe importa a ele.
(O melhor exemplo do que digo foi a descomposta nota que há poucos meses teve a infeliz ideia de enviar da cama do hospital a «arrasar» o best-seller de Miguel Sousa Tavares, como se disso dependesse a salvação do mundo.)
Todos os autênticos estalinistas que conheci eram assim. Para eles, o mundo divide-se em duas partes incomunicáveis: de um lado estão os outros, pobres tolos fantasistas que interminavelmente perseguem as abomináveis ilusões a que dão o nome de felicidade, sem recuarem perante a estupidez ou o crime; do outro lado estão eles, só eles e eles sós, irredutíveis na sua lucidez, na sua recusa da emoção, na sua lógica fria e incorruptível.
Eles são os guardiões da verdade, são puros, incorruptíveis no raciocínio e inabaláveis nos princípios. O preço que pagam para conservarem o respeito por si próprios é o cinismo.
Falta todavia explicar o mistério da extraordinária aceitação de que as suas doentias elucubrações disfruta nos nossos círculos dirigentes.
Desde a mais remota antiguidade, as cortes sempre tiveram um personagem estranho cujos comportamentos e ideias excêntricas serviam para exorcizar os demónios -- jester, chamavam-lhes os ingleses. Conjecturo eu que uma sociedade atrasada e supersticiosa como a nossa também não pode dispensar uma figura assim.
24.4.04
O revisionismo histórico está activo
«Tanto que devemos a tão poucos», escreve hoje José Manuel Frenandes no Público, querendo com isso dizer que, em 25 de Abril de 1974, algumas dezenas de capitães ofereceram a liberdade aos portugueses numa bandeja.
Esta mistificação histórica é tão antiga como a data que está na sua origem. Muitos recordar-se-ão ainda que ela foi inventada pelo PCP para legitimar a chamada aliança Povo-MFA.
Ao anoitecer do dia 25 de Abril, ninguém sabia em Portugal que espécie de regime queriam os militares para Portugal. Por isso se deve dizer que o 25 de Abril não instaurou a democracia, instaurou uma oportunidade. Foi nosso mérito colectivo termos sabido aproveitá-la com entusiasmo e ousadia -- mas também, vistas as coisas à distância, com muito bom senso.
Durante breves semanas, a nação tornou-se numa noção palpável, em vez de um conceito abstracto e intangível. Vimo-nos e encontrámo-nos uns aos outros, sacudimos o torpor e pusémo-nos em movimento.
Em seguida, o pai enfrentou o filho, o irmão separou-se da irmã, o vizinho divergiu do vizinho. Depois de aprendermos a viver em sintonia, tivemos que aprender a viver em confronto sem necessariamente nos agredirmos.
Esta segunda etapa foi muito mais difícil, mas também incomparavelmente mais valiosa.
É disso que hoje nos deveríamos fundamentalmente orgulhar, pondo definitivamente de parte esses mitos sebásticos do MFA salvador que desembocou no Largo do Carmo numa manhã de nevoeiro para libertar o pobre povo português.
Esta mistificação histórica é tão antiga como a data que está na sua origem. Muitos recordar-se-ão ainda que ela foi inventada pelo PCP para legitimar a chamada aliança Povo-MFA.
Ao anoitecer do dia 25 de Abril, ninguém sabia em Portugal que espécie de regime queriam os militares para Portugal. Por isso se deve dizer que o 25 de Abril não instaurou a democracia, instaurou uma oportunidade. Foi nosso mérito colectivo termos sabido aproveitá-la com entusiasmo e ousadia -- mas também, vistas as coisas à distância, com muito bom senso.
Durante breves semanas, a nação tornou-se numa noção palpável, em vez de um conceito abstracto e intangível. Vimo-nos e encontrámo-nos uns aos outros, sacudimos o torpor e pusémo-nos em movimento.
Em seguida, o pai enfrentou o filho, o irmão separou-se da irmã, o vizinho divergiu do vizinho. Depois de aprendermos a viver em sintonia, tivemos que aprender a viver em confronto sem necessariamente nos agredirmos.
Esta segunda etapa foi muito mais difícil, mas também incomparavelmente mais valiosa.
É disso que hoje nos deveríamos fundamentalmente orgulhar, pondo definitivamente de parte esses mitos sebásticos do MFA salvador que desembocou no Largo do Carmo numa manhã de nevoeiro para libertar o pobre povo português.
23.4.04
Abril é reinação
Para o Bloco de Esquerda, o 25 de Abril é uma espécie de Disneylândia, reino do sonho e da fantasia, paraíso perdido da inocência revolucionária.
Promiscuidade entre os media e o futebol
Não há muitos anos, um presidente do Sporting e outro do Benfica foram julgados e condenados por crimes cometidos ao comando dessas agremiações desportivas.
Em Portugal só há três clubes que mexem em dinheiro a sério. Dir-se-ía que dois em três é uma boa proporção em termos de combate à corrupção, até porque em nenhum sector da vida portuguesa se atingiu nada que se pareça com essa marca.
Julgava eu, por conseguinte, que a fiscalização de eventuais irregularidades nos clubes de futebol já tinha começado há muito tempo. Trata-se inclusivamente do único sector da economia para o qual o Ministério das Finanças criou uma comissão especial destinada a fiscalizar as eventuais dívidas ao fisco, embora se saiba que essa severidade não foi suficiente para evitar o sistemático incumprimento por parte do Benfica.
Isso era o que eu pensava. Mas os media, explicaram-nos que agora, com os casos do Gondomar SC e dos Dragões Sandinistas, é que finalmente começou a «limpeza do futebol». Ouvi inclusivamente na TSF duas notórias especialistas na matéria, Clara Ferreira Alves e Constança Cunha e Sá, asseverarem que esta é a melhor forma de comemorarmos o 25 de Abril.
A razão de todo este alvoroço resulta de Valentim Loureiro, ao que parece, ser suspeito de ter favorecido Pinto da Costa (não seria antes o F.C. Porto?) numa decisão da Comissão Disciplinar da Liga da Clubes.
Num jornal como o Público, supostamente o último farol da seriedade na imprensa diária portuguesa, a notícia do dia foi mesmo a suposta acusação contra Pinto da Costa, e não a prisão de Valentim Loureiro. Daí para baixo, foi sempre a piorar.
Bastou ser falado o nome de Pinto da Costa para que aos facciosos do costume lhes cheirasse logo a sangue. Pois desejo-lhes, como habitualmente, muito boa sorte.
P.S. - Declaração de conflito de interesses: para que conste, sou adepto e associado do F.C. Porto.
Em Portugal só há três clubes que mexem em dinheiro a sério. Dir-se-ía que dois em três é uma boa proporção em termos de combate à corrupção, até porque em nenhum sector da vida portuguesa se atingiu nada que se pareça com essa marca.
Julgava eu, por conseguinte, que a fiscalização de eventuais irregularidades nos clubes de futebol já tinha começado há muito tempo. Trata-se inclusivamente do único sector da economia para o qual o Ministério das Finanças criou uma comissão especial destinada a fiscalizar as eventuais dívidas ao fisco, embora se saiba que essa severidade não foi suficiente para evitar o sistemático incumprimento por parte do Benfica.
Isso era o que eu pensava. Mas os media, explicaram-nos que agora, com os casos do Gondomar SC e dos Dragões Sandinistas, é que finalmente começou a «limpeza do futebol». Ouvi inclusivamente na TSF duas notórias especialistas na matéria, Clara Ferreira Alves e Constança Cunha e Sá, asseverarem que esta é a melhor forma de comemorarmos o 25 de Abril.
A razão de todo este alvoroço resulta de Valentim Loureiro, ao que parece, ser suspeito de ter favorecido Pinto da Costa (não seria antes o F.C. Porto?) numa decisão da Comissão Disciplinar da Liga da Clubes.
Num jornal como o Público, supostamente o último farol da seriedade na imprensa diária portuguesa, a notícia do dia foi mesmo a suposta acusação contra Pinto da Costa, e não a prisão de Valentim Loureiro. Daí para baixo, foi sempre a piorar.
Bastou ser falado o nome de Pinto da Costa para que aos facciosos do costume lhes cheirasse logo a sangue. Pois desejo-lhes, como habitualmente, muito boa sorte.
P.S. - Declaração de conflito de interesses: para que conste, sou adepto e associado do F.C. Porto.
22.4.04
Abril é evolução
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
Caíu mais um pedaço do Muro de Berlim
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
O fim da história
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
Descoberta a quarta via
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
A caminho da convergência real
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
Um case-study de sucesso empresarial à portuguesa
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
Deixem em paz o Valentim
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
Empreendedorismo de vento em popa
A espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
O que faltou à mulher de César foi um bom assessor de imprensa
A empresa espanhola Iberdrola confirmou hoje à agência Lusa que o ex-ministro das Finanças e da Economia Joaquim Pina Moura vai gerir os investimentos da eléctrica em Portugal.
21.4.04
Empreendedorismo e cleptocracia
Tanto quanto consigo avaliar, uma parte dos quadros técnicos portugueses dos sectores público e privado passam o seu tempo em seminários, conferências e mesas redondas.
Por muito insignificante que seja o tema, a afluência é sempre enorme, e ninguém arreda pé durante o dia todo. Quem sou para os criticar? Normalmente conhece-se gente interessante e, em termos práticos, também não se produz menos do que no escritório.
Há dias assisti a um pow-wow sobre o momentoso problema do empreendedorismo. Como não podia deixar de ser, um professor universitário presente sugeriu que se lançassem iniciativas destinadas a - adivinharam! - sensibilizar os jovens para a importância do empreendedorismo e motivá-los para correrem riscos.
Mas será preciso? Sempre ouvi dizer que, nas mais variadas sociedades, as pessoas com perfil empreendedor representam uma proporção aproximadamente constante da população. Essa percentagem só aumenta significativamente nos países com uma elevada taxa de imigração.
Logo, o grande problema não é fomentar o empreendedorismo, mas assegurar que os seus efeitos são úteis para a sociedade.
Eu explico. Após a queda da União Soviética constatou-se que os russos têm um fortíssimo instinto empreendedor; lamentavelmente, porém, canalizam-no principalmente para actividades ilícitas. O resultado foi a criação em pouco mais de uma década de uma poderosa e tentacular cleptocracia que, não tarda muito, atacará a mafia americana -- instalada, abúlica e pouco competitiva -- no seu próprio terreno.
Passa-se algo semelhante entre nós, visto que os portugueses revelam um notável espírito de iniciativa. Todavia, preferem aplicá-lo em actividades anti-sociais: fuga aos impostos, contrabando de tabaco, caça organizada a todo o género de subsídios, suborno de autarcas para obter autorizações para construir em zonas protegidas, etc., etc., etc.
Alguns dos casos de corrupção revelados nos últimos tempos revelam mesmo uma notável aliança entre imaginação e alta tecnologia, como por exemplo a fraude nas portagens da Brisa.
Apetece-me recordar mais uma vez a inutilidade dos sermões: as pessoas comportam-se consoante os incentivos que recebem. O que os jovens vêm é que, em Portugal, raramente se triunfa na vida por meios legítimos. As grandes fortunas portuguesas são as mesmas de há 30 anos, de há 100 anos ou de há 200 anos e, na maioria dos casos, têm origem em negócios de algum modo ligados à escravatura.
As alternativas válidas são, pois, nascer na família certa, arranjar um bom padrinho e fazer carreira à sua sombra ou, quando essas alternativas falham, encarar a lei de forma descontraída.
O empreendedorismo não é necessariamente uma coisa boa para a sociedade. Depende do que ela for capaz de fazer com ele.
Por muito insignificante que seja o tema, a afluência é sempre enorme, e ninguém arreda pé durante o dia todo. Quem sou para os criticar? Normalmente conhece-se gente interessante e, em termos práticos, também não se produz menos do que no escritório.
Há dias assisti a um pow-wow sobre o momentoso problema do empreendedorismo. Como não podia deixar de ser, um professor universitário presente sugeriu que se lançassem iniciativas destinadas a - adivinharam! - sensibilizar os jovens para a importância do empreendedorismo e motivá-los para correrem riscos.
Mas será preciso? Sempre ouvi dizer que, nas mais variadas sociedades, as pessoas com perfil empreendedor representam uma proporção aproximadamente constante da população. Essa percentagem só aumenta significativamente nos países com uma elevada taxa de imigração.
Logo, o grande problema não é fomentar o empreendedorismo, mas assegurar que os seus efeitos são úteis para a sociedade.
Eu explico. Após a queda da União Soviética constatou-se que os russos têm um fortíssimo instinto empreendedor; lamentavelmente, porém, canalizam-no principalmente para actividades ilícitas. O resultado foi a criação em pouco mais de uma década de uma poderosa e tentacular cleptocracia que, não tarda muito, atacará a mafia americana -- instalada, abúlica e pouco competitiva -- no seu próprio terreno.
Passa-se algo semelhante entre nós, visto que os portugueses revelam um notável espírito de iniciativa. Todavia, preferem aplicá-lo em actividades anti-sociais: fuga aos impostos, contrabando de tabaco, caça organizada a todo o género de subsídios, suborno de autarcas para obter autorizações para construir em zonas protegidas, etc., etc., etc.
Alguns dos casos de corrupção revelados nos últimos tempos revelam mesmo uma notável aliança entre imaginação e alta tecnologia, como por exemplo a fraude nas portagens da Brisa.
Apetece-me recordar mais uma vez a inutilidade dos sermões: as pessoas comportam-se consoante os incentivos que recebem. O que os jovens vêm é que, em Portugal, raramente se triunfa na vida por meios legítimos. As grandes fortunas portuguesas são as mesmas de há 30 anos, de há 100 anos ou de há 200 anos e, na maioria dos casos, têm origem em negócios de algum modo ligados à escravatura.
As alternativas válidas são, pois, nascer na família certa, arranjar um bom padrinho e fazer carreira à sua sombra ou, quando essas alternativas falham, encarar a lei de forma descontraída.
O empreendedorismo não é necessariamente uma coisa boa para a sociedade. Depende do que ela for capaz de fazer com ele.
2º round da perseguição aos «poderosos»
O tema da Casa Pia estava a morrer um pouco -- por coincidência, ou talvez não, Proença de Carvalho anunciou hoje a renúncia à defesa das vítimas -- de modo que a PJ, principal fornecedora de conteúdos para os tablóides televisivos, tinha a estrita e patriótica obrigação de arranjar outra coisa, não fosse dar-se o caso de os telejornais começarem a abordar assuntos importantes.
Desta vez, os «poderosos» são, para já, o Gondomar S.C. e os Dragões Sandinistas.
Abriguem-se, que vem aí mais uma tempestade de conversa da treta.
Para começar, hoje o tema de um fórum na TSF era este: «Acha que, nas vésperas do Euro 2004, a prisão de dirigentes ligados ao futebol pode prejudicar a imagem do país lá fora?» A invencível brigada da estupidez ataca de novo.
Desta vez, os «poderosos» são, para já, o Gondomar S.C. e os Dragões Sandinistas.
Abriguem-se, que vem aí mais uma tempestade de conversa da treta.
Para começar, hoje o tema de um fórum na TSF era este: «Acha que, nas vésperas do Euro 2004, a prisão de dirigentes ligados ao futebol pode prejudicar a imagem do país lá fora?» A invencível brigada da estupidez ataca de novo.
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