29.9.04



Roy Lichtenstein.

28.9.04

No desaniversário de Isaiah Berlin



O que mais me agrada em Isaiah Berlin é o que de mais convencionalmente judeu há nele, ou seja, aquelas mesmas qualidades que tanto desagradam aos anti-semitas: a incapacidade de se sentir completamente em casa em qualquer lugar ou doutrina particular e, por decorrência, a crença na importância da pluralidade dos valores e a recusa a reduzir a vida intelectual e moral a rígidos esquemas abstractos.

Berlin gostava de dizer que se sentia uma espécie de taxista: incapaz de se decidir por tomar um rumo bem definido enquanto não aparecesse alguém que lhe dissesse: «Leve-me a tal sítio» ou «Siga aquele carro».

As suas tentativas de produzir um pensamento filosófico coerente não me impressionam. Tampouco encontro grande valor na distinção que propôs no seu Essay on Liberty entre liberdade negativa e liberdade positiva. Não recomendo a ninguém que siga em detalhe a intrincada argumentação com que tentou fundamentar a sua tese, porque é tempo perdido.

Ao que dizem, Berlin foi um notável orador, tanto pela sua presença física como pela sua capacidade de apresentar um assunto sob diversos e inesperados ângulos. Muitos dos seus escritos traem uma origem oral, o que, embora lhes confira um tom informal e despretensioso, nem sempre é um mérito. No seu ensaio sobre Maquiavel, por exemplo, as contínuas repetições da ideia essencial segundo a qual o florentino seria um proponente convicto de uma ética pagã em confronto aberto com a convencional ética cristã acabam por se tornar maçadoras para quem o lê.

Tampouco vejo Berlin como um grande historiador de ideias, na medida em que, fixando-se demasiado em determinadas personalidades chave, e atribuindo uma importância excessiva à sua contribuição individual, ele parece incapaz de seguir o fio de uma ideia, desde o seu surgimento até à sua decadência, passando pelas suas diversas fases de desenvolvimento, saltando de cabeça em cabeça e de escola em escola.

Berlin é talvez mais interessante quando revela a importância de pensadores relativamente (e talvez injustamente) desconhecidos como Vico, Hamman ou de Maistre e nos mostra o modo subtil como eles anteciparam formas de pensamento que lograram influenciar o curso da história contemporânea.

Li recentemente que Berlin teria talvez sido um personagem menor se não fossem três ocorrências decisivas na sua vida: o seu envolvimento com a fundação do Estado de Israel; o seu trabalho diplomático tendo em vista persuadir os americanos a entrarem na Guerra ao lado da Grã-Bretanha; e, finalmente, a ligação que estabeleceu com os intelectuais russos após 1945, num momento particularmente negro da repressão estalinista.

Eis, pois, mais um homem infinitamente superior à obra escrita que nos deixou.


Art Spiegelman.

27.9.04

A nobre missão de informar

O DN Negócios de hoje anuncia na página 3 que a RTP teve os seus primeiros resultados positivos em mais de dez anos. Uau! Como é que eles conseguiram isso?

No corpo do artigo lemos o seguinte: «A estação estatal obteve um resultado consolidado líquido de 4 milhões no 1º semestre de 2004, depois de ter registado 52 milhões de euros de prejuízos no período homólogo de 2003».

Bom, afinal são só os resultados de um semestre, não de um ano completo. Mas, mesmo assim...

Porém, eis que, logo de seguida, o jornalista admite que afinal o resultado foi beneficiado pela venda do edifício da 5 de Outubro por 18,4 milhões de euros. É uma pena não se poder vender o edifício todos os anos, não é verdade? Seja como for, esta pequena correcção já transforma o alegado lucro de 4 milhões num prejuízo de 14,4 milhões.

Mas há mais, porque o jornalista incluiu também no «lucro» as indemnizações compensatórias pagas pelo Estado no valor de 60,1 milhões de euros. E o que compensam as indemnizações compensatórias? - Pois compensam a RTP, obviamente, pelo prejuízo resultante dos custos inerentes à prestação do seu pretenso serviço público.

Por conseguinte, vamos já num prejuízo real de 74,5 milhões de euros em metade de 2004. Tendo em conta que, antes de estes magos terem tomado posse, o déficite anual da RTP rondava os 100 milhões de euros, confesso que não estou impressionado, tanto mais que, entretanto, a taxa paga pelos consumidores de electricidade passou a reverter inteiramente em favor da RTP.

Em contrapartida, não posso deixar de felicitar os autores da peça, de seus nomes Cátia Almeida e Miguel Gaspar. Eles, sim, deveriam ser imediatamente nomeados para o Conselho de Gestão da RTP pela sua milagrosa capacidade de transformar a água em vinho.

24.9.04

Por falar em falácias

John Kay esta semana no Financial Times: «The notion that there is some abstract entity called the economy, which is distinct from the welfare of the people who live in it, is a crude materialistic fallacy. Gross domestic product is not an end in itself and the government budget is not a profit and loss account.»

O resto do artigo pode ser lido aqui.


Art Spiegelman.

Pânico em Seattle

«Estamos francamente preocupados com as notícias que nos chegam de Lisboa», declarou hoje Bill Gates em Seattle, sede da multinacional americana de software Microsoft.

«Se um grupo de algumas centenas de pessoas conseguir de facto fazer em 10 dias o que um computador não logrou em seis meses, escuso de sublinhar a gravidade da situação para nós. Este sistema de informática manual ameaça concorrer seriamente com os nossos produtos. Pura e simplesmente, não estamos em condições de concorrer contra um computador humano.»

Quando alguns jornalistas lhe perguntaram se esta situação não revelaria que o sucesso passado da empresa a teria tornado complacente e desatenta às manobras da concorrência, perdendo por isso a liderança tecnológica para o Estado português, Gates reagiu assim: «Faço notar que, dados o baixo nível dos salários portugueses e o elevado déficite público do país, há fortes indícios de que estejamos perante um caso de dumping. Vamos pedir ao Departamento Federal de Comércio que investigue o caso e, se essa suspeita se confirmar, apresente um protesto formal perante o governo português.»

Confrontado com estas declarações, o primeiro-ministro português Santana Lopes reagiu com evidente desagrado. «A reacção deselegante do senhor Bill Gates só mostra que o atingimos num ponto sensível. O Governo está a conseguir mobilizar os portugueses para fazerem coisas novas que enchem o mundo de espanto. Como no tempo dos Descobrimentos, voltámos a ser motivo de admiração universal, mas também de inveja. É assim a vida.»

23.9.04

Lógicas divergentes

O quase em português demonstra irrefutavelmente algo que eu apenas intuira: o computador da Compta não foi programado para entender a lógica portuguesa. Daí toda esta confusão.

Abençoado seja esse blogue por não conseguir raciocinar "inteiramente em português".

22.9.04



Art Spiegelman.

À unha, à unha

Será verdade que os povos aprendem com o exemplo? Se for, já estou daqui a imaginar as consequências da decisão da Ministra da Educação de realizar à mão o trabalho de distribuição dos professores pelas escolas. As escavadoras serão substituidas por colheres de sopa, as camionetas por burros, os emails por pombos-correios.

Este caso tem, apesar de tudo, o mérito de permitir a todo o país perceber uma quantidade de coisas, entre elas as causas da nossa baixa produtividade. Torna-se evidente, por exemplo, que de nada vale pôr um conjunto de pessoas a trabalhar dia e noite durante meses a fio, até cairem para o lado, se os dirigentes não têm a mínima ideia do que estão a fazer.

A organização eficiente do trabalho depende em grande medida da sensatez dos objectivos e da adequação dos instrumentos utilizados à tarefa proposta. Ora não é efectivamente sensato centralizar a decisão de distribuir os professores na 5 de Outubro.

A complexidade de um sistema aumenta exponencialmente à medida que cresce o número dos seus elementos (lei de Metcalf). Por conseguinte, quando estamos a lidar com centenas de escolas e dezenas de milhar de professores avaliados segundo múltiplos parâmetros, mesmo o mais poderoso computador terá dificuldade em enfrentar tais níveis de complexidade, sobretudo se as regras de distribuição forem elas próprias confusas.

Nestas condições, aquilo que cada escola individualmente resolveria com uma simples folha de Excel transforma-se numa missão virtualmente impossível para um super-programa a correr num super-computador.

Os computadores podem ser uma extraordinária ferramenta ao serviço da produtividade das organizações, se se aproveitar a sua introdução para simplificar e racionalizar os métodos de trabalho. Quando os procedimentos são estúpidos e complicativos, enfiá-los num computador só aumenta a rigidez do sistema, na medida em que impede o desenrascanço que entre nós usualmente mantém as coisas a trabalhar.

Interrogam-se os nossos sábios porque é que os portugueses se dão tão mal com a Matemática. O estrondoso fracasso dos computadores do Ministério da Educação sugere que, afinal, essa nossa indiferença revela um saudável bom-senso. Talvez a Matemática funcione bem lá na América ou na Alemanha, mas cá, manifestamente, não se aplica. Modernices...

21.9.04

Oremos

Se a Igreja Católica tivesse sido inventada por portugueses, podemos estar certos de que nunca funcionaria.

Um fiel dirigia-se ao confessionário e narrava os seus pecados, tal e qual como agora sucede, mas, quando pedia a absolvição, o padre retorquia-lhe: «Alto lá! Isso agora mais devagar! Tem que fazer um requerimento ao Papa e depois aguardar uma resposta.»

«E a resposta vem depressa? É que, se eu morro entretanto, corro o risco de ir parar ao Inferno.»

«Aí é que já não é comigo... Tem que ter paciência... Demora o que tem que demorar, porque há muito serviço acumulado e ouvi dizer que as listas de espera estão a aumentar todos os dias. Mas olhe, não perca mais tempo com lamúrias: vá já à sacristia buscar o impresso, porque depois de preenchê-lo ainda tem que reconhecer a assinatura no notário. E, quando mandar pelo correio, junte a declaração do IRS, para provar que está isento de taxa moderadora.»

Entretanto, lá no Vaticano, as listas de espera iam de facto crescendo. Um estrangeirado, desses que estudaram nos EUA, alvitrava que, para pôr cobro ao estrangulamento e salvar mais almas, fosse delegado nos padres o poder de perdoar os pecados.

Noutros tempos, esse herege seria queimado numa fogueira, mas agora, em pleno século XXI, os tugas de serviço limitar-se-iam a rir-se-lhe na cara por se atrever a sugerir que um poder tão transcendente poderia ser cometido a um qualquer sacerdote de base.

Além disso, explicariam eles, a descentralização do poder de decisão conduziria inevitavelmente ao crescimento da corrupção. Pois não se estava mesmo a ver que os padres começariam a extorquir dinheiro, galinhas ou presuntos aos paroquianos a troco da entrada no Reino dos Céus?

Pois é assim mesmo: Deus delega a responsabilidade do perdão dos nossos pecados a qualquer pároco de aldeia, mas o Ministério da Educação de Portugal não permite às escolas recrutarem livremente os professores de que necessitam.

18.9.04



Robert Crumb.

«Um mestre de categoria»

Fartos das baboseiras que regularmente se ouvem e lêem sobre o que está mal no ensino, alguns bloggers deitaram mãos à patriótica missão de contar o que de facto se passa nas salas de aulas das nossas universidades. Agora, foi a vez da Turing Machine nos relatar uma história edificante.

Como também eu sou professor, sei de ciência certa que no nosso ensino superior predominam ainda e sempre o autoritarismo e a ausência de pedagogia, e não a cedência à alegada preguiça dos alunos.

Abençoados os pobres de espírito

Sabe-se que João Carlos Espada, nesse aspecto fiel ao seu leninismo original, mantém uma relação paranóica com a realidade. Não se deve, pois, ligar muito ao que ele diz.

Hoje, porém, foi demasiado longe quando escreveu na sua coluna do Expresso que a cultura política britânica «fez todas as revoluções da época moderna sem nunca recorrer à Revolução».

Será possível Espada ignorar que em 1642, século e meio antes da Revolução Francesa, os ingleses cortaram a cabeça ao seu rei Carlos I? Nunca terá ouvido falar da ditadura de Cromwell e dos seus Cabeças Redondas? Desconhece a guerra civil sangrenta que assolou o país até 1660 e que depois, de forma intermitente, se prolongou até à Gloriosa Revolução de 1688, data em que uma intervenção estrangeira finalmente pôs termo à desordem e ao caos? Não sabe que o reinado do terror, com o massacre sistemático de populações civis inteiras, durou lá muito mais tempo do que em França?

A honestidade intelectual nunca foi o forte de Espada. Mas pode ao menos guardar a ignorância só para si.

No desaniversário de John Stuart Mill




James Mill, o pai de John Stuart Mill, foi, a par de Bentham, uma das figuras de proa do utilitarismo, uma filosofia política radical inspirada no iluminismo e no republicanismo francês.

James orientou toda a educação do seu filho segundo as rígidas normas dos princípios filosóficos dos utilitarismo. John, uma criança prodígio, começou a aprender grego aos três anos de idade e latim aos oito. Com doze anos escrevia pequenos tratados de história antiga. Aos treze dedicou-se ao estudo da lógica, de que em breve se tornou um grande especialista. Com tudo isto, não convivia praticamente com crianças da sua idade fora do ambiente familiar.

Ao entrar na idade adulta, apercebeu-se subitamente de que se tornara num pequeno monstro por força da ausência de uma educação sentimental adequada. Descobriu que não tinha objectivos na vida e mergulhou numa profunda depressão.

A pouco e pouco conseguiu libertar-se da ideias do seu pai. Mas foi o seu encontro com Harriett Taylor que de facto mudou a sua vida. Harriett era, para escândalo geral, uma mulher casada, com quem só pôde contrair matrimónio muitos anos mais tarde.

Mill descobriu que o hábito ou mania da análise tende a destruir os sentimentos e que a aceitação de leis rígidas, morais ou outras, estiola o pensamento. Concluiu que as chamadas verdades morais universais não passam, as mais das vezes, de preconceitos disfarçados. Decidiu «renunciar definitivamente à perigosa palavra necessidade».

Concebeu então um sistema de pensamento liberal original, dado que o seu liberalismo era uma exigência, não uma doutrina. Segundo John Stuart Mill, a pluralidade não só de formas de pensar como de formas de viver torna-nos mais fortes, tanto individual como colectivamente, porque só o confronto de perspectivas distintas permite seleccionar as melhores e rejeitar as piores. É por isso que o princípio da proliferação é benéfico e deve ser promovido.

Isso coloca também exigências particulares a cada um de nós, dado que o valor das nossas opiniões tem que ser permanentemente provado em competição aberta.

Esta variante de liberalismo tem uma preferência evidente pelas formas de organização política que fomentam a expressão de ideais opostos, por muito subversivos que eles possam ser para a ordem vigente. Nessa medida, tende obviamente a simpatizar com a economia de mercado.

Todavia, não é possível deduzir daí recomendações específicas sobre, por exemplo, qual deverá ser o grau de intervenção do Estado na economia e de que modo ele deverá ser exercido.

Como o pluralismo de Stuart Mill admite a existência de sistemas de valores diferentes e conflituantes igualmente legítimos, não restringe o debate à discussão dos meios mais adequados à prossecução de propósitos supostamente absolutos e universais. Os valores podem e devem ser questionados, o que torna impossível a elaboração de programas políticos e sociais prontos a vestir.


Robert Crumb.

A excepcionalidade portuguesa

Tenho assistido, entre o perplexo e o divertido, à interminável saga da colocação dos professores. Repartir o stock de professores disponíveis pelas escolas é aparentemente tão difícil para a nossa nação valente e imortal como para a Agência Espacial Europeia colocar uma sonda em Marte.

E qual é a raiz do problema? - Pois, ao que parece, o programa do computador não funciona em condições.

É possível que sim. Mas eu, com base na minha experiência pessoal em situações de algum modo semelhantes, atrevo-me a conjecturar outra hipótese.

Ao que parece, o Ministério da Educação lançou um concurso, e várias empresas terão concorrido para fornecer o software pretendido. Ao analisar o caderno de encargos, suponhamos que uma das empresas concorrentes detectou vários erros ou imprecisões nas especificações. Além disso, pareceu-lhe que a complexidade das regras de colocação dos professores era de tal ordem, e as excepções e casos particulares tão numerosos, que o mais natural seria que, no decurso do trabalho, se viessem a descobrir situações de incompatibilidade lógica. Para piorar ainda mais coisas, o prazo proposto era extremamente restrito, não deixando tempo para a realização dos necessários testes.

Muito respeitosamente, chamou a atenção ao funcionário competente para estes problemas e pediu que eles fossem esclarecidos. A resposta poderia ter sido qualquer coisa deste género: «Meus caros amigos, se querem concorrer, apresentem a vossa proposta. Se não querem, saiam da fila, que não falta quem esteja disposto a fazer o trabalho».

Imaginemos ainda que o responsável máximo dessa empresa ponderou seriamente não concorrer. Mas depois pôs-se a pensar que todos os meses tinha que assegurar o salário de umas dezenas de pessoas, as quais por sua vez tinham mais uns quantos bicos para alimentar lá em casa. Depois de consultados os seus mais próximos colaboradores, decidiu correr o risco.

A empresa concorreu - e, para sua desgraça ganhou.

O pior foi depois. As piores suspeitas realizaram-se: à medida que o trabalho avançava, confirmava-se que as tolas regras inventadas por cabeças delirantes se contradiziam mutuamente em múltiplas situações. Os computadores não são tão inteligentes como as pessoas, mas, ao contrário dos burocratas, não toleram falhas de lógica.

Agora chegámos a esta situação de escândalo nacional e, já se sabe, há uma empresa que está lixada. Os jornais de hoje anunciam que a senhora ministra tenciona processá-la criminalmente. Leram bem: criminalmente. Desconfio que não deve ter sido nenhuma multinaciomal poderosa.

É claro que o que escrevi é apenas uma suposição, mas uma suposição baseada em situações que já presenciei de perto. Agora, pergunta-se, porque é que a administração pública se comporta de uma forma tão estúpida. É claro que há lá imensa gente capaz que poderia ter tratado do caso com outra competência, mas esses não estão envolvidos nestes processos. Ao leme estão, sim, os yes-man que prometem ao ministro coisas que uns e outro, na sua santa ignorância, não sabem ser impossíveis. No final, safam-se nas calmas atribuindo a culpa ao programa informático. Caso encerrado. E passam ao seguinte.

É claro que, para além de tudo isto, a questão de fundo reside nessa ideia peregrina de centralizar num departamento da 5 de Outubro a tarefa de alocar professores a escolas. Porque não hão-de as próprias escolas tratar disso, como se faz em todo o mundo? É claro que essa alternativa colocaria outros problemas, como por exemplo o risco do compadrio na contratação de docentes, mas isso resolve-se responsabilizando as escolas pelo seu desempenho.

Estranho, muito estranho mesmo, é não haver aparentemente um único partido que defenda publicamente esta solução. É isto a excepcionalidade portuguesa.

17.9.04

O Benfica nunca existiu

Sinto hoje uma irresistível tentação de vos dizer a verdade, mesmo se ela é irrelevante, mesmo se a própria noção de verdade deixou provavelmente de fazer sentido.

E a verdade é que o Benfica - esse conceito omnipresente na vida social portuguesa por virtude da permanente e sufocante pressão dos media - o Benfica, de facto, nunca existiu.

Ou, por outra: o Benfica existe, mas apenas na nossa delirante imaginação colectiva. É, como dizem os pós-estruturalistas, um significante sem significado, uma palavra sem referente, que voga por aí ao sabor das ondas hertzianas. O que não existe, nem nunca existiu, é o Glorioso Benfica, o Benfica Vitorioso, o Benfica de Eusébio e Coluna, o Benfica Campeão da Europa, do Mundo e Arredores.

Esse Benfica mítico é por inteiro uma realidade fabricada pelos media com base na montagem de alguns pedaços de filmes antigos cuja autenticidade jamais foi possível comprovar, até porque os poucos investigadores que se abalançaram a essa tarefa desapareceram em circunstâncias misteriosas. Os testemunhos de pessoas da época não merecem, por junto, qualquer credibilidade, visto que os próprios reconhecem ter estado embriagados nos dias em que os alegados acontecimentos milagrosos teriam tido lugar.

Mas, se assim é - perguntar-se-á - se tudo se baseia em truques cinematográficos e efeitos especiais porque é que não prossegue a falsificação nos dias de hoje? Ora, pela simples razão de que fica muito cara a manipulação de imagens necessária para transformar um conjunto de jogadores medíocres numa equipa campeã. Pura e simplesmente, a relação custo-benefício não é compensadora.

E, além disso, para quê ter tanto trabalho, se, hoje em dia, os benfiquistas se dão por satisfeitos só por serem campeões na pré-temporada? No seu medo do real, no seu pavor de toda e qualquer realidade sensível, eles criaram este gigantesco simulacro colectivo e vivem perfeitamente felizes no seu interior.

Valerá a pena acordá-los? Se calhar, não. Fica então combinado: não contem a ninguém.

Acerca do nacional-achadismo

Há uns bons vinte anos que António Barreto debita nos jornais a sua interminável lenga-lenga. É um bocado como as telenovelas: a gente passa três meses sem assistir a nenhum episódio, mas depois, quando retoma o contacto, verifica que não perdeu nada, porque a história continua a marcar passo.

Agora, deu em moer-nos o juízo há uma semana no público com uma catilinária cujo propósito não se vislumbra. Mas eis que hoje, de repente, sai-se com esta a propósito dos problemas do ensino da Matemática: «Eu não sei qual é a resposta. Só sei que está mal e que está errado.» Ora, boa noite. Se não sabe a resposta, nem tem nada para dizer, porque é que insiste em dizê-lo? Se ao menos o cantasse...

Um dos grandes problemas nacionais é o achadismo. Toda a gente se sente no direito de achar qualquer coisa e de maçar os compatriotas com as suas opiniões. Uma das características distintivas dos nossos media é que os comentaristas raramente se atêm aos domínios em que desfrutam de alguma competência (se é que a têm), coisa impensável nos países civilizados. É assim que temos que suportar Prado Coelho a discutir a globalização, Sousa Tavares a criticar a regionalização, Marcello a analisar a selecção nacional de futebol, Pulido Valente a debitar sobre política económica, e por aí fora. E estes, note-se bem, ainda são os melhores...

Entre nós, empresa cujo negócio não assenta nalguma espécie de renda de situação resultante do acesso privilegiado a algum activo escasso, nunca passa da cepa torta. Nos jornais esse bem escasso é o centímetro quadrado, na rádio ou na tv é o segundo, que são disputados com ferocidade canina, porque os achadores (ou serão achadiços?) adoptam a táctica de não deixar jogar o adversário, mantendo-o afastado da bola.

O importante é que todos os espaços disponíveis sejam ocupados por malta amiga - entenda-se: pessoal da mesma seita -, de forma a impedir que opiniões diversas possam exprimir-se. Não sei se já repararam que só em Agosto, quando os achadores profissionais se deslocam para outras pastagens, sobra algum espaço nos jornais para termos acesso às opiniões de gente que de facto entende o que de facto está em causa nos incêndios, na interrupção voluntária da gravidez ou na descentralização administrativa do país.

Silly season? Pelo contrário, é a única estação em que tomamos conhecimento de que há vida para além do cinzento país oficial.



Robert Crumb.