Há quase um mês, sem qualquer conhecimento directo do caso, arrisquei uma conjectura sobre as causas reais da universalmente famosa Crise das Listas.
«Eu bem disse» é uma coisa que nunca se deve dizer, mas eu vou dizê-la. Lendo os jornais de hoje (Público e DN, por exemplo) começamos a perceber o que de facto se passou. Eis um resumo retirado do DN:
1. O caderno de encargos do concurso falava de 70 mil candidatos, mas acabaram por ser 110 mil.
2. O Ministério apresentou 14 versões diferentes dos formulários de candidatura via electrónica.
3. A 26 de Março, o Ministério concluiu que não tinha capacidade para introduzir os dados no computador.
4. As regras interpretativas do diploma dos concursos foram sucessivamente alteradas. O primeiro documento, entregue a 12 de Abril, foi logo modificado a 19 e 29 do mesmo mês.
5. Após a publicação das primeiras listas provisórias, ocorreram 14 reuniões, algumas de 14 e 16 horas, nas quais os técnicos do ministério emitiram frequentemente opiniões contraditórias sobre a interpretação correcta da lei.
6. Ainda em 13 e 17 de Setembro, o Ministério voltou a alterar as especificações.
Admito que a empresa pinte o quadro com cores demasiado sombrias. Mesmo assim, o retrato geral parece-me claro.
Se fossemos um país normal, se em vez de buscarmos culpados para expor à execreção pública procurássemos soluções práticas para os problemas, esta situação seria escalpelizada seriamente como um case-study que revela em todo o seu esplendor o que está errado na nossa administração pública (e também em muitas empresas privadas, acrescento eu).
Um dos mais frequentes sintomas da incompetência é a imposição de objectivos impossíveis de cumprir, desde logo no que respeita aos prazos propostos. Neste caso, tudo começa por uma lei tão mal concebida que é impossível pôr duas cabeças de acordo sobre o que ela quer dizer, e continua pela ausência de alguém que realmente assuma a responsabilidade pela condução do processo.
As causas são muitas e complexas. Podemos identificá-las e analisá-las pacientemente e alterar métodos de organização e de trabalho, ou podemos prosseguir a arruaça, certos de que, na primeira oportunidade, as mesmas causas voltarão a produzir os mesmos efeitos.
É nestas pequenas coisas que se comprova que o espírito da revolução científica ainda não passou por aqui.
13.10.04
Há qualquer coisa no ar
Na sua coluna de hoje, Eduardo Prado Coelho arremete com invulgar ferocidade sobre o patético editorial de António José Saraiva do passado sábado.
Que estranho prenúncio será este? O que terá EPC adivinhado que eu ainda não vislumbrei? Que augúrio lhe chegou ao conhecimento, que leu ele nas folhas de chá, que cartas terá lançado para assim se atrever a enfrentar de peito aberto esse temível poder fáctico?
Que estranho prenúncio será este? O que terá EPC adivinhado que eu ainda não vislumbrei? Que augúrio lhe chegou ao conhecimento, que leu ele nas folhas de chá, que cartas terá lançado para assim se atrever a enfrentar de peito aberto esse temível poder fáctico?
Não os tenho no sítio
Preparava-me para escrever um post mauzinho - mesmo muito mauzinho - sobre o Derrida, quando fui surpreendido pela notícia do seu falecimento.
Já não me atrevi. Supersticioso respeito pelos mortos? Digamos antes que me faltou coragem para enfrentar o poderoso instinto necrófilo nacional que, nos dias que se seguem, inevitavelmente se curvará sobre a suposta grandeza do seu pensamento.
Já não me atrevi. Supersticioso respeito pelos mortos? Digamos antes que me faltou coragem para enfrentar o poderoso instinto necrófilo nacional que, nos dias que se seguem, inevitavelmente se curvará sobre a suposta grandeza do seu pensamento.
12.10.04
O seu a seu dono
Peço desculpa. Há dias referi-me ao gabinete de Santana Lopes como um governo de iniciativa presidencial.
Fiz confusão, evidentemente. Como o primeiro-ministro se tem esforçado por deixar claro nas suas últimas intervenções, é mais correcto falar-se antes de um Presidente de iniciativa governamental.
Fiz confusão, evidentemente. Como o primeiro-ministro se tem esforçado por deixar claro nas suas últimas intervenções, é mais correcto falar-se antes de um Presidente de iniciativa governamental.
«Não dêem importância ao ruído que anda à nossa volta»
A que ruído se referiria o PM?
Aos discretos mas elegantes óculos de leitura que ele ontem estreou para ler o discurso?
À foto da visita ao Papa estrategicamente colocada por detrás do cadeirão?
À foto com os os filhos, logo ao lado da primeira?
Não, não - não façam confusão - isso era a substância!
Aos discretos mas elegantes óculos de leitura que ele ontem estreou para ler o discurso?
À foto da visita ao Papa estrategicamente colocada por detrás do cadeirão?
À foto com os os filhos, logo ao lado da primeira?
Não, não - não façam confusão - isso era a substância!
8.10.04
A lumpen-política e a cisão iminente do PPD/ PSD
Ora aí está o que é. Não foram precisos dois meses para se tornar claro perante todos o que vale o governo de iniciativa presidencial do Dr. Santana Lopes.
Tirando o Dr. Jorge Sampaio, aliás, já toda a gente sabia do que a casa gasta. A gente contemplava o estranho caso do casino volante, meditava um pouco, e entendia o que estava ali em jogo. Não assim o Dr. Sampaio, que, como bom agnóstico, necessita de ver para crer.
A bem da verdade, não começou ontem a promiscuidade entre o poder político e o poder económico. Os sempre exaltados Descobrimentos de quinhentos, por exemplo, foram organizados segundo esse mesmo modelo. Esse é um dos problemas centrais que temos cá ma terra, e, se não começarmos resolvê-lo, dificilmente passaremos da cepa torta.
Que desconhecidas competências de executivos, que experiência de gestão possuem essas hordas de ex-ministros que os grupos económicos entre si disputam a peso de ouro? A sua oferta de valor é o tráfico de influências, a capacidade de afectar positivamente decisões de grande valor económico o seu core business.
Agora, o lumpen-capital encontrou o governo que de facto lhe convém. O resultado é a lumpen-política que, de tanto nos fazer rir, ainda vai acabar por fazer-nos pensar.
Vai uma grande confusão no governo da coligação PPD/ PSD/ CDS/ PP/ Lux/ Gigi/ Carlyle, porque o chefe se irritou com um programa de televisão e mandou um moço ministro fazer ameaças públicas. A televisão é um ponto sensível para o primeiro-ministro. Ele pode admitir não entender de economia, de música de Chopin, até de casinos - mas em matéria de televisão, não admite ceder a primazia a ninguém.
Diz o chefe do governo que os seus adversários têm que provar que ele quis coarctar a liberdade de expressão, que não basta fazerem insinuações. Como assim? Pois se o ministro foi suficientemente inábil ao ponto de fazer as ameaças em público, e se o primeiro-ministro veio a terreiro secundá-lo!
A política é uma aventura maravilhosa. As suas surpreendentes evoluções parecem saídas da imaginação do mais brilhante guionista. Há apenas uma semana, o Presidente da República era a imagem da impotência, agora tem de novo a faca e o queijo na mão.
Entregue a si mesmo, porém, é incapaz de fazer seja o que for. Mas talvez venha a ser empurrado por esta crescente revolta do PSD contra o PPD, desde há horas encabeçada pelo próprio Cavaco Silva que, como agora se confirma, sempre é um bom português.
De maneira que tudo isto ainda pode acabar em bem. Em primeiro lugar, com um pouco de jeitinho, Santana Lopes pode vir a ser afastado do poder a breve trecho. Em segundo lugar, está em curso uma cisão no PPD/ PSD, o partido herdeiro da União Nacional, um notável fenómeno político camiliano, o albergue espanhol de interesses que melhor representa a excepcionalidade portuguesa.
O futuro PSD será um partido muito melhor do que este que conhecemos: urbano, moderno, civilizado, sério, purgado de albertos joões e de empresários da treta. Mas é claro que, precisamente por isso, será um partido relativamente pequeno sem condições para disputar a maioria eleitoral.
Tirando o Dr. Jorge Sampaio, aliás, já toda a gente sabia do que a casa gasta. A gente contemplava o estranho caso do casino volante, meditava um pouco, e entendia o que estava ali em jogo. Não assim o Dr. Sampaio, que, como bom agnóstico, necessita de ver para crer.
A bem da verdade, não começou ontem a promiscuidade entre o poder político e o poder económico. Os sempre exaltados Descobrimentos de quinhentos, por exemplo, foram organizados segundo esse mesmo modelo. Esse é um dos problemas centrais que temos cá ma terra, e, se não começarmos resolvê-lo, dificilmente passaremos da cepa torta.
Que desconhecidas competências de executivos, que experiência de gestão possuem essas hordas de ex-ministros que os grupos económicos entre si disputam a peso de ouro? A sua oferta de valor é o tráfico de influências, a capacidade de afectar positivamente decisões de grande valor económico o seu core business.
Agora, o lumpen-capital encontrou o governo que de facto lhe convém. O resultado é a lumpen-política que, de tanto nos fazer rir, ainda vai acabar por fazer-nos pensar.
Vai uma grande confusão no governo da coligação PPD/ PSD/ CDS/ PP/ Lux/ Gigi/ Carlyle, porque o chefe se irritou com um programa de televisão e mandou um moço ministro fazer ameaças públicas. A televisão é um ponto sensível para o primeiro-ministro. Ele pode admitir não entender de economia, de música de Chopin, até de casinos - mas em matéria de televisão, não admite ceder a primazia a ninguém.
Diz o chefe do governo que os seus adversários têm que provar que ele quis coarctar a liberdade de expressão, que não basta fazerem insinuações. Como assim? Pois se o ministro foi suficientemente inábil ao ponto de fazer as ameaças em público, e se o primeiro-ministro veio a terreiro secundá-lo!
A política é uma aventura maravilhosa. As suas surpreendentes evoluções parecem saídas da imaginação do mais brilhante guionista. Há apenas uma semana, o Presidente da República era a imagem da impotência, agora tem de novo a faca e o queijo na mão.
Entregue a si mesmo, porém, é incapaz de fazer seja o que for. Mas talvez venha a ser empurrado por esta crescente revolta do PSD contra o PPD, desde há horas encabeçada pelo próprio Cavaco Silva que, como agora se confirma, sempre é um bom português.
De maneira que tudo isto ainda pode acabar em bem. Em primeiro lugar, com um pouco de jeitinho, Santana Lopes pode vir a ser afastado do poder a breve trecho. Em segundo lugar, está em curso uma cisão no PPD/ PSD, o partido herdeiro da União Nacional, um notável fenómeno político camiliano, o albergue espanhol de interesses que melhor representa a excepcionalidade portuguesa.
O futuro PSD será um partido muito melhor do que este que conhecemos: urbano, moderno, civilizado, sério, purgado de albertos joões e de empresários da treta. Mas é claro que, precisamente por isso, será um partido relativamente pequeno sem condições para disputar a maioria eleitoral.
6.10.04
Three Quarks for Muster Mark!
Para quase todos nós, pobres leigos ignorantes, a teoria da relatividade pouco mais é do que uma colecção de anedotas sobre astronautas que, ao regressarem à Terra, envelheceram menos do que nós, automóveis que diminuem de volume quando se aproximam da velocidade da luz e outras semelhantes. Quanto à mecânica quântica, entre gatos que estão e não estão dentro de uma caixa e partículas que se deslocam simultaneamente por todos os caminhos possíveis para percorrerem um determinado percurso, o panorama não é muito diferente.
Pior ainda, as coisas não cessam de complicar-se. Quando os físicos descobriram que, afinal, os átomos não eram as unidades básicas da matéria, dado que uns minúsculos electrões giravam velozmente em torno do núcleo, e que este, por sua vez, se decompunha em protões e neutrões, o abalo não foi grande. Ao fim ao cabo, os átomos assemelhavam-se a minúsculos sistemas planetários, imagem a que já estávamos familiarizados pelo menos desde Galileu. Em 1932 estávamos nesse ponto, mas o pior ainda estava para vir.
Afinal, os protões e os neutrões não são de facto partículas elementares. No último meio século apareceram mais de 30 partículas de vida média (mais que um centésimo de segundo) e 60 de vida curta, incluindo o fotão, o gravitrão, os bosões, os leptões (incluindo o electrão, o muão e os neutrinos) e os hadrões (que se subdividem em bariões e mesões). Ao que parece, porém, todas essas partículas são, por sua vez, formadas de quarks, dezoito ao todo, complementados por mais dezoito anti-quarks. E o que são, precisamente, os quarks?
Os quarks estão disponíveis em seis «sabores», designados: «em cima», «em baixo», «encantado», «estranho», «cima» ou «verdade» e «baixo» ou «beleza». Cada «sabor» apresenta três «cores»: vermelho, verde e azul. Todavia, estas descrições são enganadoramente claras; na verdade, os quarks não sabem a nada nem têm qualquer cor, e elas reflectem apenas a imaginação dos cientistas. Perceberam? Eu também não.
E os quarks existem mesmo? Como, até agora, ao que me dizem, foi impossível isolá-los, a prova só pode ser conseguida por meios indirectos. Mas, não sendo possível isolá-los, como podemos ter a certeza de que são de facto partículas elementares, ou seja, como sabemos que não podem ser, por sua vez, subdivididas em outras mais pequenas?
Há aqui um drama angustiante. A física nunca foi fácil de compreender, é claro, mas estava ao alcance do entendimento de uma pessoa razoavelmente culta. Hoje, porém, tirando os próprios especialistas, suspeito que poucos percebem do que eles tratam. Eu, por exemplo, apesar dos meus incansáveis esforços, confesso que cada vez compreendo menos.
Podemos entender as equações matemáticas em que essas teorias se encontram formuladas, mas não conseguimos encaixá-las na nossa percepção quotidiana das coisas. Abre-se assim um enorme fosso entre a ciência e os cidadãos, mesmo considerando apenas os mais cultos dentre eles.
Abner Shimony, um reputado epistemólogo, considera a ciência contemporânea uma espécie de «metafísica experimental», mas constata sombriamente que, no século XX, «a metafísica se tornou incompreensível».
Penso em tudo isto ao ler hoje a notícia da atribuição do Prémio Nobel da Física a três cientistas responsáveis, dizem os jornais, por uma descoberta contra-intuitiva: «quanto mais próximos estão os quarks, menos intensa é a força forte que os mantém unidos.» Definitivamente, nada disto parece fazer sentido. Saiam mais «three quarks for Muster Mark!»
O meu caso com a Turquia
Embora nunca tenha sido pessoalmente apresentado à Turquia, estou absolutamente seguro de que se trata de um país europeu.
Como é que eu sei? Porque os clubes turcos participam nas competições da UEFA. É só uma questão de senso comum. «Ah! - já estou a ouvir alguém dizer - mas os israelitas também participam!» Precisamente.
As nossas fronteiras são onde são, em virtude de factos ocorridos em tempos longínquos e em consequência de decisões de que já ninguém se lembra, não onde gostaríamos que fossem.
Já ouvi um importante político deste país, que aliás muito prezo, dizer que os turcos não podem entrar porque são um povo atrasadíssimo. Faz-me impressão este snobismo chauvinista de novos ricos. Há uma geração andávamos de socas e levávamos o carro de bois para todo o lado. Agora, lá porque tirámos um curso de Gestão Hoteleira e passamos férias no Nordeste Brasileiro, já achamos que somos uma grande coisa.
A UEFA não está enganada. Não só os turcos partilham connosco há longo tempo a história da Europa, como durante mil anos a nossa capital - sim, sim, tugas incluídos - foi lá. Este é o princípio da coisa. Outro problema bem diferente é saber quando a Turquia poderá entrar para a EU. Daqui a dez anos, vinte, nunca? Não sei, só sei que, por enquanto não preenchem as condições.
Não ignoro que a entrada da Turquia coloca dificuldades importantes. Por um lado, sou internacionalista e simpatizo com o abater das barreiras económicas, culturais e sociais entre os povos. Por outro lado, porém, sei que o alargamento a mata-cavalos dificulta o processo de integração política real na medida em que fortalece os poderes não eleitos, razão pela qual alguma direita adora a ideia.
Trata-se de um claríssimo conflito de valores que o tempo, espero eu, ajudará a resolver.
Como é que eu sei? Porque os clubes turcos participam nas competições da UEFA. É só uma questão de senso comum. «Ah! - já estou a ouvir alguém dizer - mas os israelitas também participam!» Precisamente.
As nossas fronteiras são onde são, em virtude de factos ocorridos em tempos longínquos e em consequência de decisões de que já ninguém se lembra, não onde gostaríamos que fossem.
Já ouvi um importante político deste país, que aliás muito prezo, dizer que os turcos não podem entrar porque são um povo atrasadíssimo. Faz-me impressão este snobismo chauvinista de novos ricos. Há uma geração andávamos de socas e levávamos o carro de bois para todo o lado. Agora, lá porque tirámos um curso de Gestão Hoteleira e passamos férias no Nordeste Brasileiro, já achamos que somos uma grande coisa.
A UEFA não está enganada. Não só os turcos partilham connosco há longo tempo a história da Europa, como durante mil anos a nossa capital - sim, sim, tugas incluídos - foi lá. Este é o princípio da coisa. Outro problema bem diferente é saber quando a Turquia poderá entrar para a EU. Daqui a dez anos, vinte, nunca? Não sei, só sei que, por enquanto não preenchem as condições.
Não ignoro que a entrada da Turquia coloca dificuldades importantes. Por um lado, sou internacionalista e simpatizo com o abater das barreiras económicas, culturais e sociais entre os povos. Por outro lado, porém, sei que o alargamento a mata-cavalos dificulta o processo de integração política real na medida em que fortalece os poderes não eleitos, razão pela qual alguma direita adora a ideia.
Trata-se de um claríssimo conflito de valores que o tempo, espero eu, ajudará a resolver.
Não podemos deixar o PIB ficar mal visto lá fora
Pondo temporariamente de parte não só as particulares circunstâncias que motivaram o Governo a conceder aos funcionários uma ponte nesta segunda feira, como a minha escassa simpatia por esta instituição nacional, apetece-me chamar a atenção para o modo irracional como este assunto costuma ser discutido.
O Diário de Notícias de hoje chama para título principal esta preciosidade: «Feriados e pontes custam por ano ao País 3% do PIB». Como é que eles sabem? Como é que chegaram a essa estimativa? Parece que um professor universitário fez as contas, mas o DN não teve a bondade de explicar.
Tenho notado que, tirando os funcionários públicos, são principalmente os comerciantes que aproveitam as pontes para deixar uma rapariga a tomar conta da loja e passar um fim de semana prolongado no Algarve. São hoje muitas raras as empresas que de facto fecham, e incluo aqui as empresas públicas. Portanto, por este lado, não vejo qualquer quebra da produção.
No que respeita ao funcionalismo público, o PIB só sofreria directamente se os seus vencimentos não fossem pagos, porque é através deles que é avaliada a sua contribuição para o produto. Como isso não aconteça, também por aqui pode a Nação sossegar.
Pode-se todavia argumentar que, quando os funcionários públicos não vão trabalhar, consome-se menos electricidade, água, telecomunicações, papel de fotocópias, papel higiénico, e por aí fora. É verdade que essa redução na procura pode reflectir-se negativamente na produção nacional, com a condição de que esses bens e serviços não sejam importados. Em contrapartida, porém, reduz-se a despesa pública, o que, como se sabe, é o grande desígnio nacional para o século XXI.
Se queremos reduzir o déficite deveríamos, por conseguinte, aumentar em vez de reduzir o número de pontes e esquecer a preocupação com o PIB.
Mas é claro que tudo isto não passa de uma tolice pegada. As pessoas que estas coisas pensam, escrevem ou reproduzem imaginam que o aumento do PIB é algo desejável independentemente das consequências que tenha sobre o bem-estar das pessoas.
Para serem coerentes, deveriam conceber outros títulos de primeira página do género:
«Intervalos para almoço custam por ano 15% do PIB»
«Hábito de ter filhos custa por ano 20% da riqueza do país»
«Mania de dormir todos os dias custa por ano 50% da riqueza do país»
Esta irritação com as pontes é especialmente deslocada porque em Portugal, é bem sabido, trabalha-se horas de mais, não de menos, precisamente porque a produtividade horária é muito baixa e só assim se consegue disfarçar um pouco.
Além disso, a opção pelo descanso em detrimento do trabalho não pode ser criticada em termos económicos.
A produtividade horária americana é mais baixa do que a da França. Porém, como os americanos preferem trabalhar mais horas, acabam por compensar desse modo a sua ineficiência relativa (quem já trabalhou com americanos sabe o que eu quero dizer). Mas trabalhar mais horas não é uma virtude, é uma escolha. O que é que é melhor: ter mais horas para dedicar à família, à cultura ou ao desporto, ou trabalhar mais tempo e poder trocar de carro com mais frequência?
A teoria económica não faz, nem pode fazer, qualquer juízo a esse respeito, porque não há nenhuma forma absoluta e objectiva de comparar preferências.
Podemos até especular que os americanos temem o lazer porque não saberiam o que fazer com ele. A este propósito, Nietzsche ironizou que o descanso dominical foi inventado pelos patrões para que os trabalhadores, esgotados pelo tédio do fim de semana, regressassem depois ao trabalho com entusiasmo redobrado.
O Diário de Notícias de hoje chama para título principal esta preciosidade: «Feriados e pontes custam por ano ao País 3% do PIB». Como é que eles sabem? Como é que chegaram a essa estimativa? Parece que um professor universitário fez as contas, mas o DN não teve a bondade de explicar.
Tenho notado que, tirando os funcionários públicos, são principalmente os comerciantes que aproveitam as pontes para deixar uma rapariga a tomar conta da loja e passar um fim de semana prolongado no Algarve. São hoje muitas raras as empresas que de facto fecham, e incluo aqui as empresas públicas. Portanto, por este lado, não vejo qualquer quebra da produção.
No que respeita ao funcionalismo público, o PIB só sofreria directamente se os seus vencimentos não fossem pagos, porque é através deles que é avaliada a sua contribuição para o produto. Como isso não aconteça, também por aqui pode a Nação sossegar.
Pode-se todavia argumentar que, quando os funcionários públicos não vão trabalhar, consome-se menos electricidade, água, telecomunicações, papel de fotocópias, papel higiénico, e por aí fora. É verdade que essa redução na procura pode reflectir-se negativamente na produção nacional, com a condição de que esses bens e serviços não sejam importados. Em contrapartida, porém, reduz-se a despesa pública, o que, como se sabe, é o grande desígnio nacional para o século XXI.
Se queremos reduzir o déficite deveríamos, por conseguinte, aumentar em vez de reduzir o número de pontes e esquecer a preocupação com o PIB.
Mas é claro que tudo isto não passa de uma tolice pegada. As pessoas que estas coisas pensam, escrevem ou reproduzem imaginam que o aumento do PIB é algo desejável independentemente das consequências que tenha sobre o bem-estar das pessoas.
Para serem coerentes, deveriam conceber outros títulos de primeira página do género:
«Intervalos para almoço custam por ano 15% do PIB»
«Hábito de ter filhos custa por ano 20% da riqueza do país»
«Mania de dormir todos os dias custa por ano 50% da riqueza do país»
Esta irritação com as pontes é especialmente deslocada porque em Portugal, é bem sabido, trabalha-se horas de mais, não de menos, precisamente porque a produtividade horária é muito baixa e só assim se consegue disfarçar um pouco.
Além disso, a opção pelo descanso em detrimento do trabalho não pode ser criticada em termos económicos.
A produtividade horária americana é mais baixa do que a da França. Porém, como os americanos preferem trabalhar mais horas, acabam por compensar desse modo a sua ineficiência relativa (quem já trabalhou com americanos sabe o que eu quero dizer). Mas trabalhar mais horas não é uma virtude, é uma escolha. O que é que é melhor: ter mais horas para dedicar à família, à cultura ou ao desporto, ou trabalhar mais tempo e poder trocar de carro com mais frequência?
A teoria económica não faz, nem pode fazer, qualquer juízo a esse respeito, porque não há nenhuma forma absoluta e objectiva de comparar preferências.
Podemos até especular que os americanos temem o lazer porque não saberiam o que fazer com ele. A este propósito, Nietzsche ironizou que o descanso dominical foi inventado pelos patrões para que os trabalhadores, esgotados pelo tédio do fim de semana, regressassem depois ao trabalho com entusiasmo redobrado.
5.10.04
Grande Silva!
Eu concordo que o Marcello deveria ser preso e obrigado a confessar quem lhe paga para debitar aquelas aleivosias contra um Homem Sério que só quer o Bem do Seu País.
E que, se o Procurador-Geral da República não tomar as medidas que se impõem para que isso aconteça, o Primeiro-Ministro deveria demitir-se em Sinal de Protesto contra o estado de degradação a que isto chegou e retirar-se para um convento.
E que, desse seu Exílio Forçado, deveria emitir uma fatwa contra esse tal Marcello, exortando os verdadeiros fiéis a porem termo à vida do verme.
E que, se o Procurador-Geral da República não tomar as medidas que se impõem para que isso aconteça, o Primeiro-Ministro deveria demitir-se em Sinal de Protesto contra o estado de degradação a que isto chegou e retirar-se para um convento.
E que, desse seu Exílio Forçado, deveria emitir uma fatwa contra esse tal Marcello, exortando os verdadeiros fiéis a porem termo à vida do verme.
2.10.04
Prometam-me que não dizem nada a ninguém
Ensinaram-me que um segredo é uma coisa que só se conta a uma pessoa de cada vez, mas, pelos vistos, essa regra está obsoleta.
Ora vejam. O Expresso de hoje titula na sua primeira página: «Pacto secreto Santana-Portas: PSD concorre sozinho em 2006 mas promete convidar CDS para o Governo».
Primeira perplexidade. Que grande segredo é este, que não foi possível mantê-lo por mais de três dias, dado que, acrescenta o artigo, o acordo teria tido lugar apenas na última quarta feira?
Segunda perplexidade. Ainda segundo o Expresso, a informação foi transmitida por «uma fonte próxima do 1º ministro». Logo, na perspectiva dessa fonte, um segredo pode agora ser divulgado num jornal sem que isso implique forçosamente quebra de confidencialidade.
Terceira perplexidade. O segredo transferiu-se, assim, do acordo para a fonte. Quem poderá ter sido o informador? O assessor de imprensa de um deles, evidentemente - mas de qual dos dois? Portas ou Santana?
Porque é esse, não o duvidemos, o verdadeiro segredo, o grande mistério deste estranho caso.
Raciocinemos. Ou a notícia é verdadeira, e o autor da fuga é Portas, porque só ele teria interesse que se soubesse; ou, mais provavelmente, a notícia é falsa, e o autor da ideia é Portas, pois só ele teria interesse em que fosse verdadeira. Por conseguinte, o segredo não é aquele que parece, mas outro bem diferente.
Agora, façam de conta que eu não disse nada, nem contem a ninguém: é suposto ser segredo.
Ora vejam. O Expresso de hoje titula na sua primeira página: «Pacto secreto Santana-Portas: PSD concorre sozinho em 2006 mas promete convidar CDS para o Governo».
Primeira perplexidade. Que grande segredo é este, que não foi possível mantê-lo por mais de três dias, dado que, acrescenta o artigo, o acordo teria tido lugar apenas na última quarta feira?
Segunda perplexidade. Ainda segundo o Expresso, a informação foi transmitida por «uma fonte próxima do 1º ministro». Logo, na perspectiva dessa fonte, um segredo pode agora ser divulgado num jornal sem que isso implique forçosamente quebra de confidencialidade.
Terceira perplexidade. O segredo transferiu-se, assim, do acordo para a fonte. Quem poderá ter sido o informador? O assessor de imprensa de um deles, evidentemente - mas de qual dos dois? Portas ou Santana?
Porque é esse, não o duvidemos, o verdadeiro segredo, o grande mistério deste estranho caso.
Raciocinemos. Ou a notícia é verdadeira, e o autor da fuga é Portas, porque só ele teria interesse que se soubesse; ou, mais provavelmente, a notícia é falsa, e o autor da ideia é Portas, pois só ele teria interesse em que fosse verdadeira. Por conseguinte, o segredo não é aquele que parece, mas outro bem diferente.
Agora, façam de conta que eu não disse nada, nem contem a ninguém: é suposto ser segredo.
«O mundo está melhor sem Saddam Hussein»
O mundo está melhor sem Saddam Hussein, como diz e repete George Bush e tanta gente parece disposta a aceitar? Esta sentença deixa de parecer tão evidente, creio eu, quando se reconhece que o mundo não é uma coisa distinta das pessoas que o habitam.
E como evoluíu a vida das pessoas desde que o Saddam foi derrubado?
Comecemos, se não se importam, pelo próprio Iraque. Aí, a vida está sem dúvida muito melhor para as pessoas politicamente empenhadas, que anteriormente eram perseguidas, presas, torturadas e mortas por dá cá aquela palha, assim como as suas famílias e os seus amigos.
Em relação aos iraquianos comuns, porém, as coisas são mais complicadas. Começaram por passar meses terríveis, sem abastecimento regular de água e electricidade nem escolas e hospitais em consequência da destruição sistemática das infra-estruturas do país. Além disso, a economia ficou completamente desorganizada e o desemprego cresceu em flecha, sem esquecer que os tesouros artísticos nacionais foram livremente pilhados durante algum tempo. Embora não disponha de informações precisas estou, no entanto, disposto a acreditar que tudo isso foi passageiro, e que a vida económica voltará em breve à normalidade.
Todavia, todos sabemos que o caos se instalou no quotidiano, e que a mortandade provocada pelo fogo cruzado dos aliados, primeiro, e dos terroristas, depois, atingiu já milhares de iraquianos, incluindo crianças, e continua a fazer vítimas inocentes todos os dias. Todos os iraquianos que cometem o crime de se alistarem no exército ou na polícia ou de trabalharem para empresas estrangeiras sem outra motivação que não seja a de ganhar a vida são, pelos vistos, considerados alvos legítimos pelos fanáticos que, desde a invasão, se instalaram no Iraque de armas e bagagens e que continuam a ganhar influência. É flagrante que está em curso uma espécie de guerra civil sem fim à vista, e que as suas principais vítimas são civis inocentes.
E a sociedade, tornou-se ela ao menos mais livre e democrática? Um amigo com família no Iraque conta-me que, fora de Bagdade, os costumes sociais regrediram rapidamente por pressão dos extremistas islâmicos, e que as mulheres, principalmente, perderam muitos dos seus direitos. As próximas eleições decorrerão num clima de terror que não permite nenhuma espécie de debate livre nem garantem que quem quiser votar possa fazê-lo. Rumsfeld reconheceu isso mesmo, mas sustentou que a realização de eleições democráticas não implica que toda a gente possa votar, talvez recordando que esse sistema já foi experimentado na Florida há quatro anos e deu muito bons resultados.
Por conseguinte, o menos que se pode dizer é que só alguém muito faccioso pode estar certo de que, para os iraquianos, a queda de Saddam foi uma coisa indiscutivelmente boa.
E o resto do mundo, estará melhor com a queda de Saddam? Aqui, a resposta parece-me mais fácil. A resposta é claramente não, e, dado o adiantado da hora, não me peçam sequer que gaste muito tempo a explicar como a invasão do Iraque potenciou o perigo do terrorismo e tornou o mundo mais perigoso. Só falta mesmo que se desencadeie uma crise económica mundial em larga escala em consequência da continuada subida dos preços do petróleo para que até o Bush concorde comigo.
Que podemos então concluir? Que é melhor deixar os tiranos tranquilos? Não, apenas que não se deve iniciar aventuras militares deste tipo quando não se está razoavelmente seguro de poder substituir uma ditadura por algo melhor. Os americanos, que, recorde-se, muitas vezes no passado impediram a democracia em países que a desejavam, optaram agora por impô-la a quem não se encontra, por variadas razões preparado para assumi-la.
E como evoluíu a vida das pessoas desde que o Saddam foi derrubado?
Comecemos, se não se importam, pelo próprio Iraque. Aí, a vida está sem dúvida muito melhor para as pessoas politicamente empenhadas, que anteriormente eram perseguidas, presas, torturadas e mortas por dá cá aquela palha, assim como as suas famílias e os seus amigos.
Em relação aos iraquianos comuns, porém, as coisas são mais complicadas. Começaram por passar meses terríveis, sem abastecimento regular de água e electricidade nem escolas e hospitais em consequência da destruição sistemática das infra-estruturas do país. Além disso, a economia ficou completamente desorganizada e o desemprego cresceu em flecha, sem esquecer que os tesouros artísticos nacionais foram livremente pilhados durante algum tempo. Embora não disponha de informações precisas estou, no entanto, disposto a acreditar que tudo isso foi passageiro, e que a vida económica voltará em breve à normalidade.
Todavia, todos sabemos que o caos se instalou no quotidiano, e que a mortandade provocada pelo fogo cruzado dos aliados, primeiro, e dos terroristas, depois, atingiu já milhares de iraquianos, incluindo crianças, e continua a fazer vítimas inocentes todos os dias. Todos os iraquianos que cometem o crime de se alistarem no exército ou na polícia ou de trabalharem para empresas estrangeiras sem outra motivação que não seja a de ganhar a vida são, pelos vistos, considerados alvos legítimos pelos fanáticos que, desde a invasão, se instalaram no Iraque de armas e bagagens e que continuam a ganhar influência. É flagrante que está em curso uma espécie de guerra civil sem fim à vista, e que as suas principais vítimas são civis inocentes.
E a sociedade, tornou-se ela ao menos mais livre e democrática? Um amigo com família no Iraque conta-me que, fora de Bagdade, os costumes sociais regrediram rapidamente por pressão dos extremistas islâmicos, e que as mulheres, principalmente, perderam muitos dos seus direitos. As próximas eleições decorrerão num clima de terror que não permite nenhuma espécie de debate livre nem garantem que quem quiser votar possa fazê-lo. Rumsfeld reconheceu isso mesmo, mas sustentou que a realização de eleições democráticas não implica que toda a gente possa votar, talvez recordando que esse sistema já foi experimentado na Florida há quatro anos e deu muito bons resultados.
Por conseguinte, o menos que se pode dizer é que só alguém muito faccioso pode estar certo de que, para os iraquianos, a queda de Saddam foi uma coisa indiscutivelmente boa.
E o resto do mundo, estará melhor com a queda de Saddam? Aqui, a resposta parece-me mais fácil. A resposta é claramente não, e, dado o adiantado da hora, não me peçam sequer que gaste muito tempo a explicar como a invasão do Iraque potenciou o perigo do terrorismo e tornou o mundo mais perigoso. Só falta mesmo que se desencadeie uma crise económica mundial em larga escala em consequência da continuada subida dos preços do petróleo para que até o Bush concorde comigo.
Que podemos então concluir? Que é melhor deixar os tiranos tranquilos? Não, apenas que não se deve iniciar aventuras militares deste tipo quando não se está razoavelmente seguro de poder substituir uma ditadura por algo melhor. Os americanos, que, recorde-se, muitas vezes no passado impediram a democracia em países que a desejavam, optaram agora por impô-la a quem não se encontra, por variadas razões preparado para assumi-la.
1.10.04
Deus morreu, o Porto também, e eu próprio não me sinto lá grande coisa
O confronto entre o criador e a sua criatura teria por força que terminar como terminou. Contra mitos não há argumentos.
Confesso que, quando o Pinto da Costa se lembrou de ir buscar o Mourinho, achei que era mais um daqueles exercícios de remexer no caixote do lixo do Benfica só para chatear, semelhante a outras más ideias do género da contratação do Panduru.
A pouco e pouco fui obrigado a engolir a minha ignorância. Mas foi só quando ouvi o Mourinho a comentar em directo na TVI o Portugal-Espanha no último Europeu que me apercebi o quanto o tipo percebe da poda. O Mourinho a dissertar sobre futebol é o equivalente ao Richard Feynman a explicar a electro-mecânica quântica.
Embora o Porto não seja nesta fase um adversário temível - já percebi que vou andar a dizer isto até ao final da época - a segurança com que o Chelsea venceu o jogo da passada 4ª feira foi pouco menos que pasmosa. Mais uma vez, errei quando o Mourinho partiu para Londres acompanhado pelo Ricardo Carvalho e o Paulo Ferreira. Admito que até verti uma lágrima ao ver esse brilhante trio enfiar-se num clube sem tradição nem espírito ganhador.
Pois bem, agora, depois de constatar como as qualidades que fazem uma equipa coesa e auto-confiante rapidamente migraram das Antas para Stamford Bridge - agora já não digo nada. Eu considerava o Capelli e o Cruyff os Maradonas dos treinadores. É altura de eles se chegarem para o lado e cederem ao Mourinho o seu lugar no meu panteão.
Confesso que, quando o Pinto da Costa se lembrou de ir buscar o Mourinho, achei que era mais um daqueles exercícios de remexer no caixote do lixo do Benfica só para chatear, semelhante a outras más ideias do género da contratação do Panduru.
A pouco e pouco fui obrigado a engolir a minha ignorância. Mas foi só quando ouvi o Mourinho a comentar em directo na TVI o Portugal-Espanha no último Europeu que me apercebi o quanto o tipo percebe da poda. O Mourinho a dissertar sobre futebol é o equivalente ao Richard Feynman a explicar a electro-mecânica quântica.
Embora o Porto não seja nesta fase um adversário temível - já percebi que vou andar a dizer isto até ao final da época - a segurança com que o Chelsea venceu o jogo da passada 4ª feira foi pouco menos que pasmosa. Mais uma vez, errei quando o Mourinho partiu para Londres acompanhado pelo Ricardo Carvalho e o Paulo Ferreira. Admito que até verti uma lágrima ao ver esse brilhante trio enfiar-se num clube sem tradição nem espírito ganhador.
Pois bem, agora, depois de constatar como as qualidades que fazem uma equipa coesa e auto-confiante rapidamente migraram das Antas para Stamford Bridge - agora já não digo nada. Eu considerava o Capelli e o Cruyff os Maradonas dos treinadores. É altura de eles se chegarem para o lado e cederem ao Mourinho o seu lugar no meu panteão.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
