É sempre reconfortante descobrir alguém que, de facto, percebe de futebol.
Tem Vincent toda a razão, a maior figura de sempre do futebol português chama-se Mário Coluna. E quem o diz é um portista.
O Benfica foi campeão europeu (em 61) sem Eusébio. Mas nunca ganhou nada sem Coluna.
É fácil perceber-se a qualidade do Eusébio através de breves lances de futebol. Mas quem nunca viu o Coluna fazer jogos inteiros tem dificuldade em entender a sua importância porque o que distingue os maiores jogadores é a sua presença em campo, uma qualidade com o seu quê de imaterial, não redutível a esta ou àquela intervenção pontual.
Mas isto está a tornar-se numa discussão altamente técnica, e temos que ter cuidado para os nossos leitores não fugirem para a TVI...
30.10.03
O teste
Pinto da Costa anunciou há semanas que o Presidente da Câmara da cidade do Porto não seria convidado para a inauguração do novo Estádio do Dragão.
Compreendo as razões do FCPorto, mas interrogo-me: Que atitude tomará a Direcção do PSD? E, sobretudo, que atitude tomará o primeiro-ministro?
Bem sei que Durão Barroso está naturalmente ansioso por enfrentar a segunda vaia gigantesca no espaço de poucas semanas e habilitar-se desse modo a entrar para o Guinness. Mas, mesmo assim, custa-me a entender como poderá prestar-se a colaborar na humilhação pública do seu colega de partido Rui Rio.
Os jornais de hoje noticiam que Mota Amaral, Presidente da Assembleia e segunda figura na hierarquia do Estado, também não será convidado por há meses ter levantado dúvidas sobre a deslocação de inúmeros deputados à final de Sevilha invocando «trabalho politico».
Pinto da Costa está nitidamente a esticar a corda, dado que, ao vetar Mota Amaral, começa agora a colocar um problema de solidariedade institucional ao próprio Presidente de República.
Como reagirão as principais figuras políticas nacionais a este imbróglio? Aproveitarão a ocasião para demonstrar um nadinha de carácter? Ou deixar-se-ão enterrar mais um bocadinho?
Decididamente, a inauguração do estádio do FCPorto ameaça tornar-se no acontecimento político do mês.
Compreendo as razões do FCPorto, mas interrogo-me: Que atitude tomará a Direcção do PSD? E, sobretudo, que atitude tomará o primeiro-ministro?
Bem sei que Durão Barroso está naturalmente ansioso por enfrentar a segunda vaia gigantesca no espaço de poucas semanas e habilitar-se desse modo a entrar para o Guinness. Mas, mesmo assim, custa-me a entender como poderá prestar-se a colaborar na humilhação pública do seu colega de partido Rui Rio.
Os jornais de hoje noticiam que Mota Amaral, Presidente da Assembleia e segunda figura na hierarquia do Estado, também não será convidado por há meses ter levantado dúvidas sobre a deslocação de inúmeros deputados à final de Sevilha invocando «trabalho politico».
Pinto da Costa está nitidamente a esticar a corda, dado que, ao vetar Mota Amaral, começa agora a colocar um problema de solidariedade institucional ao próprio Presidente de República.
Como reagirão as principais figuras políticas nacionais a este imbróglio? Aproveitarão a ocasião para demonstrar um nadinha de carácter? Ou deixar-se-ão enterrar mais um bocadinho?
Decididamente, a inauguração do estádio do FCPorto ameaça tornar-se no acontecimento político do mês.
O olhar frágil
Para que conste: no meu ranking pessoal o Klee vem muito à frente do Picasso. Não é para ser original, mas é mesmo assim.
Klee professou uma religião dos pequenos encontros, da miniatura, da atenção excessiva ao excessivamente desapercebido. Buscou o estilo por detrás do informal, o artifícial por detrás do natural. Procurou tornar visível para além do visível.
Projectou desenhar música e conseguiu-o. Esboçou contrapontos visuais explorando ritmos cromáticos e mudanças de temas gráficos.
Conjecturou que por detrás dos estados espirituais há equações. Propôs que o olho pensasse e que a fantasia racionalizasse.
Coleccionou no seu frágil jardim de formas toda a espécie de símbolos visuais, troféus capturados em incursões pelo desenho infantil, pela escrita, pela zoologia, pela botânica, pela astronomia, pela física.
A pintura de Klee projecta a seriedade de que só uma criança é capaz.
27.10.03
O pecado da indiferença
Com o Bastonário da Ordem dos Advogados a dizer tudo o que pode e deve ser dito, nada mais há sobre a substância do assunto que um pobre circunstante como eu possa ou deva acrescentar.
Resta-me apenas aplaudir e notar que é em alturas como esta que se revela o real carácter das figuras públicas. Infelizmente, há alguns que se desculpam com o facto de não sabermos tudo para não tomarem posição.
No mundo há relativamente poucas pessoas muito boas ou muito más, de modo que quem de facto pode lixá-lo são os indiferentes.
Resta-me apenas aplaudir e notar que é em alturas como esta que se revela o real carácter das figuras públicas. Infelizmente, há alguns que se desculpam com o facto de não sabermos tudo para não tomarem posição.
No mundo há relativamente poucas pessoas muito boas ou muito más, de modo que quem de facto pode lixá-lo são os indiferentes.
25.10.03
O meu candidato
Admitindo que o país precisa de um governo (coisa de que eu, às vezes, chego a duvidar), então o meu candidato ao lugar de primeiro-ministro é sem dúvida, este.
Não só estudou a fundo os dossiers, como os traz na ponta da língua. Nenhum assunto é demasiado complexo para ele. É tão forte na concepção como na argumentação. Não receia lóbis. Tem soluções prontas a usar para tudo e mais umas botas. As próprias respostas às previsíveis objecções da oposição já foram preparadas em pormenor.
Ainda por cima, tem espírito de humor. Querem mais?
Não só estudou a fundo os dossiers, como os traz na ponta da língua. Nenhum assunto é demasiado complexo para ele. É tão forte na concepção como na argumentação. Não receia lóbis. Tem soluções prontas a usar para tudo e mais umas botas. As próprias respostas às previsíveis objecções da oposição já foram preparadas em pormenor.
Ainda por cima, tem espírito de humor. Querem mais?
Inspira-te e pira-te
O Stendhal costumava ler o Código Civil para se inspirar antes de começar a escrever. O Proust preferia os horários dos comboios, que lhe sugeriram aliás algumas páginas mágicas no segundo volume da Recherche. Eu cá, mais modestamente, quando quero maçar-me, vou ao Aviz.
24.10.03
Allen Rupersberg
Encontro na revista Book Forum (Fall 2003) um artigo sobre Allen Rupersberg, um artista que até agora me tinha passado despercebido. Faço uma pesquisa no Googgle e rapidamente encontro vários trabalhos seus que, através de um simples cut and paste, incorporo na minha galeria pessoal e coloco à disposição dos visitantes deste blogue.
É isto a maravilha da web. E é por isso que chamo a este blogue uma wunderkammer, segundo o modelo dos gabinetes de curiosidades, ou museus privados, do século XVII.
A cultura serve-se fria
Não acham estranha esta obsessão de recomendar livros aos telespectadores que têm os comentadores do PSD? Alguém imagina o Miguel Sousa Tavares ou o Sócrates, por exemplo, a fazer isso?
A direita passa-se dos carretos com qualquer sugestão de que é culpada de um déficite de preparação cultural, razão pela qual não perde uma ocasião de exibir os seus escassos troféus. A verdade, porém, é que para aquelas bandas não se lê muito.
Mas como é possível dizer-se isso de um partido recheado de professores universitários, gestores de topo e juristas? Funcionam um bocado no modelo do Cavaco que, se bem se recordam, «não tinha tempo» para ler nada fora do estreito âmbito dos manuais de Finanças Públicas (e até desconfio que mesmo a Microeconomia já era para ele um tema um tanto esdrúxulo).
Felizmente que há gente (Marcello e Pacheco) que lê por eles e depois informa o povo do que está a dar. Cada um dos comentadores adopta, porém, um formato distinto.
Marcello passa a correr pelas capas e pelas lombadas, quando muito dá uma espreitadela às badanas. É o modelo Círculo de Leitores da compra de três metros de livros para decorar a estante. Fica sempre bem numa casa de família.
Já Pacheco é o Reader´s Digest do PSD. Ele lê aquelas tremendas chumbadas do Túcidides, do Orwell ou do Kafka e depois serve as conclusões já devidamente mastigadas e digeridas, prontas a usar no debate ideológico.
Topam?
A direita passa-se dos carretos com qualquer sugestão de que é culpada de um déficite de preparação cultural, razão pela qual não perde uma ocasião de exibir os seus escassos troféus. A verdade, porém, é que para aquelas bandas não se lê muito.
Mas como é possível dizer-se isso de um partido recheado de professores universitários, gestores de topo e juristas? Funcionam um bocado no modelo do Cavaco que, se bem se recordam, «não tinha tempo» para ler nada fora do estreito âmbito dos manuais de Finanças Públicas (e até desconfio que mesmo a Microeconomia já era para ele um tema um tanto esdrúxulo).
Felizmente que há gente (Marcello e Pacheco) que lê por eles e depois informa o povo do que está a dar. Cada um dos comentadores adopta, porém, um formato distinto.
Marcello passa a correr pelas capas e pelas lombadas, quando muito dá uma espreitadela às badanas. É o modelo Círculo de Leitores da compra de três metros de livros para decorar a estante. Fica sempre bem numa casa de família.
Já Pacheco é o Reader´s Digest do PSD. Ele lê aquelas tremendas chumbadas do Túcidides, do Orwell ou do Kafka e depois serve as conclusões já devidamente mastigadas e digeridas, prontas a usar no debate ideológico.
Topam?
23.10.03
Nova fórmula de êxito
Leio no Correio da Manhã de hoje que a discussão assanhada entre Manuel Moura Guedes e Miguel Sousa Tavares em pleno telejornal da TVI levou a um crescimento em flecha da audiência do canal.
A ser verdade, é de temer que a TVI comece a organizar cenas de pugilato opondo entrevistados a entrevistadores. Se forem espertos, registam já a fórmula antes que a Endemol se lembre disso.
Só não percebo o que é que o Sousa Tavares está a fazer neste filme.
A ser verdade, é de temer que a TVI comece a organizar cenas de pugilato opondo entrevistados a entrevistadores. Se forem espertos, registam já a fórmula antes que a Endemol se lembre disso.
Só não percebo o que é que o Sousa Tavares está a fazer neste filme.
Pobre PP
Eu sei que todos temos momentos infelizes. Eu sei que é difícil manter-se algum rigor no raciocínio quando se é militante de um partido político. Eu sei que Pacheco Pareira tem usualmente, a este propósito, uma postura bem mais recomendável do que a da maioria dos políticos no activo.
Mas o seu artigo de hoje no Público agrava singularmente o seu caso. Errar é humano; persistir no erro, coisa do demónio.
De que é que vale um tipo andar toda a vida a pregar contra o populismo, contra o sensacionalismo dos media, contra os julgamentos na praça pública, contra a importância atribuida a alguns por cartas anónimas, contra a calúnia como arma política se, chegada ahora da verdade, perde a compostura e se comporta deste modo?
O que nós verdadeiramente valemos revela-se nas situações limite a que somos expostos. É tempo de Pacheco Pereira parar um bocadinho para pensar.
PS: Por estas e por outras, decidi prolongar por tempo indeterminado a pena de exclusão do link deste blogue com o Abrupto .
Mas o seu artigo de hoje no Público agrava singularmente o seu caso. Errar é humano; persistir no erro, coisa do demónio.
De que é que vale um tipo andar toda a vida a pregar contra o populismo, contra o sensacionalismo dos media, contra os julgamentos na praça pública, contra a importância atribuida a alguns por cartas anónimas, contra a calúnia como arma política se, chegada ahora da verdade, perde a compostura e se comporta deste modo?
O que nós verdadeiramente valemos revela-se nas situações limite a que somos expostos. É tempo de Pacheco Pereira parar um bocadinho para pensar.
PS: Por estas e por outras, decidi prolongar por tempo indeterminado a pena de exclusão do link deste blogue com o Abrupto .
Do passado fazendo tábua rasa
Malevitch resolveu em 1913, ao pintar este quadrado negro sobre fundo branco, recomeçar de novo a história da pintura. Por essa altura, nas vésperas de uma grande carnificina de repercussões mundiais, muitos outros fizeram o mesmo na literatura (Proust, Joyce) ou na música (Schoenberg, Stravinsky), para recordar apenas alguns exemplos triviais.
Continuo a achar isto comovente e, olhando para trás, não posso deixar de pensar que, no essencial, essa ousadia perdeu-se. E que falta nos faz ela agora!
Viagens na Minha Terra
Eu sei que a minha lista de links é muito pequena, mas é só porque optei por listar apenas os blogues que visito com grande frequência.
À cabeça das minhas preferências estão A Praia e o Barnabé, porque tenho uma grande afinidade de pensamento com muito do que lá se escreve e porque, apesar disso, aprendo bastante com eles.
Logo a seguir vem o Dicionário do Diabo: apesar de a minha orientação política ser muito diferente, eu aprecio sobretudo gente com espessura intelectual e ética, e encontro isso no Pedro Mexia. Por essa mesma razão, eu gostava do Abrupto, mas confesso que o seu autor me desapontou muito seriamente nos últimos tempos; por isso o risquei, até nova ordem, das minhas preferências.
O Cristóvão de Moura foi o primeiro blogue a dar-me troco. O seu autor tem um talento natural para estimular a polémica, qualidade que muito prezo neste país de gente sonsa. Agora está calado há um mês e meio, e confesso que sinto a falta.
Outro blogue onde encontro muita matéria para reflexão, em quantidade e qualidade, é o País Relativo. Daí o link.
Finalmente, A Oeste é um blogue que me interessou à primeira vista, já há uns meses. Mantive-o sob observação durante uns tempos, e agora criei um link permanente. Não tem nada a ver com os outros: não trata de política, lida principalmente com assuntos intemporais, o autor escreve (bem) sobre temas culturais do seu interesse, sempre num tom muito pessoal, que eu acho cativante.
É claro que há muitos outros blogues de que eu gosto, mas desses irei falando sempre que se proporcionar.
À cabeça das minhas preferências estão A Praia e o Barnabé, porque tenho uma grande afinidade de pensamento com muito do que lá se escreve e porque, apesar disso, aprendo bastante com eles.
Logo a seguir vem o Dicionário do Diabo: apesar de a minha orientação política ser muito diferente, eu aprecio sobretudo gente com espessura intelectual e ética, e encontro isso no Pedro Mexia. Por essa mesma razão, eu gostava do Abrupto, mas confesso que o seu autor me desapontou muito seriamente nos últimos tempos; por isso o risquei, até nova ordem, das minhas preferências.
O Cristóvão de Moura foi o primeiro blogue a dar-me troco. O seu autor tem um talento natural para estimular a polémica, qualidade que muito prezo neste país de gente sonsa. Agora está calado há um mês e meio, e confesso que sinto a falta.
Outro blogue onde encontro muita matéria para reflexão, em quantidade e qualidade, é o País Relativo. Daí o link.
Finalmente, A Oeste é um blogue que me interessou à primeira vista, já há uns meses. Mantive-o sob observação durante uns tempos, e agora criei um link permanente. Não tem nada a ver com os outros: não trata de política, lida principalmente com assuntos intemporais, o autor escreve (bem) sobre temas culturais do seu interesse, sempre num tom muito pessoal, que eu acho cativante.
É claro que há muitos outros blogues de que eu gosto, mas desses irei falando sempre que se proporcionar.
Violação ou talvez não
Talvez seja altura de esclarecer que, ao contrário do que diariamente se diz nos nossos media, não é verdade que a Alemanha, a França ou Portugal tenham violado o Pacto de Estabilidade e Crescimento (curioso como normalmente esta última palavra é esquecida...).
Fui recentemente informado de que o que o texto do Pacto diz é que o déficite orçamental não deve ultrapassar 3% do PIB «excepto se ocorrerem circunstâncias excepcionais». Ora, ao contrário do governo português, os governos alemão e francês argumentam, com toda a lógica, que a actual recessão deve ser considerada uma circunstância excepcional.
O governo português prefere calar-se pela excelente razão de que a sua natureza é ser feroz com os fracos e manso perante os poderosos. Além disso, se desaparecesse o papão do déficite, deixaria praticamente de ter assunto de conversa.
Fui recentemente informado de que o que o texto do Pacto diz é que o déficite orçamental não deve ultrapassar 3% do PIB «excepto se ocorrerem circunstâncias excepcionais». Ora, ao contrário do governo português, os governos alemão e francês argumentam, com toda a lógica, que a actual recessão deve ser considerada uma circunstância excepcional.
O governo português prefere calar-se pela excelente razão de que a sua natureza é ser feroz com os fracos e manso perante os poderosos. Além disso, se desaparecesse o papão do déficite, deixaria praticamente de ter assunto de conversa.
Desinformação e xenofobia
Recebi de uma leitora, Nina Basílio, o seguinte email que a seguir transcrevo com a sua autorização. Este depoimento parece-me ser especialmente relevante por apontar exemplos concretos de como uma informação de péssima qualidade é utilizada para alimenta preconceitos estúpidos entre o público telespectador.
Chamo a atenção para a atitude xenófoba que persistentemente se insinua por detrás de toda a ignorância patenteada pelas «notícias» referidas. Nunca me cansarei de repetir que a nossa televisão é uma área de catástrofe a exigir uma atenção séria.
Caro João Castro:
A propósito de sua indignação com os telejornais portugueses e seus comentaristas, não é nada de espantar, visto que os seguintes factos são rotina:
Se os erros jornalísticos são comuns em qualquer parte do mundo, o que dizer do caso português, em que as notícias falsas constantemente divulgadas (mais do que o razoável) pelos canais de televisão NUNCA merecem a obrigatória (em
qualquer país civilizado) errata? Pior ainda, em uma espécie de histeria colectiva, comenta-se o jornalismo praticado no país, como se existisse jornalismo em Portugal (veja o blog Guerra e Pas) - na verdade, existe, mas
somente porque os artigos de opinião são considerados um género jornalístico. Pois em Portugal, em geral, não se tem ideia de como se produz uma notícia, antes julga-se que basta seguir o exemplo da coscuvilheira da aldeia: passa-se adiante o que se ouviu dizer, ou o que foi "soprado" aos
jornalistas por interesses óbvios, sem que haja a preocupação de apurar a VERACIDADE da informação. A esse respeito, tenho uma longuísssima lista de exemplos. No entanto, fico-me pelos exemplos de notícias falsas veiculadas por canais de televisão, um deles dito “jornalístico”, que nunca mereceram o obrigatório “erramos, pedimos desculpas”.
1. Sic Notícias, 5 de outubro de 2003: o boletim informativo das 10h00 dá destaque ao desaparecimento de uma avioneta, no Brasil, "que transportava o presidente do partido do presidente Lula da Silva" (percebe-se finalmente
porque a Sic e a Sic Notícias, nas últimas eleições presidenciais brasileiras, referiam-se a Lula como o "candidato populista do partido trabalhista brasileiro" - não era uma questão interpretativa, mas mero erro factual, e se nós percebíamos "partido trabalhista brasileiro" desse modo, em minúsculas, o locutor lia-o em maiúsculas). A verdade é que o dirigente desaparecido, José Martinez, era membro do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), populista e de direita, que nada tem a ver com o Partido dos
Trabalhadores (PT) do presidente Lula da Silva. O espantoso é que a Sic Notícias continuou a veicular a notícia com destaque, a abrir, com a voz alarmada do pivot, os seus boletins de hora em hora, até ao noticiário das 14h00, quando decidi ligar à redacção para evitar que mais brasileiros telefonassem ao Brasil para obter notícias adicionais sobre a morte da conhecidísssima figura, e gastassem assim inutilmente seu dinheiro. No noticiário seguinte, a falsa informação sumiu sem deixar rastos...
2. Dia 12/10/2003, 14h25: na Sic Notícias, os conflitos na Bolívia transformam-se em uma "guerra do petróleo" (sic). Enquanto são mostradas imagens de bombas de gasolina (???!!!), a voz off do locutor esclarece que o país está em guerra civil porque populares e oposição discordam da decisão governamental de "exportar petróleo" (sic, sic, sic) para os EUA via Chile. Estaria tudo muito bem, não fosse o facto de a Bolívia não possuir petróleo algum (quiseram os bolivianos...) Mais uma vez, a realidade conspira contra a Sic, que reaje fazendo simplesmente "sumir" a notícia, após novo telefonema de minha parte.
3. No dia 27/06/2003, o Jornal Nacional da TVI, em reportagem sobre o desemprego no Rio de Janeiro, afirmou, com a devida voz alarmada do repórter-correspondente, no estilo "jornalismo aos gritos" da TVI, que "a inflação no país está descontrolada". Ora, naquele mês, o Brasil entrava no segundo mês consecutivo de deflação -- além do que, a inflação no país está controlada desde 1994! Telefonei à TVI e fui atendida com escárnio (tal como
foi desdenhoso o atendimento da Sic Notícias, acrescente-se), e nem sinal de errata, como é óbvio.
4. Na primeira semana de Julho, a visita do presidente Lula da Silva foi o mote para mais uma festa da histeria colectiva do jornalismo português: segundo o telejornal da noite da SIC, “Portugal é o 3º maior investidor estrangeiro no Brasil”; no mesmo dia, de acordo com a TVI, “é o 2º”. Quem mais se aproximou da verdade foi o jornal Público, no dia seguinte, que colocou Portugal em 6º lugar (a confusão de alhos com bugalhos é evidente - IDE etc. -, mas nem isso justifica a dança dos números).
5. Na primeira semana de Outubro, o Jornal da Noite da Sic veiculou a "notícia" de uma passeata realizada no Rio de Janeiro e organizada por actores da Rede Globo, contra o porte de armas por civis. No entanto, na notícia da Sic, a passeata transformou-se em uma “inédita” manifestação da
sociedade civil brasileira contra a violência urbana. Citando as palavras da pivot do telejornal: "é curioso que uma sociedade violenta como a brasileira necessite de uma telenovela para acordar para os problemas da criminalidade
urbana". Assim, no mundo da fantasia dos telejornais portugueses, a sociedade civil mais organizada do mundo (o juízo é da inspectora de direitos humanos da ONU, Asma Jaranhir, que esteve no início de outubro no Brasil a investigar grupos de extermínio), só se manifesta após a realidade ser mostrada em uma novela da Globo. Somente os repórteres da Sic não sabem que já houve centenas (SIM, JÁ CHEGAMOS ÀS CENTENAS) de manifestações da sociedade civil brasileira contra a violência no Rio de Janeiro e em todo o país, e há dezenas de ONGs dedicadas ao tema, a mais famosa das quais a Viva Rio, composta por moradores da Zona Sul carioca, a qual, aliás, ao lado de muitas outras ONGs cariocas, manifestara-se recentemente (na imprensa, em manifestações de rua) contra a exploração da criminalidade carioca em telenovelas da Globo. A passeata dos actores da Globo foi uma reacção à Viva Rio.
6. Hoje, 20/10/2003, às 10h45, a Sic Notícias que transmite uma discussão, no âmbito do programa Opinião Pública, sobre a legalização de imigrantes brasileiros. Questionando a justiça do tratado bilateral que deu origem à legalização, o jornalista da Sic afirma que, se o Brasil é o país que mais tem imigrantes em Portugal, o contrário não é verdadeiro, pois Portugal não é o país que mais tem imigrantes no Brasil, afirmação que é corroborada por
um alto funcionário do SEF presente no progrma. Ora, PORTUGAL É SIM, DE LONGE, O PAÍS QUE MAIS IMIGRANTES TEM NO BRASIL: 1 MILHÃO (ISSO MESMO, 1 MILHÃO DE IMIGRANTES, E NÃO LUSO-DESCENDENTES), MUITOS DELES ILEGAIS, PRINCIPALMENTE NO NORDESTE BRASILEIRO. Aliás, minutos antes, o mesmo jornalista afirmara não haver portugueses ilegais no Brasil, outro disparate com que também concordou prontamente o funcionário do SEF. Telefonei à Sic,
o mesmo escárnio, enviei e-mail, não foi veiculado, e o programa terminou, claro está, sem nenhuma rectificação à falsa informação apresentada.
Os demais e extensos capítulos do anedótico jornalismo que se faz em Portugal (incluindo os jornais e revistas) serão por mim divulgados brevemente, em blog próprio se houver paciência para tal, ou em outros blogs. Fazer uma queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social também passou-me pela cabeça, mas como já tive a minha dose de escárnio e risinhos, é possível que não o faça.
Cumprimentos, parabéns pelo seu blog
Nina Basílio
Chamo a atenção para a atitude xenófoba que persistentemente se insinua por detrás de toda a ignorância patenteada pelas «notícias» referidas. Nunca me cansarei de repetir que a nossa televisão é uma área de catástrofe a exigir uma atenção séria.
Caro João Castro:
A propósito de sua indignação com os telejornais portugueses e seus comentaristas, não é nada de espantar, visto que os seguintes factos são rotina:
Se os erros jornalísticos são comuns em qualquer parte do mundo, o que dizer do caso português, em que as notícias falsas constantemente divulgadas (mais do que o razoável) pelos canais de televisão NUNCA merecem a obrigatória (em
qualquer país civilizado) errata? Pior ainda, em uma espécie de histeria colectiva, comenta-se o jornalismo praticado no país, como se existisse jornalismo em Portugal (veja o blog Guerra e Pas) - na verdade, existe, mas
somente porque os artigos de opinião são considerados um género jornalístico. Pois em Portugal, em geral, não se tem ideia de como se produz uma notícia, antes julga-se que basta seguir o exemplo da coscuvilheira da aldeia: passa-se adiante o que se ouviu dizer, ou o que foi "soprado" aos
jornalistas por interesses óbvios, sem que haja a preocupação de apurar a VERACIDADE da informação. A esse respeito, tenho uma longuísssima lista de exemplos. No entanto, fico-me pelos exemplos de notícias falsas veiculadas por canais de televisão, um deles dito “jornalístico”, que nunca mereceram o obrigatório “erramos, pedimos desculpas”.
1. Sic Notícias, 5 de outubro de 2003: o boletim informativo das 10h00 dá destaque ao desaparecimento de uma avioneta, no Brasil, "que transportava o presidente do partido do presidente Lula da Silva" (percebe-se finalmente
porque a Sic e a Sic Notícias, nas últimas eleições presidenciais brasileiras, referiam-se a Lula como o "candidato populista do partido trabalhista brasileiro" - não era uma questão interpretativa, mas mero erro factual, e se nós percebíamos "partido trabalhista brasileiro" desse modo, em minúsculas, o locutor lia-o em maiúsculas). A verdade é que o dirigente desaparecido, José Martinez, era membro do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), populista e de direita, que nada tem a ver com o Partido dos
Trabalhadores (PT) do presidente Lula da Silva. O espantoso é que a Sic Notícias continuou a veicular a notícia com destaque, a abrir, com a voz alarmada do pivot, os seus boletins de hora em hora, até ao noticiário das 14h00, quando decidi ligar à redacção para evitar que mais brasileiros telefonassem ao Brasil para obter notícias adicionais sobre a morte da conhecidísssima figura, e gastassem assim inutilmente seu dinheiro. No noticiário seguinte, a falsa informação sumiu sem deixar rastos...
2. Dia 12/10/2003, 14h25: na Sic Notícias, os conflitos na Bolívia transformam-se em uma "guerra do petróleo" (sic). Enquanto são mostradas imagens de bombas de gasolina (???!!!), a voz off do locutor esclarece que o país está em guerra civil porque populares e oposição discordam da decisão governamental de "exportar petróleo" (sic, sic, sic) para os EUA via Chile. Estaria tudo muito bem, não fosse o facto de a Bolívia não possuir petróleo algum (quiseram os bolivianos...) Mais uma vez, a realidade conspira contra a Sic, que reaje fazendo simplesmente "sumir" a notícia, após novo telefonema de minha parte.
3. No dia 27/06/2003, o Jornal Nacional da TVI, em reportagem sobre o desemprego no Rio de Janeiro, afirmou, com a devida voz alarmada do repórter-correspondente, no estilo "jornalismo aos gritos" da TVI, que "a inflação no país está descontrolada". Ora, naquele mês, o Brasil entrava no segundo mês consecutivo de deflação -- além do que, a inflação no país está controlada desde 1994! Telefonei à TVI e fui atendida com escárnio (tal como
foi desdenhoso o atendimento da Sic Notícias, acrescente-se), e nem sinal de errata, como é óbvio.
4. Na primeira semana de Julho, a visita do presidente Lula da Silva foi o mote para mais uma festa da histeria colectiva do jornalismo português: segundo o telejornal da noite da SIC, “Portugal é o 3º maior investidor estrangeiro no Brasil”; no mesmo dia, de acordo com a TVI, “é o 2º”. Quem mais se aproximou da verdade foi o jornal Público, no dia seguinte, que colocou Portugal em 6º lugar (a confusão de alhos com bugalhos é evidente - IDE etc. -, mas nem isso justifica a dança dos números).
5. Na primeira semana de Outubro, o Jornal da Noite da Sic veiculou a "notícia" de uma passeata realizada no Rio de Janeiro e organizada por actores da Rede Globo, contra o porte de armas por civis. No entanto, na notícia da Sic, a passeata transformou-se em uma “inédita” manifestação da
sociedade civil brasileira contra a violência urbana. Citando as palavras da pivot do telejornal: "é curioso que uma sociedade violenta como a brasileira necessite de uma telenovela para acordar para os problemas da criminalidade
urbana". Assim, no mundo da fantasia dos telejornais portugueses, a sociedade civil mais organizada do mundo (o juízo é da inspectora de direitos humanos da ONU, Asma Jaranhir, que esteve no início de outubro no Brasil a investigar grupos de extermínio), só se manifesta após a realidade ser mostrada em uma novela da Globo. Somente os repórteres da Sic não sabem que já houve centenas (SIM, JÁ CHEGAMOS ÀS CENTENAS) de manifestações da sociedade civil brasileira contra a violência no Rio de Janeiro e em todo o país, e há dezenas de ONGs dedicadas ao tema, a mais famosa das quais a Viva Rio, composta por moradores da Zona Sul carioca, a qual, aliás, ao lado de muitas outras ONGs cariocas, manifestara-se recentemente (na imprensa, em manifestações de rua) contra a exploração da criminalidade carioca em telenovelas da Globo. A passeata dos actores da Globo foi uma reacção à Viva Rio.
6. Hoje, 20/10/2003, às 10h45, a Sic Notícias que transmite uma discussão, no âmbito do programa Opinião Pública, sobre a legalização de imigrantes brasileiros. Questionando a justiça do tratado bilateral que deu origem à legalização, o jornalista da Sic afirma que, se o Brasil é o país que mais tem imigrantes em Portugal, o contrário não é verdadeiro, pois Portugal não é o país que mais tem imigrantes no Brasil, afirmação que é corroborada por
um alto funcionário do SEF presente no progrma. Ora, PORTUGAL É SIM, DE LONGE, O PAÍS QUE MAIS IMIGRANTES TEM NO BRASIL: 1 MILHÃO (ISSO MESMO, 1 MILHÃO DE IMIGRANTES, E NÃO LUSO-DESCENDENTES), MUITOS DELES ILEGAIS, PRINCIPALMENTE NO NORDESTE BRASILEIRO. Aliás, minutos antes, o mesmo jornalista afirmara não haver portugueses ilegais no Brasil, outro disparate com que também concordou prontamente o funcionário do SEF. Telefonei à Sic,
o mesmo escárnio, enviei e-mail, não foi veiculado, e o programa terminou, claro está, sem nenhuma rectificação à falsa informação apresentada.
Os demais e extensos capítulos do anedótico jornalismo que se faz em Portugal (incluindo os jornais e revistas) serão por mim divulgados brevemente, em blog próprio se houver paciência para tal, ou em outros blogs. Fazer uma queixa à Alta Autoridade para a Comunicação Social também passou-me pela cabeça, mas como já tive a minha dose de escárnio e risinhos, é possível que não o faça.
Cumprimentos, parabéns pelo seu blog
Nina Basílio
20.10.03
Retaliação
Em sinal de protesto contra as declarações do Pacheco Pereira ontem na SIC, decidi cortar relações com o Abrupto eliminando-o dos meus links.
Esta medida é temporária e poderá ser suspensa por um gesto simpático vindo daquelas bandas.
(Atenção, PP: isto é suposto ser uma piada!)
Esta medida é temporária e poderá ser suspensa por um gesto simpático vindo daquelas bandas.
(Atenção, PP: isto é suposto ser uma piada!)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
