Não sabemos ainda o que de facto aconteceu ontem em Espanha.
O PP perdeu porque muitas pessoas que já planeavam ir votar mudaram o sentido do seu voto? Ou porque muitas pessoas que não pensavam votar mudaram de ideias? Ou terá sido uma combinação destes dois efeitos?
Não é indiferente saber-se o que de facto aconteceu.
Se se tratou de uma mudança do sentido de voto, ela pode ter acontecido porque: a) os eleitores ficaram chocados pelo oportunismo revelado pelo PP; b) os eleitores acham que a ameaça terrorista justifica a retirada imediata das tropas espanholas do Iraque.
Para mim, a primeira razão é boa; a segunda é má.
Mas, se a surpresa eleitoral tiver resultado do afluxo às urnas de eleitores que propendiam para a abstenção, o caso é ainda mais intrigante, porque inverte a suposta tendência para o indiferentismo. Também aqui podem ter acontecido várias coisas: a) as pessoas acharam que, face à gravidade da situação, não tinham o direito de se absterem; b) as pessoas acreditaram que, ao contrário do que previam as sondagens, havia uma hipótese real de derrotar o PP.
Estas razões são as duas boas. Uma porque traduz um assomo de responsabilidade social; outra, porque põe em causa o lado negativo das sondagens como self-fulfilling prophesy que dissuade as pessoas de irem votar.
Sabe-se que a moderna abstenção tende a afectar sobretudo os pobres, os iletrados e a esquerda, por razões complexas que não vêm agora ao caso. Dir-se-ía que, ontem, os auto-excluídos da democracia encontraram razões suficientemente fortes para tomarem partido.
Enquanto não se souber exactamente o que se passou -- e eu espero que alguém tenha a curiosidade de fazer um inquérito de opinião que o esclareça -- tudo isto serão apenas meras especulações.
Entretanto, não se esqueçam: votem enquanto podem, porque a democracia é um bem de luxo. Aliás, é mesmo o único bem de luxo a que os pobres têm acesso.
15.3.04
13.3.04
Polícia do pensamento
Pacheco Pereira e a impagável Helena Matos deram o exemplo: para eles, a tarefa prioritária na actual conjuntura da luta ideológica é denunciar uma pretensa tibieza da esquerda face ao terrorismo. Com isto deixam claro que, para uma parte da direita, o terrorismo é apenas um pretexto para atacar a esquerda com argumentos especiosos.
Embora eu não esqueça nem desculpe a atitude compreensiva de que a extrema esquerda, com Louçã à frente, sempre deu provas face a fenómenos como a ETA ou as FP25, só uma completa má fé, bem na linha dos processos de intenção típicos dos controleiros estalinistas, permite insinuar que, hoje, a esquerda portuguesa na sua generalidade alimenta algum carinho pelos etarras.
Tem alguma importância saber se foi a ETA ou a Al-Qaeda? Num certo plano, ou seja, no dos crimes contra a humanidade de que este é mais um, é evidente que não. Noutro plano, o de entender precisamente que inimigo temos pela frente, é claro que sim. Mas isto tem tempo, não temos que tirar hoje mesmo uma conclusão.
Mas a razão porque Pacheco teria ganho desta vez muito em estar calado é que, precisamente, foi o governo espanhol quem decidiu que essa questão não só tinha toda a relevância, como deveria ser decidida de imediato.
Pois não ouvimos nós todos na rádio o Ministro do Interior de Espanha declarar peremptoriamente «não haver qualquer dúvida» de que se tratava de obra da ETA? E porquê excomungar energicamente quem ousasse duvidar dessa tese e tentar saloiamente controlar a mensagem passada pelos próprios media internacionais, se não houvesse aqui uma vergonhosa tentativa de capitalizar a comoção gerada pelos atentados em favor do resultado das eleições deste fim de semana?
Acredito que ninguém pode seriamente descartar a hipótese de o atentado ser perpetrado pela ETA, mesmo que fosse verdade essa organização nunca ter operado desta maneira. Mas também ninguém pode com honestidade jurar a pés juntos que os culpados estão identificados.
Se o comportamento do governo espanhol nesta conjuntura não pode legitimamente ser qualificado como populismo do mais reles, não sei o que poderá.
Embora eu não esqueça nem desculpe a atitude compreensiva de que a extrema esquerda, com Louçã à frente, sempre deu provas face a fenómenos como a ETA ou as FP25, só uma completa má fé, bem na linha dos processos de intenção típicos dos controleiros estalinistas, permite insinuar que, hoje, a esquerda portuguesa na sua generalidade alimenta algum carinho pelos etarras.
Tem alguma importância saber se foi a ETA ou a Al-Qaeda? Num certo plano, ou seja, no dos crimes contra a humanidade de que este é mais um, é evidente que não. Noutro plano, o de entender precisamente que inimigo temos pela frente, é claro que sim. Mas isto tem tempo, não temos que tirar hoje mesmo uma conclusão.
Mas a razão porque Pacheco teria ganho desta vez muito em estar calado é que, precisamente, foi o governo espanhol quem decidiu que essa questão não só tinha toda a relevância, como deveria ser decidida de imediato.
Pois não ouvimos nós todos na rádio o Ministro do Interior de Espanha declarar peremptoriamente «não haver qualquer dúvida» de que se tratava de obra da ETA? E porquê excomungar energicamente quem ousasse duvidar dessa tese e tentar saloiamente controlar a mensagem passada pelos próprios media internacionais, se não houvesse aqui uma vergonhosa tentativa de capitalizar a comoção gerada pelos atentados em favor do resultado das eleições deste fim de semana?
Acredito que ninguém pode seriamente descartar a hipótese de o atentado ser perpetrado pela ETA, mesmo que fosse verdade essa organização nunca ter operado desta maneira. Mas também ninguém pode com honestidade jurar a pés juntos que os culpados estão identificados.
Se o comportamento do governo espanhol nesta conjuntura não pode legitimamente ser qualificado como populismo do mais reles, não sei o que poderá.
Por um estoicismo activista
Anda um sujeito muito tranquilo na sua vidinha, precupado com o relatório que tem que entregar, o curso que vai começar, a investigação que não há forma de avançar, e eis que a explosão de uma sucessão de bombas em Madrid o arranca destas triviais mas honestas preocupações e o força, quer queira quer não, a cuidar de assuntos que tocam no cerne dos grande problemas do mundo de hoje.
Aprecio o ponto de vista daqueles que dizem que o terrorismo só pode ser combatido com eficácia se atacarmos as suas causas, mas não entendo bem o que querem dizer. Por vezes, sugerem que isso significa retirar as tropas americanas do Iraque, desmantelar os colonatos israelitas na margem ocidental, instaurar uma ordem internacional mais justa, e por aí afora.
Descontando o facto de que nenhum desses problemas é tão fácil de resolver quanto possa parecer, o equívoco essencial reside em pensar-se que essas são as causas do terrorismo internacional. Não são: se tudo isso fosse feito, não tenham dúvida de que os terroristas exigiriam em seguida o controlo sobre os poços de petróleo do Texas ou a devolução da Andaluzia. Não só porque esses gestos seriam entendidos como rendições, como, sobretudo, porque o fundamento da sua actuação não é, de facto, nenhum propósito político preciso.
Muita gente parece pensar, e alguma afirma-o mesmo, que a origem do terrorismo radica na pobreza e na opressão a que a maioria da humanidade se encontra hoje submetida. Daí até à condenação sem nuances da chamada globalização vai apenas um passo.
A opressão extrema dá origem a fenómenos de resistência extrema, incluindo actos terroristas, mas não ao terrorismo indiscriminado como este a que estamos a assistir. Para ser eficaz como arma política, o terrorismo tem como funcionar como uma ameaça credível contra aqueles que designa como adversários. Assim, sendo, exerce-se sobre alvos bem determinados, sejam eles pessoas individuais (como muitas vezes fez a ETA) ou grupos humanos bem determinados (como faz o Hamas em Israel). Sob esta forma, o o terrorismo é conhecido desde a mais remota antiguidade.
Mas o terrorismo indiscriminado não é -- repito: não é -- apenas uma forma de luta política particularmente perversa. Pura e simplesmente, não é uma forma de luta política.
Devemos, pois, tomar a sério a ideia segundo a qual na origem destes fenómenos estão certas formas de paranóia assassina. Lidamos aqui com psicopatas de tipo particular que, em consequência do poder da tecnologia actual e da liberdade de circulação de pessoas e ideias, se tornaram particularmente ameaçadores para a sociedade mundial.
Nem os governos nem os políticos podem dizê-lo, é claro, mas este tipo de terrorismo é um pouco como os tremores de terra ou a sinistralidade rodoviária. Não podemos verdadeiramente evitá-los, embora possamos adoptar políticas preventivas, de algum modo semelhantes à construção anti-sísmica, orientadas para a minimização dos seus efeitos.
Esta conclusão resulta precisamente do carácter indiscriminado destes atentados. É possível proteger razoavelmente os chefes de estado, os principais edifícios onde se encontram sedeados os órgãos do poder e o quartéis. Mas não é possível proteger milhões de cidadãos que podem ser atacados nos transportes públicos, nos locais de trabalho, em locais de lazer, em suas casas -- em qualquer parte, enfim.
Ao contrário do que se diz, para levar a cabo estes ataques não é necessária qualquer sofisticação ou capacidade especial de planeamento. Basta combinar algum conhecimento de explosivos com uma dose suficiente de desequilíbrio mental.
Paradoxalmente, quanto mais acentuarmos as medidas de segurança destinadas a proteger-nos de ataques terroristas, mais indiscriminados eles se tornarão. Porque será muito difícil atacar a equipa inglesa de futebol durante o Euro 2004, mas muito fácil lançar uma bomba entre a multidão que se dirige a um estádio para assistir a um desafio dessa mesma equipa minutos antes do jogo.
Não podemos por conseguinte impedir em absoluto a ocorrência de actos terroristas como aquele que na passada quinta-feira teve lugar em Madrid, mas podemos talvez condicioná-los e controlar a sua escala. Estas circunstâncias aconselham uma atitude de princípio a que, à falta de melhor designação, chamarei estoicismo activista.
Tem-se dito -- e é verdade -- que a confiança nos poderes da razão é posta em cheque com acontecimentos sumamente irracionais destas proporções e consequências. Acredito que devemos aceitar esse desafio, em vez de reagirmos de forma igualmente irracional, sob pena de nos resignarmos à derrota progressiva de todos os valores em que acreditamos.
Não sei se recordam de que, logo a seguir ao 11 de Setembro, ganhou terreno a opinião segundo a qual uma das formas mais eficientes de combater o terrorismo seria a eliminação dos paraísos financeiros off-shore que escapam a todo e qualquer controlo institucional. Curiosamente, nunca mais se voltou a falar disso.
A minha tese é simples: as formas mais eficientes de combater o terrorismo foram já claramente enunciadas por diversas pessoas nos últimos anos. Trata-se apenas de articulá-las numa política integrada, colocá-la na agenda das principais organizações internacionais e pressionar a sua implementação. De passagem, e como requisito prévio para a sua implementação, proceder-se-á à necessária reforma das Nações Unidas, a qual passa pela penalização, indo até à expulsão, de países que não merecem a confiança da comunidade internacional, em simultâneo com o reforço dos seus poderes.
O terrorismo internacional indiscriminado -- sublinho bem que é deste que estou a falar -- não é um fenómeno racional resultante de causas claramente identificáveis. Como tal, não podem ser combatidas as suas raízes políticas, muito menos através de uma estratégia de apaziguamento que alguns ingenuamente sugerem.
Mas o terrorismo internacional não pode subsistir, pelo menos com a sua força actual, se não beneficiar de certas condições facilitadoras. Ñós não queremos questionar algumas dessas condições, tais como os direitos e garantia dos cidadãos, a liberdade de expressão, a liberdade de movimentos, o acesso à internet, etc.
Mas podemos e devemos questionar a liberdade de circulação dos capitais tal como hoje ocorre, que nenhum princípio de sã gestão económica recomenda. Tal como podemos e devemos questionar certas instituições cujo traço distintivo é a protecção de actividades ilegais. Essas actividades só podem existir porque a comunidade internacional não dispõe, ou não quer dipor, de meios para impor a sua vontade a países e interesses particulares que prosperam à custa dessas falhas de regulação.
Tal como devem ser chamados à pedra estados pária que prosseguem programas de fabrico de armas de destruição massiva ou dão cobertura e treino a terroristas, devem também ser submetidos a escrutínio todos aqueles que dão guarida ao crime organizado internacional.
Chegados aqui, é indispensável referir o problema central de tudo isto. Ninguém duvida seriamente de que a grande fonte de financiamento do terrorismo é o narcotráfico. Toda a actividade do regime talibã era, como se sabe, suportada pelo comércio do ópio.
A guerra contra a droga é, por conseguinte, a vertente decisiva da guerra contra o terrorismo. Uma e outra estão a ser perdidas porque nem a guerra de Clinton contra a droga nem a guerra de Bush contra o terrorismo assentam em pressupostos racionais.
A únida forma segura de combater o crime organizado é pôr termo ao proibicionismo como esteio fundamental do combate à toxicodependência. A produção, a comercialização e o consumo da droga devem ser total e completamente despenalizados. De preferência, os estados nacionais devem intervir nesse processo, não só para assegurar a protecção e o tratamento dos toxicodependentes, como para secar a principal fonte de financiamento do crime organizado e, por consequência, do terrorismo internacional.
Estas ideias, como digo, não são novas. Muitas delas já foram discutidas durante suficiente tempo com suficiente profundidade para nos sentirmos razoavelmente seguros da sua correcção e viabilidade.
Por enquanto só existe um suposto plano de combate ao terrorismo -- que é o da direita. Em resumo, ele propõe-se combater a violência com mais violência e, a prazo, ameaça pôr em causa os direitos e as liberdades fundamentais dos cidadãos. Na verdade, como o ilustra a invasão do Iraque, não combate eficazmente o terrorismo e agrava ainda mais a situação. Temos boas razões para acreditar que, para essa direita, o terrorismo é apenas um pretexto para subverter as instituições democráticas e impor uma agenda política orientada pelos interesses dos poderosos.
Um ano e meio depois do 11 de Setembro é tempo de as coisas começarem a mudar.
Aprecio o ponto de vista daqueles que dizem que o terrorismo só pode ser combatido com eficácia se atacarmos as suas causas, mas não entendo bem o que querem dizer. Por vezes, sugerem que isso significa retirar as tropas americanas do Iraque, desmantelar os colonatos israelitas na margem ocidental, instaurar uma ordem internacional mais justa, e por aí afora.
Descontando o facto de que nenhum desses problemas é tão fácil de resolver quanto possa parecer, o equívoco essencial reside em pensar-se que essas são as causas do terrorismo internacional. Não são: se tudo isso fosse feito, não tenham dúvida de que os terroristas exigiriam em seguida o controlo sobre os poços de petróleo do Texas ou a devolução da Andaluzia. Não só porque esses gestos seriam entendidos como rendições, como, sobretudo, porque o fundamento da sua actuação não é, de facto, nenhum propósito político preciso.
Muita gente parece pensar, e alguma afirma-o mesmo, que a origem do terrorismo radica na pobreza e na opressão a que a maioria da humanidade se encontra hoje submetida. Daí até à condenação sem nuances da chamada globalização vai apenas um passo.
A opressão extrema dá origem a fenómenos de resistência extrema, incluindo actos terroristas, mas não ao terrorismo indiscriminado como este a que estamos a assistir. Para ser eficaz como arma política, o terrorismo tem como funcionar como uma ameaça credível contra aqueles que designa como adversários. Assim, sendo, exerce-se sobre alvos bem determinados, sejam eles pessoas individuais (como muitas vezes fez a ETA) ou grupos humanos bem determinados (como faz o Hamas em Israel). Sob esta forma, o o terrorismo é conhecido desde a mais remota antiguidade.
Mas o terrorismo indiscriminado não é -- repito: não é -- apenas uma forma de luta política particularmente perversa. Pura e simplesmente, não é uma forma de luta política.
Devemos, pois, tomar a sério a ideia segundo a qual na origem destes fenómenos estão certas formas de paranóia assassina. Lidamos aqui com psicopatas de tipo particular que, em consequência do poder da tecnologia actual e da liberdade de circulação de pessoas e ideias, se tornaram particularmente ameaçadores para a sociedade mundial.
Nem os governos nem os políticos podem dizê-lo, é claro, mas este tipo de terrorismo é um pouco como os tremores de terra ou a sinistralidade rodoviária. Não podemos verdadeiramente evitá-los, embora possamos adoptar políticas preventivas, de algum modo semelhantes à construção anti-sísmica, orientadas para a minimização dos seus efeitos.
Esta conclusão resulta precisamente do carácter indiscriminado destes atentados. É possível proteger razoavelmente os chefes de estado, os principais edifícios onde se encontram sedeados os órgãos do poder e o quartéis. Mas não é possível proteger milhões de cidadãos que podem ser atacados nos transportes públicos, nos locais de trabalho, em locais de lazer, em suas casas -- em qualquer parte, enfim.
Ao contrário do que se diz, para levar a cabo estes ataques não é necessária qualquer sofisticação ou capacidade especial de planeamento. Basta combinar algum conhecimento de explosivos com uma dose suficiente de desequilíbrio mental.
Paradoxalmente, quanto mais acentuarmos as medidas de segurança destinadas a proteger-nos de ataques terroristas, mais indiscriminados eles se tornarão. Porque será muito difícil atacar a equipa inglesa de futebol durante o Euro 2004, mas muito fácil lançar uma bomba entre a multidão que se dirige a um estádio para assistir a um desafio dessa mesma equipa minutos antes do jogo.
Não podemos por conseguinte impedir em absoluto a ocorrência de actos terroristas como aquele que na passada quinta-feira teve lugar em Madrid, mas podemos talvez condicioná-los e controlar a sua escala. Estas circunstâncias aconselham uma atitude de princípio a que, à falta de melhor designação, chamarei estoicismo activista.
Tem-se dito -- e é verdade -- que a confiança nos poderes da razão é posta em cheque com acontecimentos sumamente irracionais destas proporções e consequências. Acredito que devemos aceitar esse desafio, em vez de reagirmos de forma igualmente irracional, sob pena de nos resignarmos à derrota progressiva de todos os valores em que acreditamos.
Não sei se recordam de que, logo a seguir ao 11 de Setembro, ganhou terreno a opinião segundo a qual uma das formas mais eficientes de combater o terrorismo seria a eliminação dos paraísos financeiros off-shore que escapam a todo e qualquer controlo institucional. Curiosamente, nunca mais se voltou a falar disso.
A minha tese é simples: as formas mais eficientes de combater o terrorismo foram já claramente enunciadas por diversas pessoas nos últimos anos. Trata-se apenas de articulá-las numa política integrada, colocá-la na agenda das principais organizações internacionais e pressionar a sua implementação. De passagem, e como requisito prévio para a sua implementação, proceder-se-á à necessária reforma das Nações Unidas, a qual passa pela penalização, indo até à expulsão, de países que não merecem a confiança da comunidade internacional, em simultâneo com o reforço dos seus poderes.
O terrorismo internacional indiscriminado -- sublinho bem que é deste que estou a falar -- não é um fenómeno racional resultante de causas claramente identificáveis. Como tal, não podem ser combatidas as suas raízes políticas, muito menos através de uma estratégia de apaziguamento que alguns ingenuamente sugerem.
Mas o terrorismo internacional não pode subsistir, pelo menos com a sua força actual, se não beneficiar de certas condições facilitadoras. Ñós não queremos questionar algumas dessas condições, tais como os direitos e garantia dos cidadãos, a liberdade de expressão, a liberdade de movimentos, o acesso à internet, etc.
Mas podemos e devemos questionar a liberdade de circulação dos capitais tal como hoje ocorre, que nenhum princípio de sã gestão económica recomenda. Tal como podemos e devemos questionar certas instituições cujo traço distintivo é a protecção de actividades ilegais. Essas actividades só podem existir porque a comunidade internacional não dispõe, ou não quer dipor, de meios para impor a sua vontade a países e interesses particulares que prosperam à custa dessas falhas de regulação.
Tal como devem ser chamados à pedra estados pária que prosseguem programas de fabrico de armas de destruição massiva ou dão cobertura e treino a terroristas, devem também ser submetidos a escrutínio todos aqueles que dão guarida ao crime organizado internacional.
Chegados aqui, é indispensável referir o problema central de tudo isto. Ninguém duvida seriamente de que a grande fonte de financiamento do terrorismo é o narcotráfico. Toda a actividade do regime talibã era, como se sabe, suportada pelo comércio do ópio.
A guerra contra a droga é, por conseguinte, a vertente decisiva da guerra contra o terrorismo. Uma e outra estão a ser perdidas porque nem a guerra de Clinton contra a droga nem a guerra de Bush contra o terrorismo assentam em pressupostos racionais.
A únida forma segura de combater o crime organizado é pôr termo ao proibicionismo como esteio fundamental do combate à toxicodependência. A produção, a comercialização e o consumo da droga devem ser total e completamente despenalizados. De preferência, os estados nacionais devem intervir nesse processo, não só para assegurar a protecção e o tratamento dos toxicodependentes, como para secar a principal fonte de financiamento do crime organizado e, por consequência, do terrorismo internacional.
Estas ideias, como digo, não são novas. Muitas delas já foram discutidas durante suficiente tempo com suficiente profundidade para nos sentirmos razoavelmente seguros da sua correcção e viabilidade.
Por enquanto só existe um suposto plano de combate ao terrorismo -- que é o da direita. Em resumo, ele propõe-se combater a violência com mais violência e, a prazo, ameaça pôr em causa os direitos e as liberdades fundamentais dos cidadãos. Na verdade, como o ilustra a invasão do Iraque, não combate eficazmente o terrorismo e agrava ainda mais a situação. Temos boas razões para acreditar que, para essa direita, o terrorismo é apenas um pretexto para subverter as instituições democráticas e impor uma agenda política orientada pelos interesses dos poderosos.
Um ano e meio depois do 11 de Setembro é tempo de as coisas começarem a mudar.
A exportação da ignorância
Um professor de História que tive no liceu ensinava-nos que não se deve tentar falar espanhol com os espanhóis. Basta que falemos à palhaço para que eles nos entendam.
Os repórteres de televisão portugueses deslocados para Madrid para cobrirem os atentados terroristas estão a confirmar todos os dias a justeza desse conselho.
Só que, neste caso, não é apenas o sotaque dos clowns, mas a própria essência do espectáculo circense, que eles imitam na perfeição.
Os repórteres de televisão portugueses deslocados para Madrid para cobrirem os atentados terroristas estão a confirmar todos os dias a justeza desse conselho.
Só que, neste caso, não é apenas o sotaque dos clowns, mas a própria essência do espectáculo circense, que eles imitam na perfeição.
9.3.04
Chiado, in memoriam
Agradeço ao leitor que me esclareceu, em comentário ao post «Mistérios de Lisboa» que, de facto, Chiado existiu e até disse não sei o quê.
Ora eu não duvido que ele tenha de facto existido. Segundo a «História da Literatura Portuguesa» de António José Saraiva e Óscar Lopes, Chiado seria um frade relapso que se celebrizou pelas suas composições satíricas anti-clericais. Rumores não confirmados acrescentam que residiria num bordel ali à Rua de S. Julião.
Mas o que eu gostaria de entender é que misterioso critério levou a autarquia lisboeta (se não me engano em 1848) a erigir ali aquela estátua a um autor tão insignificante, quando haveria tanta gente mais relevante para homenagear.
Conjecturo eu que a justificação deverá ser semelhante à que levou a baptizar com o nome de Eusébio um avião da TAP. Ou talvez tenha sido para chatear a Igreja numa época de furores anti-clericais em sintonia com as quadras do justamente esquecido versejador do século XVI.
Ora eu não duvido que ele tenha de facto existido. Segundo a «História da Literatura Portuguesa» de António José Saraiva e Óscar Lopes, Chiado seria um frade relapso que se celebrizou pelas suas composições satíricas anti-clericais. Rumores não confirmados acrescentam que residiria num bordel ali à Rua de S. Julião.
Mas o que eu gostaria de entender é que misterioso critério levou a autarquia lisboeta (se não me engano em 1848) a erigir ali aquela estátua a um autor tão insignificante, quando haveria tanta gente mais relevante para homenagear.
Conjecturo eu que a justificação deverá ser semelhante à que levou a baptizar com o nome de Eusébio um avião da TAP. Ou talvez tenha sido para chatear a Igreja numa época de furores anti-clericais em sintonia com as quadras do justamente esquecido versejador do século XVI.
Empreendedorismo à portuguesa
Qualquer pessoa que já tenha tentado criar uma empresa em Portugal sabe que o mais difícil não é nem arranjar clientes nem conseguir financiamento. -- É registar o nome.
As coisas passam-se assim: um sujeito dirige-se ao Registo Nacional de Pessoas Colectivas todo contente, convencido de que tem um nome catita para a sua empresa. Engano: já existe outra com a mesma designação.
«Tiver azar», pensa ele, «mas não faz mal. Vou pensar numa alternativa e depois volto cá.» Trezentos e quarenta e sete nomes depois, todos eles rejeitados sob o pretexto de que já existem, começa finalmente a desconfiar de que alguma coisa não bate certo.
Haverá assim tantas empresas a operar em Portugal? Uma olhadela à Lista Telefónica revela-nos que a esmagadora maioria dessas empresas de facto não existe. Pura e simplesmente alguém registou um nome e ficou-se por aí, se calhar à espera de extorquir dinheiro a alguém que pretenda de facto usá-lo. Empreendedorismo à portuguesa, portanto.
É engraçado. Se eu conseguir registar um nome, tenho um período de tempo limitado para constituir a empresa (se não me engano, apenas uns 30 dias). Mas, se não a criar, o nome continua lá registado, e ninguém o pode usar. Haverá um prazo limite de validade para esse registo? Se há, ninguém consegue explicar-me qual é.
Aqui há uns anos só se podia registar nomes estrangeiros se fossem latinos ou gregos. Mas uma amiga minha conseguiu registar um nome alemão, sem que alguém conseguisse justificá-lo. Quando percebi do que gastava a casa, eu próprio consegui registar um nome inglês com uma justificação disparatada.
Curiosamente, à luz da mesma regra, o nome Microsoft não poderia ter sido reservado, excepto pela própria empresa, mas quando ela chegou a Portugal não pôde usá-lo, porque alguém chegara primeiro! É por isso que a sua firma comercial no nosso país é antes MSFT.
Entretanto, o país «modernizou-se», e já se admite toda a sorte de nomes, mas não vale de nada. Os registadores mistério já avançaram por aí e tomaram conta de todas as designações que vocês consigam imaginar. De maneira que temos dezenas de milhar de empresas (a maioria delas com nomes de pessoas individuais), mas milhões de nomes cativos.
Em desespero de causa, uma outra amiga minha chamou à sua nova empresa «P.1437», passe a publicidade. Aprovado! Mas não riam antes de tempo, porque os resgistadores mistério estão à espreita e, neste momento, já devem ter esgotado todos os números com menos de 397 algarismos.
Um governo que quisesse de facto fazer alguma coisa pelo espírito empresarial começaria por resolver primeiro estas situações anedóticas. Reformas mais complicadas poderiam ficar para depois.
Tenho dito.
As coisas passam-se assim: um sujeito dirige-se ao Registo Nacional de Pessoas Colectivas todo contente, convencido de que tem um nome catita para a sua empresa. Engano: já existe outra com a mesma designação.
«Tiver azar», pensa ele, «mas não faz mal. Vou pensar numa alternativa e depois volto cá.» Trezentos e quarenta e sete nomes depois, todos eles rejeitados sob o pretexto de que já existem, começa finalmente a desconfiar de que alguma coisa não bate certo.
Haverá assim tantas empresas a operar em Portugal? Uma olhadela à Lista Telefónica revela-nos que a esmagadora maioria dessas empresas de facto não existe. Pura e simplesmente alguém registou um nome e ficou-se por aí, se calhar à espera de extorquir dinheiro a alguém que pretenda de facto usá-lo. Empreendedorismo à portuguesa, portanto.
É engraçado. Se eu conseguir registar um nome, tenho um período de tempo limitado para constituir a empresa (se não me engano, apenas uns 30 dias). Mas, se não a criar, o nome continua lá registado, e ninguém o pode usar. Haverá um prazo limite de validade para esse registo? Se há, ninguém consegue explicar-me qual é.
Aqui há uns anos só se podia registar nomes estrangeiros se fossem latinos ou gregos. Mas uma amiga minha conseguiu registar um nome alemão, sem que alguém conseguisse justificá-lo. Quando percebi do que gastava a casa, eu próprio consegui registar um nome inglês com uma justificação disparatada.
Curiosamente, à luz da mesma regra, o nome Microsoft não poderia ter sido reservado, excepto pela própria empresa, mas quando ela chegou a Portugal não pôde usá-lo, porque alguém chegara primeiro! É por isso que a sua firma comercial no nosso país é antes MSFT.
Entretanto, o país «modernizou-se», e já se admite toda a sorte de nomes, mas não vale de nada. Os registadores mistério já avançaram por aí e tomaram conta de todas as designações que vocês consigam imaginar. De maneira que temos dezenas de milhar de empresas (a maioria delas com nomes de pessoas individuais), mas milhões de nomes cativos.
Em desespero de causa, uma outra amiga minha chamou à sua nova empresa «P.1437», passe a publicidade. Aprovado! Mas não riam antes de tempo, porque os resgistadores mistério estão à espreita e, neste momento, já devem ter esgotado todos os números com menos de 397 algarismos.
Um governo que quisesse de facto fazer alguma coisa pelo espírito empresarial começaria por resolver primeiro estas situações anedóticas. Reformas mais complicadas poderiam ficar para depois.
Tenho dito.
8.3.04
Mistérios de Lisboa
Quem seria o célebre poeta Chiado que emprestou o seu nome a uma das praças mais nobres da capital da Lusitânia?
Alguém alguma vez leu ao menos um verso ou uma linha da sua lavra? Será que ele existiu mesmo?
Alguém alguma vez leu ao menos um verso ou uma linha da sua lavra? Será que ele existiu mesmo?
Pergunta ingénua
Essa coisa da disciplina partidária não será inconstitucional?
Se os deputados são livremente eleitos pelos cidadãos, como pode alguém legitimamente condicionar o sentido do seu voto na Assembleia, presumivelmente em resultado de alguma ameaça oculta ou promessa inconfessável?
E serei só eu que me interrogo sobre estas coisas?
Se os deputados são livremente eleitos pelos cidadãos, como pode alguém legitimamente condicionar o sentido do seu voto na Assembleia, presumivelmente em resultado de alguma ameaça oculta ou promessa inconfessável?
E serei só eu que me interrogo sobre estas coisas?
Pergunta ingénua
Essa coisa da disciplina partidária não será inconstitucional?
Se os deputados são livremente eleitos pelos cidadãos, como pode alguém legitimamente condicionar o sentido do seu voto na Assembleia, presumivelmente em resultado de alguma ameaça oculta ou promessa inconfessável?
E serei só eu que me interrogo sobre estas coisas?
Se os deputados são livremente eleitos pelos cidadãos, como pode alguém legitimamente condicionar o sentido do seu voto na Assembleia, presumivelmente em resultado de alguma ameaça oculta ou promessa inconfessável?
E serei só eu que me interrogo sobre estas coisas?
4.3.04
Para inglês ver
O mais interessante nas intensas manobras em curso tendo em vista descriminalizar o aborto sem todavia o despenalizar -- ou será ao contrário? -- é que se manifesta aqui mais uma vez o irresistível chico-espertismo nacional.
Não se resolve o problema -- acho que não é preciso explicar porquê --, mas finge-se que se resolve.
Inventa-se uma solução muito arrevezada, mas juridicamente aceitável (acima de tudo, é preciso satisfazer a visão particular do mundo dos juristas) ficamos todos muito melhor com a nossa consciência, os estrangeiros se calhar até vão pensar que o país está a civlizar-se -- e passa-se adiante.
Que as mulheres não sejam presas, mas possam continuar a morrer devido às deficientes condições em que abortam, isso é apenas um pormenor. Tenham paciência...
Não se resolve o problema -- acho que não é preciso explicar porquê --, mas finge-se que se resolve.
Inventa-se uma solução muito arrevezada, mas juridicamente aceitável (acima de tudo, é preciso satisfazer a visão particular do mundo dos juristas) ficamos todos muito melhor com a nossa consciência, os estrangeiros se calhar até vão pensar que o país está a civlizar-se -- e passa-se adiante.
Que as mulheres não sejam presas, mas possam continuar a morrer devido às deficientes condições em que abortam, isso é apenas um pormenor. Tenham paciência...
3.3.04
Em louvor do tabaco
Esta coisa de toda a gente estar a deixar de fumar não pode ser encarada como um mero problema de saúde pública. Trata-se, não duvidem, de um verdadeiro retrocesso civilizacional.
Um mundo que não fuma é, necessariamente, um mundo que não sonha, ou que sonha menos, ou que sonha pior. A curva de popularidade do fumo acompanhou de perto, quer-me a mim parecer, a ascensão e queda do romantismo enquanto movimento social e artístico, ou melhor, enquanto forma de estar e de ser.
Um mundo que não fuma é um mundo que quer a todo o custo viver mais, nem que seja pior. Que cuida muito de factos, de números, de médias, de tendências, de leis, de organizações, e para o qual, por consequência, a saúde é um mero fenómeno estatístico. Assim sendo, este mundo atenta pouco no acontecimento e no momento irrepetíveis que, maravilhando-nos, nos proporcionam o acesso directo à felicidade.
Um mundo que não fuma é um mundo que não medita, não convive, não discute, não se exalta, não conversa, não namora, muito menos seduz.
Primeiro, proibiram o fumo nos cinemas, depois nos autocarros e nos aviões, agora no futebol. Que enorme, que inconcebível degradação da nossa qualidade de vida!
(E como é possível ver-se futebol sem fumar? Fosse alguém tentar explicar uma coisa dessas ao meu avô!)
Com a generalização do consumo do tabaco, o planeta conheceu o período de mais intenso crescimento da produtividade de toda a história da humanidade. A indústria expandiu-se, as cidades cresceram, a agricultura floresceu. Os transportes e as telecomunicações aproximaram os homens. O analfabetismo foi erradicado em todos os países civilizados. O número de cientistas vivos excedeu o de todos os que existiram até hoje. Fomos à Lua, estamos a iniciar a exploração de Marte. Descobrimos os segredos essenciais da matéria e da vida. E eis que, no auge desta epopeia, um bando de insensatos disfarçados de benfeitores da humanidade decidiram atacar o motor de todo este progresso: o tabaco. Esperem pela pancada!
Neste mundo não há, evidentemente, lugar para Humphrey Bogart. Mas também não o há para Churchill, porque Churchill sem charuto não faz sentido. E Sherlock Holmes, e Sartre, e Mae West? Também não têm lugar, nenhum deles tem lugar. Os grandes fumadores foram, bem vistas as coisas, a pleiade dos nossos tempos.
O tabaco foi banido, a cerveja só é aceitável se não tiver álcool, o açúcar está mal visto... Vivemos hoje num mundo de meninas, essa é que essa.
Depressa, um novo vício, por favor!
A criação do mundo
O ponto de partida pode ser um quadrado preto sobre fundo branco, como entendeu Malevitch. O próprio ensaiou ainda um quadrado branco sobre branco. Em seguida passou a compor cruzes a partir de quatro quadrados, mas depois cansou-se e partiu para outra.
Rothko agarrou nas coisas nesse ponto e tentou descobrir que mundos seria possível inventar recorrendo apenas a quadrados e rectângulos. Em geral, não necessitou de muitos: dois ou três eram suficientes.
Descobriu que os contrastes cromáticos (ou a quase ausência deles) constituem matéria-prima bastante para criar um universo de uma enorme riqueza visual. Uma ideia simples original foi-se sucessivamente desdobrando em infinitas execuções, cada uma das quais nos dá a ver algo que nunca suspeitáramos.
É na redução da forma ao mínimo indispensável (ou inevitável) que a cor se revela do modo mais sublime.
Esta criação não compete com Deus, dado que é deliberadamente pobre. Não tenta reproduzir, muito menos melhorar, o mundo visível pré-existente. É uma criação de um tipo diferente, que, atendo-se ao essencial, consegue intuir aquelas verdades que se podem mostrar, mas não nomear.
É humilde, porque o seu projecto é minimalista; mas ousada, porque desvela o que antes ninguém vislumbrara.
A linha clara
Não era só a linha que era clara. Naquele tempo também o eram as ideias, as situações, a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado, o belo e o feio, nós e os outros, o futuro e o passado, o justo e o injusto, o que é e não é arte, a ordem e o caos, a esquerda e a direita, a ciência e a fraude, a notícia e a ficção, o amor e a indiferença, o conhecimento e a superstição, a coragem e a cobardia, a filosofia e a mistificação, a história e a fábula, a dedicação e a subserviência, o herói e o traidor, a sinceridade e o fingimento, a resistência e o terrorismo, a liberdade e a tirania, Deus e o nada.
Mas depois a gente toma conhecimento que o Hergé, esse supremo activista do humanismo internacionalista, tinha (e, ao que parece, sempre manteve) simpatias fascistas, e essas linhas de demarcação perdem nitidez e começam a esbater-se.
2.3.04
1.3.04
Ainda e sempre, Borges
Quem for à procura de um curso de literatura inglesa no «Curso de literatura inglesa» de Borges -- publicado postumamente a partir dos apontamentos das suas aulas) -- corre o risco de ficar seriamente desapontado.
Trata-se apenas de um livro de memórias -- de memórias dispersas polarizadas em torno de certas linhas de certas páginas de certos livros, alguns assumidamente menores, que nalgum momento por alguma razão Borges amou.
O seu assunto é a relação do autor com um certo número de escritores, mais escoceses que ingleses, que, embora siga uma ordem cronológica, não se preocupa em cobrir nem o conjunto da literatura inglesa, nem sequer algo que se assemelhe aos seus autores mais significativos. Que ele não se esforça por cumprir este segundo desiderato prova-o o facto de Conrad, um dos eleitos de Borges, nem sequer ser mencionado.
Como sempre, do que Borges verdadeiramente fala é da sua visão muito pessoal da literatura, e também das suas usuais obsessões com os sonhos, os espelhos, a literatura, a gnose, a memória e os tigres.
De absolutamente novo, para mim, apenas a descoberta da influência do poeta Robert Browning sobre a concepção dos contos do escritor argentino. Tenho que entender melhor o que se passou aqui.
Qual foi o último livro que abandonou a meio?
«The Blind Assassin», de Margaret Attwood, com grande mágoa minha.
A autora escreve maravilhosamente, mas, embora só tivesse ideias para umas 300 páginas, resolveu esticá-las até às 600.
Acontece a muito boa gente, mas eu é que não posso perder mais tempo. Tenho outros livros à espera.
Quem sabe se talvez noutro dia, noutro tempo?...
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