O meu sobrinho, recém-chegado de Londres, ao ver na televisão um menino copo de leite a falar em nome do movimento "Portugal Positivo", perguntou-me: "Ó tio, isto é coisa do Governo, não é?"
Esta nova seita propõe-se nada mais nada menos do que elevar a auto-estima dos portugueses que, segundo a sua psicologia de pacotilha, anda muito por baixo.
Atitude positiva, costas direitas e muito optimismo -- eis tudo o que é preciso para levantar, hoje de novo, o esplendor de Portugal.
Na minha maneira de ver, estes bruxos modernos munidos de MBAs tirados em boas universidades propoem-se fazer o mesmo que o Professor Karamba anuncia nas páginas do 24 Horas -- mas levam incomparavelmente mais caro.
Ora este movimento (patrocinado pela Galp?) teve a triste ideia de convidar para a sua primeira sessão pública o Vasco Pulido Valente.
Segundo o Público, os fiéis ficaram de boca aberta ao ouvirem o Vasco dizer coisas destas:
"Os portugueses têm auto-estima a mais. Isto porque, apesar de se verem como atrasados, embora andem a tentar imitar outros países europeus, nunca se consideraram culpados do atraso português. Começou por ser dos jesuítas, passou para os absolutistas, chegou aos comunistas, sobrou para os fascistas e acabou nos políticos".
Vasco no seu melhor, como se vê.
Mas eu diria mais. Todos os testemunhos de quem no passado nos visitava revelam sem margem para dúvidas a secular arrogância dos portugueses no trato com os estrangeiros.
A mania da superioridade e a ausência de genuina curiosidade pelas coisas estrangeiras sempre foram -- e temo que continuem a ser -- um traço distintivo da nossa cultura de campónios invejosos e ressabiados.
Essas atitudes continuam, de resto, a manifestar-se hoje na falta de sentido das proporções com que falamos da história dos nossos descobrimentos, no exagerado papel que a nós próprios nos atribuimos, no modo como exaltamos, sem nenhuma noção real das coisas, o nosso futebol, a nossa literatura ou os nossos vinhos.
Este povo ensimesmado, absurdamente virado sobre si mesmo, a pontos de os seus noticiários televisivos não terem qualquer semelhança com os dos países que nos rodeiam, persiste hoje em auto-elogiar o seu pretenso "génio universalista".
Decididamente, o ridículo não mata.
21.5.04
Guerra e democracia
Durante muitos anos, uma das leis mais firmes da política internacional afirmava que nunca tinha havido uma guerra entre dois países onde a McDonald's estivesse presente.
Essa hipótese foi popperianamente falseada no dia em que os EUA bombardearam a Sérvia.
Agora, alguns idealistas agarram-se desesperadamente à utopia segundo a qual o impulso pacifista não proviria da carne picada, mas da democracia.
E, de facto, é uma verdade insofismável que, até hoje, nunca houve uma guerra entre dois países democráticos. Percebe-se porquê: quando há guerra, são os eleitores que lá vão bater com os costados, e isso não lhes agrada.
Porque a guerra, como lapidarmente definiu o Godard, "é um pedaço de ferro a perfurar um pedaço de carne". Da nossa, entenda-se.
À direita desagrada-lhe esta natural propensão pacifista das massas, e por isso é a favor de substituir esses mariolas por soldados profissionais.
Os seus últimos escritos sugerem que o Pacheco Pereira anda irritado com o incurável instinto pacifista das sociedades democráticas. Estaremos atentos aos próximos episódios.
Essa hipótese foi popperianamente falseada no dia em que os EUA bombardearam a Sérvia.
Agora, alguns idealistas agarram-se desesperadamente à utopia segundo a qual o impulso pacifista não proviria da carne picada, mas da democracia.
E, de facto, é uma verdade insofismável que, até hoje, nunca houve uma guerra entre dois países democráticos. Percebe-se porquê: quando há guerra, são os eleitores que lá vão bater com os costados, e isso não lhes agrada.
Porque a guerra, como lapidarmente definiu o Godard, "é um pedaço de ferro a perfurar um pedaço de carne". Da nossa, entenda-se.
À direita desagrada-lhe esta natural propensão pacifista das massas, e por isso é a favor de substituir esses mariolas por soldados profissionais.
Os seus últimos escritos sugerem que o Pacheco Pereira anda irritado com o incurável instinto pacifista das sociedades democráticas. Estaremos atentos aos próximos episódios.
Relativismo moral
O Público de hoje dedica ao "esquecimento fiscal" de Manuela Ferreira Leite uma curta notícia de 30 linhas ao fundo da página 11.
Se fosse alguma coisa com "o cunhado de Guterres", certamente teria honras de primeira página.
Se fosse alguma coisa com "o cunhado de Guterres", certamente teria honras de primeira página.
O Público errou
Ontem, na entrevista ao Rui Vieira Nery, o jornalista do Público escreveu a dada altura: "isso tem haver".
Hoje, outro jornalista menciona, a propósito da conferência de Paul Krugman, "um desempenho económico desapontante".
Eles andem aí!
Hoje, outro jornalista menciona, a propósito da conferência de Paul Krugman, "um desempenho económico desapontante".
Eles andem aí!
Aos sportinguistas
Ao que tudo indica, o Sporting prepara-se para despedir o seu treinador, cedendo assim à pressão da troika João Pinto - Pedro Barbosa - Rui Jorge, que há meses lhe faz a vida negra, a ele e àqueles que, como o Liedson, ameaçam ofuscar os seus mesquinhos talentos.
Se o fizer, premiará os prevaricadores, responsáveis pela inqualificável ponta final do clube no campeonato, e penalizará o treinador que recuperou a equipa do estado catatónico em que Boloni há um ano a deixou.
Os que lá ficarem interiorizarão a lição de que no Sporting vale a pena formar grupinhos de pressão para defender os interesses próprios em detrimento dos do clube.
O que o Sporting deveria fazer era isto:
1. Devolver o João Pinto ao Boavista, por ter passado o prazo de validade e só criar conflitos em todos os clubes por onde passa.
2. Devolver o Pedro Barbosa ao Guimarães, porque, embora seja o nosso maior artista da bola, não tem fibra de campeão.
3. Vigiar a medicação do Rui Jorge.
4. Criar condições para que jogadores de qualidade como o Rochemback ou o Liedson possam dar expressão à sua capacidade.
5. Dar todo o apoio ao treinador Fernando Santos, cujo único defeito é ser um tipo decente.
Em vez disso, porém, o natural é que vão buscar o Carlos Queiroz, um homem que, no futebol sénior, se tem distinguido principalmente pelo cuidado que põe na escolha do guarda-roupa.
Depois, não se esqueçam, queixem-se do sistema!
Se o fizer, premiará os prevaricadores, responsáveis pela inqualificável ponta final do clube no campeonato, e penalizará o treinador que recuperou a equipa do estado catatónico em que Boloni há um ano a deixou.
Os que lá ficarem interiorizarão a lição de que no Sporting vale a pena formar grupinhos de pressão para defender os interesses próprios em detrimento dos do clube.
O que o Sporting deveria fazer era isto:
1. Devolver o João Pinto ao Boavista, por ter passado o prazo de validade e só criar conflitos em todos os clubes por onde passa.
2. Devolver o Pedro Barbosa ao Guimarães, porque, embora seja o nosso maior artista da bola, não tem fibra de campeão.
3. Vigiar a medicação do Rui Jorge.
4. Criar condições para que jogadores de qualidade como o Rochemback ou o Liedson possam dar expressão à sua capacidade.
5. Dar todo o apoio ao treinador Fernando Santos, cujo único defeito é ser um tipo decente.
Em vez disso, porém, o natural é que vão buscar o Carlos Queiroz, um homem que, no futebol sénior, se tem distinguido principalmente pelo cuidado que põe na escolha do guarda-roupa.
Depois, não se esqueçam, queixem-se do sistema!
O sistema Rui Jorge
O Rui Jorge foi apanhado no controlo anti-doping.
O Departamento Clínico do Sporting explicou que o jogador andava a tomar um medicamento para combater uma renite alérgica que recentemente entrou para a lista das substâncias proibidas.
O Departamento Clínico explicou que a culpa era sua, por não ter avisado o atleta a tempo. Acrescentou que assumia a total responsabilidade do sucedido.
Acredito perfeitamente que isto seja verdade.
Mas o problema não é esse. O regulamento foi infringido, e não há nenhuma maneira de se verificar se as alegações do Departamento Clínico são verdadeiras ou falsas -- admitindo que isso tenha alguma relevância para o veredicto final.
A Liga decidiu não castigar o Rui Jorge invocando o facto de o Departamento Clínico do clube veio a público assumir a responsabilidade.
O que é que isso quer dizer? O Director do Deparmento Clínico do Sporting demitiu-se na sequência dessa falha gravíssima? Foi de alguma forma punido ou multado?
Não.
Ora, assim, também eu estou disponível para assumir essa responsabilidade, ou qualquer outra que a Liga me peça.
Para falar verdade, o que pesou especialmente neste caso foi o facto de toda a gente querer o Rui Jorge disponível para jogar na selecção. O nosso sentido de justiça desportiva é bem diferente da dos ingleses, que não hesitaram em pôr fora da sua selecção o Sylvester.
Que se lixe, pois, o controlo anti-doping.
Se o Rui Jorge fosse antes jogador do Benfica ou do Porto, possivelmente ser-lhe-ia aplicado o mesmo princípio desculpabilizador.
Mas se fosse, por exemplo, do Marítimo, a história já seria outra. Lembram-se do Kenedy?
Objectivamente, as regras foram torcidas para se adaptarem a um caso particular, perante o silêncio cúmplice de toda a imprensa. É o sistema Rui Jorge em todo o seu esplendor.
O Departamento Clínico do Sporting explicou que o jogador andava a tomar um medicamento para combater uma renite alérgica que recentemente entrou para a lista das substâncias proibidas.
O Departamento Clínico explicou que a culpa era sua, por não ter avisado o atleta a tempo. Acrescentou que assumia a total responsabilidade do sucedido.
Acredito perfeitamente que isto seja verdade.
Mas o problema não é esse. O regulamento foi infringido, e não há nenhuma maneira de se verificar se as alegações do Departamento Clínico são verdadeiras ou falsas -- admitindo que isso tenha alguma relevância para o veredicto final.
A Liga decidiu não castigar o Rui Jorge invocando o facto de o Departamento Clínico do clube veio a público assumir a responsabilidade.
O que é que isso quer dizer? O Director do Deparmento Clínico do Sporting demitiu-se na sequência dessa falha gravíssima? Foi de alguma forma punido ou multado?
Não.
Ora, assim, também eu estou disponível para assumir essa responsabilidade, ou qualquer outra que a Liga me peça.
Para falar verdade, o que pesou especialmente neste caso foi o facto de toda a gente querer o Rui Jorge disponível para jogar na selecção. O nosso sentido de justiça desportiva é bem diferente da dos ingleses, que não hesitaram em pôr fora da sua selecção o Sylvester.
Que se lixe, pois, o controlo anti-doping.
Se o Rui Jorge fosse antes jogador do Benfica ou do Porto, possivelmente ser-lhe-ia aplicado o mesmo princípio desculpabilizador.
Mas se fosse, por exemplo, do Marítimo, a história já seria outra. Lembram-se do Kenedy?
Objectivamente, as regras foram torcidas para se adaptarem a um caso particular, perante o silêncio cúmplice de toda a imprensa. É o sistema Rui Jorge em todo o seu esplendor.
20.5.04
Música, maestro
Nas sociedades primitivas não se concebia o trabalho sem a música que o acompanhava.
Até chegarmos às sociedade industriais foi sempre assim, altura em que a música foi substituida pelo ritmo cadenciado da maquinaria fabril.
Mais tarde, nos nossos escritórios, a música só estava onde não devia estar -- nos elevadores e, às vezes, nas casas de banho -- e da pior forma possível.
Com o aperfeiçoamento dos sistemas audio dos computadores, a música voltou milagrosamente ao trabalho após séculos de ausência.
Curiosamente, porém, ninguém compõe hoje música de trabalho.
Ou será que sou eu que não a conheço? Por favor, informem-me.
Até chegarmos às sociedade industriais foi sempre assim, altura em que a música foi substituida pelo ritmo cadenciado da maquinaria fabril.
Mais tarde, nos nossos escritórios, a música só estava onde não devia estar -- nos elevadores e, às vezes, nas casas de banho -- e da pior forma possível.
Com o aperfeiçoamento dos sistemas audio dos computadores, a música voltou milagrosamente ao trabalho após séculos de ausência.
Curiosamente, porém, ninguém compõe hoje música de trabalho.
Ou será que sou eu que não a conheço? Por favor, informem-me.
Do que o Porto precisa
No meio do debate parlamentar de ontem, o Ministro da Economia tirou a dado momento da cartola a transferência do IAPMEI para o Porto.
O IAPMEI praticamente só serve para distribuir subsídios da União Europeia, por isso será provavelmente extinto quando, dentro de poucos anos, acabar o actual quadro comunitário de apoio.
Apesar disso, os parolos do costume -- e habituais serventuários locais do governo central -- apressaram-se a aplaudir a medida, sem dúvida concebida para tentar caçar votos nos próximos actos eleitorais.
O Porto não precisa de receber a título de esmola organismos do estado como o IAPMEI ou o Instituto do Investimento Estrangeiro, cuja deslocação para fora da capital é um completo absurdo.
Do que o Porto necessita é de dispor dos meios necessários para governar adequadamente a sua área metropolitana.
Do que o Porto necessita é que um processo de regionalização democraticamente controlado seja posto em marcha.
Já agora, do que o país em geral precisa também é disso.
O IAPMEI praticamente só serve para distribuir subsídios da União Europeia, por isso será provavelmente extinto quando, dentro de poucos anos, acabar o actual quadro comunitário de apoio.
Apesar disso, os parolos do costume -- e habituais serventuários locais do governo central -- apressaram-se a aplaudir a medida, sem dúvida concebida para tentar caçar votos nos próximos actos eleitorais.
O Porto não precisa de receber a título de esmola organismos do estado como o IAPMEI ou o Instituto do Investimento Estrangeiro, cuja deslocação para fora da capital é um completo absurdo.
Do que o Porto necessita é de dispor dos meios necessários para governar adequadamente a sua área metropolitana.
Do que o Porto necessita é que um processo de regionalização democraticamente controlado seja posto em marcha.
Já agora, do que o país em geral precisa também é disso.
Juro que é verdade
No sábado, sonhei que, depois de concluir com sucesso o primeiro ensaio nuclear, Alberto João Jardim anunciava ao mundo que a Madeira já possuía a bomba atómica.
Esperei seis dias antes de dar a notícia para evitar alarmes desnecessários.
Esperei seis dias antes de dar a notícia para evitar alarmes desnecessários.
19.5.04
O mistério Champalimaud
Diz-se que a pobreza é envergonhada, mas em Portugal são os ricos que -- vá-se lá saber porquê -- vivem meios escondidos.
Pouco se sabe, de facto, sobre os Mello ou os Espírito Santo, mas Champallimaud bateu-os a todos em secretismo.
Ele nunca foi conhecido por dar entrevistas, intervir em mesas redondas, chamar os jornalistas para conferências de imprensa ou dirigir proclamações ao país.
Vai daí, ninguém sabe muito bem quem ele era, o que permite que circulem as lendas mais díspares sobre a personagem e a sua vida.
Segundo uns, era um homem irascível (defeito grave nos poderosos), desumano e insensível, o protótipo do capitalista explorador obcecado pela acumulação do capital como valor supremo. Segundo outros, um herói do empreendorismo, independente de espírito, desafiador do poder político antes e depois do advento da democracia, um self-made man que nunca deveu nada a ninguém, criador de postos de trabalho e de riqueza de que todos beneficiámos.
Para complicar tudo, legou uma fortuna à investigação científica, nomeando postumamente para o cargo alguém com quem só uma vez na vida falou -- ao telefone.
É de mistérios cuidadosamente trabalhados como este que se constroem lendas poderosas e duradouras.
Pouco se sabe, de facto, sobre os Mello ou os Espírito Santo, mas Champallimaud bateu-os a todos em secretismo.
Ele nunca foi conhecido por dar entrevistas, intervir em mesas redondas, chamar os jornalistas para conferências de imprensa ou dirigir proclamações ao país.
Vai daí, ninguém sabe muito bem quem ele era, o que permite que circulem as lendas mais díspares sobre a personagem e a sua vida.
Segundo uns, era um homem irascível (defeito grave nos poderosos), desumano e insensível, o protótipo do capitalista explorador obcecado pela acumulação do capital como valor supremo. Segundo outros, um herói do empreendorismo, independente de espírito, desafiador do poder político antes e depois do advento da democracia, um self-made man que nunca deveu nada a ninguém, criador de postos de trabalho e de riqueza de que todos beneficiámos.
Para complicar tudo, legou uma fortuna à investigação científica, nomeando postumamente para o cargo alguém com quem só uma vez na vida falou -- ao telefone.
É de mistérios cuidadosamente trabalhados como este que se constroem lendas poderosas e duradouras.
Reparem, ele disse "mas"!
Fulano critica o atentado bombista que matou um ministro de Israel, mas, na mesma ocasião, critica também o exército israelita por arrasar as habitações de familiares ou meros vizinhos do tal bombista.
Sicrano horroriza-se com as torturas praticadas por soldados americanos na prisão de Abu Graib, mas, ao fazê-lo, recorda que os EUA são talvez a única nação que sistematicamente tem punido os crimes de guerra praticados pelas suas forças armadas.
De um lado e do outro da barricada escutam-se gritos irados de protesto contra o execrando mas: tentativa de branqueamento! relativismo moral! hipocrisia! etc., etc.
Parece-me claro, meus caros amigos, que está toda a gente a perder rapidamente o juízo. Desde quando é que é proibido, ou sequer desaconselhável, usar a palavra "mas"?
"Sim, mas" é a marca distintiva do debate civilizado. É o modo natural de expressão dos que sabem que, em questões complexas como estas, há sempre várias perspectivas relevantes de análise. Que não estamos perante um conflito simplista entre bons e maus. Que nem tudo é a preto e branco. Que certas condenações exaltadas não passam de demagogia irresponsável. Que a condenação unilateral de uma das partes pode servir para encobrir os crimes da outra.
Enfim, coisas da dialéctica -- um conceito que nem por ter passado de moda deixou de ser relevante.
Sicrano horroriza-se com as torturas praticadas por soldados americanos na prisão de Abu Graib, mas, ao fazê-lo, recorda que os EUA são talvez a única nação que sistematicamente tem punido os crimes de guerra praticados pelas suas forças armadas.
De um lado e do outro da barricada escutam-se gritos irados de protesto contra o execrando mas: tentativa de branqueamento! relativismo moral! hipocrisia! etc., etc.
Parece-me claro, meus caros amigos, que está toda a gente a perder rapidamente o juízo. Desde quando é que é proibido, ou sequer desaconselhável, usar a palavra "mas"?
"Sim, mas" é a marca distintiva do debate civilizado. É o modo natural de expressão dos que sabem que, em questões complexas como estas, há sempre várias perspectivas relevantes de análise. Que não estamos perante um conflito simplista entre bons e maus. Que nem tudo é a preto e branco. Que certas condenações exaltadas não passam de demagogia irresponsável. Que a condenação unilateral de uma das partes pode servir para encobrir os crimes da outra.
Enfim, coisas da dialéctica -- um conceito que nem por ter passado de moda deixou de ser relevante.
A roda do azar
Todos os bem pensantes concordam que o canal 1 da RTP está muito melhor.
Certamente sou eu que tenho azar, porque cada vez que o sintonizo está a dar um concurso.
Hoje, à hora do almoço, espreitei a 2 e também estava a dar um concurso.
Não é possível: isto deve ser uma alucinação de tipo especial que me tolda o espírito e me impede de beneficiar do serviço público -- excepto, claro está, quando o Porto joga para a Liga dos Campeões.
Certamente sou eu que tenho azar, porque cada vez que o sintonizo está a dar um concurso.
Hoje, à hora do almoço, espreitei a 2 e também estava a dar um concurso.
Não é possível: isto deve ser uma alucinação de tipo especial que me tolda o espírito e me impede de beneficiar do serviço público -- excepto, claro está, quando o Porto joga para a Liga dos Campeões.
Bloco central
Petit: "O país vai parar quando o Benfica for campeão".
Todos os bons portugueses têm a obrigação de impedir que isso aconteça, não é verdade?
Todos os bons portugueses têm a obrigação de impedir que isso aconteça, não é verdade?
17.5.04
Um conflito do nosso tempo
Os chamados neo-conservadores não gostam dos conservadores.
Porquê?
Porque, para eles, o conservadorismo é o permanente e manso derrotado na tentativa de conter a expansão do princípio democrático.
Porque, para eles, o conservadorismo é um aliado natural e estratégico do princípio democrático do ponto de vista estratégico, por muito que tacticamente procure opor-se-lhe.
Com o conservadorismo, a direita cede graciosamente, perde lenta e progressivamente o poder, porque não tem nenhum argumento de fundo contra o princípio democrático.
Pior ainda, à medida que a democracia se aprofunda, o argumento conservador -- segundo o qual é melhor não introduzir alterações radicais no sistema para evitar lançá-lo no caos -- começa a jogar a favor da própria democracia, tornando-se imprestável para a direita.
Daí a utilidade para os poderes instituídos da ofensiva neo-conservadora. Para travar o avanço do princípio democrático é preciso opor-lhe uma legitimidade distinta -- uma legitimidade revolucionária, mas de sinal contrário.
Ora o terror e a suposta irracionalidade são, na perspectiva neo-conservadora, argumentos de fundo contra a viabilidade da sociedade democrática.
Cada vez vamos ouvi-los mais nos tempos que se seguem.
Porquê?
Porque, para eles, o conservadorismo é o permanente e manso derrotado na tentativa de conter a expansão do princípio democrático.
Porque, para eles, o conservadorismo é um aliado natural e estratégico do princípio democrático do ponto de vista estratégico, por muito que tacticamente procure opor-se-lhe.
Com o conservadorismo, a direita cede graciosamente, perde lenta e progressivamente o poder, porque não tem nenhum argumento de fundo contra o princípio democrático.
Pior ainda, à medida que a democracia se aprofunda, o argumento conservador -- segundo o qual é melhor não introduzir alterações radicais no sistema para evitar lançá-lo no caos -- começa a jogar a favor da própria democracia, tornando-se imprestável para a direita.
Daí a utilidade para os poderes instituídos da ofensiva neo-conservadora. Para travar o avanço do princípio democrático é preciso opor-lhe uma legitimidade distinta -- uma legitimidade revolucionária, mas de sinal contrário.
Ora o terror e a suposta irracionalidade são, na perspectiva neo-conservadora, argumentos de fundo contra a viabilidade da sociedade democrática.
Cada vez vamos ouvi-los mais nos tempos que se seguem.
15.5.04
É só um pensamento
Isto de um blogue fingir que não conhece ninguém parece-me, sei lá, má educação...
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