20.6.11

Os melhores dos melhores

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1. Só quem nunca trabalhou na vida pode ignorar as dificuldades que a drástica redução do número de ministérios colocará à actuação do novo governo. Como se espera que alguém faça algo de útil se se coloca sob a sua responsabilidade a Economia, os Transportes e Comunicações, as Obras Públicas e o Trabalho? João Cravinho, uma pessoa de capacidades superiores, aceitou tomar simultaneamente conta de parte delas (Transportes e Obras Públicas) e o resultado não foi brilhante. O que Passos decidiu não passa de uma brincadeira de crianças.

2. Uma interminável procissão de sumidades empresariais e académicas debitou-nos durante anos do alto dos seus púlpitos mediáticos infalíveis soluções para curar a pátria infeliz. Chagada a hora, todas as desculpas valeram para se baldarem, sendo a mais vergonhosa a da necessidade de dar lugar a uma nova geração imberbe e inocente. Nuno Crato merece ser felicitado por ter tido a ousadia de, num momento crítico, submeter à prova do fogo as suas convicções. Mesmo que tudo lhe corra mal, terá a oportunidade de completar a sua educação sentimental.

3. Dirigir um ministério é uma função executiva. Consiste basicamente em traçar objetivos, tomar decisões, buscar apoios, liderar projetos, motivar pessoas e controlar resultados. Como é que uma vida de investigação e intriga académica, resguardada do escrutínio da opinião pública, pode preparar alguém para tais funções? É como pretender-se transformar um fabricante de tintas em pintor. Tal como Saramago foi uma revelação tardia, não é impossível que Gaspar e Santos Pereira tenham descoberto a meio das suas vidas uma nova vocação e que ela seja coroada de sucesso. Mas isso parece tão improvável como ganhar a sorte grande em duas semanas consecutivas.

4. Confirma-se que o CDS não tem existência real fora da televisão. Chegada a hora da verdade não conseguiu arrebanhar para o governo senão Cristas, que, revelando-nos uma nova faceta das Novas Oportunidades, vai aprender muito sobre Agricultura, e Mota Soares, um destacado chegamisso.

5. Macedo vai para a Saúde cortar custos. É sempre fascinante observar gestores bancários a cuidar de actividades mais terra a terra. Prevejo que descobrirá que cortes de custos sem uma estratégia conduzem no fim a surpreendentes aumentos de custos.

6. Deslumbrado com as câmaras de tv à chegada à Portela, o Ministro da Economia informa-nos que a Isabel ficou no Canadá a cuidar das crianças de oito, seis e quatro anos. Próximo passo: transmissão em direto das mudanças.

7. Moedas tem neste governo a missão de controlar de perto Gaspar por conta de Passos Coelho. A coisa promete.

8. Na sua primeira intervenção pública depois do anúncio da composição do novo governo, Cavaco Silva assumiu a postura de chefe do executivo. Mais um factor de instabilidade a acrescer aos restantes.

9. Num momento tão difícil, dir-se-ia que precisamos de gente com autoridade e experiência. Puro engano: o que se quer é leviandade e amadorismo.
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4 comentários:

Rui Monteiro disse...

Caro João Pinto e Castro,

De acordo com tudo. Só uma precisão. O João Cravinho, depois do problema da Sisa do Murteira Nabo, acumulou a pasta do Planeamento e Administração do Território com a do Equipamento Social. Isto é, ficou com as autarquias, ordenamento do território, fundos estruturais e transportes e comunicações. Apesar de tudo tinham um traço comum que são o facto de se tratar de pastas ligadas à estruturação do território. Foi uma experiência que acompanhei de perto e que não correu bem.

Neste caso, não se percebe como é que alguém imagina um ministério destes e, mais, como é que alguém aceita o encargo. Santos Pereira vai ficar com a tradicional pasta da Economia (comércio, indústria, serviços e turismo), Fundos Estruturais, Energia, Construção e Obras Públicas, Transportes, Telecomunicações e Emprego. Fica com três Ministérios dos grandes. Mais os tempos de hoje não são os do Cravinho. Por exemplo, alguém imagina quando organismos vão ser tutelados por este Ministério? Alguém imagina que a maior parte das funções de um Ministro, sobretudo na área legislativa, não são delegáveis?

Cumprimentos

IMaria disse...

a seu tempo, o tempo nos dirá de sua justiça. MAs que não se auguram bosn tempos, lá isso, lá isso não. e começou logo mal ontem com o chumbo do PAR...

Anónimo disse...

"Consiste basicamente em traçar objetivos, tomar decisões, buscar apoios, liderar projetos, motivar pessoas e controlar resultados."

Isto é no que consiste uma carreira em investigação.

João Pinto e Castro disse...

Boa piada. Compreende-se que o seu autor prefira guardar o anonimato.