18.12.06

Aos bloggers desprezados

A imprensa séria e maçadora, dita "de referência", adora blogues sérios e maçadores, pelo que é a esses, e só a esses, que rende as suas homenagens.

Mas essa côterie exclusiva não conta ao todo, bem vistas coisas, mais do que uns cinquenta blogues.

A grande maioria dos bloggers activos, pouco inclinada a perorar sobre os grandes mistérios do universo, dedica-se antes aos temas verdadeiramente importantes da vida, que é como quem diz: "gajas e futebol". Operam, porém, em regime de tolerada semi-clandestinidade, ignorados pela opinião pública bem pensante e, logo, sem direito a citações no Diário de Notícias ou no Público.

Ora aquilo que distingue a boa escrita não é o assunto sobre o qual se exerce, mas o modo como o trata.

De modo que é altura de alguém romper uma lança em favor desses bloggers desprezados, injustadamente arrumados numa prateleira cuja designação apenas sugere vulgaridade.

Venham daí visitar o Cafajeste para melhor entenderem do que estou a falar.
60s Crash Course: Johnny Cash: I Walk the Line

O que mais me surpreendeu neste video do início dos anos 60 foi constatar como Johnny Cash se esforçava aplicadamente na época por imitar Leonard Cohen que, todavia, só se revelaria uma meia dúzia de anos depois. Isso fez-me lembrar a pergunta colocada há algum templo pelo Ivan Nunes sobre como seria o mundo antes do cantor canadiano. Como se pode constatar, era mais ou menos assim.
60s Crash Course: Dave Clark Five: Because

Durante alguns meses discutiu-se se seriam ou não melhores do que os Beatles. Esclarecida em definitivo essa dúvida, só resta decidir quem na época imitava quem.
60s Crash Course - Sun Ra: Space Is the Place, Part 1


Sun Ra, nativo do planeta Saturno da raça dos Anjos, chegou à Terra algures entre 1913 e 1918, onde se estabeleceu como jazzman e comediante até à sua morte em 1994.

17.12.06

Anais da Verdade Desportiva: A Mão de Vata


Faltavam 6 minutos para o termo da 2ª mão da meia final, quando Vata marcou com a mão este golo que eliminou o Olympique de Marselha e colocou o Benfica na final da Taça dos Campeões Europeus de 1990.
60s Crash Course - Them: Mystic Eyes / Gloria

O rapazinho que aqui vemos cantar e tocar harmónica chama-se Van Morrison.

15.12.06

60s Crash Course - Lovin' Spoonful: Summer In the City

Os Lovin' Spoonful eram John Sebastian - compositor, cantor e músico de variados talentos - e mais três. Summer in the City é, para mim, o mais perfeito single jamais produzido, onde não há nada a mais nem a menos. O video-clip está bem apanhado, mas é preciso fazer notar que não respeita o espírito da canção.

Perigos do tudo ou nada

O João Miranda acredita que a liberdade é primordial em relação à democracia. O Pedro Arroja acha o contrário.

Cá para o meu gosto, estão ambos enganados. Democracia sem liberdade é tirania, situação que o regime soviético exemplifica na perfeição. Liberdade sem democracia é injustiça, e abundam as ilustrações.

A inovação específica das sociedades contemporâneas é a democracia liberal, ideia que num passado não muito distante era unanimemente considerada pela gente sensata um rematado disparate.

A convivência entre liberdade e democracia é sempre difícil, instável e provisória. Por conseguinte, se quisermos que vingue, terá por força que ser periodicamente reinventada.

Para a democracia liberal funcionar, ambos os princípios que a regem cedem qualquer coisa. Ou seja, aceitam ser imperfeitamente concretizados, desistem do tudo ou nada doutrinário.

Se conseguissemos concordar nisto, metade das nossas querelas ficariam resolvidas.
60s Crash Course - Buffalo Springfield: For What It's Worth


A motivação imediata desta canção foi a morte de quatro estudantes no tiroteio que se seguiu à invasão da Universidade de Chicago pelo exército em 1967. A letra desvia-se da tradição da protest song na medida em que, embora condene a violência da repressão,
Paranoia strikes deep
Into your life it will creep
It starts when you're always afraid
You step out of line, the man come and take you away

pede que não se responda na mesma moeda e que se pare para pensar. É, pois, uma canção subtilmente pacifista:
I think it's time we stop, hey, what's that sound
Everybody look what's going down

Os Buffalo Springfield tiveram vida curta. Neil Young saíu para se dedicar a uma carreira a solo que dura até hoje, embora durante algum tempo se tenha reencontrado com Steve Stills nos Crosby, Stills, Nash & Young.

Colarinhos sebentos

A Maria José Morgado tornou-se conhecida do grande público por denunciar o escasso entusiasmo que entre nós é colocado na repressão do crime de colarinho branco.

De então para cá, ela foi afastada dos cargos que ocupava, o país andou entretido com o affaire Casa Pia e o colarinho branco só teve que se preocupar em apresentar-se bem engomado.

Renasce agora a preocupação, não propriamente com o colarinho branco, mas com o colarinho sebento dos dirigentes desportivos. É melhor que nada, mas, ainda assim, uma distracção em relação ao essencial.

É de esperar que, com o seu apurado sentido do serviço público, a Maria José Morgado faça um trabalho sério e competente. Apenas necessita de ter cuidado para não se deixar envolver nos julgamentos na praça pública que tanto gáudio provocam nos media - mas, também aí, suponho que ela terá aprendido bastante nos últimos anos.

Assuntos internos

Se está preocupado com "a situação do futebol", o PSD não precisa de pedir novas leis. Basta-lhe emitir uma circular interna ou, quando muito, convocar um Congresso Extraordinário para tratar do assunto.

Para quê promover a ingerência da Polícia Judiciária nos assuntos internos do partido? Só se for para ajudar a direcção a ver-se livre de opositores indesejáveis...

14.12.06

60s Crash Course - The Animals: House Of The Rising Sun


Mais outro grupo que contribuíu decisivamente para a fama de Dylan, apesar de "The House of the Rising" ser um tema tradicional e de a versão que gravou não ser da sua autoria. A voz de Eric Burdon não era inferior em nada às de Mick Jagger ou Van Morrison. A dependência do álcool, porém, liquidou-lhe cedo a carreira. Os New Animals tiveram vida curta e pouco relevante. Entretanto, o teclista Alan Price saira para formar o Alan Price Set de boa memória e Chas Chandler dedicara-se em exclusivo à produção discográfica.
60s Crash Course - Byrds: Eight Miles High


Os Byrds começaram por ser a resposta americana à invasão do rock britânico. Partindo de um folk electrificado evoluiram progressivamente para uma música de crescente complexidade. Foram os primeiros responsáveis pela divulgação de Dylan ao transformarem várias das suas canções, a começar por Mr. Tambourine Man, em grandes sucessos populares. Depois de Fifth Dimension a banda foi-se desagregando com a saída progressiva dos membros originais. Quando, por fim, se transformou nos Flying Burrito Brothers quase nada restava do brilhantismo original. Dave Crosby, o músico mais interessante do grupo, continuou a sua carreira nos Crosby, Stills, Nash & Young.


Amadeu Souza-Cardoso: Pintura, 1914.

13.12.06

O estado do ensino superior

Na opinião de Manuel Castells, expressa aquando da sua última passagem por Portugal, o único factor comum a todos os surtos de desenvolvimento que estudou foi o papel central desempenhado pelas universidades.

Se ele estiver certo, é caso para dizer que estamos bem lixados, visto que as universidades são, em termos relativos, aquilo que pior funciona em Portugal. E o mais grave é que, ao contrário do que se passa em áreas como a saúde ou a justiça, nesta não foi ainda traçada qualquer linha de rumo estruturada e coerente tendo em vista a transformação do actual estado de coisas.

Os problemas do ensino superior público têm semelhanças com os dos tribunais e dos hospitais, mas fala-se pouco deles. Será porque a grande maioria dos comentadores com assento nos media são professores universitários?

Em Portugal temos muitos casos de professores catedráticos não doutorados. Muitos professores do quadro quase não dão aulas nem fazem investigação. As aulas são dadas por professores jovens, muitas vezes mal preparados e sem vínculo. Faz-se muito trabalho de consultoria a coberto das universidades, usando as suas instalações, os seus equipamentos e os seus funcionários, mas as universidades quase não ganham nada com isso. Resumindo:

1. As universidades ensinam pouco e mal

2. As universidades investigam pouco e mal

3. As universidades são um óptimo negócio para muita gente, mas não para elas próprias

Suponho que o ministro conhecerá este estado de coisas. Aparentemente, o seu plano é obrigar as universidades a emendarem-se restringindo o financiamento público. Creio que pensa mal: quem dirige as universidades públicas tenderá a cortar no essencial e a conservar o supérfluo, porque é isso que corresponde aos seus interesses e porque sabe que não terá que prestar contas a ninguém. Por este caminho, o mais natural é que boa parte das nossas instituições universitárias entre em processo de decadência progressiva e acabe por extinguir-se.

Outra ideia do ministro é que as universidades poderão ir buscar o dinheiro de que necessitam candidatando-se ao financiamento de programas de investigação científica. É certo que não há boas universidades sem investigação, mas não o é menos que, pelo menos a curto prazo, pode haver investigação sem universidades. Por este caminho, triunfará a segunda alternativa.

O affaire Carolina explicado às crianças

Tudo o que é necessário entender sobre o affaire Carolina está explicado aqui no Mãos ao Ar, um blogue onde, desde há algumas semanas, me abasteço de humor e inteligência.

11.12.06

Ficou lá perto



Amadeu Souza-Cardoso: Cavaleiros, 1913.

O percurso mágico de Amadeu Souza-Cardoso nos anos que antecederam a Grande Guerra não pode ser interpretado como um mero processo de absorção de "influências" externas - como erradamente poderá tender a inferir-se da exposição que a Gulbenkian por estes dias nos oferece.

Na medida em que encerra e torna manifesta uma coerência própria, cada um dos vários estilos de Amadeu é tão genuinamente seu como os restantes.

Como Pessoa, também Souza-Cardoso tinha, entre 1910 e 1013, várias vozes dentro de si. Ao contrário dele, porém, recusou-se a assumir essa pluralidade.

Resolveu optar por uma delas, e optou mal.

Em 1913, Amadeu encontrava-se no limiar da abstracção. Chegado aí, não ousou dar o passo seguinte, recuando nos seus últimos anos para um cubismo algo tardio, que, embora competente, não se destaca pela originalidade.

Nunca saberemos o que poderia ter vindo depois.

7.12.06

Um filme frívolo

Com notável espírito de observação, Daniel Mendelssohn sugere que em "Maria Antoinette" Sofia Coppola volta a contar a mesma história que já nos propusera em "Lost in Translation", ou seja, a de uma mulher jovem confrontada com um mundo regido por absurdas convenções sociais que não entende, incapaz de comunicar com as pessoas que a rodeiam e tolhida por problemas amorosos que não sabe como resolver.

Só que, desta vez, a realizadora saíu-se mal. Na raíz do fracasso está o facto de Maria Antonieta não ter sido uma rapariga qualquer, mas antes alguém cuja personalidade e comportamento foram em grande parte determinados pelos acontecimentos históricos em que inevitavelmente se viu envolvida.

Como essa parte de Maria Antonieta não interessa a Sofia Coppola, o filme ignora-a:
"Coppola's apparent lack of interest in anything outside of the cocooned and photogenic private world of the doomed Queen is evident in the desultory quality of the many stilted moments designed to convey what's going on in the world beyond Versailles—the kind of clanking scene in which someone says to the King at a meeting of his council, «The Americans are asking for help with their revolution,» or, worse, when we see someone rush up to the King and announce, «The Bastille has been stormed!»"

Aparentemente, a cineasta não conseguiu erguer-se acima da perspectiva limitada da própria rainha, e isso apesar de, ao contrário dela, ter sabido antecipadamente como viria a acabar a história:
"There is something Marie Antoinette-ish about the director's impatient disdain for the outside world, for the history that was going on all around her sensitive and troubled heroine."

E conclui Mendelssohn:
"To be so unreflective, to want to make a film about Marie Antoinette that ignores who she was in history, seems shockingly naive, intellectually. It's like wanting to make a film about what it's like to be a starving artist and deciding to have your hero be the young Adolf Hitler."

Nem mais. E talvez essa "chocante ingenuidade", cada vez mais comum, nos diga algo sobre a dificuldade que, em geral, a época que vivemos, tão apaixonada por si mesma, tão impregnada da ilusão do eterno presente, tão incapaz de conceber formas diferentes de viver e sentir, tem em relacionar-se com o passado histórico.

6.12.06

Perguntar não ofende

O Perguntar Não Ofende é um dos meus blogues preferidos. Sinto-me sempre mais inteligente depois de o ter lido, mas deve ser só impressão.

Eis uma selecção de perguntas intrigantes que recentemente lá encontrei:
Não há homens com anorexia?

Quanto mais gente no elevador, maior o silêncio?

É apenas uma questão de tempo até que todas as bebés em Portugal se chamem Beatriz e Mariana ?

Porque é que as consultas são por ordem de marcação quando sou dos primeiros a chegar, mas quando me atraso são por ordem de chegada?

Um blog cheio de "sexo", "orgasmos", "prazer" "tesão", "três seguidas", "queca" e "ejacular" é invariavelmente escrito por uma mulher?

Em caso de ameaça de bomba no Jardim Zoológico, para onde são evacuados os animais?

Um mundo sem armas nucleares e umas escadas rolantes sem ninguém do lado esquerdo a impedir o caminho são sonhos impossíveis?

"Queres que eu estacione?" é um insulto disfarçado de ajuda?

O capachinho penteia-se antes ou depois de colocado?

4.12.06

A grande mistificação

Extracto do editorial do Economist desta semana, confirmando ideias que aqui tenho repetidamente exposto de há algum tempo a esta parte:
The main reason for the dollar’s strength has been the widespread belief that the American economy vastly outperforms the world’s other rich country economies in recent years. But the figures do not support the hype. Sure, America’s GDP growth has been faster than Europe’s, but that is mostly because its population has grown more quickly too. Dig deeper, and the difference shrinks. Official figures of productivity growth, which should in theory be an important factor driving currency movements, exaggerate America’s lead. If the two are measured on a comparable basis, productivity growth over the past decade has been almost the same in the euro area as it has been in America. Even more important, the latest figures suggest that whereas productivity is now slowing in America, it is accelerating in the euro zone.
Tendo em conta que o próprio Economist se empenhou durante anos em alimentar as confusões que agora denuncia, o que isto parece sugerir é que não é possível continuar a alimentar-se por mais tempo a ilusão da superioridade da economia americana em relação à europeia.

Ainda assim, alguns parágrafos adiante escreve-se no mesmo editorial:
As for Europe, the old continent is hobbled by inflexible product and labour markets. But that, paradoxically, is an advantage: it means that the place has a lot of scope for a lot of improvement.
Como se explica isto? Se o produto per capita europeu tem crescido a um ritmo similar ao americano, se a produtividade cresce mais depressa, se a zona ainda por cima tem uma balança de transacções correntes equilibrada e as finanças em ordem, para que necessitamos então dessas "reformas" que visam tornar a Europa "tão competitiva" como os EUA?