2.10.03

How to Solve It. Dizem que os alemães são um povo metafísico, mas eu nunca conheci nenhum alemão que se interessasse por filosofia.

Povo metafísico somos nós, os portugueses. Para nós, qualquer tarefa simples, tal como pregar um prego, dá origem um debate que vai rapidamente crescendo em complexidade até se tornar numa discussão sobre o sentido último do Universo, da vida e tudo o resto.

Os últimos exemplos são os incêndios e a crise do sistema judicial. Os temas já foram discutidos por toda a espécie de especialistas de trás para a frente e de todos os ângulos. Resultado: estamos mais longe do que nunca de uma solução desses problemas.

Curiosamente, este povo que pratica em tudo o empirismo radical de quem prefere aprender cometendo os mesmos erros uma e outra vez, é totalmente destituído de sentido prático. Há aqui uma esquizofrenia que nos faz funcionar igualmente mal em dois planos distintos de incompetência teórico-prática. Por um lado, o pensamento teórico recusa orientar-se para assuntos úteis e relevantes; por outro, a actividade prática recusa ser orientado por ideias e conceitos abstractos. Em consequência, recorremos à filosofia como táctica para fugir ao trabalho concreto e atiramo-nos com entusiasmo a empreendimentos tresloucados destituídos de qualquer senso.

Que melhor prova existe do divórcio total e acabado entre a escola e a sociedade?

Parece-me que o que faz aqui muita falta é que se ensinem métodos de resolução de problemas. Por mim, sugiro a todos os interessados o livrinho maravilhoso do matemático húngaro Pólya How to Solve It (há tradução portuguesa, Como Resolver Problemas, creio que editado pela Gradiva). Não é só para matemáticos, pois expõe os princípios de uma heurística geral útil em todos os domínios para nos ajudar a pensar sobre problemas mal estruturados.

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