11.10.03

O eterno retorno. Abertura da temporada da Orquestra Gulbenkian, entusiasticamente saudada pelos telemóveis a tocarem na sala.

10.10.03

Durão Barroso pede tréguas. O primeiro-ministro declarou-se hoje contra a politização da justiça. Estará a ser sincero?

A politização da justiça teve início com o afastamento de Maria José Morgado da Polícia Judiciária. Desde então, passaram-se durante um ano em Portugal coisas gravíssimas de que só vemos os sintomas, mas não as causas.

Talvez um dia venhamos a saber exactamente o que aconteceu mas, por enquanto, só podemos especular. Para já, sugiro que cada um se interrogue, como nos romances policiais, quem tem simultaneamente a oportunidade, a motivação e a arma do crime.

Acontece que agora, como não poderia deixar de suceder numa sociedade democrática, a ressaca está a chegar ao PSD e a assustar os seus dirigentes. Deverá o PS fazer-lhes a vontade e fumar o cachimbo da paz?

A oposição deve ter uma postura civilizada, mas não deve ser estúpida.

Cabe a Durão Barroso provar que deseja mesmo pôr termo à política suja que tem marcado os últimos tempos. Para demonstrar a sua boa-fé, não me ocorre melhor coisa do que afastar a Ministra da Justiça.

Até lá, olho por olho, dente por dente.
Ria-se, homem. O Pacheco Pereira, uma pessoa a vários tipos notável, tem dois grandes defeitos. O primeiro, que já quase toda a gente notou, é que é do PSD. O segundo, a meu ver muito mais grave, é que carece de espírito de humor. A reacção de hoje dele ao meu último post (sem todavia o mencionar) é a prova definitiva desse facto. Definitivamente, não percebeu.

8.10.03

Libertação de Paulo Pedroso. Parece o 25 de Abril: cai o Governo, começam a sair os presos políticos.

7.10.03

O Papa-espectáculo. O facto mais notável do consulado do Papa João Paulo II é a sua adesão aos princípios da sociedade do espectáculo.

Muitos católicos, ignoro se a maioria, mostram-se muito satisfeitos com a enorme visibilidade que a sua crença reconquistou por essa via no espaço mediático. Mas eu, que embora não seja crente, valorizo o sentimento religioso, não vejo razões para contentamento, nem creio tampouco que ele exista no Reino dos Céus.

Parece-me a mim (mas é possível que esteja antiquado), que a Igreja se empobrece ao reduzir-se a uma indústria de conteúdos, descendo ao nível de outras instituições que não me atrevo a nomear.

Porque a verdade é que, hoje por hoje, o Vaticano pouco mais faz do que organizar espectáculos vistosos com grande cobertura televisiva. A máquina de propaganda do Papa funciona em grande, e as deslocações do Papa são o pretexto preferido para gerar publicity. A encenação obedece a um esquema altamente previsível e estereotipado: o Papa, uma frágil figura perdida no meio da multidão, mostra-se aos crentes à distância, circulando no seu Papamóvel (uma designação que é um tratado) por entre alas de jovens organizados brandindo estandartes e envergando vestes coloridas. As cores (amarelo e branco) são as do Vaticano, não as de Cristo. O ambíguo slogan Totus tuus é omnipresente. Do Papa só se aproximam os poderosos deste mundo e os altos dignitários da Igreja.

Hoje, toda a gente tem vergonha de montar espectáculos inspirados no Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Excepto o Papa.

Hoje, toda a gente abomina o culto da personalidade. Excepto o Papa.

Ouvi Maria José Nogueira Pinto afirmar na televisão que «os jovens hoje estão todos à volta dele». Trata-se, sem dúvida, de uma ilusão de óptica resultante da inserção numa particular classe social. Como se constata nas reportagens, as Jotas do Papa são exércitos de betinhos que se mobilizam para agitar bandeiras e distribuir sacos de plástico e depois, dentro do mesmo espírito, vão dali para a caravana automóvel do CDS/PP. Tudo forma, nenhum conteúdo.

Aliás, se os jovens estivessem de facto «todos à volta dele», caberia perguntar porque é que tantos encontram mais sentido na droga do que na religião. O problema, precisamente, é que a Igreja, através do seu máximo representante, não tem mais nada para lhes propor senão agitação e propaganda.

Escutei hoje estas palavras da boca do Papa no telejornal da hora do almoço: «O rosário é um compêndio do Evangelho». Não sei, mas aqui há uns tempos atrás, isto seria considerado blasfémia. Como pode o Papa pretender que rezar o rosário substitui com vantagem a leitura da palavra revelada? O que isto significa é que, neste cristianismo segundo Karol Woytila, o ritual é tudo, e o sentimento religioso nada.

E chegamos aqui ao ponto central. Na minha maneira de ver, a Igreja de Roma converteu-se, no fundo, à frivolidade e ao vazio que aparenta criticar. A religiosidade foi substituida pela encenação. O Papa aderiu ao niilismo, ou seja, o vazio é a sua doutrina.

É claro que, apesar disso, há aqui um propósito reaccionário, que é o de restaurar a doutrina pré-Vaticano II. Mas, incapaz, de assumir abertamente o debate das questões que interessam aos cristãos, a estratégia de João Paulo II consistiu principalmente em evitá-lo desviando as atenções e fomentando o culto dos símbolos do poder, manobra que, ao longo dos séculos, já deu sobejas provas de eficácia. As orientações específicas relativas à fé regridem na precisa medida em que as controvérsias são silenciadas e, de preferência, esquecidas.

Tenho que reconhecer que, apesar disso, a Igreja portuguesa é hoje infinitamente mais inteligente, humana, caridosa, numa palavra, cristã, do que no tempo em que frequentei a catequese. Mas isso sucede porque de facto, senão de palavras, ela caminhou ao arrepio das orientações de João Paulo II. E isto leva-nos a outro ponto: na igreja de hoje, uma coisa é o que se diz, outra o que se faz. Ou seja, os costumes dos católicos praticantes evoluiram imenso, e não têm nada a ver com as proclamações escandalizadas do cardeal Rattzinger, pelo que a Igreja é, provavelmente, mais hipócrita hoje do que em qualquer outro período desde a Renascença.

Os católicos deveriam estar muito preocupados, porque todas as contradições que se encontram escondidas vão saltar à luz do dia quando este Papa desaparecer. A Igreja esteve parada nos últimos vinte e cinco anos, porque este Papa, cuja eleição foi um episódio da Guerra Fria, nunca deixou de viver nesse tempo. Com isso, perdeu vinte e cinco anos, uma eternidade nos dias que correm. Quando acordar, é muito provável que fique em frangalhos e que demore muito tempo a recompor-se.

Quem duvidar poderá verificar por si mesmo que, hoje mesmo, a autoridade do Papa já é uma pura ilusão. Longe de aumentar, ela diminuiu. Recordo, por exemplo, que quando o Papa criticou a guerra do Iraque, nenhum político católico ocidental se comoveu. Para todos os efeitos, foi como se ninguém tivesse falado.

Verdade ou mentira?
Ainda hoje, vou colocar um post sobre João Paulo II. Não saia daí.

6.10.03

Mau, Maria! Acabo de ouvir o ex-ministro Pedro Lynce dizer na televisão que acha que não cometeu nenhuma ilegalidade. Mas então quer fazer o favor de explicar-nos porque se demitiu? Porque alguém lho pediu? Para fazer o jeito a alguém? E para quê? Para evitar que os jornalistas continuem a morder nas canelas do governo?

Bem vistas as coisas, esta demissão não serve a pedagogia democrática, mas o seu contrário. Assim, vamos de mal a pior.
O PS e o poder económico. Henrique Neto produz hoje afirmações intrigantes no suplemento de Economia do Público, principalmente no que respeita ao modo como os governos do PS intervieram nas principais empresas do Estado em vias de privatização.

A primeira coisa que podemos concluir é que o PS, e principalmente o ministro Pina Moura, nomearam para os postos de maior responsabilidade pessoas que, como agora se torna claro, se situavam ideologicamente na área do PSD. A segunda é que, não tendo ideias políticas próprias nesta matéria (como aliás noutras), o PS limita-se a vogar ao sabor das pressões provenientes dos principais grupos económicos que ajudou a reconstituir até se atingir um grau de promiscuidade entre o poder político e o poder económico provavelmente superior ao que conhecemos antes de 1974.

O PS, talvez o partido português mais fechado à sociedade, tem uma influência quase nula no meio empresarial, mas julga que pode suprir essa falha nomeando para cargos de influência pessoas da confiança do grande capital. O resultado é que, uma vez concluidos pelo PS os fretes que lhe são encomendados, essas personalidades viram-lhe as costas e, como têm estratégias claras, prosseguem tranquilamente o seu caminho ao serviço do novo poder. Como bem nota Henrique Neto, é por isso que o PS não está hoje à vontade para criticar as opções que o novo governo tem tomado na área da Economia.

O grande problema que se põe não é, portanto, saber quando e como o PS regressará ao poder, mas o que fará com ele.

Demarcação. Apoio a opinião de Sarsfield Cabral no DN de hoje: é preciso demarcar claramente a ideia federalista desta manobra de reforço do directório dos grandes países que alguns procuram fazer passar sob a capa da constituição europeia.

O que há de mais positivo no federalismo é a tentativa de assegurar a fiscalização democrática dos órgãos de um poder continental actualmente exercido à revelia dos povos. Sem esse controlo, parece-me que a União Europeia cada vez se assemelhará menos a uma democracia liberal.

Ora a chamada constituição europeia não me parece dar quaisquer garantias de ser um passo no bom sentido.
Ópera dos malandros. Confesso que não compreendo, nem sei se quero compreender, este folhetim degradante em torno da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Mas lá que tudo isto é rasca até dizer chega, disso não tenho dúvidas. E se, como insinuou o maestro Graça Moura, for verdade que as origens deste ajuste de contas remontam ao episódio dos violinos de Chopin, então o caso é muito grave.
Fundos e ideiais. Nota Jorge Sampaio que a Europa não pode ser incensada quando há fundos comunitários e arrasada quando eles escasseiam.

Não posso concordar mais. Mas, se durante uma década e meia, os debates nos próprios jornais de referência da classe dirigente raramente foram um pouco além dos fundos, e muitas vezes se centraram na mera capacidade de gastar o dinheiro transferido para Portugal, sem sequer se discutir o modo como eram dispendidos, o que é que se espera que os portugueses pensem sobre o assunto?

De pouco valem os ideais, se não tiverem uma tradução prática de eficácia comprovável. Ora, é verdade que a União Europeia teve, em minha opinião muitos benefícios para Portugal que transcendem largamente os fundos comunitários, tanto no campo económico como nos campos cultural, social, político, etc. Mas, como nunca foram destacados e discutidos, é bem provável que uma boa parte da população não esteja suficientemente consciente deles e, por conseguinte, não os valorize.

Os povos, como as pessoas, aprendem com a experiência, não com sermões. É por isso que a construção europeia pode estar metida numa grande embrulhada.

Tony entre os doutores. Não paro de me surpreender como os mesmos comentadores conservadores que há apenas um ano consideravam Tony Blair o paradigma dos políticos vazios, meros produtos de marketing vogando ao sabor das sondagens, encontram agora nele as sólidas (mas miríficas, digo eu) qualidades morais de um político vitoriano, apenas porque decidiu apoiar Bush no lançamento da guerra do Iraque. Em resumo, o oportunista mestre de relações públicas deu lugar, por um passe de mágica, ao homem de convicções inabaláveis.

Quer-me a mim parecer que estas opiniões dizem menos sobre Blair, que provavelmente será mais ou menos quem sempre foi, do que sobre a superficialidade e infiabilidade de quem as produz.

5.10.03

Um destino. Sempre que observo a atitude agressiva de Paulo Portas, cego e surdo ao que se passa à sua volta, imune ao coro de críticas que se levanta cada vez que abre a boca, indiferente à hostilidade que o rodeia, inteiramente concentrado no seu ego, fechado no seu pequeno mundo de auto-proclamado génio, obstinado na sua crença de que tem uma missão transcendente a cumprir, confortado pela pequena clique de apoiantes que o segue sem pestanejar, inflexível até ao delírio no seu caminho sem retorno, sempre que o ouço negar o óbvio com a convicção de quem se nega a admitir o que todos já entendemos, vem-me à memória a sentença que uma vez Sounness pronunciou a propósito de Vale de Azevedo:

«This man is a dangerous man. He lies while looking at you in the eye.»

Como não ver que, independentemente de tudo o resto, o perfil psicológico é rigorosamente igual? Qualquer outro no seu lugar já teria cedido, mas ele não atira a toalha, segue em frente redobrando a agressividade em relação aos seus adversários. Coragem ou cegueira?

Pessoas assim não reagem aos acontecimentos como nós. O que se diz à volta delas não as toca, porque na verdade não o escutam, certos como estão de que se trata apenas de vozes mal intencionadas sopradas por uma conspiração de gente mal intencionada.

Por isso seguem impassíveis o seu caminho, sem suspeitarem o inevitável destino trágico que as espera.


4.10.03

A rotina das demissões. Mais uma vez, não posso deixar de concordar com Pacheco Pereira. Esta coisa de se pedir a demissão dos ministros por dá cá aquela palha (embora não seja esse, acho eu, o caso de Pedro Lynce) é, talvez, a herança mais negativa que o governo socialista deixou ao país. A título de exemplo dos seus malefícios, chamo a atenção para o facto de que, apesar de só ter havido dois governos nesse lapso de tempo, o país teve cinco ministros das obras publicas em cinco anos, um facto desastroso para uma área onde quase tudo o que se faz demora anos e anos a preparar.

Na origem desta prática excêntrica estiverem dois factores.

O primeiro, puramente pessoal, foi a fraca predisposição de Guterres para aguentar ministros caídos em desgraça. Era assim que a vítima, sentindo a faquinha cravada nas costas, preferia deixar-se cair e fazer-se de morta.

O segundo, mais sério, tem que ver com a confusão que reina entre nós entre culpa e responsabilidade, aliás típica de um país onde não se entende o que esta última quer dizer. O exemplo mais evidente desta incompreensão foi a demissão de Jorge Coelho na sequência da queda da ponde de Entre-Rios.

Porque raio haveria o ministro de se demitir? Evidentemente, ele era responsável, porque nada do que se passava no seu ministério poderia deixar de envolvê-lo. A responsabilidade não é alienável, sequer, pela delegação de competências neste ou naquele indivíduo. A responsabilidade não é delegável. Mas isso não implicaria automaticamente a necessidade de se demitir.

Imaginemos que o ministro tinha sido informado de que a situação da ponte era muito grave, e tinha ignorado o aviso. Ou que tinha dado instruções no sentido de reduzir as despesas de manutenção com as pontes, apesar de estar consciente de que isso poderia ter consequências catastróficas. Nesses casos, obviamente, a responsabilidade coincidiria com a culpa, e só lhe restaria o caminho da demissão.

Poderia também suceder que, na sequência do desastre, o ministro se mostrasse incapaz de retirar todas as consequências do sucedido. Que não abrisse imediatamente um inquérito, que criasse uma comissão incluindo os presumíveis responsáveis ou que procurasse obstaculizar o apuramento da verdade. Que procurasse proteger os responsáveis. Que não tomasse as medidas urgentes destinadas a reparar o que pudesse ser reparado. Se algo deste género sucedesse, à responsabilidade objectiva somar-se-ía uma culpa que só poderia ter como consequência a demissão.

Mas o critério crucial para decidir qual o tipo de responsabilidade que está em causa e que consequências ela deve ter é necessariamente o bem público. É positiva a demissão que fortalece o governo do país e do Estado, é negativa aquela que o prejudica.

Ora o que é que o país ganha quando é afastado um ministro cuja actuação, de facto, em nada contribuíu para os acontecimentos em apreço? Obviamente, nada.

Estou consciente de que esta é uma abordagem demasiado rápida de um problema tão sério. Mas acredito que as questões essenciais são de facto estas.
Ai que fui apanhado! Durão Barroso elogiou o «sentido de Estado» de Pedro Lynce ao demitir-se.

Não sou a favor de se perder demasiado tempo a bater neste ceguinho, até porque, em si mesmo, o episódio é apenas uma instância particular dos nossos mesquinhos hábitos quotidianos de resolver tudo com cunhas. Não estivessem em causas ministros, e ninguém lhe concederia sequer um segundo de atenção.

Mas, sendo a oportunidade de dar um exemplo a partir de cima o único aspecto meritório de tudo isto, é preciso sublinhar que o comentário do primeiro-ministro assume, neste contexto, um aspecto absolutamente contra-producente.

Pois não é verdade que «sentido de Estado» foi exactamente o que Lynce provou não ter ao usar os poderes ministeriais de que foi investido para desenrascar um amigo? Ou será que, no newspeak barrosista, «sentido de Estado» tem um significado diferente do corrente e correcto? Ou será que, no seu entender, o único erro de Lynce foi ter-se deixado apanhar?

3.10.03

Baixando o nível. Percebo perfeitamente o problema do Ivan com o Benfica.

Eu próprio dou por vezes comigo a pensar que, se o Benfica não existisse, Portugal seria um país melhor.

Mas é injusto. Sendo Portugal o que é, se o Benfica não existisse teria que ser inventado.
Insensatez? Que dois ministros, ao que tudo indica pessoas de bem, caiam na armadilha de cometer uma flagrante ilegalidade por uma questão, a bem dizer, tão mesquinha, eis o que se afigura revelador de uma completa insensatez.

Mas pode haver outra explicação, de algum modo sugerida pela candura com que Pedro Lynce inicialmente reagiu ao caso.

É que, dizem-me, tornou-se habitual nos últimos anos os ministros interpretarem ou corrigirem leis mediante um simples despacho. Será verdade?

Eis uma excelente oportunidade para trazer à luz do dia e banir definitivamente esse tipo de práticas, em si mesmas muito mais graves do que o caso concreto agora em discussão.

2.10.03

How to Solve It. Dizem que os alemães são um povo metafísico, mas eu nunca conheci nenhum alemão que se interessasse por filosofia.

Povo metafísico somos nós, os portugueses. Para nós, qualquer tarefa simples, tal como pregar um prego, dá origem um debate que vai rapidamente crescendo em complexidade até se tornar numa discussão sobre o sentido último do Universo, da vida e tudo o resto.

Os últimos exemplos são os incêndios e a crise do sistema judicial. Os temas já foram discutidos por toda a espécie de especialistas de trás para a frente e de todos os ângulos. Resultado: estamos mais longe do que nunca de uma solução desses problemas.

Curiosamente, este povo que pratica em tudo o empirismo radical de quem prefere aprender cometendo os mesmos erros uma e outra vez, é totalmente destituído de sentido prático. Há aqui uma esquizofrenia que nos faz funcionar igualmente mal em dois planos distintos de incompetência teórico-prática. Por um lado, o pensamento teórico recusa orientar-se para assuntos úteis e relevantes; por outro, a actividade prática recusa ser orientado por ideias e conceitos abstractos. Em consequência, recorremos à filosofia como táctica para fugir ao trabalho concreto e atiramo-nos com entusiasmo a empreendimentos tresloucados destituídos de qualquer senso.

Que melhor prova existe do divórcio total e acabado entre a escola e a sociedade?

Parece-me que o que faz aqui muita falta é que se ensinem métodos de resolução de problemas. Por mim, sugiro a todos os interessados o livrinho maravilhoso do matemático húngaro Pólya How to Solve It (há tradução portuguesa, Como Resolver Problemas, creio que editado pela Gradiva). Não é só para matemáticos, pois expõe os princípios de uma heurística geral útil em todos os domínios para nos ajudar a pensar sobre problemas mal estruturados.
Que fazer? As praxes boçais e humilhantes, a ordinarice que domina os protestos contra as propinas, o folclore saloio da capa e batina, a debilidade intelectual dos dirigentes de associações estudantis financiadas pelo Estado, a falta de carácter revelada por muitos órgãos de gestão universitária – tudo isso nos faz pensar que, longe de se constituirem em centros de irradiação de civilização, as nossas universidades tendem a reproduzir e ampliar de forma caricatural os piores defeitos da sociedade.

Nenhum discurso bem intencionado sobre a importância da educação para o futuro do país consegue resistir a esta poderosa coligação de ignorância, preconceito, egoismo, oportunismo e má-criação. Este é hoje o problema mais grave que temos que enfrentar - e não digam que a culpa é da televisão.

Conhecem a frase les grands esprits se rencontrent? Pois a verdade é que o mesmo se passa com os pequenos e mesquinhos. Decididamente, a estupidez tem um sentido gregário muito desenvolvido.

Que fazer, então? Para já, começar por envergonhá-los a todos publicamente, coisa que, actualmente, em geral não acontece.

1.10.03

CIA para principiantes. Ocupei uma parte das últimas seis semanas a ler The Company: A novel of the CIA, de Robert Littell, um gigantesco livro com quase 900 páginas.

Embora, ao contrário do que pretenderam certos críticos, o autor não se encontre, nem de perto nem de longe, ao nível de Le Carré, no conjunto dei o meu tempo por bem empregue.

O romance cobre todo o período da Guerra Fria, de 1950 a 1991, com um flash-back para 1948, quando a URSS passa a dispor da bomba atómica, e uma breve extensão até 1995. Os episódios principais estão construídos em torno de algumas das fases mais marcantes do conflito: a Guerra da Coreia, o esmagamento da revolta húngara de 1956, o episódio da Baía dos Porcos, a guerra do Afeganistão, a perestroika e o desmoronamento final da União Soviética. Em fundo, perpassam também episódios como o golpe de estado contra Mossadegue, a intervenção na Nicarágua, o cisma sino-soviético, o início e o fim da guerra do Vietname, o escândalo Watergate, a morte de João Paulo II, a revolução iraniana, o caso Irão-contras, a primeira guerra do Golfo e sempre, sempre, o conflito israelo-árabe. Bin Laden tem uma breve aparição em Peshawar.

Embora não se aprenda propriamente coisas novas sobre a história contemporânea, este relato romanceado, ao estilo das novelas de Gore Vidal, proporciona uma visão mais rica dos acontecimentos, principalmente porque Littell tem talento para construir ambientes que definem uma época. Além disso, o detalhe com que descreve o modo como as operações são conduzidas no terreno revela que se trata de alguém que estudou a fundo o seu assunto.

De ambos os lados da barricada, os agentes são apresentados como sujeitos idealistas que se batem acima de tudo por mundo livre ou por um mundo sem exploradores, conforme o caso, o que, embora lisonjeiro para os envolvidos, é provavelmente pouco objectivo. Esta benevolência genérica aplica-se inclusivamente aos agentes duplos e aos traidores.

Uma das particularidades mais interessantes do livro é a mistura de figuras reais que todos conhecemos com personagens fictícios. Os personagens fictícios são, em geral, pouco conseguidos A principal excepção é Harvey Torritti, por alcunha o Feiticeiro, que talvez possamos considerar o elemento chave de todo o enredo. O livro começa com ele a tentar organizar em Berlim a fuga para o ocidente de um oficial de topo do KGB e acaba com a sua morte em 1991, quarenta anos depois. Ao longo de todo esse tempo, o Feiticeiro comporta-se consistentemente como herói da guerra fria inteiramente dedicado à Companhia (nome por que a CIA é conhecida pelos próprios agentes) e imune a pressões ou interesses mesquinhos, mas também como um aventureiro excêntrico e um alcoólico sempiterno, qualidades que contribuem para o tornar especialmente simpático aos olhos dos leitores. O ponto mais alto da sua carreira tem lugar quando expulsa Robert Kennedy da sala de operações quando este se julga no direito de vasculhar informação classificada.

Em contrapartida, são magistrais os retratos de Kim Philby, o espião britânico ao serviço da União Soviética que durante anos a fio torpedeou todas as principais operações da CIA, e de James Jesus Angleton, o grande amigo e confidente de Philby que, depois do seu desmascaramento, passou a desconfiar de tudo e de todos, a ponto de, ainda em 1974, ainda persistir em considerar o cisma sino-soviético um embuste destinado a enganar os Estados Unidos.

São igualmente convincentes as representações de John Kennedy, Robert Kennedy e Ronald Reagan. John Kennedy move-se com elegância e à vontade entre milionários, diplomatas, playboys e gangsters, sempre acompanhado do petulante e conflituoso Bobby que não hesita em comportar-se por vezes como se estivesse investido de autoridade presidencial. Quanto a Ronald Reagan, é efectivamente o pobre tolo que sempre aparentou ser, apenas preocupado com trivialidades e relações públicas e tomando decisões de enorme responsabilidade, tais como fornecer artilharia pesada aos fundamentalistas afegãos que combatem os soviéticos, por capricho momentâneo ou desejo de agradar a alguém.

No conjunto, Littell parece pensar que o contributo efectivo da CIA para o desfecho da Guerra Fria foi marginal. Enredada em contínuas questiúnculas internas, propensa a acções aventureiras de duvidosa eficácia, frequentemente mal informada quanto ao que de facto se está a passar, dirigida por burocratas que apenas desejam cair nas boas graças dos políticos ou por excêntricos sem verdadeira noção das realidades, crescentemente condicionada na sua acção pela pressão da opinião pública americana, minada por agentes soviéticos infiltrados ao mais nível dos serviços de contra-espionagem, a CIA acaba muitas vezes por ser um estorvo para os propósitos da política externa norte-americana.

A moral da história é adequadamente posta na boca de Harvey Torritti: “We screwed up less than they did. That’s why we won.”