10.10.05

O chimpanzé sueco

Tendo em conta o medíocre desempenho dos fundos de investimento portugueses nos últimos anos, a resposta a esta questão é que, muito provavelmente, o pedreiro ganharia, desde que seleccionásse os títulos de uma forma aleatória.

Em linguagem técnica, chama-se a isso, sem ofensa, o método do "chimpanzé sueco".

Endogamia

O descontentamento de uma parte não negligenciável da população contra a política do governo funciona como circunstância agravante.

Mas o eleitor comum não afasta ou recusa um autarca capaz apenas por se dar o caso de ele ser membro do partido no poder.

À segunda banhada consecutiva em apenas quatro anos, é altura de se reconhecer que o fulcro do problema é que o PS não tem candidatos autárquicos à altura para nos propor.

O PS é, de há anos a esta parte, o mais fechado dos partidos portugueses. Os seus militantes vivem em circuito fechado: fora das sedes, ninguém os conhece. Assim, o mais provável é que os favoritos do aparelho não passem de uns medíocres cá fora.

Vendo as coisas com realismo, o PS está a morrer porque é incapaz de se reproduzir. Perguntem-se onde está a próxima geração de políticos socialistas, e a resposta é que, ou não existem, ou são demasiado maus para querermos conhecê-los.

A endogamia do PS produziu monstros. Acontece que os eleitores, com toda a razão, não gostam deles.

9.10.05

Será normal?

Conversa da treta: "Ai, e tal, porque as eleições decorreram em absoluta normalidade democrática..."

Realidade: Tanto quanto me lembro, foi esta a primeira vez que ocorreram erros em larga escala na impressão de boletins de voto. Mais grave ainda, o STAPE permaneceu engasgado até às dez da noite.

Diga-me, doutor, será normal este desleixo em questões de tamanha importância?

Já estou melhor, obrigado

A derrota de Carrilho em Lisboa é uma muito boa notícia.

Primeiro, pelo personagem em si mesmo. Se o eleitorado lisboeta não o tivesse travado agora, a sua ambição não conheceria limites. Pela prepotência que exibiu enquanto mero candidato, podemos adivinhar o que sucederia se se apanhasse no poder.

Depois, e principalmente, pelo que representa, ou seja, pela forma vazia de fazer política pela televisão e para a televisão. Não tenham dúvidas: quem o escolheu para candidato do PS à Presidência da Câmara de Lisboa fê-lo porque achava que ele teria o apoio dos media.

Eu andava meio enojado. Mas agora já me sinto um bocadinho melhor, obrigado.

Digam lá

Como eu próprio lancei esse desafio ao Público no passado dia 29 de Setembro, faz todo o sentido que, seguindo o apelo do Bloguítica, aqui pergunte mais uma vez:

PODE O JORNAL «PÚBLICO» SFF ESCLARECER COM QUEM É QUE FÁTIMA FELGUEIRAS MANTEVE CONTACTOS NO SECRETARIADO NACIONAL DO PS? QUANDO É QUE ESSES CONTACTOS TIVERAM LUGAR? QUEM É QUE INFORMOU JAIME GAMA PREVIAMENTE DA LIBERTAÇÃO DE FÁTIMA FELGUEIRAS?

Margens de dúvida

Quando o debate político tende a ser substituído pela discussão das sondagens - certos jornalistas chegam quase ao ponto de perguntar aos candidatos: "Se as sondagens mostram que vai perder, porque é que insiste?" - torna-se indispensável que todos nós, e principalmente aqueles que assumem a responsabilidade de divulgá-las ou discuti-las, entendam bem as suas virtudes e limitações.

É também por isso que o Pedro Magalhães deve ser felicitado pelo contributo ímpar que o seu blogue deu para a elevação do debate em torno destas eleições autárquicas, agora prestes a chegar ao fim.

O que já sabemos sobre o caso Media Capital

Tenho estado atento ao caso da eventual tomada de controlo do grupo Media Capital - e, logo, da TVI - pelo grupo Prisa.

Um tal Van Zeller, administrador não-executivo que as trocas e baldrocas em torno do capital da empresa ocorridas nos últimos 10 anos não haviam conseguido tirar do sério, alegou publicamente perversas manobras políticas para se demitir. Chamado a depor, confessou que de facto não sabia nada. Para ser mais claro: admitiu que não sabia o que estava a dizer.

Depois, um membro da AACS queixou-se de estar a ser pressionado por um ministro que terá lembrado os prazos para a entrega de um parecer. É de facto, intolerável.

Por outro lado, Cintra Torres, um comentador muito dado à politiquice, usa regularmente a sua coluna no Público para desfiar as mais fantásticas acusações contra a alegada conspiração socialista tendo em vista a tomada de poder na TVI.

Finalmente, Marques Mendes não perde uma oportunidade para alertar os portugueses contra o risco da ocupação da nossa televisão pelos espanhóis.

Que posso, para já concluir? Por um lado, que, quanto ao envolvimento do PS e do Governo no negócio, ainda é preciso esperar para ver se essa acusação tem algum fundamento. Por outro lado, que não existe qualquer dúvida quanto à existência de manobras do PSD para impedi-lo.

8.10.05

Santa Claus is coming to town

Este ano, com a ajuda do Google Earth, é que o Pai Natal vai saber mesmo quem foram os meninos que se portaram mal.

A rainha guerreira

Raramente concordo com o que escreve. Mas valorizo na Joana a vasta cultura, o cuidado posto na argumentação e o facto de usualmente falar daquilo que entende. Em contrapartida, desgosta-me algum facciosismo.

Há algum tempo tive ocasião de lhe dizer como aprecio o seu blogue, mas acho que ela não acreditou. Agora, que o Semiramis completou o seu segundo aniversário, aqui ficam os meus parabéns.

7.10.05

Recordar é viver

Há algo de comovente na atitude daqueles sujeitos que, detestando um blogue, não conseguem deixar passar um dia sem lá irem religiosamente depositar um insulto na caixa dos comentários. E que saudades eu tenho dessas torpes homenagens, desde que a minha misteriosamente se finou!

6.10.05

A falência da indignação

Francisco José Viegas no JN de hoje:

"A vida política precisa de um pouco de racionalidade, evidentemente. De contrário, qualquer um teria o direito de desatar à gargalhada depois de ver Bárbara Guimarães e Carilho distribuindo rosas em Lisboa. Coisas sérias: se Isaltino ganhar em Oeiras, se Fátima Felgueiras regressar à câmara, se Valentim Loureiro se mantiver em Gondomar, isso não significa que esse risco de racionalidade foi pisado. Significa, sim, que a justiça andou mal e que não andou a tempo. Podemos indignar-nos, sim, mas a indignação banalizou-se e é conveniente que sejam mesmo os tribunais a tomar as decisões que alguns gostariam de tomar nas ruas. Até lá, aguentem-nos. Votem neles, ou não. É a vida."

Certíssimo.

Fuga aos impostos

Toda a gente o diz. Muita gente o escreve. Mas não conheço nenhuma prova séria de que a fuga ao fisco seja em Portugal mais grave no que na generalidade dos restantes países europeus.

Por isso julgo fantasiosa a ideia, popular em meios de esquerda, segundo a qual o combate à evasão fiscal pode ser um instrumento central de combate ao desequilíbrio das contas públicas.

Hoje em dia, só conheço duas formas importantes de se evitar pagar impostos:

a) Recorrer aos subterfúgios permitidos pela lei;

b) Aderir ao crime organizado.

A quem souber de outras - mas souber mesmo! - rogo esclarecimentos.

Nunca se deve dizer: "eu bem disse..."

Como eu previ já há exaltados a irritarem-se com a previsível moderação do candidato Cavaco Silva.

5.10.05

O desejo de ser falado



"A ambição, o interesse, o desejo de fazer falar de mim triunfaram; e a guerra foi decidida." Assim explicou Frederico da Prússia a guerra contra Maria Teresa, rainha da Boémia e da Hungria.

Voltaire, que o persuadira a eliminar esta frase do manuscrito, explica nas suas Memórias porque se arrependeu de o ter feito:

"Uma confissão tão rara deveria passar à posteridade, e servir para fazer ver em que se baseiam quase todas as guerras. Nós, gente de letras, poetas, historiadores, declamadores de academia, celebramos essas proezas: e eis que um rei que as faz as condena."

Hoje, em sociedades em que reina a democracia, os "Presidentes da Guerra" não podem dar-se ao luxo de uma confissão destas, mas acredito que os motivos permanecem, no essencial os mesmos.

5 de Outubro

Se o anti-clericalismo nos parece hoje absurdo, é porque já ninguém faz ideia do que foi o clericalismo.

Em todos os países de tradição católica, a democracia liberal só conseguiu triunfar ao cabo de uma luta prolongada contra o poder hegemónico da Igreja. Como ele se encontrava estreitamente associado à monarquia, isso implicou a implantação da República.

Com isso ganharam também os próprios católicos, dado que, agora, é comparativamente muito menos provável que alguém use a sua religião como mero instrumento para alcançar o poder e subir na vida.

4.10.05

Crime e castigo

Devem as empresas que exploram as auto-estradas compensar os utentes pelos incómodos causados por obras prolongadas baixando os preços das portagens?

O António Amaral acha que não, dado que essa medida faria crescer a procura, o que agravaria ainda mais os problemas de circulação. Eis um argumento interessante.

Se o nível de serviço da auto-estrada em reparação baixa, afirma ele que isso afasta alguns automobilistas e que, por conseguinte, a empresa concessionária é penalizada pela consequente quebra de receitas. Logo, ela terá um incentivo para completar as obras no mais curto prazo possível.

A questão está, pois, em saber duas coisas:

a) Se a procura se reduz de facto significativamente no curto prazo em resposta à degradação das condições de circulação;

b) Se a procura aumentaria sigificativamente em resultado da proposta descida do preço.

A primeira questão pode ser esclarecida analisando as receitas da concessionária. A segunda exige estudos da elasticidade da procura em relação ao preço.

Tem António Amaral dados de facto sobre o assunto? Se tiver, e se corroborarem o seu ponto de vista, eu calo-me. Todavia, o que tenho lido sobre o assunto faz-me crer que, em ambos os casos, a elasticidade da procura deverá ser elevada no longo prazo, mas insignificante no curto, que é aquele que nos interessa.

Se assim for, forçoso será reconhecer que, por um lado, a concessionária não tem um forte incentivo para concluir com celeridade as obras de reparação; e que, por outro, a redução do preço não piorará a situação de partida.

Se me permitem, eu gostaria de chamar agora a atenção para o outro lado do problema. Num mercado competitivo, se uma empresa degrada a qualidade do seu serviço, não tem mesmo outra solução senão baixar o preço de venda enquanto não conseguir resolver o problema. O simples facto de isso não suceder no caso das auto-estradas mostra que há aqui uma falha do mercado.

O que me incomoda no argumento do António Amaral é o facto de ele não admitir nem por um momento que as empresas que falham nas suas obrigações de serviço público devam ser penalizadas. É assim que o liberalismo de princípio se transforma às vezes numa mera ideologia interesseira de defesa dos poderosos.

E, se teme que a baixa do preço possa ter efeitos perversos prejudiciais para os utentes que mais necessitam de circular com rapidez, porque não considera em alternativa a aplicação de uma multa cujo montante reverta a favor do Estado?

Dilema para economistas

Muita gente já ouviu falar do dilema do prisioneiro, uma situação altamente perturbadora estudada pela teoria dos jogos dado mostrar que, em certas circunstâncias razoavelmente comuns, a atitude mais racional de indivíduos preocupados com o seu bem-estar pessoal consiste em fazer batota e prejudicar os seus semelhantes.

Isto cria alguns problemas à teoria económica dominante, a qual sugere que, mesmo que cada qual só se preocupe consigo mesmo, o resultado final pode ser benéfico para toda a gente. Pelo contrário, o dilema do prisioneiro leva-nos a crer que o egoísmo generalizado conduzirá toda a gente à ruína.

Felizmente, prova-se que, quando o jogo do dilema do prisioneiro é jogado repetidamente, é possível, mas não seguro, o surgimento de formas espontâneas de cooperação entre os participantes que os impelem a superar o egoísmo estreito.

Acontece que três investigadores (Frank, Lovich e Regan) conceberam uma experiência destinada a testar a hipótese segundo a qual os economistas se comportam de uma forma mais egoísta do que pessoas com outros backgrounds quando jogam repetidamente o dilema do prisioneiro.

Ora o facto é que a experiência validou a hipótese: os economistas são, por conseguinte, mais egoístas do que as outras pessoas.

Dito isto, resta saber se eles se dedicaram ao estudo da economia porque são naturalmente egoístas, ou se se tornaram egoístas por terem estudado economia.

Que eu saiba, este assunto ainda não foi investigado. Cá por mim, porém, inclino-me para a segunda alternativa.

1.10.05

Raio de elites

Durante anos a fio, os comentadores explicaram pacientemente ao povo o conceito da presunção da inocência. Ninguém pode ser considerado culpado, disseram, enquanto não for julgado e condenado em tribunal.

Agora, os mesmos comentadores pretendem que o povo confirmará a sua alegada perversidade se eleger candidatos autárquicos arguidos em processos-crime.

Por outras palavras, pretendem que os eleitores decidam o que os tribunais não decidiram. Por outras palavras ainda, pretendem que os eleitores declarem com o seu voto a culpa dos candidatos arguidos.

Mas nem essa responsabilidade incumbe aos eleitores, nem o critério de alguém ser arguido deve ser essencial para a escolha de um titular de um cargo público.

Se aceitarmos como bom e válido em todas as circunstâncias o princípio de que quem for arguido num processo não tem o direito de candidatar-se a um cargo público, criaremos as condições para que os órgãos de investigação criminal possam passar a determinar quem irá dirigir os destinos do país.

Num Estado de Direito, os tribunais condenam e os cidadãos votam. Não são os cidadãos que condenam e as polícias que votam.