23.12.05



Modigliani: Nu couché de dos, 1917.

21.12.05

Quem ganhou?

As questões colocadas pelo Paulo Gorjão fazem todo o sentido.

Entretanto, eu gostaria de pegar no assunto por outro lado. Ao contrário do que as pessoas parecem pressupor, uma questão do tipo "Quem acha que ganhou o debate de hoje à noite?" é tudo menos clara.

Como se torna evidente quando ouvimos as pessoas discutir o debate, uma pergunta dessas pode ser entendida de várias maneiras. Eis algumas:

1. Quem acha que revelou maior capacidade de argumentação?

2. Quem acha que foi mais convincente?

3. Quem acha que se defendeu melhor?

4. Quem o convenceu a si?

5. Quem acha que convenceu os outros?

6. Quem conseguiu alterar a seu favor a opinião do eleitorado?

Ontem, logo após o debate, o Director do Público opinou que a vitória táctica foi de Soares, mas a vitória estratégica foi de Cavaco. Entendo perfeitamente o que ele quer dizer, mas fico a pensar como responderia JM Fernandes à sondagem realizada.

A ideia de perguntar às pessoas se mudaram de opinião em função do debate parece boa, mas tampouco funciona. Poucas pessoas estarão disponíveis para admitir que um mero debate inflectiu o seu sentido de voto, porque isso fá-las parecer algo volúveis, ou mesmo tontas. A única forma de ter alguma ideia do impacto do debate consiste em acrescentar uma outra pergunta sobre a orientação política ou eleitoral do inquirido, como de resto foi sugerido pelo Pedro Magalhães.

Além disso, é mesmo pouco provável que muita gente mude de opinião acerca de dois homens que conhece há pelo menos um quarto de século em consequência de uma troca de palavras mais acesa. Quase toda a gente sabe quem são Soares e Cavaco e quase toda a gente tem uma ideia sobre a adequação do seu perfil ao cargo de Presidente da República.

É todavia possível que um debate destes persuada alguns a ganharem confiança para declararem uma intenção de voto que até aí tinham ocultado. Estou convencido de que este é um fenómeno muito frequente, mas não tenho provas indiscutíveis do que afirmo.

Não se deve fazer às pessoas perguntas a que elas não sabem ou não querem responder. Esta é uma verdade sólida que todos os especialistas de research conhecem, mas que o público e os comentadores têm alguma dificuldade em entender.

A União Nacional segundo Cavaco

Cavaco promete não obstaculizar a acção do Governo na condição de ele não adoptar "políticas erradas". Ou seja, na condição de não adoptar as políticas de que Cavaco discorda.

Mas, como já sabemos, ele não admite que pessoas sérias dispondo da mesma informação discordem quanto ao caminho a seguir. Pessoas desonestas escolhem políticas erradas; pessoas honradas adoptam políticas correctas baseadas em consensos nacionais.

Logo, só por má-fé ou ignorância poderá o Governo adoptar "políticas erradas" e colocar-se, assim, em posição de perder a confiança de Cavaco.

Na cabeça de Cavaco não é admissível a pluralidade de ideias, excepto como um equívoco resultante de uma deficiente assimilação da matéria dada. Cabe ao mestre benevolente corrigir o aluno e mostrar-lhe o bom caminho.

E se o aluno for um "mau aluno"? Ou antes: e se o aluno persistir em pensar pela sua própria cabeça e tirar as suas próprias conclusões?

Nesse caso, assumir-se-á como um agente de bloqueio ao serviço de interesses inconfessáveis. Deverá, pois, ser denunciado e apontado à execração pública.

Não são precisos mais debates que não passam de exercícios de retórica artificiosa. As palavras só servem para enganar as pessoas. Do que se precisa é de gente de trabalho que subiu a pulso na vida e que, ao contrário dos políticos profissionais, se preocupa com o futuro dos seus filhos.

A política distrai-nos da competitividade. Se nós já sabemos sem margem para dúvidas quem é competente e lê os dossiês, para quê perder mais tempo com campanhas e eleições?

(Inserido ontem no Super-Mário.)

19.12.05

Originalidades portuguesas



Aprendi há dias a razão pela qual a designação dos dias da semana - segunda, terça, quarta, etc. - segue em Portugal um princípio inteiramente distinto do adoptado nos restantes países da Europa.

Foi assim: aí pelo Século VI, um fanático que passou para a história como S. Martinho de Dume, originário da Panónia e à data bispo de Braga, decidiu que os nomes tradicionais dos dias da semana, derivados dos deuses antigos, constituíam um inaceitável resquício de paganismo. Equivaliam, por conseguinte, a uma ofensa a Cristo.

Imagina-se quanto sangue terá custado a conversão forçada dos dias da semana. É de intolerâncias como esta que, pelos vistos, se faz a nossa identidade nacional.

(Olhem aí em cima a imagem do implacável santinho imortalizada na pedra.)

18.12.05

Burro velho não aprende línguas

Tirando um oportuno artigo de António Barreto no Público de hoje, não receberam a atenção devida as altas manobras empresariais fomentadas pelo Governo no sector da energia que esta semana vieram a público.

Trata-se de um gigantesco imbróglio conduzido sob o alto patrocínio do ministro Manuel Pinho envolvendo a Petrogal, a ENI, a Petrangol, a Petrocer, a REN, a EDP, a Nuon, a Iberdrola, o Grupo Amorim, a Argus Resources, o BES, a Fomentinvest e a Fundação Oriente. Implica, nomeadamente, compras e vendas de participações em empresas tuteladas pelo Estado e a construção de uma nova refinaria em Sines.

Estas intempestivas incursões governamentais em processos de arranjo e re-arranjo de grupos económicos portugueses são uma infeliz tradição nacional, com resultados nefastos na competividade das nossas empresas e pesados encargos para os consumidores e para o Estado.

O PS, em particular, parece que nunca aprende, nem sequer estando à vista de todos os resultados das infinitas confusões congeminadas pelo cérebro alucinado do ex-ministro Pina Moura.

Para já, é muito curioso que, ao contrário do que aconteceu com a OTA e o TGV, ninguém peça a este propósito explicações ao Governo sobre o que anda a fazer e quais os relevantes interesses nacionais em jogo.

Voltarei a este assunto com mais vagar numa próxima ocasião.

16.12.05



Fra Angelico.

Recordar é viver

Revendo o que aqui escrevi há dois anos sobre o caso Casa Pia, encontrei o seguinte post, de que muito me orgulho, em reacção a uma coisa inqualificável que o Pacheco Pereira escreveu n'O Público. Aqui fica, só para lembrar quem disse o quê:

Tomar a sério? O artigo hoje publicado por Pacheco Pereira no Público admite duas interpretações absolutamente opostas, tanto no plano político como no plano ético.

A primeira leitura, literal e pouco inteligente, consiste em tomar à letra o que está escrito. PP pensaria de facto que Ferro tem a estrita obrigação de precisar com o maior detalhe as suas acusações sobre a tentativa de «decapitação do PS».

Este ponto de vista é difícil de aceitar. Corresponde a afirmar que uma vítima de perseguição caluniosa tem a obrigação de afrontar de peito aberto os poderes fácticos que secretamente o atacam. Numa palavra, tem de expor-se ainda mais e de facilitar-lhes os seus ataques.

Ora, quando alguém é vítima de ataques cobardes de gente que não ousa dizer o seu nome, frequentemente sabe mais, muito mais, do que está em condições de provar. Whodunnit? O próprio, se não for completamente estúpido, é capaz de, mediante o tradicional método de conjecturar quem tem simultaneamente a motivação, a ocasião e a arma do crime, identificar com razoável precisão a origem da calúnia.

Logo, tomado à letra, o texto de PP assemelha-se muito a uma provocação de inspiração policial destinada a atrair a vítima à armadilha. Como nada do que PP tem dito e feito permite supor que seja capaz de tal baixeza, esta interpretação deve ser posta de lado.

Resta então compreender o texto de PP como uma forma ardilosa de insinuar ele próprio aquilo que Ferro, pela razões atrás aduzidas, não está em condições de afirmar. Possivelmente, PP terá entendido com quem o seu partido anda metido e, muito legitimamente, não quer ser confundido nem com essa gente nem com os seus métodos.

Mas, é claro, isto é apenas uma interpretação...

14.12.05



Fra Angelico.

Justiça alfabética

Os blogues cujos títulos começam por uma das primeiras letras do alfabeto desfrutam de uma vantagem desleal em relação aos outros, dado que usualmente são colocados à cabeça nas listas de links.

(Acreditem se quiserem, mas eu só me apercebi disso muito depois de ter baptizado este blogue.)

Talvez por se sentir ele próprio injustiçado, o Lutz encontrou uma forma simples e original de compensar os blogues "mais desfavorecidos", para usar uma expressão infeliz mas corrente: linkou os blogues por ordem alfabética invertida.

Bem pensado.

Para além da espuma



Perdida a actualidade, desgastadas as imagens pela repetição ad nauseam, inoculados os preconceitos, os media zarparam prontamente para outras paragens em busca de sangue fresco.

Mas um magnífico ensaio de reflexão é tentado neste magnífico post em que o Afonso Bívar retoma a análise dos recentes motins em França.

(Uma breve nota final para modestamente sugerir que, podando algum do hermético jargão de que a prosa padece, o resultado final poderia ser muito melhorado.)

Equívocos

Um breve post que coloquei no Super-Mário suscitou este comentário perspicaz do Paulo Gorjão.

Gostaria apenas de esclarecer que nem sei, nem é relevante para o meu argumento, que papel terá ou não desempenhado o "aparelho" do PS na escolha do candidato Mário Soares.

O que eu digo (e mantenho) é que boa parte do encanto da candidatura de Alegre resulta de ele ser visto como alguém que se rebelou contra o arranjismo e o negocismo que minam o PS por dentro. Votando contra o candidato oficial do partido, os seus apoantes entendem estar a protestar contra esse estado de coisas.

Creio que se trata de mais um equívoco, mas essa já é outra questão...

(Quanta à falta de consistência do pensamento de Alegre, trata-se de um tema que merece um tratamento mais cuidado. A ver se arranjo tempo e arte...)

13.12.05



Fra Angelico.

Uma teoria inútil?

As campanhas eleitorais são por regra conduzidas no pressuposto de que é preciso convencer os eleitores da excelência do nosso candidato. Mais precisamente: não todos os eleitores, mas apenas os indecisos.

Ora, por razões complexas, eu acredito que os verdadeiros indecisos não votam, tal como acredito que é tempo perdido convencê-los a votar.

Quanto aos numerosos cidadãos que nas sondagens se declaram "indecisos", trata-se na verdade de pessoas que - seja por vergonha, por medo, ou por outro motivo - não querem revelar a sua intenção de voto.

Assim sendo, os debates não convencem as pessoas a votar neste ou naquele candidato porque, como seria de esperar, elas já terão definido a sua posição há muito tempo. Quando muito, poderão convencê-las a revelar a sua inclinação.

Admito, porém, que uma ínfima minoria de pessoas genuinamente indecisa acabará por votar. Normalmente, essas pessoas votarão em quem acharem que vai ganhar. Não votam, pois, por convicção, mas apenas para terem a satisfação de estar do lado vencedor.

Quando uma eleição está muita apertada, elas acabam por desempenhar um papel decisivo.

Que concluír? Que, embora em teoria a persuasão desempenhe um papel marginal numa campanha, na prática não resta outra alternativa senão tentar...

9.12.05

"Rice satisfez Bruxelas com garantia que EUA não torturam" (Público, 9.12.05)

Este é, para mim, o título mais perturbador do ano.

Só os excessivamente ingénuos ignoram que a tortura pode ocorrer - e, por isso, uma vez por outra, ocorre mesmo - no seio das democracias liberais mais respeitadas.

Resta-nos a consolação de saber que, quando tal monstruosidade se verifica, ela só pode, por regra, ter lugar à revelia dos poderes instituídos ou nas margens do sistema.

O que agora se passou nos EUA não foi isso. Ouvimos o Director da CIA pôr em dúvida que a asfixia seja tortura. Lemos opiniões de doutos juízes americanos invocando a "guerra contra o terror" para justificar procedimentos excepcionais de interrogatório. Soubemos que o Presidente Bush se propõe vetar uma deliberação banindo explicitamente a tortura proposta na Câmara dos Representantes por John McCain, ele próprio torturado como prisioneiro de guerra no Vietname do Norte.

Foi tudo isso que tornou necessária essa extraordinária declaração de Condoleezza Rice garantindo que a América não recorre à tortura.

E nós, iremos acreditar, tendo em conta que o seu discurso parece redigido por uma equipa de advogados sabidolas que cuidou vírgula a vírgula de não mentir sem todavia dizer a verdade toda?

Esta declaração seria uma coisa normal - e até positiva - se tivesse sido arrancada à China, a Cuba ou à Coreia do Norte. Vinda dos EUA, e nos termos em que foi feita, é um embaraço para todo o mundo civilizado.

8.12.05

A Benfíquíada

Há bem uma dúzia de anos que - Deus me perdoe! - eu não sofria pelo Benfica. Entendam-me bem: eu não alinho com a lamechice do patriotismo futebolístico. Fosse antes o adversário o Ajax, O Milan ou o Liverpool, todos eles clubes do meu coração, e ninguém me pilharia a insultar o árbitro grego por conceder demasiado tempo de desconto.

Mas, ontem, foi assim mesmo: gostei do jogo e gostei do ambiente e gostei de ver o Benfica e gostei de me entusiasmar e gostei da vitória, tal como, confesso, também gostei da derrota do Queirós, um sujeito com quem particularmente embirro.

Agora, aqui entre nós, é altura de reconhecer que o Koeman, frequentemente acusado de não ser um tipo muito esperto, deu ao Benfica uma consistência que há muito tempo ele não tinha - não, meus amigos, nem sequer, no tempo do Trapatonni. Só isso lhe permitiu ganhar a uma equipa de primeiro plano sem contar com os seus dois melhores jogadores, o Simão e o Manuel Fernandes.

7.12.05



Fra Angelico.

E você, compraria um carro usado a esta mulher?

2.12.05

É muito difícil prever, especialmente o futuro



Na foto: Paul Samuelson em Maio último, no dia do seu 90º aniversário.

Em 1970, a 8ª edição de Economics de Paul Samuelson, durante décadas o manual de teoria económica mais utilizado em todo o mundo, previa que em 2005 o produto per capita da União Soviética ultrapassaria o dos Estados Unidos.

Mais dia menos dia, deve estar a acontecer.

Os velhos



Os velhos metem-se-nos à frente do carro a atravessar muito devagarinho a rua quando o sinal já mudou. Empatam a fila do multibanco porque metem o cartão ao contrário. Querem passar à frente no elevador. Pedem muitas explicações na repartição de finanças. Enchem as urgências dos hospitais. Chateiam o criado porque a comida está salgada. Ocupam os bancos dos jardins e dos autocarros. Falam muito de quando eram novos. Acham que no tempo deles é que as pessoas eram educadas. Teimam que a gente não sabe fazer as coisas. Têm muitos planos para o futuro. Agora, ainda por cima, candidatam-se a presidentes.

Merkel tem razão



Pois é, pois é, isto poderá estar tudo muito certo. Mas a verdade é que, embora não fosse nele que a Srª Merkerl estava a pensar, o homem que mais contribuíu para a invenção do computador foi Leibniz - um alemão, portanto.

Não só por ter aperfeiçoado a máquina de calcular de Pascal, ter feito evoluir o cálculo proposicional e ter inventado o sistema binário, mas principalmente por todos esses avanços terem sido inspirados pela ideia de projectar uma máquina capaz de pensar.