"Cervantes no tenía ortografía alguna, como no la tenían las personas privadas. La ortografía la tenían las imprentas, hasta que la Academia la organizó un poco. Los escritores escribían haber sin hache, con uve o con be, daba igual. Cervantes no ponía ni puntos ni comas, ni por casualidad. Lo ponían los editores antiguos, por su cuenta, unas veces interpretándolo bien y otras veces haciéndolo mal. Y Cervantes les dejaba absoluta libertad. ¡Él escribió toda su vida Cervantes con be! Él sabía que lo que ocurría antes de la imprenta y durante la imprenta eran cosas distintas. (...) El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha no es el título de Cervantes. Él había titulado El ingenioso hidalgo de la Mancha, que es el título con el que pide el permiso para publicar el libro. (...) Planteándome las cuestiones materiales, es evidente que el Quijote no salió de la mente de Cervantes de un tirón, impecablemente. No. Eran papeles sueltos. (...) He visto muchos manuscritos preparados para la imprenta, pero son copias. Del Quijote debieron haber doscientos.Da entrevista no El Pais de hoje com Francisco Rico, editor do Quixote.
(...) El Quijote tal cual no lo leeremos nunca."
22.4.07
"¡Dios no quiera que aparezca el manuscrito del 'Quijote!"
Uma pessoa está sempre a aprender:
60s Crash Course - Nino Ferrer: Le téléfon
Isto não é propriamente um comentário aos resultados das eleições presidenciais francesas. Pelo menos não estou consciente de que o seja - mas quem sabe?
Sobre a importação acrítica de preconceitos nacionalistas
Ensina hoje José Manuel Fernandes no Público:
Eu tinha a impressão de que, nos últimos tempos, os cidadãos britânicos com um problema revelam uma preocupante inclinação para colocarem ou planearem colocar bombas em aviões ou autocarros antes de se dirigirem ao seu deputado, mas deve ser confusão de alguém que tende a prestar excessiva importância aos factos.
Cada povo alimenta sobre si próprio as ilusões de grandeza que mais lhe convém, e sinto-me tentado a dizer que isso é lá com ele. Já acho mais surpreendente - e sintomático de falta de discernimento - que pessoas estranhas ao condicionamento social que lhes deu origem engulam e recomendem como bons esses preconceitos nacionalistas.
A anglofilia (bem como a francofilia, note-se) é apenas mais uma das infindáveis maneiras de evitar usar a cabeça.
"Costuma dizer-se que enquanto no Reino Unido um cidadão com um problema se dirige primeiro ao seu deputado, em França trata de cortar uma estrada ou cortar uma barricada."
Eu tinha a impressão de que, nos últimos tempos, os cidadãos britânicos com um problema revelam uma preocupante inclinação para colocarem ou planearem colocar bombas em aviões ou autocarros antes de se dirigirem ao seu deputado, mas deve ser confusão de alguém que tende a prestar excessiva importância aos factos.
Cada povo alimenta sobre si próprio as ilusões de grandeza que mais lhe convém, e sinto-me tentado a dizer que isso é lá com ele. Já acho mais surpreendente - e sintomático de falta de discernimento - que pessoas estranhas ao condicionamento social que lhes deu origem engulam e recomendem como bons esses preconceitos nacionalistas.
A anglofilia (bem como a francofilia, note-se) é apenas mais uma das infindáveis maneiras de evitar usar a cabeça.
Livros paralelos
Creio ter sido Hayek o primeiro a sugerir que um mercado deve ser entendido como um sistema de processamento descentralizado de informação. Uma boa parte - talvez a mais frutuosa - da investigação económica das últimas duas décadas dedicou-se a explorar essa intuição. Em resultado, graças a Stigler, Akerloff e Stiglitz, entre outros, compreendemos hoje muito melhor como de facto funcionam os mercados.
Em "Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets", John MacMillan consegue a proeza de apresentar de uma forma simultaneamente rigorosa e acessível os principais resultados da teoria económica da informação. O autor recorre a uma variedade de exemplos intrigantes e bem seleccionados, desde o mercado de flores de Alsmeer na Holanda aos leilões para atribuição de frequências do espectro electromagnético a empresas de telecomunicações. De passagem, explica convincentemente porque é que o capitalismo foi um sucesso na China e um fiasco na Rússia.
A forma como os mercados ajudam milhares de agentes independentes a usarem o melhor possível a informação de que dispõem para tomarem decisões simultaneamente correctas do seu ponto de vista particular e racionais do ponto de vista da comunidade é iluminada com os ensinamentos da teoria dos jogos, área em que John McMillan se sente particularmente à vontade.
Por outro lado, a economia da informação ajuda-nos também a compreender por que é que, às vezes, os mercados falham. Tanto a busca de informação como a sua interpretação têm custos. Um mercado bem formado incorpora mecanismos que lhe permitem manter a níveis razoavelmente baixos os custos de transacção que inevitavelmente resultam da dispersão da informação.
A economia da informação permite-nos também entender o que é necessário fazer para corrigir eventuais falha do mercado. Segundo Arrow, quando um mercado não funciona a primeira coisa que se deve fazer é tentar pô-lo a funcionar, e não substituí-lo precipitadamente por um qualquer mecanismo de decisão hierarquizado.
O tema central de John Kay no seu "The Truth About Markets: Their Genius, Their Limits, Their Follies" é precisamente o mesmo. Porém, embora Kay não fique a dever nada a McMillan, nem como economista nem como divulgador, a verdade é que o resultado dos seus esforços não chega desta vez ao nível da concorrência.
Ao passo que McMillan se centra nalguns quantos casos muito bem escolhidos para, através da sua discussão, ir progressivamente introduzindo as ideias fundamentais da economia da informação, Kay adopta o propósito muito mais ambicioso de passar en revista de uma forma sistemática os progressos da teoria económica na compreensão de como funcionam os mercados. O resultado é um calhamaço de 480 páginas de difícil digestão, lá onde MacMillan em apenas 278 de leitura entusiasmante.
20.4.07
Bruxo
Ninguém sabe ainda ao certo quais serão as consequências para o futuro político do primeiro-ministro da campanha que contra ele vem sendo conduzida pelo Público tomando como pretexto a sua licenciatura.
Mas já toda a gente percebeu quais serão as consequências para o futuro jornalístico do Público da campanha que ele vem conduzindo contra o primeiro-ministro tomando como pretexto a sua licenciatura.
Mas já toda a gente percebeu quais serão as consequências para o futuro jornalístico do Público da campanha que ele vem conduzindo contra o primeiro-ministro tomando como pretexto a sua licenciatura.
Para que serve a televisão pública
Um estudo divulgado há dias pela Marktest mostrava que a RTP dá muito mais peso à informação política nos noticiários do que as suas concorrentes privadas. Parece que, por causa das audiências, a SIC e a TVI são forçadas a dedicar cada vez mais tempo ao crime e à coscuvilhice.
O curioso é que, segundo os painéis de audiências da mesma empresa, os noticiários da RTP são os preferidos dos telespectadores. Conclusão: o tele-lixo é justificado pelas preferências do público, mas as escolhas do público contradizem a alegação.
Parece, portanto, que as preferências populares não são de facto tidas nem achadas na definição dos critérios jornalísticos. Os noticiários das televisões privadas descambam frequentemente para o rasca porque os directores de informação assim o querem.
Bastaria esta constatação para justificar a necessidade da televisão pública. Parecendo que não, faz falta.
O curioso é que, segundo os painéis de audiências da mesma empresa, os noticiários da RTP são os preferidos dos telespectadores. Conclusão: o tele-lixo é justificado pelas preferências do público, mas as escolhas do público contradizem a alegação.
Parece, portanto, que as preferências populares não são de facto tidas nem achadas na definição dos critérios jornalísticos. Os noticiários das televisões privadas descambam frequentemente para o rasca porque os directores de informação assim o querem.
Bastaria esta constatação para justificar a necessidade da televisão pública. Parecendo que não, faz falta.
19.4.07
60s Crash Course - Jacques Dutronc: Mini Mini Mini
Petit, petit, petit
Tout est mini dans notre vie
Mini-moke et mini-jupe
Mini-moche et lilliput
Il est mini Docteur Schweitzer
Mini mini ça manque d'air
Mini-jupe et mini-moque
Miniature de quoi je me moque
Ministère et terminus
Minimum et minibus
Petit, petit, petit
Tout est mini dans notre vie
Mini-moke et mini-jupe
Mini-moche et lilliput
Il est mini Docteur Schweitzer
Mini mini ça manque d'air
Mini, mini, mini
Mini, mini, mini, mini
Moi je préfère les maxis
Maxi-moke et maxi-jupe
Maxi-moche et maxi-pute
Il est maxi Docteur Schweitzer
Maxi maxi ça respire l'air
Maxitère et termaxus
Maximum et maxibus
Maxistère et termaxus
Maximum et maxibus
Maxistère et termaxus
(Já voltaremos aos Velvet Underground. Uma coisa de cada vez. Agora estamos a tratar do caso da França.)
Que querem os franceses?
De que se queixam afinal os franceses? A sua produtividade é tão elevada que até se podem dar ao luxo de trabalhar menos do que os outros. Uma comparação rigorosa demonstraria que, na verdade, a taxa de desemprego pouco excede a dos EUA. Os serviços públicos são excelentes. O clima é agradável. Come-se bem, bebe-se bem. O futebol é do melhor.
O Economist acredita que a França precisa de uma espécie de Tony Blair. Se os franceses seguissem o conselho, o Serviço Nacional de Saúde degradar-se-ia, as auto-estradas passariam a ser pagas, os acidentes ferroviários multiplicar-se-iam e os jovens que actualmente se entretêm a incendiar carros nos subúrbios prefeririam colocar bombas em autocarros e comboios.
O mal da França é a ilusão da grandeza da França - uma crença quase tão absurda como a da grandeza do Benfica. A satisfação das pessoas e dos povos resulta do confronto entre a realidade e as expectativas, pelo que as raízes da infelicidade tanto podem estar num lado como no outro. Ora o papel da França no mundo não pára de diminuir, e os habitantes do hexágono não estão claramente preparados para essa desfeita.
Os franceses já se habituaram a ser o povo mais detestado da Europa. Mas não podem aceitar que os seus esforços para afirmar no exterior a grandeza da França sejam hoje objecto da troça universal.
A França reage a isto crispando-se, de tal forma que toda a sua vida política é na actualidade dominada pelo mais retrógrado chauvinismo. Apenas a forma como ele se manifesta varia um pouco - não muito - de partido para partido. Todos os principais políticos franceses se transformaram em Le Pens mais ou menos assumidos.
É necessária muita imaginação para vislumbrar outra distinção entre a direita e a esquerda que não passe pela mera exibição de emblemas caducos, também eles reminiscências obsoletas de uma pretensa idade do ouro.
De modo que na França contemporânea nós vemos concretizado de forma exemplar o prognóstico de uma sociedade em que desapareceu o tradicional confronto entre direita e esquerda. E talvez seja afinal esse o problema da França, um país sem fantasia, sem esperança e sem rumo.
Novas revelações sobre o caso do Público (2)
Parece-me que há aqui evidente má fé: José Manuel Fernandes é jornalista, não é político, e os jornalistas são nossos amigos. Além disso, trata-se indiscutivelmente de um Mestre em armas de destruição massiva, na especialidade Iraque.
18.4.07
Lobo Xavier, dá-me a tua camisola!
Usar um título sem ter feito exame e beneficiando do tratamento de favor de um amigo pode em certas circuntâncias ser uma coisa muito reprovável. Depende apenas de quem for o beneficiário.
13.4.07
"A Grande Suspeita"
Mais um comentário inteligente sobre o-assunto-que-vocês-sabem, do qual gostaria de destacar sobretudo as linhas que aqui reproduzo:
"Na cabeça de quem vê estas coisas a preto e branco, e são cada vez mais, são tão legítimas as suspeitas de que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner possam estar ilegitimamente conectados em todo este processo, como as de que José Sócrates, Luis Arouca, Armando Vara e o professor das quatro cadeiras o possam estar também. É claro que se acharmos que Belmiro de Azevedo, José Manuel Fernandes, Ricardo Dias Felner * não estão ilegitimamente conectados poderemos tender para a ideia de que o mesmo não se passa com os outros. E o contrário. Estamos mais predispostos a pensar que eles estão a promover uma vingança contra José Sócrates se tendermos para a ideia de que nada de ilegítimo conecta Sócrates com o seu antigo professor, com Luís Arouca ou com o próprio Armando Vara.
"Só que há aqui algo mais complicado: hoje chegámos a um momento onde parece ser insensato não ter suspeitas ou suspeições de alguma espécie. O pior não é tudo poder ser escrutinado. Que o seja. Escrutinado, questionado, interpelado. O problema não é esse. O problema é o elevado rendimento que a suspeição em forma de argumento parece ter. É um produto branco do pensamento social contemporâneo e abriga-se na impunidade a que as fábricas ideológicas têm ainda hoje devido à inexistência de controle de qualidade nos seus processos de fabricação.
(...)
"Como é que saímos daqui? Talvez seja uma ideia errada, a de sair. Se isto é o pântano, qualquer movimento para sairmos tenderá a afundarmo-nos mais. Foi uma péssima ideia termos vindo para aqui assentar arraiais, temos de reconhecer, mas aqui chegados, como é que sobreviveremos não ao pântano, mas no pantâno? Talvez seja boa ideia drenar alguns terrenos. Ou seja, habituarmo-nos à ideia de que o pior não é a suspeita, nem a suspeição. É aceitarmo-la enquanto argumento."
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