30.11.06

Perguntar não ofende

Um dia destes haveremos de tentar perceber como pode considerar-se competitiva uma economia que, depois de ter desvalorizado a sua moeda cerca de 40% de há cinco anos para cá, continua a apresentar um défice das transacções correntes equivalente a 9% do seu produto.

Estou a falar dos EUA, evidentemente.

Há coisas fantásticas, não há?

O Mãos ao ar é um blogue de dois sportinguistas que não só escrevem maravilhosamente como ainda por cima percebem mesmo de futebol.

Sportinguistas que percebem de futebol? Mas isso não é uma contradição nos termos? Eu estaria inclinado a dizer que sim, mas, depois de conhecê-los, terei provavelmente que rever a minha opinião.

Não percam, em especial a estupenda série "Os Merdinhas". Ainda vai na Parte 3.

Confirma-se a retoma



Após três meses consecutivos de crescimento acelerado, espera-se que também a OCDE e o FMI revejam em alta as suas previsões para o próximo ano.

Não tenho palavras

Assim, a glória torna-se inesperadamente fácil.


Ingres: Júpiter e Tétis, 1811.

Lá que há, há

Enquanto Ratzinger, ele era contra a entrada da Turquia na União Europeia. Enquanto Papa, a acreditar nos jornais de ontem, ele é a favor.

Obviamente, há aqui mãozinha do Espirito Santo.

27.11.06

Ilhas de prosperidade

Querem mesmo imitar Singapura? A sério? Então vamos fazer o seguinte.

No nosso país, quase 50% da riqueza concentra-se nuns 10 concelhos. Se esses 10 concelhos se independentizassem, criar-se-ia um país altamente.

Mas isso seria um tanto complicado porque não há continuidade territorial entre todos eles. De modo que o plano poderia ser um bocadinho diferente.

Lisboa declararia a independência. Na margem Norte, ficaria com os concelhos de Lisboa, Oeiras, Sintra e Cascais. Na margem Norte, agregaria apenas Almada. Tudo o resto ficaria para Portugal.

O novo país - chamemos-lhe Nova Lisboa, visto que a cidade angolana do mesmo nome adoptou outra designação - guardaria para si os bancos, as seguradoras, as telecomunicações e as sedes de todas as grandes empresas industriais e de serviços. Reteria, no máximo, uns 20% dos funcionários públicos existentes. Acabaria com o exército e, em contrapartida, criaria uma imponente força policial para patrulhar as suas fronteiras. Os portugueses de Loures, Amadora, Barreiro e por aí fora, necessitariam de passaporte para virem trabalhar em Nova Lisboa. Evidentemente, seriam proibidos de ter acesso às praias da Caparica e da Linha. De vez em quando, o Benfica faria uma digressão por Portugal para gáudio dos indígenas.

Nova Lisboa tornar-se-ia numa sociedade próspera e competitiva, ao nível dos países mais evoluídos da Europa. Não teria de preocupar-se com o desenvolvimento do interior e das Ilhas. Não teria que financiar a construção de auto-estradas para Trás-os Montes. Não teria que subsidiar o ensino das crianças de aldeias longínquas. Não teria que tratar das doenças dos alentejanos. Essa inenarrável perda de tempo e de recursos que dá pelo nome de agricultura seria lançada às urtigas. A floresta poderia arder à vontade.

Em suma, esse país modelar povoado quase em exclusivo pela classe alta servida por criadagem portuguesa da província poderia dedicar-se inteiramente e sem estorvos à criação de riqueza.

Só haveria um problema: tenho a impressão de que os "doutores do Porto", como lhes chama o Franco Atirador, não iriam gostar.

Alhos e bogalhos

Fiquei logo a tremer de medo quando um dos blasfemos ameaçou que iria responder à minha sequência de posts sobre Milton Friedman no Chile.

Estes tipos fazem-me lembrar o cão de Pavlov: toca-se-lhes no santinho, e põem-se logo a rosnar. Altamente previsíveis.

Enfim, lá pensaram (ai! ai!) um bocadinho, e o que é que saíu? Isto, ou seja, uma típica mistura de alhos com bogalhos.

Como seria de esperar, a habitual preguiça não lhes permitiu sequer darem-se ao trabalho de lerem o que escrevi. Para quê? Eles já viram tudo, já pensaram em tudo e já sabem tudo.

Eu digo que Friedman teve um comportamenmto vergonhoso no caso do Chile. Que respondem eles? Que o Chile é o país mais desenvolvido da América Latina. Que não faz sentido acabar com o embargo a Cuba. Que o investimento estrangeiro na China é uma coisa boa. Que a Nike faz bem em abrir fábricas no Vietname.

Digam-me vocês se estes tipos são bons da cabeça!

Não sei se vale a pena tentar impor o debate racional num manicómio, mas sempre vos direi duas ou três coisas:

1. O PNB foi inventado para se tentar quantificar a felicidade, pelo menos aquela parte que pode ser atribuida ao desfrute de bens materiais. Julgar que ele a esgota, porém, é asneira da grossa. Para usar um exemplo em que é mais provável que estejamos de acordo: imaginem que, sendo a Arábia Saudita criticada por as mulheres adúlteras serem apedrejadas até à morte, alguém contra-argumentava que, afinal, não podemos esquecer que o produto per capita do país impõe respeito. Topam?

2. Por muito estranho que vos pareça, o Chile já era o país mais rico da América Latina bem antes de vocês terem nascido. Embora não as conheça em detalhe (mas vocês também não), fico muito contente por saber que as políticas económicas aplicadas no país terão tido bons resultados. As mesmas orientações, porém, deram péssimos resultados noutros locais. Querem falar um dia do caso da Nova Zelândia? Estou certo que, com a vossa prosápia, não custa nada.

3. Como não sou fanático, reconheço muitos méritos (e também alguns deméritos) como economista ao Milton Friedman. Pura e simplesmente, não foi disso que falei. Em parte porque o essencial já foi dito por muita gente, em parte porque ainda não tive tempo para alinhavar um comentário a um tempo crítico e justo, ou seja, equilibrado. Esta palavra consta do vosso dicionário?

E se a escravatura se revelasse o regime economicamente mais eficiente?



Robert W. Fogel, vencedor do Prémio Nobel da Economia em 1993.

Há três anos já escrevi um post sobre o problema muito apropriadamente levantado pelo Lutz.

Pode ser relido aqui. Basicamente, fiz então notar que, segundo Robert W. Fogel, laureado com o Prémio Nobel da Economia em 1993, a escravatura era um regime de trabalho eficiente e rentável.

Assim, segundo este autor, está demonstrado que o crescimento económico e tecnológico é perfeitamente possível, mesmo no interior de uma ordem sócio-económica profundamente imoral.

Era costume ensinar-se nas faculdades de economia que a escravatura terminara porque constituía um entrave ao progresso. Mas isso, pura e simplesmente, não é verdade: a abolição da escravatura resultou da determinação política de muita gente, impulsionada por factores de ordem diversíssima, entre os quais os éticos, para pôr termo à escravatura.

25.11.06

Liberais à antiga (7)

O comportamento de Milton Friedman em relação ao Chile de Pinochet foi vergonhoso. Como explicá-lo?

Algumas pessoas acreditam que se tratou apenas de mais uma manifestação do síndroma de Siracusa, o mesmo que levou Platão a colocar-se ao serviço do tirano que governava aquela cidade para aí instaurar a República perfeita. Muitos intelectuais orgulhosos, incluindo Heidegger, d’Anunzio e Gorki, sucumbiram ao longo dos anos a essa tentação.

Quando se envolveu na política chilena, em meados dos anos 70, Friedman ainda não gozava dos favores de governos de países importantes, como um pouco mais tarde veio a suceder com Margaret Thatcher no Reino Unido e Ronald Reagan nos EUA. A vaidade ter-se-ia, portanto, sobreposto ao mais elementar bom senso.

Pode ser que sim, mas as próprias declarações de Friedman sugerem que não terá sido apenas isso. Em muitos dos seus escritos encontramos insinuada a ideia de que, para ele, a liberdade económica é primordial, a liberdade política secundária, e a democracia um estorvo no caminho da primeira. Quando aos direitos humanos, pura e simplesmente não figuram na sua cartilha.

O que torna evidente que Friedman não era, de facto, um liberal à moda antiga, na linha de Hume, Humboldt ou Stuart Mill. Bem pelo contrário, a sua crença dogmática constitui uma usurpação inaceitável dos conceitos centrais do liberalismo, algo a que infelizmente nos habituámos ao longo das últimas décadas.

Por conseguinte, o título "Liberais à moda antiga" que utilizei na série de posts sobre a intervenção político-económica de Hayek e Friedman no Chile de Pinochet tinha uma intenção irónica que não terá passado desapercebida aos mais assíduos frequentadores deste blogue.

Liberais à moda antiga (6)

(Continuação)
Friedman too saw himself in the vanguard. "In every generation," he is quoted in his flattering New York Times obituary, which spares just a sentence on his role in Chile, "there's got to be somebody who goes the whole way, and that's why I believe as I do."
And trailblazer both men were, harbinger of a brave and merciless new world. But if Pinochet's revolution was to spread throughout Latin America and elsewhere, it first had to take hold in the United States. And even as the dictator was "torturing people so prices could be free," as Uruguayan writer Eduardo Galeano once mordantly observed, the insurgency that would come to unite behind Ronald Reagan was gathering steam.
Today, Pinochet is under house arrest for his brand of "shock therapy," and Friedman is dead. But the world they helped usher in survives, in increasingly grotesque form. What was considered extreme in Chile in 1975 has now become the norm in the US today: a society where the market defines the totality of human fulfillment, and a government that tortures in the name of freedom.

Fiquemos por aqui, sim?


Caravaggio: O Martírio de S. Mateus, 1600.

Liberais à moda antiga (5)

(Continuação)
Where Friedman made allusions to the superiority of economic freedom over political freedom in his defense of Pinochet, the Chicago group institutionalized such a hierarchy in a 1980 constitution named after Hayek's 1960 treatise The Constitution of Liberty. The new charter enshrined economic liberty and political authoritarianism as complementary qualities. They justified the need of a strong executive such as Pinochet not only to bring about a profound transformation of society but to maintain it until there was a "change in Chilean mentality." Chileans had long been "educated in weakness," said the president of the Central Bank, and a strong hand was needed in order to "educate them in strength." The market itself would provide tutoring: When asked about the social consequences of the high bankruptcy rate that resulted from the shock therapy, Admiral José Toribio Merino replied that "such is the jungle of . . . economic life. A jungle of savage beasts, where he who can kill the one next to him, kills him. That is reality."

But before such a savage nirvana of pure competition and risk could be attained, a dictatorship was needed to force Chileans to accept the values of consumerism, individualism, and passive rather than participatory democracy. "Democracy is not an end in itself," said Pinochet in a 1979 speech written by two of Friedman's disciples, but a conduit to a truly "free society" that protected absolute economic freedom. Friedman hedged on the relationship between capitalism and dictatorship, but his former students were consistent: "A person's actual freedom," said Finance Minister de Castro, "can only be ensured through an authoritarian regime that exercises power by implementing equal rules for everyone." "Public opinion," he admitted, "was very much against [us], so we needed a strong personality to maintain the policy."

(Continua)


Caravaggio: Salomé com a cabeça de S. João Baptista, 1607.

24.11.06

Liberais à moda antiga (4)

(Continuação)
Hayek's University of Chicago colleague Milton Friedman got the grief, but it was Hayek who served as the true inspiration for Chile's capitalist crusaders. It was Hayek who depicted Allende's regime as a way station between Chile's postwar welfare state and a hypothetical totalitarian future. Accordingly, the Junta justified its terror as needed not only to prevent Chile from turning into a Stalinist gulag but to sweep away fifty years of tariffs, subsidies, capital controls, labor legislation, and social welfare provisions -- a "half century of errors," according to finance minister Sergio De Castro, that was leading Chile down its own road to serfdom.
"To us, it was a revolution," said government economist Miguel Kast, an Opus Dei member and follower of both Hayek and American Enterprise Institute theologian Michael Novak. The Chicago economists had set out to affect, radically and immediately, a "foundational" conversion of Chilean society, to obliterate its "pseudo-democracy" (prior to 1973, Chile enjoyed one of the most durable constitutional democracies in the Americas).

(Continua)


Caravaggio: David com a cabeça de Golias, 1606/07.

Liberais à moda antiga (3)

(Continuação)
Friedrich von Hayek, the Austrian émigré and University of Chicago professor whose 1944 Road to Serfdom dared to suggest that state planning would produce not "freedom and prosperity" but "bondage and misery," visited Pinochet's Chile a number of times. He was so impressed that he held a meeting of his famed Société Mont Pélérin there. He even recommended Chile to Thatcher as a model to complete her free-market revolution. The Prime Minister, at the nadir of Chile's 1982 financial collapse, agreed that Chile represented a "remarkable success" but believed that Britain's "democratic institutions and the need for a high degree of consent" make "some of the measures" taken by Pinochet "quite unacceptable."
Like Friedman, Hayek glimpsed in Pinochet the avatar of true freedom, who would rule as a dictator only for a "transitional period," only as long as needed to reverse decades of state regulation. "My personal preference," he told a Chilean interviewer, "leans toward a liberal dictatorship rather than toward a democratic government devoid of liberalism." In a letter to the London Times he defended the junta, reporting that he had "not been able to find a single person even in much maligned Chile who did not agree that personal freedom was much greater under Pinochet than it had been under Allende." Of course, the thousands executed and tens of thousands tortured by Pinochet's regime weren't talking.

(Continua)


Caravaggio: Judite dacapitando Holofernes, 1598.

Liberais à moda antiga (2)

(Continuação)
While he was in Chile Friedman gave a speech titled "The Fragility of Freedom" where he described the "role in the destruction of a free society that was played by the emergence of the welfare state." Chile's present difficulties, he argued, "were due almost entirely to the forty-year trend toward collectivism, socialism and the welfare state . . . a course that would lead to coercion rather than freedom." The Pinochet regime, he argued, represented a turning point in a protracted campaign, a tearing off of democracy's false husks to reach true freedom's inner core. "The problem is not of recent origin," Friedman wrote in a follow-up letter to Pinochet, but "arises from trends toward socialism that started forty years ago, and reached their logical and terrible climax in the Allende regime." He praised the general for putting Chile back on the "right track" with the "many measures you have already taken to reverse this trend."

(Continua)


Caravaggio: Crucificação de S. Pedro, 1600-01.