27.4.07

O interesse nacional face às eleições em França

Esta parece-me fácil.

Ora é assim: o federalismo é a única maneira de o voto dos eleitores dos pequenos países ter alguma relevância na União Europeia. Logo, o "interesse nacional" como o entendo (e que necessariamente se opõe a outros conceitos de "interesse nacional") implica que a vitória de Ségolène é o que mais nos convém.

Uma perspectiva mais vasta do interesse nacional, assente no princípio eminentemente higiénico de que é preferível lidarmos com Chefes de Estado bem-educados, aponta no mesmo sentido.

Uma homenagem

Há dias recomendei aqui entusiasticamente o livro de John McMillan "Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets" como a melhor introdução que conheço a este tema.

Receoso de não ter feito inteira justiça a esta obra maravilhosa, procurei uma recensão mais competente do que a minha na internet e encontrei esta de Stephen Cheung, professor na Universidade de Sidney.

Infelizmente, a mesma pesquisa deu-me também a conhecer a triste notícia do falecimento de McMillan há pouco mais de um mês. Não há muita gente com o talento que ele tinha para expor teorias económicas complexas de uma forma simples sem ceder à facilidade. Vai fazer-nos falta.

60s Crash Course - Léo Ferré: La Solitude

26.4.07

Deficiência imunitária adquirida

Não sei se já repararam que é muito mais difícil rebater um argumento estúpido do que um argumento inteligente.

Da primeira vez que notei isso entrei em pânico.

Depois, consolei-me com o pensamento de que não é preciso perder tempo a discutir argumentos estúpidos porque as pessoas são capazes, de uma forma quase intuitiva, de recusá-los. Digamos que, nesta hipótese optimista, elas conseguem cheirá-los à légua.

Estarei certo? Francamente, já não sei...

Tanto barulho para nada

As OPAs ganham-se e perdem-se, evidentemente. Faz parte das regras do jogo.

Mesmo sabendo isso, faz impressão como pôde dispender-se tanto tempo, energias e dinheiro com movimentações que acabaram por revelar-se tão frágeis nos seus fundamentos.

Não posso deixar de pensar que anda por aqui muita falta de imaginação.

Convergência económica incondicional ao nível sectorial?

Aparentemente, os resultados da investigação referida neste post pelo economista de Harvard Dani Rodrik significam que a melhor forma de um país com baixo crescimento económico superar as suas dificuldades consiste em entrar a todo o custo em novos sectores de actividade mais complexos.

A novidade é a garantia de que essa estratégia será sempre coroada de sucesso, sejam quais forem as circunstâncias, algo que até agora suscitava as maiores dúvidas entre os economistas.

Resultará daqui um novo fôlego para as políticas económicas industriais voluntaristas?

A brecha

Quando proclamou a libertação da pátria empoleirado numa guarita, nesse já distante 25 de Abril de 1974, Francisco Sousa Tavares não anunciou um facto, mas um desejo.

Não é verdade que, no final desse dia, se tivessem tornado impensáveis, como julga Rui Tavares (v. artigo de ontem no Público), a polícia política, a censura e os presos de opinião.

As pessoas mais informadas não ignoravam que algo estava para acontecer. Sabiam inclusive que havia uma espécie de corrida contra o relógio de vários sectores das forças armadas com propósitos políticos bem diversos.

Quando, ao anoitecer de 25 de Abril, apareceu na televisão uma Junta de Salvação Nacional composta de sujeitos mal encarados e presidida por Spínola, ninguém ficou a saber exactamente ao que vinha o tal MFA (repare-se como é voluntariamente inócua a designação).

Passaram dias até se obter a promessa de extinção da PIDE, de legalização dos partidos políticos e de organização de eleições livres, para já não falar da admissão do princípio da auto-determinação das colónias. Acresce que, decorrido um mês, já havia de novo presos políticos, e não me refiro a responsáveis do regime deposto.

É falsa (e ademais perniciosa) essa fantasia de um dia perfeito que, como por magia, nos serviu a liberdade numa bandeja. Não foi assim, nem jamais poderia ter sido assim.

Em 25 de Abril de 1974 abriu-se uma brecha, e já não foi pouco. Seria preciso mais um ano e meio de luta política até ficar absolutamente claro que espécie de regime iria vigorar em Portugal.

Cadê os jovens?

Outra coisa que me deixa baralhado: se, como todos os dias se afirma, a sociedade está a envelhecer rapidamente, não seria melhor mobilizar os velhos em vez desses miríficos jovens que ou não existem ou são imigrantes?

Conservadorismo à portuguesa

Não posso senão achar divertidíssimos estes conservadores portugueses que se maçam muito com as tradições e os rituais. Façam-me um favor e comecem por pôr ordem nessas cabeças.

24.4.07



Cy Twombly: Wilder Shores of Love, 1985.

23.4.07

60s Crash Course - Booker T & The MGs: Green Onions

A era pós-ideológica segundo Portas

Disse-se, mas é errado, que o discurso de vitória de Portas não trouxe nada de novo.

Portas, o super-ideólogo, anunciou a chegada da era pós-ideológica em que o que interessa são os resultados e não as declarações abstractas de princípios e intenções. Deixo agora de lado a questão de apurar se a opinião pública lhe dará algum crédito nesse papel, para passar directamente aqueloutra de saber onde quer ele chegar, que é o que interessa em personagens políticas deste tipo.

Ora centrar o debate nos resultados efectivos do Governo ao longo dos próximos dois anos tem para o novo PP a grande vantagem de lhe permitir fazer uma oposição a que alguns chamarão séria e responsável - e ainda por cima alinhada pelo mote dado pelo Presidente da República - sem por isso fechar as portas a uma eventual coligação pós-eleitoral com o PS no caso de os socialistas não conseguirem a maioria absoluta em 2009.

É essa a ideia, aposto eu.

Eles e os outros

Marques Mendes esgotou praticamente o seu arsenal de indignação com a nomeação de Pina Moura para a presidência da Media Capital.

Interrogado por um repórter sobre se essa situação não teria, afinal, semelhanças com a presença de Pinto Balsemão, militante número um do PSD, à frente do maior grupo mediático português, Mendes emitiu uma expressão de inultrapassável estranheza e assegurou que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

É claro que uma coisa não tem nada ver com a outra. Como poderia ter? Eles são eles, os outros são os outros. Eles são os donos disto. Aliás, já os seus pais o eram. Como é que alguém pode não entender algo tão óbvio? Só por má-fé, é evidente.

22.4.07

60s Crash Course - Miles Davis: Bitches Brew

"¡Dios no quiera que aparezca el manuscrito del 'Quijote!"

Uma pessoa está sempre a aprender:
"Cervantes no tenía ortografía alguna, como no la tenían las personas privadas. La ortografía la tenían las imprentas, hasta que la Academia la organizó un poco. Los escritores escribían haber sin hache, con uve o con be, daba igual. Cervantes no ponía ni puntos ni comas, ni por casualidad. Lo ponían los editores antiguos, por su cuenta, unas veces interpretándolo bien y otras veces haciéndolo mal. Y Cervantes les dejaba absoluta libertad. ¡Él escribió toda su vida Cervantes con be! Él sabía que lo que ocurría antes de la imprenta y durante la imprenta eran cosas distintas. (...) El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha no es el título de Cervantes. Él había titulado El ingenioso hidalgo de la Mancha, que es el título con el que pide el permiso para publicar el libro. (...) Planteándome las cuestiones materiales, es evidente que el Quijote no salió de la mente de Cervantes de un tirón, impecablemente. No. Eran papeles sueltos. (...) He visto muchos manuscritos preparados para la imprenta, pero son copias. Del Quijote debieron haber doscientos.
(...) El Quijote tal cual no lo leeremos nunca."
Da entrevista no El Pais de hoje com Francisco Rico, editor do Quixote.

60s Crash Course - Nino Ferrer: Le téléfon




Isto não é propriamente um comentário aos resultados das eleições presidenciais francesas. Pelo menos não estou consciente de que o seja - mas quem sabe?

Oposição

Está encontrado o post do dia. Podem todos descansar os dedos e voltar amanhã.

Sobre a importação acrítica de preconceitos nacionalistas

Ensina hoje José Manuel Fernandes no Público:
"Costuma dizer-se que enquanto no Reino Unido um cidadão com um problema se dirige primeiro ao seu deputado, em França trata de cortar uma estrada ou cortar uma barricada."

Eu tinha a impressão de que, nos últimos tempos, os cidadãos britânicos com um problema revelam uma preocupante inclinação para colocarem ou planearem colocar bombas em aviões ou autocarros antes de se dirigirem ao seu deputado, mas deve ser confusão de alguém que tende a prestar excessiva importância aos factos.

Cada povo alimenta sobre si próprio as ilusões de grandeza que mais lhe convém, e sinto-me tentado a dizer que isso é lá com ele. Já acho mais surpreendente - e sintomático de falta de discernimento - que pessoas estranhas ao condicionamento social que lhes deu origem engulam e recomendem como bons esses preconceitos nacionalistas.

A anglofilia (bem como a francofilia, note-se) é apenas mais uma das infindáveis maneiras de evitar usar a cabeça.

Livros paralelos



Creio ter sido Hayek o primeiro a sugerir que um mercado deve ser entendido como um sistema de processamento descentralizado de informação. Uma boa parte - talvez a mais frutuosa - da investigação económica das últimas duas décadas dedicou-se a explorar essa intuição. Em resultado, graças a Stigler, Akerloff e Stiglitz, entre outros, compreendemos hoje muito melhor como de facto funcionam os mercados.

Em "Reinventing the Bazaar: A Natural History of Markets", John MacMillan consegue a proeza de apresentar de uma forma simultaneamente rigorosa e acessível os principais resultados da teoria económica da informação. O autor recorre a uma variedade de exemplos intrigantes e bem seleccionados, desde o mercado de flores de Alsmeer na Holanda aos leilões para atribuição de frequências do espectro electromagnético a empresas de telecomunicações. De passagem, explica convincentemente porque é que o capitalismo foi um sucesso na China e um fiasco na Rússia.

A forma como os mercados ajudam milhares de agentes independentes a usarem o melhor possível a informação de que dispõem para tomarem decisões simultaneamente correctas do seu ponto de vista particular e racionais do ponto de vista da comunidade é iluminada com os ensinamentos da teoria dos jogos, área em que John McMillan se sente particularmente à vontade.

Por outro lado, a economia da informação ajuda-nos também a compreender por que é que, às vezes, os mercados falham. Tanto a busca de informação como a sua interpretação têm custos. Um mercado bem formado incorpora mecanismos que lhe permitem manter a níveis razoavelmente baixos os custos de transacção que inevitavelmente resultam da dispersão da informação.

A economia da informação permite-nos também entender o que é necessário fazer para corrigir eventuais falha do mercado. Segundo Arrow, quando um mercado não funciona a primeira coisa que se deve fazer é tentar pô-lo a funcionar, e não substituí-lo precipitadamente por um qualquer mecanismo de decisão hierarquizado.

O tema central de John Kay no seu "The Truth About Markets: Their Genius, Their Limits, Their Follies" é precisamente o mesmo. Porém, embora Kay não fique a dever nada a McMillan, nem como economista nem como divulgador, a verdade é que o resultado dos seus esforços não chega desta vez ao nível da concorrência.

Ao passo que McMillan se centra nalguns quantos casos muito bem escolhidos para, através da sua discussão, ir progressivamente introduzindo as ideias fundamentais da economia da informação, Kay adopta o propósito muito mais ambicioso de passar en revista de uma forma sistemática os progressos da teoria económica na compreensão de como funcionam os mercados. O resultado é um calhamaço de 480 páginas de difícil digestão, lá onde MacMillan em apenas 278 de leitura entusiasmante.

21.4.07

Dziga Vertov: O Homem da Máquina de Filmar (excerto)