3.10.03

Insensatez? Que dois ministros, ao que tudo indica pessoas de bem, caiam na armadilha de cometer uma flagrante ilegalidade por uma questão, a bem dizer, tão mesquinha, eis o que se afigura revelador de uma completa insensatez.

Mas pode haver outra explicação, de algum modo sugerida pela candura com que Pedro Lynce inicialmente reagiu ao caso.

É que, dizem-me, tornou-se habitual nos últimos anos os ministros interpretarem ou corrigirem leis mediante um simples despacho. Será verdade?

Eis uma excelente oportunidade para trazer à luz do dia e banir definitivamente esse tipo de práticas, em si mesmas muito mais graves do que o caso concreto agora em discussão.

2.10.03

How to Solve It. Dizem que os alemães são um povo metafísico, mas eu nunca conheci nenhum alemão que se interessasse por filosofia.

Povo metafísico somos nós, os portugueses. Para nós, qualquer tarefa simples, tal como pregar um prego, dá origem um debate que vai rapidamente crescendo em complexidade até se tornar numa discussão sobre o sentido último do Universo, da vida e tudo o resto.

Os últimos exemplos são os incêndios e a crise do sistema judicial. Os temas já foram discutidos por toda a espécie de especialistas de trás para a frente e de todos os ângulos. Resultado: estamos mais longe do que nunca de uma solução desses problemas.

Curiosamente, este povo que pratica em tudo o empirismo radical de quem prefere aprender cometendo os mesmos erros uma e outra vez, é totalmente destituído de sentido prático. Há aqui uma esquizofrenia que nos faz funcionar igualmente mal em dois planos distintos de incompetência teórico-prática. Por um lado, o pensamento teórico recusa orientar-se para assuntos úteis e relevantes; por outro, a actividade prática recusa ser orientado por ideias e conceitos abstractos. Em consequência, recorremos à filosofia como táctica para fugir ao trabalho concreto e atiramo-nos com entusiasmo a empreendimentos tresloucados destituídos de qualquer senso.

Que melhor prova existe do divórcio total e acabado entre a escola e a sociedade?

Parece-me que o que faz aqui muita falta é que se ensinem métodos de resolução de problemas. Por mim, sugiro a todos os interessados o livrinho maravilhoso do matemático húngaro Pólya How to Solve It (há tradução portuguesa, Como Resolver Problemas, creio que editado pela Gradiva). Não é só para matemáticos, pois expõe os princípios de uma heurística geral útil em todos os domínios para nos ajudar a pensar sobre problemas mal estruturados.
Que fazer? As praxes boçais e humilhantes, a ordinarice que domina os protestos contra as propinas, o folclore saloio da capa e batina, a debilidade intelectual dos dirigentes de associações estudantis financiadas pelo Estado, a falta de carácter revelada por muitos órgãos de gestão universitária – tudo isso nos faz pensar que, longe de se constituirem em centros de irradiação de civilização, as nossas universidades tendem a reproduzir e ampliar de forma caricatural os piores defeitos da sociedade.

Nenhum discurso bem intencionado sobre a importância da educação para o futuro do país consegue resistir a esta poderosa coligação de ignorância, preconceito, egoismo, oportunismo e má-criação. Este é hoje o problema mais grave que temos que enfrentar - e não digam que a culpa é da televisão.

Conhecem a frase les grands esprits se rencontrent? Pois a verdade é que o mesmo se passa com os pequenos e mesquinhos. Decididamente, a estupidez tem um sentido gregário muito desenvolvido.

Que fazer, então? Para já, começar por envergonhá-los a todos publicamente, coisa que, actualmente, em geral não acontece.

1.10.03

CIA para principiantes. Ocupei uma parte das últimas seis semanas a ler The Company: A novel of the CIA, de Robert Littell, um gigantesco livro com quase 900 páginas.

Embora, ao contrário do que pretenderam certos críticos, o autor não se encontre, nem de perto nem de longe, ao nível de Le Carré, no conjunto dei o meu tempo por bem empregue.

O romance cobre todo o período da Guerra Fria, de 1950 a 1991, com um flash-back para 1948, quando a URSS passa a dispor da bomba atómica, e uma breve extensão até 1995. Os episódios principais estão construídos em torno de algumas das fases mais marcantes do conflito: a Guerra da Coreia, o esmagamento da revolta húngara de 1956, o episódio da Baía dos Porcos, a guerra do Afeganistão, a perestroika e o desmoronamento final da União Soviética. Em fundo, perpassam também episódios como o golpe de estado contra Mossadegue, a intervenção na Nicarágua, o cisma sino-soviético, o início e o fim da guerra do Vietname, o escândalo Watergate, a morte de João Paulo II, a revolução iraniana, o caso Irão-contras, a primeira guerra do Golfo e sempre, sempre, o conflito israelo-árabe. Bin Laden tem uma breve aparição em Peshawar.

Embora não se aprenda propriamente coisas novas sobre a história contemporânea, este relato romanceado, ao estilo das novelas de Gore Vidal, proporciona uma visão mais rica dos acontecimentos, principalmente porque Littell tem talento para construir ambientes que definem uma época. Além disso, o detalhe com que descreve o modo como as operações são conduzidas no terreno revela que se trata de alguém que estudou a fundo o seu assunto.

De ambos os lados da barricada, os agentes são apresentados como sujeitos idealistas que se batem acima de tudo por mundo livre ou por um mundo sem exploradores, conforme o caso, o que, embora lisonjeiro para os envolvidos, é provavelmente pouco objectivo. Esta benevolência genérica aplica-se inclusivamente aos agentes duplos e aos traidores.

Uma das particularidades mais interessantes do livro é a mistura de figuras reais que todos conhecemos com personagens fictícios. Os personagens fictícios são, em geral, pouco conseguidos A principal excepção é Harvey Torritti, por alcunha o Feiticeiro, que talvez possamos considerar o elemento chave de todo o enredo. O livro começa com ele a tentar organizar em Berlim a fuga para o ocidente de um oficial de topo do KGB e acaba com a sua morte em 1991, quarenta anos depois. Ao longo de todo esse tempo, o Feiticeiro comporta-se consistentemente como herói da guerra fria inteiramente dedicado à Companhia (nome por que a CIA é conhecida pelos próprios agentes) e imune a pressões ou interesses mesquinhos, mas também como um aventureiro excêntrico e um alcoólico sempiterno, qualidades que contribuem para o tornar especialmente simpático aos olhos dos leitores. O ponto mais alto da sua carreira tem lugar quando expulsa Robert Kennedy da sala de operações quando este se julga no direito de vasculhar informação classificada.

Em contrapartida, são magistrais os retratos de Kim Philby, o espião britânico ao serviço da União Soviética que durante anos a fio torpedeou todas as principais operações da CIA, e de James Jesus Angleton, o grande amigo e confidente de Philby que, depois do seu desmascaramento, passou a desconfiar de tudo e de todos, a ponto de, ainda em 1974, ainda persistir em considerar o cisma sino-soviético um embuste destinado a enganar os Estados Unidos.

São igualmente convincentes as representações de John Kennedy, Robert Kennedy e Ronald Reagan. John Kennedy move-se com elegância e à vontade entre milionários, diplomatas, playboys e gangsters, sempre acompanhado do petulante e conflituoso Bobby que não hesita em comportar-se por vezes como se estivesse investido de autoridade presidencial. Quanto a Ronald Reagan, é efectivamente o pobre tolo que sempre aparentou ser, apenas preocupado com trivialidades e relações públicas e tomando decisões de enorme responsabilidade, tais como fornecer artilharia pesada aos fundamentalistas afegãos que combatem os soviéticos, por capricho momentâneo ou desejo de agradar a alguém.

No conjunto, Littell parece pensar que o contributo efectivo da CIA para o desfecho da Guerra Fria foi marginal. Enredada em contínuas questiúnculas internas, propensa a acções aventureiras de duvidosa eficácia, frequentemente mal informada quanto ao que de facto se está a passar, dirigida por burocratas que apenas desejam cair nas boas graças dos políticos ou por excêntricos sem verdadeira noção das realidades, crescentemente condicionada na sua acção pela pressão da opinião pública americana, minada por agentes soviéticos infiltrados ao mais nível dos serviços de contra-espionagem, a CIA acaba muitas vezes por ser um estorvo para os propósitos da política externa norte-americana.

A moral da história é adequadamente posta na boca de Harvey Torritti: “We screwed up less than they did. That’s why we won.”

30.9.03

Peço explicações. O que é que o facto de ser possível um sujeito fabricar uma bomba nuclear na garagem tem a ver com a guerra contra o terrorismo? Pacheco Pereira insinua ontem no Abrupto que tem tudo. Eu, embora entenda onde ele quer chegar, não consigo acompanhar o raciocício.

Em primeiro lugar, gostaria de recordar que o 11 de Setembro foi levado a cabo com armas rudimentares. O que aí se provou, pois, foi que o terrorismo pode ser altamente eficaz recorrendo apenas a fisgas, facas de bolso e tesouras.

Depois, a possibilidade de proliferação descontrolada de armas de destruição massiva em consequência da facilidade da sua construção levanta sobretudo o problema do seu uso por indivíduos isolados ou por pequenos grupos de fanáticos activistas, e não especialmente por estados párias. Os estados, mesmo os dirigidos por tresloucados, podem com mais facilidade ser controlados ou ameaçados do que grupos informais virtualmente invisíveis e com grande facilidade de movimentação.

Portanto, nenhuma guerra convencional contra o «Eixo do Mal» pode enfrentar com êxito os problemas decorrentes da democratização das tecnologias do assassinato em massa nem, acredito, alguma vez foi esse o seu propósito.

Resta, portanto, como verdade inquestionável, que os comportamentos anti-sociais de sectores extremistas poderão assumir formas cada vez mais perigosas para a sociedade mundial. Que fazer?

Uma solução consiste em instituir sistemas de policiamento preventivo muito mais rigorosos do que aqueles que actualmente existem. Isso pode significar, por exemplo, a fiscalização sistemática dos movimentos de todos e quaisquer indivíduos cujos comportamentos possam ser considerados desviantes. Mas isso implicaria a instauração de verdadeiros estados policiais que nem eu nem Pacheco Pereira estaremos preparados para aceitar.

Há alguns anos, Peter Sloterdijk alvitrou numa conferência (tradução francesa: Règres pour le parc humain, Mille et une Nuits, 2000) que a solução poderá estar na utilização da engenharia genética para reprogramar o ser humano por forma a eliminar certas taras congénitas de origem biológica. Estas propostas desencadearam prontamente um indignado clamor de protestos, tanto à esquerda como à direita.

Concluindo, eu não tenho uma solução para propor, mas parece-me evidente que tão pouco a tem Pacheco Pereira.

27.9.03

Agarra se puderes. Aqui há uns três anos, ouvi um miúdo dizer numa reportagem televisiva que o maior sonho da sua vida era ir a Lamego, de que a aldeia onde residia distava uns dez quilómetros.

Excepto para este miúdo, ir a Lamego não é uma coisa particularmente excitante. Daí que, não havendo cinema nem centro comercial para passar o tempo, algumas figuras gradas da terra tenham decidido compensar essas falhas proporcionando aos amigos mais chegados um passeio de helicóptero.

Estou certo de que nunca lhes passara pela cabeça que houvesse nisso algo de mal. Todos os exemplos que vêm de cima mostram-lhes que, afinal, o Estado não é meu, nem é teu: é de quem o apanhar.
Outra vez os pilotos israelitas. Como era de prever, o meu post sobre os pilotos israelitas suscitou reacções iradas. Um leitor, em particular, deu-se ao trabalho de me dirigir uma crítica cujo argumento mais sólido era a suspeita de que, se calhar, eu sou judeu.

É capaz de não andar longe da verdade. Mas, já agora, dou-lhe o desgosto de o informar de que provavelmente ele também será, visto que, segundo afirma Steve Olson no seu magnífico livro Mapping Human History, a mistura de raças nesta vasta zona geográfica que circunda o Mediterrâneo foi tão intensa ao longo dos últimos milénios que não deverá hoje haver ninguém que não tenha sangue hebreu (mas também árabe, obviamente).

Falando mais a sério, como o assunto merece, peço que notem, em primeiro lugar, que eu falei da superioridade moral de Israel, não dos israelitas. E é assim porque, apesar do crescimento da vaga fundamentalista dentro do país, suportada pelo peso dos ortodoxos e pelo militarismo de alguns sectores, Israel é um estado que assenta as suas raízes na tolerância política e ideológica. Se se afastar delas, desaparecerá.

O outro ponto que eu gostaria de destacar é que vivemos num mundo extraordinariamente complexo. Por muito que queiram convencer-nos do contrário, as soluções simplistas não levam a lado nenhum, excepto talvez à escalada da violência insensata a que presente assistimos. Acredito que o bem e o mal existem, mas também acredito que, na maior parte das situações e na maior parte do tempo, as coisas não são tão claras assim.

Compreendo que quem está directamente envolvido nos conflitos não consiga ter a lucidez de entender ou sequer escutar os argumentos da outra parte, ou seja, de reconhecer a humanidade essencial do outro lado. Tenho muito mais dificuldade em entender o sectarismo de quem, apesar de separado do conflito israelo-palestiniano por milhares de quilómetros, e sobretudo por uma vivência livre das terríveis pressões psicológicas que ambos os lados sofrem no seu quotidiano, parece ainda assim mais empenhado em lançar chamas para a fogueira do que em apoiar todos os gestos, por frágeis e isoladas que eles sejam, que apontam no bom sentido.

25.9.03

Instituições. O Expresso é uma instituição no mesmo sentido em que o é uma senhora de meia idade. Já conheceu melhores dias, mas, por pudor ou piedade, ninguém tem coragem de lho dizer.
Adivinha. Se o Conselheiro Acácio dirigisse um jornal, qual seria ele? - O Expresso, claro está.
O outro roteiro para a paz. O governo de Sharon pode achar que eles são um cancro que urge extirpar, mas a verdade é que, paradoxalmente, atitudes como a dos 27 pilotos israelitas condenando raids sobre habitações que ameaçam civis inocentes põem em relevo a superioridade moral de Israel neste conflito.

Já alguém viu uma coisa igual do outro lado? Possivelmente não é porque não haja quem sinta da mesma maneira, mas porque seriam trucidados se ousassem exprimir em público a sua opinião.

Enquanto houver gente assim, de um lado e do outro, a esperança não estará definitivamente morta.
O Dr. Graça e o Sr. Moura. Por um lado, é um poeta de méritos reconhecidos, um homem de letras distinto, um gentleman com elevado sentido cívico. Por outro lado, polemiza com inigualável sectarismo, destempera à mínima provocação, recorre a linguagem de carroceiro, perora com grande à vontade sobre assuntos de que nada entende.

Agora inventou esta história do terrorismo incendiário que, segundo ele, visa derrubar o governo por meios subversivos; e, em vez de deixar cair no esquecimento o lapso infeliz, insiste e volta à carga.

Qualquer pessoa minimamente informada explicar-lhe-ia que o fogo posto tem um peso relativamente pequeno enquanto causa de incêndios, e que a grande maioria se prende com negligência e causas naturais. Chamar-lhe-ia ainda a atenção para o facto de que este ano, embora a área ardida tenha aumentado muito, de facto até houve menos incêndios.

Mas o Sr. Moura não quer saber de nada disto. Se o sr. primeiro-ministro lançou esta cruzada contra os incendiários para se limpar de reponsabilidades, a função dele, enquanto propagandista do governo, não é pôr em causa o chefe, mas apenas reunir argumentos para a causa, não importa quão disparatados eles sejam.

Ele argumenta, por exemplo, que a Judiciária até já prendeu 91 pessoas, o que, para o sr. Moura, basta para considerá-las culpadas. Sem notar que o envolvimento de uma parte da Judiciária numa manobra de desinformação do governo, particularmente notório nas suas intervenções televisivas durante o mês de Agosto, exigiria, ele próprio, um esclarecimento.

Enfim, este é o terrorismo a que temos direito, e o Sr. Moura o seu delirante profeta. Vamos esperar que, passado o efeito da poção maligna, tenhamos em breve de volta o bom Dr. Graça que todos tanto apreciamos.
Paris-Bagdade. Só uma pequena nota para dizer que, mais uma vez, a posição francesa em relação ao Iraque é completamente insustentável.

Que sentido faz exigir que se marque imediatamente uma data para a entrega do poder a um governo iraquiano quando ninguém pode com seriedade prever quando haverá condições para que isso aconteça?

Só os tolos se deliciam com as dificuldades que as americanos estão a experimentar no Iraque. Uma coisa é considerar que a invasão foi errada e perigosa; outra, bem diferente, é esperar tranquilamente que os americanos sejam derrotados e que Saddam, ou alguém pior, tome o poder.

É verdade que não devemos acorrer pressurosos para ajudar Bush a pagar as suas aventuras militares. Mas a solução alternativa é passar o controlo político da situação para a ONU, e não deixar os iraquianos entregues à sua sorte, que é como quem diz: à guerra civil.
Descoberta. Quando vamos de viagem e nos esquecemos de o guardar na mala, descobrimos com surpresa que o melhor amigo do homem é o creme de barbear.
Perguntar não ofende. Alguns jornalistas escrevem que, antes de ele chegar ao poder, não imaginavam que o primeiro-ministro se revelaria tão capaz. Será porque a mediocridade tem mais encanto vista de baixo?
Raio de comparação. Sabem aquelas mulheres que metem medo quando as vemos de manhã antes de se maquilharem? Alguns dos meus posts ficam assim quando não tenho tempo para lhes pôr um pouco de blush e pintar os lábios.
O céu é o limite. Não se sabe exactamente porquê, mas o facto em si está confirmadíssimo por estudos realizados em diversos momentos e lugares: em média, as pessoas mais altas ganham mais do que as mais baixas.

Assim, prevejo que, se os pais forem autorizados a escolher as características genéticas dos seus filhos, vamos assistir ao crescimento exponencial da espécie. Para quê tirar um MBA, se o importante é ser-se mais alto?

Prevejo também crescentes dificuldades para o tráfego aéreo.
Hoje é dia de bola. Aqui há uns anos, ao ser-me apresentado um administrador de uma grande empresa portuguesa, um amigo comum recomendou-me como sendo adepto do mesmo clube que ele.

Diz-me o sujeito: «Para falar verdade, eu nem gosto muito de futebol. Mas, como me sentia marginalizado às segundas-feiras quando toda a gente no escritório discutia os golos e as arbitragens da véspera, comecei a ir ao estádio com o meu filho, para ver se quebrava o isolamento».

O pobre homem, para não ser ostracizado pelos seus pares, tinha que submeter-se regularmente a um sacrifício ritual para ver se conseguia ser aceite pela tribo do futebol. Quem não aprecia o futebol nem é homem nem é nada. Pior: é objecto da desconfiança generalizada dos outros machos.

Durante muitos anos, acreditei haver na vida coisas mais importantes do que o futebol. Quando, finalmente, despertei do meu sono dogmático, vi claramente vista a profundidade do meu erro.

Hoje em dia, quando alguém afirma que não gosta de futebol, deduzo imediatamente que deve ter um parafuso a menos. Parafraseando a letra de um conhecido samba: «Quem não gosta da bola/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça/ ou doente do pé».

Só há uma coisa pior do que não gostar de futebol: não ser adepto de um clube de futebol. Um sujeito sem filiação clubística é um homem só, sem lealdades, um egoísta, um autista fechado sobre si mesmo. Homens assim, não duvidem, são perigosos.

O futebol é, para milhões de pessoas, o principal, senão mesmo o único, factor de de socialização. Se não fosse o futebol, de que falariam essas pessoas umas com as outras?.

A observação do “fenómeno desportivo” diz-nos praticamente tudo o que precisamos de saber sobre o estado do mundo. Por exemplo, quando começaram a aparecer em Portugal muitos jogadores russos, búlgaros, húngaros, sérvios e romenos, nós fomos obrigados a meditar sobre a derrocada do comunismo soviético. A bem dizer, nem é preciso ver os telejornais ou consultar jornais e revistas para saber o que se passa no planeta.

Mas, além disso, o futebol eleva-nos também às mais altas esferas do espírito, pois que, hoje, é através dele que as pessoas tomam contacto com as grandes questões do Universo, tais como o sentido da vida, o Bem e o Mal, etc. Uma leitura atenta dos jornais desportivos comprova-o sem margem para dúvidas.

Antigamente, dizia-se que o futebol era uma alienação. Essa tese foi mais uma vítima da queda do Muro de Berlim, visto que, se a alienação é um conceito com vestígios de marxismo, quem não gostar de futebol será forçosamente suspeito de estalinismo.

Assim, uma das consequências inesperadas da decadência do marxismo foi a proporcional elevação do estatuto do futebol enquanto actividade cultural. O intelectual da bola está hoje em toda a parte, nas colunas de opinião dos jornais de referência, nos debates televisivos, nas universidades ou, quem sabe, nas eleições presidenciais, caucionando desse modo com a sua benção esse inocente entretenimento popular.

Deve ser por isso que alguns eminentes bloguistas, pessoas usualmente sensatas e inteligentes, não só se desviam do seu caminho para escrever tolices sobre o último Porto-Benfica, como rapidamente perdem a compostura com assuntos de tão indiscutível relevância.

Eu percebo o sentimento clubista, e até o partilho, mas nunca comprei jornais desportivos, que só conheço do barbeiro, nem tenho usualmente paciência para conversas sobre futebol, não porque negue à partida que possam ser interessantes, mas porque os participantes daquelas a que tenho assistido percebem tanto do assunto como de cricket.

A paixão clubista, como qualquer forma de amor, tem de exprimir-se, compreendo-o bem, de formas ridículas. Se não fosse assim, não seria amor.

Mas convém não exagerar. E há sempre uma alternativa, quando todas as formas de expressão nos parecem inadequadas: seguir o conselho de Wittgenstein, segundo o qual o que não pode ser dito deve ser silenciado.

24.9.03

Confiança na justiça. A minha confiança na justiça portuguesa aumentou exponencialmente depois de ver o comportamento do Presidente da Relação de Lisboa, um cavalheiro de fina educação, em frente das câmaras da SIC. E como será quando a televisão não está a filmar?
Sem réstia de vergonha. É minha profunda convicção de que a oposição estudantil ao aumento das propinas é completamente injustificada. Se eu tivesse a esse respeito quaisquer dúvidas, e de facto já tive, bastar-me-ia escutar a inconsequente argumentação dos dirigentes do movimento para que elas prontamente se dissipassem.

A bem dizer, trata-se apenas de mais uma manifestação daquele despudorado egoísmo corporativo que em Portugal se exibe a todo o tempo sem freios na praça pública.

E não têm sequer vergonha de que as mães os vejam a fazer essas figuras?

23.9.03

Mais notícias. Segundo o FMI, o PIB per capita cresceu na União Europeia 18,3% desde 1995, contra 16,1% nos EUA.

Entre 1990 e 2002, a produtividade cresceu mais rapidamente na União Europeia do que nos EUA.

Em termos absolutos, a produtividade da Alemanha, da Holanda, da Irlanda, da França, da Bélgica e da Noruega é superior à americana.

Onde está, afinal, a tão alardeada superioridade económica americana? E que é feito da decadência europeia?