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Comparar a esperança de vida no Harlem com a do Bangladesh é uma forma infalível de chamar a atenção dos mais distraídos para o tratamento chocante que nos EUA é reservado aos pobres.
É claro,como me fizeram notar nalguns comentários, que o Harlem é um bairro especialmente problemático de uma cidade norte-americano. Mas o Bangladesh também é um país especialmente problemático do mundo.
É claro que a baixa esperança de vida do Harlem se deve em parte a causas especiais como a criminalidade e a droga. Mas a baixa esperança de vida do Bangladesh também tem causas especiais, entre elas recorrentes catástrofes naturais e epidemias.
Vamos então a uma comparação menos extrema, recolhida no mesmo livro de Amartya Sen citado no meu anterior post: a esperança de vida dos negros americanos é inferior à da China, do Ceilão, da Jamaica ou da Costa-Rica, todos eles países subdesenvolvidos.
É claro que eu sei, como os leitores sabem e eu sei que eles sabem, que a esperança de vida não depende apenas (nem talvez fundamentalmente) da assistência na doença. Tão ou mais importantes do que ela são as condições de nutrição e de habitação, a higiene e as condições sanitárias básicas.
Acontece que a ausência de um serviço nacional de saúde nos EUA resulta da mesma despreocupação genérica com a marginalização dos pobres que tem prevalecido no país e que Obama se tem esforçado por superar. E é só.
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27.9.10
24.9.10
Ideias baralhadas
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"O jogo democrático não é assim! Quem tem obrigação de governar é o Governo, quem tem a obrigação de criar condições, de negociar soluções que a oposição possa aprovar, em situação de minoria, é o Governo. E se não houver solução de consenso, o Governo não pode dizer que não pode governar, porque constitucionalmente a regra é que tem que governar com o Orçamento anterior, em regime de duodécimos. De resto, não teria nada de novo: este ano foi governado em duodécimos até Maio. E viver em duodécimos não obriga que seja até ao final do ano. Significa que, se o OE não for aprovado num prazo normal, se deve continuar a negociar um novo orçamento e, até lá, aplica-se esse regime. Que, aliás, daria melhor resultado do que deu este ano – porque a despesa nominal não poderia ter aumentado como aumentou este ano. O Governo não teria autorização para gastar o que gastou este ano."
Estas declarações de Vítor Bento ao DN, que ouvi hoje de manhã na TSF, deixaram-me confuso.
Primeiro, Bento diz que o governo do partido maioritário tem a obrigação de fazer o que pretende a oposição do partido minoritário e entende que isso é que é democracia.
Segundo, decreta que constitucionalmente o governo cujo orçamento é chumbado "tem a obrigação" de governar em duodécimos com o orçamento anterior, deixando-me a tentar descobrir de que Constituição estará ele a falar.
Finalmente, entende que governar com duodécimos até é bom porque não permite aumentar a despesa e este ano o governo até funcionou desse modo até Maio, mas logo a seguir declara que afinal este ano o sistema não funcionou porque a despesa aumentou em demasia.
Estou certo que ele queria dizer alguma coisa, mas não sei se o terá dito...
PS: É muito curioso que Bento confunda maioria relativa com minoria quando se refere ao apoio parlamentar de que o governo dispõe. Estamos a falar, note-se, de um Conselheiro de Estado. Essas ideias andam, definitivamente, muito baralhadas.
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"O jogo democrático não é assim! Quem tem obrigação de governar é o Governo, quem tem a obrigação de criar condições, de negociar soluções que a oposição possa aprovar, em situação de minoria, é o Governo. E se não houver solução de consenso, o Governo não pode dizer que não pode governar, porque constitucionalmente a regra é que tem que governar com o Orçamento anterior, em regime de duodécimos. De resto, não teria nada de novo: este ano foi governado em duodécimos até Maio. E viver em duodécimos não obriga que seja até ao final do ano. Significa que, se o OE não for aprovado num prazo normal, se deve continuar a negociar um novo orçamento e, até lá, aplica-se esse regime. Que, aliás, daria melhor resultado do que deu este ano – porque a despesa nominal não poderia ter aumentado como aumentou este ano. O Governo não teria autorização para gastar o que gastou este ano."
Estas declarações de Vítor Bento ao DN, que ouvi hoje de manhã na TSF, deixaram-me confuso.
Primeiro, Bento diz que o governo do partido maioritário tem a obrigação de fazer o que pretende a oposição do partido minoritário e entende que isso é que é democracia.
Segundo, decreta que constitucionalmente o governo cujo orçamento é chumbado "tem a obrigação" de governar em duodécimos com o orçamento anterior, deixando-me a tentar descobrir de que Constituição estará ele a falar.
Finalmente, entende que governar com duodécimos até é bom porque não permite aumentar a despesa e este ano o governo até funcionou desse modo até Maio, mas logo a seguir declara que afinal este ano o sistema não funcionou porque a despesa aumentou em demasia.
Estou certo que ele queria dizer alguma coisa, mas não sei se o terá dito...
PS: É muito curioso que Bento confunda maioria relativa com minoria quando se refere ao apoio parlamentar de que o governo dispõe. Estamos a falar, note-se, de um Conselheiro de Estado. Essas ideias andam, definitivamente, muito baralhadas.
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23.9.10
Temos que ter ambição
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Acabo de saber, lendo "Development as Freedom" do Nobel da Economia Amartya Sen, que a esperança de vida no Harlem nova-iorquino é inferior à do Bangladesh.
Para ser inteiramente rigoroso, essa era a situação em 1999, data da publicação do livro. Desde então o Bangladesh deve ter deixado o Harlem muito para trás.
Quem sabe se, fazendo as reformas certas no Sistema Nacional de Saúde, não poderemos aspirar a descer um dia ao nível do Harlem?
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Acabo de saber, lendo "Development as Freedom" do Nobel da Economia Amartya Sen, que a esperança de vida no Harlem nova-iorquino é inferior à do Bangladesh.
Para ser inteiramente rigoroso, essa era a situação em 1999, data da publicação do livro. Desde então o Bangladesh deve ter deixado o Harlem muito para trás.
Quem sabe se, fazendo as reformas certas no Sistema Nacional de Saúde, não poderemos aspirar a descer um dia ao nível do Harlem?
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22.9.10
Foi só uma ideia que me passou pela cabeça
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Se eu soubesse antecipadamente quando o Passos Coelho vai ameaçar não votar o Orçamento, poderia ganhar uma fortuna a especular na Bolsa.
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Se eu soubesse antecipadamente quando o Passos Coelho vai ameaçar não votar o Orçamento, poderia ganhar uma fortuna a especular na Bolsa.
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Coisas boas, como por exemplo
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A educação é boa porque promove o crescimento, ou a educação é boa porque é boa?
É a esta pergunta que procuro responder no meu artigo de hoje no Jornal de Negócios.
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A educação é boa porque promove o crescimento, ou a educação é boa porque é boa?
É a esta pergunta que procuro responder no meu artigo de hoje no Jornal de Negócios.
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Um país de doidos?
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Como muitas outras pessoas, tendo a identificar-me com o que Helena Garrido escreve no seu editorial de hoje no Jornal de Negócios ("Rotundas, ciclovias e investimento público").
Chegados ao fim, a conclusão não pode ser outra: "Isto é um país de doidos." Mas, sendo isso verdade, nada haverá a fazer.
Aqui se revela, a meu ver, a fragilidade da perspectiva que informa a peça da Helena. Tudo tem uma explicação, por estranha e difícil de encontrar que seja, e é da sua identificação que depende a superação das ineficiências que legitimamente nos irritam.
Atribuir a responsabilidade dos nossos problemas à loucura nacional é apenas uma forma de legitimar intelectualmente a desistência de mudar o país.
Dentre as coisas estranhas que Helena Garrido elenca, algumas serão efectivamente criticáveis, outras terão justificações que desconhecemos. O erro não estará nelas, mas na nossa incompreensão.
Numa recente viagem à Suécia fui surpreendido pela profusão de rotundas. O que me fez pensar que se trata afinal de uma forma simples, prática e barata de regular o trânsito, sem despender dinheiro em semáforos que, em Portugal, provavelmente teriam que ser importados.
A minha conclusão é que precisamos de conhecer melhor o nosso país se efectivamente queremos transformá-lo.
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Como muitas outras pessoas, tendo a identificar-me com o que Helena Garrido escreve no seu editorial de hoje no Jornal de Negócios ("Rotundas, ciclovias e investimento público").
Chegados ao fim, a conclusão não pode ser outra: "Isto é um país de doidos." Mas, sendo isso verdade, nada haverá a fazer.
Aqui se revela, a meu ver, a fragilidade da perspectiva que informa a peça da Helena. Tudo tem uma explicação, por estranha e difícil de encontrar que seja, e é da sua identificação que depende a superação das ineficiências que legitimamente nos irritam.
Atribuir a responsabilidade dos nossos problemas à loucura nacional é apenas uma forma de legitimar intelectualmente a desistência de mudar o país.
Dentre as coisas estranhas que Helena Garrido elenca, algumas serão efectivamente criticáveis, outras terão justificações que desconhecemos. O erro não estará nelas, mas na nossa incompreensão.
Numa recente viagem à Suécia fui surpreendido pela profusão de rotundas. O que me fez pensar que se trata afinal de uma forma simples, prática e barata de regular o trânsito, sem despender dinheiro em semáforos que, em Portugal, provavelmente teriam que ser importados.
A minha conclusão é que precisamos de conhecer melhor o nosso país se efectivamente queremos transformá-lo.
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21.9.10
Quem não chora não mama
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Chris Dillow, sobre as consequências de a voz dos pobres não se fazer ouvir:
Chris Dillow, sobre as consequências de a voz dos pobres não se fazer ouvir:
"The world’s poorest do not communicate with us, which causes us to give less to them than we otherwise would. By contrast, we are bombarded with messages from the well-off, which - on its own - tends to dispose us to be altruistic towards them. In this sense, inequality perpetuates itself. ".
20.9.10
17.9.10
Amor com amor se paga
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Mourinho vai treinar o Vitória de Setúbal por telefone. Mourinho vai ajudar Teixeira dos Santos a controlar a despesa pública. Mourinho vai ajudar Passos Coelho a preparar a versão final do projeto de revisão constitucional. Mourinho vai ensinar o Manoel de Oliveira a fazer filmes. Mourinho vai reunir com as agências de rating para lhes explicar a situação financeira portuguesa. Mourinho vai dizer aos alemães que metam os submarinos num certo sítio. Mourinho vai passar a escrever os editoriais do Expresso. Mourinho vai orientar a programação artística do São Carlos. Mourinho vai presidir ao júri dos Ídolos.
Para compensar o Real Madrid pela sua boa-vontade, Pinto da Costa vai ensinar Florentino Perez a gerir um clube de futebol.
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Mourinho vai treinar o Vitória de Setúbal por telefone. Mourinho vai ajudar Teixeira dos Santos a controlar a despesa pública. Mourinho vai ajudar Passos Coelho a preparar a versão final do projeto de revisão constitucional. Mourinho vai ensinar o Manoel de Oliveira a fazer filmes. Mourinho vai reunir com as agências de rating para lhes explicar a situação financeira portuguesa. Mourinho vai dizer aos alemães que metam os submarinos num certo sítio. Mourinho vai passar a escrever os editoriais do Expresso. Mourinho vai orientar a programação artística do São Carlos. Mourinho vai presidir ao júri dos Ídolos.
Para compensar o Real Madrid pela sua boa-vontade, Pinto da Costa vai ensinar Florentino Perez a gerir um clube de futebol.
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Políticas económicas ou sermões?
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Cristina Casalinho põe o dedo na ferida quando escreve no Jornal de Negócios de hoje:
Em teoria, tirando os habituais sermões exortando o povo à moderação do consumo, há duas alternativas: ou saímos da zona euro ou instituímos alguma forma de poupança forçada.
Como a primeira não se afigura realista, seria talvez altura de começar-se a pensar na segunda. Mas é claro que quem alvitrar essa possibilidade será logo acusado de estar a pretender aumentar os impostos.
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Cristina Casalinho põe o dedo na ferida quando escreve no Jornal de Negócios de hoje:
"O Estado pode não estar a fazer todo o seu trabalho de casa; contudo, empresas e famílias também não. A contenção da despesa para padrões mais alinhados com o rendimento impõe-se ao Estado e ao sector privado."Há aqui porém uma assimetria essencial: toda a gente sabe o que é preciso fazer-se para travar o endividamento público; mas ninguém sabe como aumentar a poupança e reduzir o endividamento do sector privado quando o país não controla a taxa de juro de base.
Em teoria, tirando os habituais sermões exortando o povo à moderação do consumo, há duas alternativas: ou saímos da zona euro ou instituímos alguma forma de poupança forçada.
Como a primeira não se afigura realista, seria talvez altura de começar-se a pensar na segunda. Mas é claro que quem alvitrar essa possibilidade será logo acusado de estar a pretender aumentar os impostos.
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16.9.10
13.9.10
11.9.10
8.9.10
Esther Duflo sobre economia e pobreza (por tudo quanto há, não percam isto)
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(É possível activar legendas em português.)
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(É possível activar legendas em português.)
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