30.8.07

Onde está a notícia?

Diz o Público online que "o Sporting teve um pouco mais de azar" do que o FC Porto e o Benfica no sorteio dos grupos da Liga dos Campeões.

Não entendo onde está a notícia: o Sporting tem sempre "um pouco mais de azar". Faz parte da sua natureza.

27.8.07

O comendador

Vamos lá ver se chegamos a um common sense. Será que o homem não diz coisa com coisa, ou será que o defeito é meu?

Em Joe Berardo, os nossos repórteres encontraram alguém à sua altura: eles fingem que perguntam, ele finge que responde.


Eric Fischl: Birth of Love, 1987.

Breves

1. A Drª Dalila foi muito bem dispensada. O Presidente da República, decidido a não perder uma oportunidade para dar a conhecer que está vivo, provou que, também nesta questão particular, carece de um pensamento político estruturado.

2. Admira-se a opinião pública por a GNR não ter comparecido para evitar a destruição de uma plantação de milho transgénico. Mas, pergunto eu: alguém que tenha feito férias no Algarve viu a GNR - entidade responsável pela manutenção da ordem pública na quase totalidade da região - onde quer que fosse durante o mês de Agosto?

3. Os mesmo partidos que declaram temer a excessiva ingerência do governo no funcionamento das polícias exigiram agora que o Ministério da Administração Interna abrisse um inquérito à actuação da GNR a propósito do caso atrás mencionado. Contradição? Que ideia!

4. O desemprego subiu ou desceu no 2º trimestre? Mas então os factos não falam por si? Mas então essa questão não admite uma resposta taxativa? O relativismo ataca onde menos se espera.

5. Após a América retirar do Sudoeste Asiático, há três décadas atrás, a paz e a prosperidade chegaram à região, desmentindo as negras predições que haviam justificado as sucessivas intervenções militares que culminaram na guerra do Vietname. O mais natural é que, a prazo, o mesmo venha a acontecer quando os EUA largarem mão do Próximo e Médio Oriente.

6. Quando uma empresa que correu riscos insensatos se vê ameaçada de falência, o Estado lava daí as suas mãos. Excepto, evidentemente, se se tratar de um banco, caso em que acorrerá a emprestar-lhe dinheiro a taxas bonificadas. Capitalismo para o povo, socialismo para os banqueiros.

7. Diz-se que a política contemporânea vive das aparências, mas não é verdade: a política alimenta-se da fantasia. Três meses bastaram para confirmar que Sarkozy é exactamente aquilo que parece - e, apesar disso, mais de metade da França votou nele. Não sei por que se riram tanto quando os americanos elegeram George W. Bush.

8. Que direitos dos cidadãos não estará Cavaco Silva disposto a sacrificar a troco da contenção da despesa pública? Esta é a pergunta que fica no ar depois da desajeitada defesa que apresentou do seu veto presidencial da semana passada.

60s Crash Course - Andy Williams: Music to Watch Girls By



Em 1966, a Pepsi lançou uma campanha publicitária para promover a Diet Pepsi. A canção do spot televisivo tornou-se tão popular que Andy Williams fez dela esta versão, cujo single se fartou de vender.

25.7.07

Para quando uma Casa do Benfica em Rongorongo?



O PSD já lá está!

Amadores



O Primeiro-Ministro e a Ministra da Educação supõem ter comunicado ao país o lançamento do novo programa de informatização das escolas.

Na verdade, comunicaram-lhe que vivem num mundo artificial de escolas de brinquedo, alunos alugados e professores de plástico.

Como foi isto possível?

Tudo leva a crer que o quotidiano do Primeiro-Ministro é uma sucessão interminável de eventos programados para controlar a agenda mediática através do permanente anúncio de medidas reformadoras.

Nesse mundo ideal ocorrem, por vezes, dificuldades inesperadas, como seja a de os estudantes estarem em férias no momento em que o Plano de Comunicação impõe que seja anunciado um programa dirigido às escolas.

Obviamente, o Primeiro-Ministro recusa-se a aceitar que o calendário dessas iniciativas seja condicionado pela realidade. Logo, a solução só pode ser uma: aluga-se os alunos e salva-se o evento.

Se o Governo estivesse mais empenhado na substância do que na aparência, apresentaria o programa durante o ano lectivo, numa escola onde ele estivesse realmente a funcionar. Mas isso contrariaria o Plano e, pior ainda, contrariaria o Primeiro-Ministro.

O mal do marketing político é que, sendo "marketing" o substantivo e "político" o adjectivo, estimula as pessoas a trocarem o essencial pelo acessório.

O resultado foi que, no final, o Governo falhou miseravelmente. Tudo isso porque, em matéria de comunicação, não passa de um bando de amadores.

24.7.07

"Qual é o mal?"




Aparentemente, nem o Primeiro Ministro nem a Ministra da Educação vêem qualquer mal na contratação de uns quantos miúdos para servirem de figurantes na apresentação de um projecto, já de si algo pífio, de informatização das salas de aula.

Aparentemente, nenhum deles se apercebe da mensagem subliminar que o "evento" passou à opinião pública: a de que a acção política do Governo não passa de um simulacro bem ensaiado para consumo do cidadão-telespectador.

Aparentemente, no seu entusiasmo neófito pelas delícias do marketing político, nenhum deles se apercebe de que, neste como em muitos outros casos, a conotação acaba por sobrepor-se à denotação, ou seja, a forma acaba por ser mais expressiva do que o presumível conteúdo.

Aparentemente, o Primeiro-Ministro e a Ministra da Educação consideram que a sua principal responsabilidade consiste em organizar eventos de forma profissional, e que o negócio do Governo é a produção de conteúdos.

Aparentemente, nem um nem outro suspeita que é em momentos como este que irremediavelmente se cava um fosso entre governantes e governados.

Algo de politicamente muito errado está a passar-se quando, numa situação destas, os governantes necessitam que alguém lhes explique onde está o mal.

60s Crash Course - Dave, Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich: Hold Tight



Pelos vistos, o Tarantino gosta destes anormais.

23.7.07

Cerremos fileiras em torno de Luís Marques Mendes



Está uma pessoa distraída na inocente ocupação de dizer mal do Marques Mendes, e eis senão quando é brutalmente confrontada com a aterradora eventualidade de ele poder vir a ser substituido por Luís Filipe Menezes.

É bem verdade que só damos valor ao que perdemos. É, pois, esta a hora de todos abrirmos os olhos e vermos o bem que, por pura negligência, nos arriscamos a ver desaparecer.

O Dr. Marques Mendes é uma cabeça. O Dr. Marques Mendes é um sábio. O Dr. Marques Mendes é um anjo.

Todos os bons portugueses que recusam ser cúmplices do crime em preparação só têm uma coisa a fazer: acorrerem em massa às sedes do PSD nos próximos 50 dias, pagarem as quotas em atraso e não se esquecerem de, no dia aprazado, depositarem o seu patriótico e salvífico voto no nosso grande e incomparável dirigente, o Dr. Luís Marques Mendes.

Últimas cinco leituras de Luis Filipe Vieira

João Vale de Azevedo, O Meu Combate.

Manuel Vilarinho, O Meu Combate.

Manuel Damásio, O Meu Combate.

Jorge Brito, O Mau Combate.

João Santos, O Meu Combate.

Novo embaixador nomeado para as Seychelles

"Cuidado com os factos. Vinguem-se na opinião!", recomenda hoje Medeiros Ferreira ao Público.

Êxito de bilheteira



Ainda não foi iniciada a rodagem do novo filme de João Botelho e já está a passar na televisão a sequela.

Sem futuro



Tendo em conta que foi criado à pressa, em Maio de 74, para responder a uma situação particularíssima, pode-se dizer que o PPD/ PSD já teve uma vida mais longa do que à partida se poderia augurar.

O caso foi este. Não fosse a perspicácia de Sá Carneiro ao cortar todas as ligações com o regime deposto pouco antes de ele ruir, e a direita não teria ninguém com pergaminhos democráticos para apresentar ao país depois de Abril.

A corrente de gente ligada aos negócios com inclinações tecnocráticas e liberalizantes não cessara de engrossar desde a adesão à EFTA em finais dos anos 50, e teria engrossado ainda mais se não fosse o envolvimento dos grandes grupos financeiros na economia colonial.

No entanto, só por si, essa corrente nunca conseguiria obter votações expressivas fora de Lisboa e Porto.

Para criar um partido de implantação nacional, capaz de disputar e ganhar eleições, era preciso agregar a burguesia rural e disputar ao PS aos notáveis da província, gente que aderiria com tanta facilidade ao novo regime como convivera com o anterior, na condição de que os sindicatos fossem mantidos sob controlo e eles pudessem prosseguir à sombra dos municípios as suas pachorrentas negociatas.

Como sabe quem os conhece, tratou-se de um casamento de conveniência entre gente que, detestando-se mutuamente por razões de classe e cultura, nada une senão a apetência pelo poder. A ditadura iluminada de uma personalidade equidistante como Cavaco Silva é a única forma de manter em paz o rebanho.

Acontece que o país evoluiu de há 30 anos para cá. Esvaziaram-se os campos, incharam as cidades. Ao concentrar-se nas urbes, o eleitorado mudou de natureza. Os comunistas já não assustam ninguém. As empresas de algum significado preocupam-se com o mundo, mas milhares de pequenos negócios dependem, como sempre, da política do fontanário. A ruína de muitas actividades tradicionais desviou gente com iniciativa para ocupações ilícitas mas proveitosas.

Hoje, mais do que nunca, o PSD procura fazer conviver modos de ver e viver mutuamente incompatíveis. Que sentido faz pregar a redução dos impostos e a liberalização dos despedimentos, se o que excita os militantes é a compra e venda de jogadores de futebol, o tráfico de influências, as casas de alterne ou os negócios escuros em África, para dar apenas alguns exemplos?

Para progredir, o PSD teria que alijar esse lastro que traz consigo há décadas. O problema é que, de imediato, perdendo os Jardins, os Menezes e os Valentins, teria de resignar-se a ser um partido muito mais pequeno.

E ninguém quer isso, pois não?

20.7.07

19.7.07

Desenvolvimento e desigualdade



Escrevem Alesina e Giavazzi nas primeiras páginas do seu livro O Futuro da Europa, recentemente editado em Portugal:
"A experiência da Argentina é um fantasma que paira sobre a Europa. No início do século passado, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo (...). Entretanto, o mundo mudou, mas os argentinos continuaram a pensar que exportar milho e carne de vaca bastava para se manterem ricos."
Acreditarão eles de facto que o problema dos argentinos foi terem continuado a exportar milho e carne de vaca?

Muito resumidamente, quando, no início do século XX, o país conheceu um extraordinário surto de prosperidade, os pobres ficaram cada vez mais pobres. Com o agravamento das desigualdades sociais, acirrou-se a luta de classes.

Quando um governo moderado procurou reestabelecer algum equilíbrio, defrontou-se com a resistência violenta da oligarquia local coligada com os interesses comerciais e financeiros britânicos.

A frágil tradição liberal argentina esboroou-se, de tal modo que Péron subiu ao poder com uma orientação pró-fascista no próprio momento em que o Eixo fora aniquilado no resto do mundo.

Os sindicatos, que queriam antes de tudo vingança, aliaram-se a Péron, o qual, para assegurar o apoio dos trabalhadores argentinos, aplicou políticas distributivas extremistas que deram cabo do pouco que, após décadas de lutas sem quartel entre patrões e operários, ainda restava de uma economia saudável.

Ainda assim, em 1975, ao fim de seis décadas sem crescimento, a Argentina permanecia um país mais rico do que a Espanha.

Nos poucos momentos em que houve liberdade, as forças anti-democráticas ganharam as eleições. Surgiu o terrorismo, tanto de extrema-direita como de extrema-esquerda. Por último, uma ditadura sanguinária e militarista instalou-se no país.

A Argentina é um caso exemplar de um país onde as desigualdades sociais acabam por hipotecar as hipóteses de crescimento económico. Esse é o risco que hoje correm os Estados Unidos, não a Europa.

A ignorância revelada na citação de Alesina e Giavazzi é típica da mentalidade que hoje predomina entre os economistas. Desconhecedores como são, na sua grande maioria, da história económica, não suspeitam que os problemas económicos mais graves têm as suas origens profundas não na economia, mas na política e na sociedade.

Livre câmbio e desenvolvimento



É costume ensinarem-nos que, ao longo do século XIX, a Inglaterra alcançou a hegemonia económica mundial em boa parte devido à sua abertura à concorrência económica internacional. Em contrapartida, países mais dados ao proteccionismo - como, por exemplo, a França - ficaram para trás.

O gráfico acima reproduzido, que fui buscar aqui, conta uma outra história. De facto, até 1880 a protecção alfandegária inglesa foi sempre superior à francesa; só depois dessa data as posições se inverteram, mas, ainda assim, sem que o proteccionismo francês se distinguisse acentuadamente do inglês.

Por conseguinte, foi só depois de se ter tornado no país mais desenvolvido do mundo que a Inglaterra reduziu drasticamente as taxas sobre os produtos importados. O seu caso não é excepcional: praticamente todos os países que hoje se encontram à frente protegeram mais ou menos as suas indústrias nos primeiros estágios do crescimento.

Dizer isto não é dizer que o livre câmbio não tem vantagens, e muito menos que, na actualidade, um país como Portugal teria algo a ganhar com o proteccionismo. Mas não faz sentido que as grandes potências exijam aos países mais atrasados que se abram mais rapidamente à concorrência do que elas próprias o fizeram, por que quase seguramente essa não será a melhor política.

Um herói passageiro



A eleição de Nicolas Sarkozy gerou uma invulgar vaga de entusiasmo à direita, como se, em vez de substituir um Presidente da mesma área política, ele tivesse vindo pôr termo a um longo período de hegemonia esquerdista.

Explicaram-nos então que, tratando-se de um liberal não comprometido com a herança gaulista, entre ele e Chirac haveria um abismo de diferença, e que, por isso mesmo, estaríamos a assistir a uma viragem radical na vida política francesa.

Passou um mês, e a novidade já cheira a ranço.

Liberal, Sarkozy? Na cimeira europeia, conseguiu retirar dos propósitos da União a referência à livre concorrência. Dias depois, questionou a independência do Banco Central Europeu que, a seu ver, privilegia o euro forte em detrimento da defesa da competitividade das empresas. Adivinha-se que a seguir se empenhará em assegurar o controlo francês sobre a empresa que fabrica o Airbus.

De "liberal" fica apenas a promessa de reduzir os impostos sobre os rendimentos dos ricos, a exemplo do que fez Bush do outro lado do Atlântico.

Como se vê, Sarkozy é apenas mais um político na velha tradição do chauvinismo populista francês que já produziu grande figuras como De Gaulle mas também personagens grotescos como Napoleão III.

Não é liberal, tampouco fascista. É um aventureiro bonapartista que, a troco da popularidade, irá criar problemas sérios e duradouros tanto no seu país como na Europa.

Só a total ignorância da história francesa moderna justifica a excitação da generalidade dos comentadores com a eleição do Presidente Sarkozy.