2.10.04

«O mundo está melhor sem Saddam Hussein»

O mundo está melhor sem Saddam Hussein, como diz e repete George Bush e tanta gente parece disposta a aceitar? Esta sentença deixa de parecer tão evidente, creio eu, quando se reconhece que o mundo não é uma coisa distinta das pessoas que o habitam.

E como evoluíu a vida das pessoas desde que o Saddam foi derrubado?

Comecemos, se não se importam, pelo próprio Iraque. Aí, a vida está sem dúvida muito melhor para as pessoas politicamente empenhadas, que anteriormente eram perseguidas, presas, torturadas e mortas por dá cá aquela palha, assim como as suas famílias e os seus amigos.

Em relação aos iraquianos comuns, porém, as coisas são mais complicadas. Começaram por passar meses terríveis, sem abastecimento regular de água e electricidade nem escolas e hospitais em consequência da destruição sistemática das infra-estruturas do país. Além disso, a economia ficou completamente desorganizada e o desemprego cresceu em flecha, sem esquecer que os tesouros artísticos nacionais foram livremente pilhados durante algum tempo. Embora não disponha de informações precisas estou, no entanto, disposto a acreditar que tudo isso foi passageiro, e que a vida económica voltará em breve à normalidade.

Todavia, todos sabemos que o caos se instalou no quotidiano, e que a mortandade provocada pelo fogo cruzado dos aliados, primeiro, e dos terroristas, depois, atingiu já milhares de iraquianos, incluindo crianças, e continua a fazer vítimas inocentes todos os dias. Todos os iraquianos que cometem o crime de se alistarem no exército ou na polícia ou de trabalharem para empresas estrangeiras sem outra motivação que não seja a de ganhar a vida são, pelos vistos, considerados alvos legítimos pelos fanáticos que, desde a invasão, se instalaram no Iraque de armas e bagagens e que continuam a ganhar influência. É flagrante que está em curso uma espécie de guerra civil sem fim à vista, e que as suas principais vítimas são civis inocentes.

E a sociedade, tornou-se ela ao menos mais livre e democrática? Um amigo com família no Iraque conta-me que, fora de Bagdade, os costumes sociais regrediram rapidamente por pressão dos extremistas islâmicos, e que as mulheres, principalmente, perderam muitos dos seus direitos. As próximas eleições decorrerão num clima de terror que não permite nenhuma espécie de debate livre nem garantem que quem quiser votar possa fazê-lo. Rumsfeld reconheceu isso mesmo, mas sustentou que a realização de eleições democráticas não implica que toda a gente possa votar, talvez recordando que esse sistema já foi experimentado na Florida há quatro anos e deu muito bons resultados.

Por conseguinte, o menos que se pode dizer é que só alguém muito faccioso pode estar certo de que, para os iraquianos, a queda de Saddam foi uma coisa indiscutivelmente boa.

E o resto do mundo, estará melhor com a queda de Saddam? Aqui, a resposta parece-me mais fácil. A resposta é claramente não, e, dado o adiantado da hora, não me peçam sequer que gaste muito tempo a explicar como a invasão do Iraque potenciou o perigo do terrorismo e tornou o mundo mais perigoso. Só falta mesmo que se desencadeie uma crise económica mundial em larga escala em consequência da continuada subida dos preços do petróleo para que até o Bush concorde comigo.

Que podemos então concluir? Que é melhor deixar os tiranos tranquilos? Não, apenas que não se deve iniciar aventuras militares deste tipo quando não se está razoavelmente seguro de poder substituir uma ditadura por algo melhor. Os americanos, que, recorde-se, muitas vezes no passado impediram a democracia em países que a desejavam, optaram agora por impô-la a quem não se encontra, por variadas razões preparado para assumi-la.

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