14.4.10

Vamos lá meter os pobres na ordem



Após as guerras napoleónicas, o número de desempregados cresceu tanto em Inglaterra que, para diminuir as despesas suportadas pelas paróquias com o sustento dos pobres, estes passaram a ser obrigados a prestar serviço em casas de trabalho (workhouses).

Como, mesmo assim, um número crescente de indigentes recorresse às poor houses para obter meios de subsistência, as condições de vida e de trabalho foram deliberadamente tornadas tão cruéis e humilhantes quanto possível. O sistema só foi definitivamente abolido em 1948 pelo Governo Trabalhista, ao criar um sistema de Segurança Social.

O Dr. Passos Coelho parece ter em mente algo semelhante e igualmente motivado pela preocupação de obrigar os desempregados a assumirem uma atitude de maior responsabilidade quando vem propor que quem recebe prestações sociais seja obrigado a prestar trabalho gratuito ao serviço da comunidade.

Felizmente para ele, Passos Coelho nunca terá estado desempregado. Mas, se conhecer alguém que já se tenha encontrado nessas circunstâncias, poderá conhecer de viva voz as humilhações a que as pessoas presentemente são submetidas para conseguirem receber o competente subsídio.

A fraude combate-se com fiscalização, não com humilhação e trabalho escravo.

Se os sociais-democratas que acompanham o Dr. Passos Coelho apreciam as instituições britânicas, eu pedir-lhes-ia que procurem imitar as de hoje, não as do início do século XIX.
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5 comentários:

Anónimo disse...

Além do mais quem recebe subsídio de desemprego é porque (obrigatoriamente) fez os seus descontos para a segurança social. Não está portanto a apropriar-se de nada para que não tivesse contribuído também.

MFerrer disse...

Excelente texto e refinadamente histórico!
A boçalidade e a ignorância são irmãs e gémeas...
Cumprimentos!

Anónimo disse...

Passos Coelho fez as suas contas e a nossa classe média apesar de sofrer de uma grande erosão nos últimos anos ainda são muito mais que o número de desempregados neste país. A juntar a isto um discurso altamente populista, demagógico e eleitoralista próprio de quem é político desde os 14 anos e que alcançou recentemente o seu sonho. Possivelmente o seu curso de economia também foi tirado ao domingo e é por isso que não sabe que os desempregados estão a receber parte, repito parte, daquilo que descontaram durante a sua vida activa e que serviu igualmente para apoiar pessoas que nesse momento estavam desempregadas. É por isto que nem todos os desempregados têm direito a subs. de desemprego porque não têm tempo suficiente de descontos.

Todavia, do outro lado da barricada há quem veja em mais de meio milhão de portugueses um eleitorado a quem se faz promessas e propostas irrealistas. Mas não fiquemos por aqui... Os sindicatos actualmente aumentam as suas receitas em quotização sendo neste momento um refúgio para almas desesperadas. Trabalhando bem a sua comunicação, os sindicatos sabem que não podem resolver nada mas sempre vão promovendo as suas manifs e marcando presença, junto com os media, nesta e naquela fábrica que já está perto de encerrar.

No meio de tudo isto estão mais de 600.000 pessoas, que apenas querem trabalhar, e seus familiares.

Bem haja pelo seu post.
Desempregado sem cartão partidário

Manel Z disse...

Se os desempregados querem assim tanto trabalhar, não vejo qual é o problema.

Chamar a isto trabalho escravo é a piada do ano.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Piada, Manuel Z? Desde quando é que trabalhar sem receber não é escravatura? E não me venha dizer que os desempregados/empregados do Dr. Passos Coelho são pagos com o subsídio que recebem: esse, pagaram-no eles próprios com os seus descontos.
A piada do ano é o Dr. Passos Coelho querer obrigar as pessoas a pagar para trabalhar.