8.7.04



Tapiès.

O meteorologista

Escreve hoje n'O Público Eduardo Prado Coelho, o mais eminente e sensível catavento ideológico da nossa praça, sobre Santana Lopes:

«Político brilhante em termos retóricos, com considerável capacidade de trabalho e um evidente gosto de fazer...»

Trabalho? Que trabalho, se o próprio confessa que gosta de trabalhar, mas é «à sua maneira»? «Gosto de fazer»? De fazer o quê?

Aqui há gato.

Feliz desaniversário

Oh diabo! Só quando comecei a ver toda a gente a parabenizar (grande palavra!) toda a gente a propósito do primeiro aniversário do seu blogue dei pela minha gaffe.

Pois não é que não só não dei pelo aniversário do «...Blogo Existo» (foi a 26 de Junho), como também me esqueci do aniversário dos outros? É mesmo meu...

Nestas circunstâncias, não me resta senão seguir o conselho do Chapeleiro Louco e da Lebre Maluca e aproveitar para desejar a todos os amigos e desconhecidos que me têm feito tão boa companhia durante este ano um feliz desaniversário - algo que tem a vantagem de poder ser festejado sempre que um homem quiser.

(OK, admito que é uma solução um bocado oportunista, mas ao menos vem do fundo do coração.)

Cuidado com os rapazes

Concordo. E aproveito para alertar: nas próximas eleições (que parecem cada vez mais prováveis) haverá gente sensata de direita que não votará em Santana; mas haverá também muita gente insensata de esquerda que irá fazê-lo.

Não se esqueçam da significativa parcela do eleitorado francês que se deslocou directamente do PCF para o Front National, uma pirueta muito mais brusca do que aquela que aqui poderá ocorrer.

É conveniente pensar também nisto ao traçar a estratégia para a próxima campanha.

7.7.04



Victor Vasarely

A política e os negócios

Quando eu for grande quero ser como o John Kay, um economista britânico com uma visão larga do mundo e imune às superstições típicas da sua classe profissional.

O artigo que ele hoje publicou no Financial Times analisa a constituição de uma plutocracia na Rússia ao longo da última década, mas muito do que ali se diz é de extrema relevância para Portugal.

Defendamos o lince ibérico e o futebol só para homens

Eu já tinha alertado contra esta ameaça aos nossos valores mais queridos, mas na altura fiquei isolado.

Agora, finalmente,alguém tem a coragem de denunciar o efeito devastador da aficción feminina sobre o nosso futebol.

A má educação

À entrada da reunião com o Presidente da República, o PP distribuíu aos jornalistas cópias do documento que levava para apresentar - antes mesmo de Jorge Sampaio dele ter tido conhecimento.

Eis mais uma esclarecedora amostra do estilo destes garotos que nos querem governar.

6.7.04

Teste a sua cultura

Quem foi que disse: «Devemos poupar o povo a eleições»?

a) António de Oliveira Salazar

b) Santana Lopes

c) Luis Filipe Vieira

d) Zandinga

5.7.04

Ando com pesadelos


Última hora: Santana Lopes recolhe-se a um convento

Santana Lopes acaba de anunciar que pediu uma audiência urgente ao Presidente da República a fim de lhe comunicar a sua decisão irreversível de se recolher a um convento.

«Estou muito chocado com os ataques pessoais de que tenho sido alvo nos últimos dias, quando nada mais faço senão procurar servir bem o meu país», disse o ainda autarca de Lisboa hoje à noite aos jornalistas que o aguardavam à saída da sede do PPD/ PSD.

«Assim não vale a pena», acrescentou, «sinto que não posso continuar a pactuar com esta contínua degradação da vida política portuguesa. Sou um político sério e exijo ser tratado com respeito.»

Instado a esclarecer em que ordem irá ingressar e quando isso acontecerá, Santana Lopes adiantou que os seus assessores de imagem já receberam instruções para entabular negociações com as diversas ordens existentes em Portugal - «Não me passa pela cabeça abandonar o meu país nesta hora difícil», esclareceu ele - e confessou ainda que iniciará a sua nova carreira depois do Verão, após umas merecidas férias que tenciona gozar numa ilha das Caraíbas com a sua nova namorada.

Frase do dia

Quem foi que disse hoje numa entrevista à RTP: «Não gosto de me pôr em bicos de pés»?

Não há prémios para quem acertar.

4.7.04



Arte Huichol.

Recapitulando

Caí das nuvens ao descobrir até que ponto os apaniguados de Santana controlam já a máquina do PSD.

A votação no Conselho Nacional (97-3 parece um resultado de básquete em que a equipa derrotada é toda da altura do Marques Mendes) é sintomática. Mas é de crer, pelos sinais que chegam das distritais, do grupo parlamentar e dos TSD, que o resto se encontra no mesmo estado de putrefacção, como se tivesse passado por ali a formiga branca.

Moral da história: num negócio sem precedentes na vida partidária portuguesa, Durão Barroso ofereceu de bandeja a Santana Lopes o controlo do partido a troco do compromisso de não hostilizar o governo.

O que é que isto nos sugere sobre o carácter do personagem?

Tenho que dizer isto

Se em Portugal houvesse uma dúzia de políticos com a independência de espírito e a firmeza de convicções do Pacheco Pereira, viveríamos num país muito melhor.

Novo milagre de Fátima

Tendo em conta a histeria nacionalista dos últimos dias, a derrota face à Grécia deve ser considerada, de um ponto de vista exclusivamente político, o melhor resultado possível.

3.7.04



Juan Gris: Natureza morta, 1917.

2.7.04

Qual é a dúvida?

Começa-me a parecer que o factor mais preocupante de toda esta crise é a intrigante atitude do Presidente da República.

As coisas parecem-me a mim relativamente simples ( mas deve ser por isso que não sou eu o Presidente da República).

Segundo me parece, Durão Barroso, numa louvável atitude de inconformismo, arranjou um emprego melhor. Vai daí, para não deixar o Presidente desamparado, foi ter com ele e propôs-lhe como alternativa um rapaz amigo dos tempos da faculdade.

Acontece que Sampaio tem boa memória, e, por isso, reagiu de imediato: «Quem, aquele tipo que o senhor há pouco tempo classificou como um misto de Gabriel Alves e Zandinga? Não pode estar a falar a sério!»

Apostado em assegurar a salvação da pátria, José Barroso (o artista previamente conhecido como Durão) insistiu. Que o Presidente não estava bem informado, que o rapaz se tinha regenerado, que estava uma pessoa irreconhecível, que já não conseguia trair os amigos chegados mais do que uma vez por dia.

Perante tanto entusiasmo, o Presidente respondeu-lhe que ia pensar e José foi dali preparar o discurso de tomada de posse em Bruxelas.

Quando Sampaio, minutos depois, ligou o rádio, ficou a saber que estava tudo combinado entre ele e José, que Lopes seria o novo primeiro-ministro, e que já estava a tratar com o amigo Paulo de escolher os ministros, este entra, aquele sai. Sampaio comentou para a esposa que aquilo não estava bem, que aquilo não se fazia, que afinal aqueles dois continuavam a ser o mesmo par de trampolineiros de sempre.

O passo seguinte foi dizer isso mesmo cá para fora, embora num tom mais polido, porque, ao contrário dos tais, os dirigentes socialistas são usualmente pessoas educadas.

Todos ficámos a pensar que o Presidente entendera a armadilha que lhe estavam a montar e que se decidira a agir em consequência. Mas, afinal, não: em vez de tomar uma resolução, Sampaio decidiu dedicar-se ao seu desporto favorito, chamado «encanar a perna à rã».

As más-línguas pretendem que o Presidente, a quem normalmente ninguém liga, encontrou aqui uma forma de os jornais lhe prestarem atenção por uns dias, mas quem o conhece sabe que ele não é pessoa para isso.

Pergunta-se, então, por que raio suporta ele por mais tempo os comentários impertinentes dos jornalistas empregados do governo e a grosseria crescente dos dirigentes do PPD entretanto reconstruído?

Ao contrário do que se insinua ou diz abertamente, o Presidente tem uma legitimidade própria, ainda por cima adquirida através de uma eleição directa, a única em que os portugueses indiscutivelmente escolhem uma pessoa para um cargo.

A Constituição não obriga o Presidente a nomear ninguém contra sua vontade, muito menos alguém que o próprio proponente publicamente rotulou de Zandinga. Fazê-lo seria, tendo em conta todas estas circunstâncias, pior que uma humilhação, um total contra-senso.

O Presidente é politicamente responsável pelo Governo que empossa, porque é ele que nomeia o seu chefe. Isto quer dizer que se, com a sua passividade, abrir portas à instauração em Portugal de um regime inspirado à Berlusconi, será ele quem de facto deveremos culpar.

Algumas pessoas, too clever for their own good, alvitram que talvez o melhor seja deixar Santana ir para o governo, para que todos possam finalmente ver como ele é. Pobres tolos! Imaginam porventura, que, uma vez que ele lá se apanhe, será fácil apeá-lo.

Santana é um perito na manipulação dos media, e Portas introduziu a política suja em Portugal no tempo do Independente.

Nos últimos dois anos passaram-se em Portugal coisas estranhíssimas, que ainda não se encontram totalmente esclarecidas. O chefe da oposição esteve sob escuta telefónica, e o Presidente da República também, o que mostra como as instituições são frágeis neste país. Sampaio deveria ter aprendido qualquer coisa com isto.

Outra coisa curiosa é que, ao que parece, praticamente todas as pessoas que o Presidente tem ouvido se têm pronunciado no mesmo sentido, a saber, que as eleições antecipadas são a melhor solução para a crise. Além disso, a esmagadora maioria dos comentadores moderados, incluindo os que têm apoiado criticamente o governo, dizem a mesma coisa.

Que espera, então Sampaio? Que receios tem ele? Que riscos o preocupam?

Que riscos pessoais corre, ele que se encontra no segundo mandato e não pode ser re-eleito? Estará preocupado com a imagem que deixará para a história?

E que imagem quer ele deixar para a história? A de um homem que, para sublinhar bem a sua isenção e sentido de Estado, abriu o caminho ao populismo e à subversão generalizada dos princípios da sã convivência democrática dura e penosamente introduzidos ao longo dos últimos trinta anos?

O felicitómetro impossível

Por estes dias, com esta irresistível, absurda e intrigante onda de emoções desencadeada pelo Euro, os portugueses vivem literalmente com os pés no ar.

Filósofos e moralistas discutem com afã se essa felicidade é recomendável, mas, a menos que sejam cegos, não podem negar que ela existe.

Se o PIB medisse rigorosamente a felicidade dos povos, o nosso produto per capita ultrapassaria este ano largamente o dos países mais avançados da União Europeia.

Os economistas não compreendem estas coisas, porque se obstinam em tomar a nuvem por Juno.

O olímpico

Desta vez concordo com a Joana.Não fica bem a Jorge Sampaio dizer que «não há pressa» de pôr um ponto final na crise política. O que ele pode e deve dizer é que uma decisão destas deve ser devidamente ponderada, e que isso é o mais importante - não que a urgência é em absoluto irrelevante.

A rapidez é ela própria um factor de eficácia da decisão, visto que a incerteza tem custos de diversos tipos - económicos, sem dúvida, mas também políticos. Protelar a crise sem justificação plausível, como está a acontecer, é uma atitude incompreensível e preocupante.

Por outro lado, a afirmação do Presidente revela insensibilidade em relação aos problemas comezinhos dos seus pobres súbditos. Hoje em dia todos estamos condenados a ter pressa, quanto mais não seja para preservamos os nossos arduamente conquistados postos de trabalho. Um Presidente socialista deveria entender e respeitar isto.

Ao afirmar que, por decreto auto-imposto, ele (e só ele) disfruta do privilégio de não ter pressa, Sampaio pretende talvez pôr-se num pedestal reservado aos deuses do Olimpo e sublinhar a sua própria importância. Na realidade, apenas contribui, da pior maneira e nas piores circunstâncias, para aprofundar mais um pouco o fosso entre eleitos e eleitores.

Bem prega Frei Tomás...