Este ano irei de férias mais tranquilo, porque sei que Sampaio fica por cá a vigiar o Governo.
17.7.04
O populismo explicado ao povo
Vejo por aí muita gente entretida a discutir definições de populismo para cabal esclarecimento das massas ignaras.
Cá para mim, mais do que uma doutrina, o populismo é um sintoma de uma doença.
Em vez de esgrimirmos definições, estejamos atentos ao que se está a passar.
Cá para mim, mais do que uma doutrina, o populismo é um sintoma de uma doença.
Em vez de esgrimirmos definições, estejamos atentos ao que se está a passar.
16.7.04
Prova dos nove
Discutem quantos ministros tem cada partido. Esquecem-se de contar quantos ministros tem cada grupo económico.
(Uma coisa é certa: o Belmiro fica sempre de fora.)
(Uma coisa é certa: o Belmiro fica sempre de fora.)
15.7.04
Para mudar de assunto
Klee: Sindbad o Marinheiro.
Este é o primeiro quadro de Klee que me lembro de ter visto. À primeira, parece uma ilustração para um livro infantil ou uma imagem de desenho animado, e provavelmente é mesmo isso.
A cena tem um ar cómico, embora duas grandes gotas de sangue jorrem do monstro que a comprida lança de Sindbad perfura e o marinheiro enfrente claramente um grande perigo. O mar é, em torno do herói, inocentemente azul claro e amarelo, porém a escuridão que o cerca ameaça avançar dos limites da tela para o centro e engolir tudo.
Tanto a figura humana como os monstros marinhos foram depurados até ao limite. Há aqui a alegria incontida da aventura, mas tudo está impregnado da metódica seriedade de que só uma criança é capaz.
O quadro é atravessado em todas as direcções por ritmos de linhas e cores. O fundo é composto por uma trama de quadriláteros ligeiramente inclinados cujo colorido se vai progressivamente transformando, iluminando certas áreas e obscurecendo outras, num claro-escuro cuja riqueza só tem par nas telas dos grandes mestres venezianos. Essa trama é preocupantemente desequilibrada pela sugestão de uma onda que avança sobre a embarcação de Sindbad.
Os personagens são inteiramente abstractos na sua concepção, mero pretexto para a descoberta do que está por detrás deles. Sindbad combate sem esforço físico. É a imagem da tranquilidade: tem um trabalho a fazer e limita-se a fazê-lo bem feito. Os monstros não parecem excessivamente compenetrados do seu papel. São actores sofríveis que aguardam calmamente o momento de serem mortos. Apesar de monstros, são de facto lindíssimos. Estariam bem em exposição num aquário.
Há décadas que olho para esta paráfrase da infância e o meu fascínio por ela ainda não terminou.
A banalidade do mal
Para fazer o mal não é preciso fazer nada de especial.
Basta deixarmo-nos ir na onda.
Basta deixarmo-nos ir na onda.
Pézinhos de lã
Admiram-se alguns: afinal, o governo de Santana Lopes não é muito diferente dos anteriores!
É que o santanismo impôs-se paulatinamente ao longo dos últimos anos na nossa vida política, de modo que pode surgir agora como uma mera evolução na continuidade.
Foi um processo gradual de apodrecimento e cedências que culminou na «decisão» de Jorge Sampaio.
É que o santanismo impôs-se paulatinamente ao longo dos últimos anos na nossa vida política, de modo que pode surgir agora como uma mera evolução na continuidade.
Foi um processo gradual de apodrecimento e cedências que culminou na «decisão» de Jorge Sampaio.
Jogo de sociedade
Anteontem, entre amigos, pusemo-nos a enumerar políticos do PS (incluindo ex-governantes, autarcas e deputados) cujo perfil não se distingue significativamente do de Santana Lopes.
Surpresa: há por aí muito santanista há solta!
Surpresa: há por aí muito santanista há solta!
O governo mundial pelos serviços secretos
George Bush foi enganado pela CIA acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Tony Blair foi enganado pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Durão Barroso foi enganado por George Bush e Tony Blair que foram enganados pela CIA e pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Nós fomos enganados por Durão Barroso que foi enganado por George Bush e Tony Blair que foram enganados pela CIA e pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Conclusão: como nem Bush nem Blair tiram consequências políticas da desta situação, deduz-se que nós somos de facto governados por serviços secretos que, aparentemente, podem construir os factos que mais lhes aprazem com total impunidade. Afinal, o governo mundial já existe.
Dito isto, levantam-se mais duas questões. A primeira, que se tornou particularmente aguda desde o 11 de Setembro, é que não há maneira de sabermos em que devemos acreditar, dado que não dispomos de critérios seguros para distinguirmos em tempo útil a realidade da ficção. A segunda, é que começam a parecer legítimas, neste contexto, todas as possíveis teorias da conspiração.
Tony Blair foi enganado pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Durão Barroso foi enganado por George Bush e Tony Blair que foram enganados pela CIA e pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Nós fomos enganados por Durão Barroso que foi enganado por George Bush e Tony Blair que foram enganados pela CIA e pelo MI5 acerca da suposta existência de armas de destruição massiva no Iraque.
Conclusão: como nem Bush nem Blair tiram consequências políticas da desta situação, deduz-se que nós somos de facto governados por serviços secretos que, aparentemente, podem construir os factos que mais lhes aprazem com total impunidade. Afinal, o governo mundial já existe.
Dito isto, levantam-se mais duas questões. A primeira, que se tornou particularmente aguda desde o 11 de Setembro, é que não há maneira de sabermos em que devemos acreditar, dado que não dispomos de critérios seguros para distinguirmos em tempo útil a realidade da ficção. A segunda, é que começam a parecer legítimas, neste contexto, todas as possíveis teorias da conspiração.
Ímpeto reformista
Após alguns meses de intervalo, foi retomada nas nossas florestas a reestruturação fundiária pelo fogo.
14.7.04
Tenho-me lembrado muito desta frase nos últimos dias
«Patriotism is the last refuge of a scoundrel.» (Dr. Samuel Johnson)
«Ninguém me ama...Ninguém me quer...»
Apetece-me dizer que foi bem feito.
13.7.04
Irremediável e imperdoável
A decisão de Sampaio foi histórica, porque, com ela, todos sentimos que alguma coisa se quebrou definitivamente cá dentro.
Ana Gomes e Ferro Rodrigues deram, cada um à sua maneira, expressão directa a esse sentimento, sem todavia o nomearem e analisarem. Fizeram-no de uma forma porventura inconveniente e politicamente irrelevante. Paradoxalmente, porém, a pura e não mediatizada expressão de mágoa teve mais impacto exactamente por isso, ou seja, porque deu voz a milhões de pessoas que puderam identificar-se espontaneamente com ela.
Em si mesmo, esse baque não é do domínio da política, nem sequer do racional. Há certas coisas em que a gente acredita porque quer acreditar, mesmo quando toda a evidência parece contrariá-las. Até ao momento em que, confrontada com a nua crueldade dos factos, a fé se perde de uma vez por todas.
Muitos sentimos na sexta feira o mesmo que no dia em que nos disseram que não há Pai Natal. Os comentadores que tenho lido não se aperceberam disto.
Ana Gomes e Ferro Rodrigues deram, cada um à sua maneira, expressão directa a esse sentimento, sem todavia o nomearem e analisarem. Fizeram-no de uma forma porventura inconveniente e politicamente irrelevante. Paradoxalmente, porém, a pura e não mediatizada expressão de mágoa teve mais impacto exactamente por isso, ou seja, porque deu voz a milhões de pessoas que puderam identificar-se espontaneamente com ela.
Em si mesmo, esse baque não é do domínio da política, nem sequer do racional. Há certas coisas em que a gente acredita porque quer acreditar, mesmo quando toda a evidência parece contrariá-las. Até ao momento em que, confrontada com a nua crueldade dos factos, a fé se perde de uma vez por todas.
Muitos sentimos na sexta feira o mesmo que no dia em que nos disseram que não há Pai Natal. Os comentadores que tenho lido não se aperceberam disto.
12.7.04
10.7.04
«A Itália é um país de merda»
1. Só uma grande dose de wishful thinking poderia levar alguém a crer que a decisão de Jorge Sampaio pudesse ser diferente daquela que tomou. Vicente Jorge Silva (no Diário Económico) e Vasco Pulido Valente (no DN), porque o conhecem bem, anteciparam com total rigor o que se passava na sua cabeça.
2. Não sobram dúvidas de que Sampaio deu a Barroso garantias de nomeação de um novo governo da coligação logo na primeira reunião entre ambos. Como sempre suspeitei, Barroso falou verdade. Foi apenas a pública desfaçatez com que Santana começou a formar imediatamente governo que provocou os brios de Sampaio e acabou por retardar o processo.
3. Sampaio não demorou duas semanas a tomar uma decisão, porque ela estava tomada desde o primeiro momento. Demorou quinze dias a preparar uma justificação que, perante si mesmo, lhe permitisse desfazer a trapalhada que ele próprio criara.
4. O discurso de hoje de Sampaio foi um chorrilho de tolices que culminou na promessa de vigilância em relação à continuidade das políticas que o país inteiro já rejeitou. Se Sampaio ainda acredita seriamente que dispõe de algum poder depois do que hoje fez, o seu caso ainda é mais grave do que parece.
5. Quando teve o poder nas mãos, não o usou. Agora que o perdeu definitivamente, ameaça usá-lo.
6. Sampaio é, a partir de hoje, um homem que o PSD e o PP desprezam, porque fizeram dele gato sapato, e que a oposição detesta, porque a traiu. É um homem isolado, que praticamente não pode sair do Palácio de Belém sem correr o risco de ser hostilizado. O que lhe resta é transformar as presidências abertas em presidências fechadas e limitar-se a convidar alguns líderes empresariais para tomar chá - se, é claro, eles acharem que ainda vale a pena ir a Belém perder tempo com ele.
7. Está aberta uma gravíssima crise política na sociedade portuguesa, de consequências imprevisíveis. A conflitualidade vai agravar-se, e o radicalismo infrene tenderá a ocupar o centro da cena política. A confiança nas instituições políticas atingiu o ponto mais baixo de sempre. De nada vale votar nas eleições europeias, de nada vale votar nas eleições presidenciais, e não nos deixam votar para o parlamento quando manifestamente uma esmagadora maioria quer fazê-lo.
8. Não sei o que será da 2ª República, mas sei que, na actual forma, não poderá sobreviver.
9. Tem razão Ana Gomes quando diz que, finalmente, a coligação atingiu o objectivo que prosseguia sem êxito há mais de vinte anos: uma maioria, um governo, um presidente.
10. Vamos ter um governo de gajos e fadistas.
11. Não podemos confiar nos candidatos a PR que o PS nos propõe. Esta conclusão incontornável condiciona tudo o que vai passar-se em 2005. Em particular, abre de par em par as portas a um candidato da direita.
12. Ao demitir-se, Ferro confirmou que é um homem de bem. Mas essa decisão é politicamente errada e vem complicar ainda mais as coisas no campo da oposição. Não se deve responder a duas demissões - a de Barroso e a de Sampaio - com uma terceira.
13. Nanni Moretti tinha toda a razão quando dizia que «a Itália é um país de merda».
2. Não sobram dúvidas de que Sampaio deu a Barroso garantias de nomeação de um novo governo da coligação logo na primeira reunião entre ambos. Como sempre suspeitei, Barroso falou verdade. Foi apenas a pública desfaçatez com que Santana começou a formar imediatamente governo que provocou os brios de Sampaio e acabou por retardar o processo.
3. Sampaio não demorou duas semanas a tomar uma decisão, porque ela estava tomada desde o primeiro momento. Demorou quinze dias a preparar uma justificação que, perante si mesmo, lhe permitisse desfazer a trapalhada que ele próprio criara.
4. O discurso de hoje de Sampaio foi um chorrilho de tolices que culminou na promessa de vigilância em relação à continuidade das políticas que o país inteiro já rejeitou. Se Sampaio ainda acredita seriamente que dispõe de algum poder depois do que hoje fez, o seu caso ainda é mais grave do que parece.
5. Quando teve o poder nas mãos, não o usou. Agora que o perdeu definitivamente, ameaça usá-lo.
6. Sampaio é, a partir de hoje, um homem que o PSD e o PP desprezam, porque fizeram dele gato sapato, e que a oposição detesta, porque a traiu. É um homem isolado, que praticamente não pode sair do Palácio de Belém sem correr o risco de ser hostilizado. O que lhe resta é transformar as presidências abertas em presidências fechadas e limitar-se a convidar alguns líderes empresariais para tomar chá - se, é claro, eles acharem que ainda vale a pena ir a Belém perder tempo com ele.
7. Está aberta uma gravíssima crise política na sociedade portuguesa, de consequências imprevisíveis. A conflitualidade vai agravar-se, e o radicalismo infrene tenderá a ocupar o centro da cena política. A confiança nas instituições políticas atingiu o ponto mais baixo de sempre. De nada vale votar nas eleições europeias, de nada vale votar nas eleições presidenciais, e não nos deixam votar para o parlamento quando manifestamente uma esmagadora maioria quer fazê-lo.
8. Não sei o que será da 2ª República, mas sei que, na actual forma, não poderá sobreviver.
9. Tem razão Ana Gomes quando diz que, finalmente, a coligação atingiu o objectivo que prosseguia sem êxito há mais de vinte anos: uma maioria, um governo, um presidente.
10. Vamos ter um governo de gajos e fadistas.
11. Não podemos confiar nos candidatos a PR que o PS nos propõe. Esta conclusão incontornável condiciona tudo o que vai passar-se em 2005. Em particular, abre de par em par as portas a um candidato da direita.
12. Ao demitir-se, Ferro confirmou que é um homem de bem. Mas essa decisão é politicamente errada e vem complicar ainda mais as coisas no campo da oposição. Não se deve responder a duas demissões - a de Barroso e a de Sampaio - com uma terceira.
13. Nanni Moretti tinha toda a razão quando dizia que «a Itália é um país de merda».
9.7.04
Já me ia esquecendo...
No domindo passado, faltavam três quartos de hora para o início da final do Euro, o pivot da SIC Notícias, cujo nome desconheço, proclamou que há muito tempo o país não se encontrava assim unido «em torno de um ideal».
Ideal? Qual ideal? Saberá ele o significado da palavra ideal? Não há na SIC Notícias um dicionário da língua portuguesa? Não há na Redacção, em alternativa, alguém responsável que lhe puxe as orelhas? E porque é que eu me ralo com isto? Estarei a ficar velho e rabujento?
Ideal? Qual ideal? Saberá ele o significado da palavra ideal? Não há na SIC Notícias um dicionário da língua portuguesa? Não há na Redacção, em alternativa, alguém responsável que lhe puxe as orelhas? E porque é que eu me ralo com isto? Estarei a ficar velho e rabujento?
Língua ameaçada
«A Vontade de Poder» de Nietzsche foi recentemente traduzido e editado em português, em três volumes. Cada um custa 14 euros, de modo que o conjunto fica por 42 euros.
Na mesma estante encontrei uma edição espanhola, num só volume, por 7,85 euros.
É isso mesmo, leram bem: a edição portuguesa é 5,35 vezes mais cara do que a espanhola.
Evidentemente, ler em português é muito mais cómodo e agradável para a esmagadora maioria de nós. Mas, com uma diferença de preços desta ordem (tenham em conta que não se trata de um caso isolado), faz sentido perguntar até quando prevalecerá a fidelidade à língua?
Adivinham que edição eu comprei?
Na mesma estante encontrei uma edição espanhola, num só volume, por 7,85 euros.
É isso mesmo, leram bem: a edição portuguesa é 5,35 vezes mais cara do que a espanhola.
Evidentemente, ler em português é muito mais cómodo e agradável para a esmagadora maioria de nós. Mas, com uma diferença de preços desta ordem (tenham em conta que não se trata de um caso isolado), faz sentido perguntar até quando prevalecerá a fidelidade à língua?
Adivinham que edição eu comprei?
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