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2.4.09

Queridos líderes

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Obama tem-se esforçado por fazer aprovar na reunião do G-20 do próximo fim de semana um compromisso comum para uma acção conjunta e decidida de combate à recessão à escala mundial.

Parece provável que consiga o apoio da China e do Japão, mas não dos nossos queridos líderes europeus, os quais permanecem aferrados ao princípio míope do "cada um por si".

O Banco Central Europeu já não tem cara para insistir no risco da inflação (na Espanha os preços estão mesmo a baixar), mas continua-se a desvalorizar a dimensão real da catástrofe económica que sob os nossos olhos diariamente se aprofunda.

O mestre ceromónias que nominalmente dirige a Comissão não faz ondas para assegurar a reeleição. A pacóvia primeira-ministra germânica parece acreditar que os estabilizadores automáticos são suficientes para contrariar a crise. Sarkozy aprova tudo desde que possa aplicar internamente as políticas proteccionistas que lhe asseguram popularidade fácil. Gordon Brown está feliz no seu papel de alegado go-between entre os EUA e Europa, mesmo que ninguém lhe preste muita atenção dum e doutro lado do Atlântico.

Temos eleições europeias dentro de três meses. Faria todo o sentido que as absurdas políticas económicas europeias fossem submetidas a uma crítica implacável. Estarão preocupados com isso os manifestantes que vão desfilar em Londres? O continente europeu está politicamente anestesiado?
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29.3.09

Nunca me passaria pela cabeça acusar Miguel Portas de ter as ideias arrumadas

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Eis uma recente declaração de Miguel Portas a propósito das eleições para o Parlamento Europeu transcrita no DN de ontem:
"José Sócrates e Vital Moreira não querem que nas próximas eleições europeias se discuta Portugal, querem que seja conversa de sofá sobre assuntos que não têm nada a ver com as nossas vidas. Eles gostariam, mas não vão ter essa sorte."
Confirma-se, portanto, que, para o Bloco, a política europeia "não tem nada a ver com as nossas vidas".

Nada de novo, note-se. Quem tiver lido a declaração de Miguel Portas na sessão de apresentação da lista do Bloco não poderá ter deixado de notar que ela dedica uns três quartos a tratar de problemas de política interna, misturando ataques a José Sócrates com temas como o fracasso da supervisão bancária em Portugal, a gestão da Caixa Geral de Depósitos ou o aumento dos despedimentos colectivos.

É claro que Portas tem aquilo que julga ser uma boa justificação para isso: "Quando falamos de Europa," diz ele, "falamos de Portugal e vice-versa." Eu diria mesmo mais: quando falamos da Europa falamos da China, quando falamos de Portugal falamos da fome no mundo e quando falamos do Bloco falamos da teoria do caos.

Tudo está ligado com tudo, um lema que justifica a confusão mental de que o próprio faz alarde, saltando continuamente de assunto em assunto sem abordar nenhum com seriedade.

De modo que Portas, o Miguel, está convicto de ter na algibeira soluções simples, rápidas e indolores para os mais intratáveis problemas do país e do Mundo. Não custa nada: basta, segundo a tal declaração, encerrar o off-shore da Madeira, registar os movimentos de capitais para o exterior (o que é que isto quer dizer?), abandonar o controlo orçamental, aplicar uma taxa às deslocalizações industriais dentro da Europa (porque não também dentro de Portugal?) e europeizar os custos do trabalho (?).

Naturalmente, Portas acredita que a Europa não precisa do Tratado de Lisboa. Do que ela precisa é de "coragem e de união" e também de "atrevimento" porque, na sua visão profunda, "nenhum tratado substitui a vontade politica". Decidirá ele um dia exigir a abolição da Constituição portuguesa a pretexto de que ela não pode "substituir a vontade política"?

De "atrevimento", pelo menos, já nós sabemos que o Bloco está bem servido.
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12.3.09

A democracia e a Europa

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Diz o Rui Tavares na sua declaração de candidatura ao Parlamento Europeu na lista do Bloco de Esquerda:

1. A Europa não é uma democracia

2. A Europa tem um problema de democracia

Discordo de 1, concordo com 2.

Na maneira de ver do Rui, a democracia é algo que ou há ou não há. Na minha, pode haver mais ou menos democracia.

Será isto uma minudência? Não me parece, até porque o desenvolvimento do seu raciocínio leva-me a concluir que discordamos também quanto ao que é preciso fazer para tornar a Europa mais democrática.

O meu ponto de partida é este: a economia mundializou-se nas últimas décadas, ao passo que a política permaneceu doméstica. Como consequência, o poder político é constantemente utltrapassado pelos poderes fácticos. É evidente que isso mina a democracia liberal: de que serve eu votar se o meu voto não vai influenciar as decisões que são tomadas?

Parece-me que o fortalecimento da democracia passa, por conseguinte, pelo reforço das instâncias eleitas do poder europeu. Logo, é necessário dar mais poder ao parlamento e é necessário reforçar a componente federal da União Europeia.

Como se faz isto? O caminho é estreito, porque os adversários são vários e poderosos. Em primeiro lugar, há os tais poderes fácticos (neste momento enfraquecidos) que tiram partido do actual vazio. Em segundo lugar, há os preconceitos nacionais e chauvinistas que se opõem à transferência de poderes para o nível europeu. Finalmente, há a falta de iniciativa política ao nível popular favorável ao federalismo, um facto central que o Rui Tavares ignora por completo.

As posições do BE e do PCP não ajudam nada a resolver estes problemas. Em primeiro lugar, exactamente porque sustentam que a UE não é uma democracia, fazem continuamente propaganda contra a Europa (digam o que disserem, é de facto isto que se passa no dia a dia). Em segundo lugar, opõem-se a todas as iniciativas existentes em favor do federalismo e do reforço dos poderes do PE, como é o caso do Tratado de Lisboa. Em terceiro lugar, exigem referendos em que se aliam às forças xenófobas para boicotar a construção europeia.

Esta actuação negativa é disfarçada afirmando-se que se quer uma Europa, mas não esta. O PCP diz que é a favor da Europa dos trabalhadores contra a Europa dos capitalistas. O BE diz que é a favor do europeismo, conquanto que seja de esquerda.

Na verdade, estas forças políticas desempenham um papel muito nocivo impedindo o desenvolvimento de uma política europeia e de um debate político europeu. Para elas, como agora mais uma vez se vê, a Europa serve apenas de argumento para marcar pontos na luta política interna.

O raciocínio do Rui é sustentado por um basismo insustentável. Diz-nos ele que o Tratado de Lisboa só é aceitável se for referendado e que o mais importante é a maneira como se fazem as coisas. Esta posição é historicamente falsa, é demagógica e é paralisante. Fico com a sensação que, para o Rui, a única democracia legítima é a democracia directa, algo de que discordo profundamente.

Depois, noto com algum desapontamento que, tirando a insistência no referendo ao Tratado de Lisboa - uma exigência que, muito possivelmente, estará hoje obsoleta – o Rui de facto não propõe nada, desculpando-se com o argumento (fraquinho, muito fraquinho) de que deveriamos discutir "o que se fez" e não "o que se vai começar a pensar talvez em fazer". Lamento, mas o que os eleitores esperam dos candidatos é que façam história, não que a contem.

(A única proposta concreta é que fechemos o off-shore da Madeira antes de os outros fecharam os seus, o que é uma medida – absurda, diga-se – de política interna.)

De maneira que o Rui acaba por ficar-se por um apelo final à impaciência, que é tudo o que há de mais inapropriado nos tempos que correm. Se queremos que desta catastrófica depressão saia algo de positivo para a esquerda, do que precisamos é de muita ponderação e sentido estratégico, porque os tempos não correm (para já) a nosso favor.
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19.1.09

Pensar o impensável

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Durante anos, Portugal foi o único país com défices orçamental e externo persistentes na zona Euro.

O clube tem agora quatro novos membros - Espanha, Grécia, Irlanda e Itália - alguns em situação mais grave do que nós. Logo, um terço dos países da zona euro enfrentam desequilíbrios estruturais sem disporem dos tradicionais instrumentos de política cambial ou alfandegária para corrigi-los.

Os recentes anúncios de eventual degradação dos seus ratings pela Standard & Poor's contribuirá quase de certeza para piorar as coisas. Vamos assistir nos próximos dias a uma especulação financeira contra essas cinco economias, com alguns investidores (designadamente naionais) a reagirem à eventual saída delas da zona euro.

Uma hipótese: o agravamento da situação nos países atingidos conduz ao desmantelamento total ou parcial da zona euro.

Outra hipótese: a UE lança um programa de emergência para acudir aos países em dificuldades.

Que tal a UE tomar de imediato a iniciativa? Não acreditam? Nem eu.
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14.1.09

O Ministro da Europa

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Tratar os assuntos europeus como Negócios Estrangeiros é um daqueles absurdos em que a nossa política é fértil.

Na União Europeia tomam-se hoje em dia as decisões mais importantes para o nosso viver colectivo, mas os povos pouco são envolvidos nisso e os governos nacionais não se ralam.

Faz sentido, pois, criar-se um Ministério da Europa e, já agora, dotá-lo de uma estratégia e de um plano de acção.

Pedro Lains teve a ousadia de lançar a ideia no seu artigo de hoje no Jornal de Negócios, e eu fiquei com inveja por não me ter antecipado.
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