14.10.03

PP na TV. Chego a casa, encontro a porta arrombada, tudo virado de pernas para o ar, gavetas arrancadas das cómodas, armários escancarados, roupa espalhada pelo chão. Levaram-me o cofre. Desapareceram as jóias de família.

Grito: «Foi roubado!»

Explicou Pacheco Pereira no domingo passado na SIC que eu não posso fazer isso, a menos que diga claramente quem me roubou e como conseguiu entrar na minha casa.

Em Pacheco Pereira, só o estilo é racional. A argumentação ela própria não vale frequentemente um caracol.

13.10.03

Tapiès é o meu Proust das artes plásticas. Ensina-me a ver.



Proust e Giorgione. Na Recherche, o narrador anda a certa altura obcecado com a perspectiva de conhecer a criada de Madame Putbus, que lhe garantiram ser tal e qual a Vénus de Giorgione. Contemplem aqui em baixo a tela do mestre italiano e compreenderão imediatamente a perturbação do rapaz.


12.10.03

O usurpador. Portugal acerta actualmente os seus relógios pelo Tempo Médio de Greenwich (TMG), correspondente ao fuso 24 (ou 0), mas o Governo está a estudar a possibilidade de voltarmos ao regime que vingou até 1996. A mudança consistiria em adiantarmos os relógios uma hora para nos orientarmos pelo tempo da Europa Central (CET), correspondente ao fuso 1.

Para se perceber a enormidade da medida, é preciso saber-se que o território de Portugal Continental se situa no fuso 23, não no 24: o meridiano de Greenwich passa por Valência, uma cidade localizada no outro extremo da Península Ibérica. Por conseguinte, mesmo no regime actual, a hora em Lisboa já está adiantada em relação à hora solar 40 minutos no Inverno e 1 hora e 40 minutos no Verão, com as inevitáveis consequências nefastas para o organismo humano. Se a hora mudar, Lisboa passará a estar adiantada em relação à hora solar 1 hora e 40 minutos no Inverno e 2 horas e quarenta minutos no Verão!

Argumenta-se que a adopção da hora da Europa Central é favorável à nossa integração europeia, mas é difícil aceitar essa lógica. O Reino Unido, que teria mais razões para adoptar a hora central europeia do que nós não o faz, nem se preocupa sequer com isso. Não é por haver uma diferença de três horas entre Los Angeles e Nova Iorque que a integração económica é menor nos EUA. Finalmente, uma maior aproximação à hora europeia tem como consequência inevitável afastar-nos, por exemplo, dos EUA e do Brasil.

Além disso, que vantagens decorreriam exactamente da uniformização? Será a completa sobreposição dos horários de trabalho uma vantagem importante na era dos telemóveis e dos emails? E não será mais vantajoso ser mais cedo em Portugal para quem tem de tomar um avião de manhã para participar numa reunião de trabalho bem cedo em Londres ou Frankfurt?

Dêem-se as voltas que se derem, é difícil vislumbrar motivações racionais nesta teimosia.

Trata-se apenas, na verdade, de mais uma ridícula manifestação do revanchismo primário que orienta o Governo de Durão Barroso, o qual só se daria por satisfeito se conseguisse varrer do nosso viver colectivo toda e qualquer memória do governo do usurpador António Guterres.

11.10.03

O eterno retorno. Abertura da temporada da Orquestra Gulbenkian, entusiasticamente saudada pelos telemóveis a tocarem na sala.

10.10.03

Durão Barroso pede tréguas. O primeiro-ministro declarou-se hoje contra a politização da justiça. Estará a ser sincero?

A politização da justiça teve início com o afastamento de Maria José Morgado da Polícia Judiciária. Desde então, passaram-se durante um ano em Portugal coisas gravíssimas de que só vemos os sintomas, mas não as causas.

Talvez um dia venhamos a saber exactamente o que aconteceu mas, por enquanto, só podemos especular. Para já, sugiro que cada um se interrogue, como nos romances policiais, quem tem simultaneamente a oportunidade, a motivação e a arma do crime.

Acontece que agora, como não poderia deixar de suceder numa sociedade democrática, a ressaca está a chegar ao PSD e a assustar os seus dirigentes. Deverá o PS fazer-lhes a vontade e fumar o cachimbo da paz?

A oposição deve ter uma postura civilizada, mas não deve ser estúpida.

Cabe a Durão Barroso provar que deseja mesmo pôr termo à política suja que tem marcado os últimos tempos. Para demonstrar a sua boa-fé, não me ocorre melhor coisa do que afastar a Ministra da Justiça.

Até lá, olho por olho, dente por dente.
Ria-se, homem. O Pacheco Pereira, uma pessoa a vários tipos notável, tem dois grandes defeitos. O primeiro, que já quase toda a gente notou, é que é do PSD. O segundo, a meu ver muito mais grave, é que carece de espírito de humor. A reacção de hoje dele ao meu último post (sem todavia o mencionar) é a prova definitiva desse facto. Definitivamente, não percebeu.

8.10.03

Libertação de Paulo Pedroso. Parece o 25 de Abril: cai o Governo, começam a sair os presos políticos.

7.10.03

O Papa-espectáculo. O facto mais notável do consulado do Papa João Paulo II é a sua adesão aos princípios da sociedade do espectáculo.

Muitos católicos, ignoro se a maioria, mostram-se muito satisfeitos com a enorme visibilidade que a sua crença reconquistou por essa via no espaço mediático. Mas eu, que embora não seja crente, valorizo o sentimento religioso, não vejo razões para contentamento, nem creio tampouco que ele exista no Reino dos Céus.

Parece-me a mim (mas é possível que esteja antiquado), que a Igreja se empobrece ao reduzir-se a uma indústria de conteúdos, descendo ao nível de outras instituições que não me atrevo a nomear.

Porque a verdade é que, hoje por hoje, o Vaticano pouco mais faz do que organizar espectáculos vistosos com grande cobertura televisiva. A máquina de propaganda do Papa funciona em grande, e as deslocações do Papa são o pretexto preferido para gerar publicity. A encenação obedece a um esquema altamente previsível e estereotipado: o Papa, uma frágil figura perdida no meio da multidão, mostra-se aos crentes à distância, circulando no seu Papamóvel (uma designação que é um tratado) por entre alas de jovens organizados brandindo estandartes e envergando vestes coloridas. As cores (amarelo e branco) são as do Vaticano, não as de Cristo. O ambíguo slogan Totus tuus é omnipresente. Do Papa só se aproximam os poderosos deste mundo e os altos dignitários da Igreja.

Hoje, toda a gente tem vergonha de montar espectáculos inspirados no Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Excepto o Papa.

Hoje, toda a gente abomina o culto da personalidade. Excepto o Papa.

Ouvi Maria José Nogueira Pinto afirmar na televisão que «os jovens hoje estão todos à volta dele». Trata-se, sem dúvida, de uma ilusão de óptica resultante da inserção numa particular classe social. Como se constata nas reportagens, as Jotas do Papa são exércitos de betinhos que se mobilizam para agitar bandeiras e distribuir sacos de plástico e depois, dentro do mesmo espírito, vão dali para a caravana automóvel do CDS/PP. Tudo forma, nenhum conteúdo.

Aliás, se os jovens estivessem de facto «todos à volta dele», caberia perguntar porque é que tantos encontram mais sentido na droga do que na religião. O problema, precisamente, é que a Igreja, através do seu máximo representante, não tem mais nada para lhes propor senão agitação e propaganda.

Escutei hoje estas palavras da boca do Papa no telejornal da hora do almoço: «O rosário é um compêndio do Evangelho». Não sei, mas aqui há uns tempos atrás, isto seria considerado blasfémia. Como pode o Papa pretender que rezar o rosário substitui com vantagem a leitura da palavra revelada? O que isto significa é que, neste cristianismo segundo Karol Woytila, o ritual é tudo, e o sentimento religioso nada.

E chegamos aqui ao ponto central. Na minha maneira de ver, a Igreja de Roma converteu-se, no fundo, à frivolidade e ao vazio que aparenta criticar. A religiosidade foi substituida pela encenação. O Papa aderiu ao niilismo, ou seja, o vazio é a sua doutrina.

É claro que, apesar disso, há aqui um propósito reaccionário, que é o de restaurar a doutrina pré-Vaticano II. Mas, incapaz, de assumir abertamente o debate das questões que interessam aos cristãos, a estratégia de João Paulo II consistiu principalmente em evitá-lo desviando as atenções e fomentando o culto dos símbolos do poder, manobra que, ao longo dos séculos, já deu sobejas provas de eficácia. As orientações específicas relativas à fé regridem na precisa medida em que as controvérsias são silenciadas e, de preferência, esquecidas.

Tenho que reconhecer que, apesar disso, a Igreja portuguesa é hoje infinitamente mais inteligente, humana, caridosa, numa palavra, cristã, do que no tempo em que frequentei a catequese. Mas isso sucede porque de facto, senão de palavras, ela caminhou ao arrepio das orientações de João Paulo II. E isto leva-nos a outro ponto: na igreja de hoje, uma coisa é o que se diz, outra o que se faz. Ou seja, os costumes dos católicos praticantes evoluiram imenso, e não têm nada a ver com as proclamações escandalizadas do cardeal Rattzinger, pelo que a Igreja é, provavelmente, mais hipócrita hoje do que em qualquer outro período desde a Renascença.

Os católicos deveriam estar muito preocupados, porque todas as contradições que se encontram escondidas vão saltar à luz do dia quando este Papa desaparecer. A Igreja esteve parada nos últimos vinte e cinco anos, porque este Papa, cuja eleição foi um episódio da Guerra Fria, nunca deixou de viver nesse tempo. Com isso, perdeu vinte e cinco anos, uma eternidade nos dias que correm. Quando acordar, é muito provável que fique em frangalhos e que demore muito tempo a recompor-se.

Quem duvidar poderá verificar por si mesmo que, hoje mesmo, a autoridade do Papa já é uma pura ilusão. Longe de aumentar, ela diminuiu. Recordo, por exemplo, que quando o Papa criticou a guerra do Iraque, nenhum político católico ocidental se comoveu. Para todos os efeitos, foi como se ninguém tivesse falado.

Verdade ou mentira?
Ainda hoje, vou colocar um post sobre João Paulo II. Não saia daí.

6.10.03

Mau, Maria! Acabo de ouvir o ex-ministro Pedro Lynce dizer na televisão que acha que não cometeu nenhuma ilegalidade. Mas então quer fazer o favor de explicar-nos porque se demitiu? Porque alguém lho pediu? Para fazer o jeito a alguém? E para quê? Para evitar que os jornalistas continuem a morder nas canelas do governo?

Bem vistas as coisas, esta demissão não serve a pedagogia democrática, mas o seu contrário. Assim, vamos de mal a pior.
O PS e o poder económico. Henrique Neto produz hoje afirmações intrigantes no suplemento de Economia do Público, principalmente no que respeita ao modo como os governos do PS intervieram nas principais empresas do Estado em vias de privatização.

A primeira coisa que podemos concluir é que o PS, e principalmente o ministro Pina Moura, nomearam para os postos de maior responsabilidade pessoas que, como agora se torna claro, se situavam ideologicamente na área do PSD. A segunda é que, não tendo ideias políticas próprias nesta matéria (como aliás noutras), o PS limita-se a vogar ao sabor das pressões provenientes dos principais grupos económicos que ajudou a reconstituir até se atingir um grau de promiscuidade entre o poder político e o poder económico provavelmente superior ao que conhecemos antes de 1974.

O PS, talvez o partido português mais fechado à sociedade, tem uma influência quase nula no meio empresarial, mas julga que pode suprir essa falha nomeando para cargos de influência pessoas da confiança do grande capital. O resultado é que, uma vez concluidos pelo PS os fretes que lhe são encomendados, essas personalidades viram-lhe as costas e, como têm estratégias claras, prosseguem tranquilamente o seu caminho ao serviço do novo poder. Como bem nota Henrique Neto, é por isso que o PS não está hoje à vontade para criticar as opções que o novo governo tem tomado na área da Economia.

O grande problema que se põe não é, portanto, saber quando e como o PS regressará ao poder, mas o que fará com ele.

Demarcação. Apoio a opinião de Sarsfield Cabral no DN de hoje: é preciso demarcar claramente a ideia federalista desta manobra de reforço do directório dos grandes países que alguns procuram fazer passar sob a capa da constituição europeia.

O que há de mais positivo no federalismo é a tentativa de assegurar a fiscalização democrática dos órgãos de um poder continental actualmente exercido à revelia dos povos. Sem esse controlo, parece-me que a União Europeia cada vez se assemelhará menos a uma democracia liberal.

Ora a chamada constituição europeia não me parece dar quaisquer garantias de ser um passo no bom sentido.
Ópera dos malandros. Confesso que não compreendo, nem sei se quero compreender, este folhetim degradante em torno da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Mas lá que tudo isto é rasca até dizer chega, disso não tenho dúvidas. E se, como insinuou o maestro Graça Moura, for verdade que as origens deste ajuste de contas remontam ao episódio dos violinos de Chopin, então o caso é muito grave.
Fundos e ideiais. Nota Jorge Sampaio que a Europa não pode ser incensada quando há fundos comunitários e arrasada quando eles escasseiam.

Não posso concordar mais. Mas, se durante uma década e meia, os debates nos próprios jornais de referência da classe dirigente raramente foram um pouco além dos fundos, e muitas vezes se centraram na mera capacidade de gastar o dinheiro transferido para Portugal, sem sequer se discutir o modo como eram dispendidos, o que é que se espera que os portugueses pensem sobre o assunto?

De pouco valem os ideais, se não tiverem uma tradução prática de eficácia comprovável. Ora, é verdade que a União Europeia teve, em minha opinião muitos benefícios para Portugal que transcendem largamente os fundos comunitários, tanto no campo económico como nos campos cultural, social, político, etc. Mas, como nunca foram destacados e discutidos, é bem provável que uma boa parte da população não esteja suficientemente consciente deles e, por conseguinte, não os valorize.

Os povos, como as pessoas, aprendem com a experiência, não com sermões. É por isso que a construção europeia pode estar metida numa grande embrulhada.

Tony entre os doutores. Não paro de me surpreender como os mesmos comentadores conservadores que há apenas um ano consideravam Tony Blair o paradigma dos políticos vazios, meros produtos de marketing vogando ao sabor das sondagens, encontram agora nele as sólidas (mas miríficas, digo eu) qualidades morais de um político vitoriano, apenas porque decidiu apoiar Bush no lançamento da guerra do Iraque. Em resumo, o oportunista mestre de relações públicas deu lugar, por um passe de mágica, ao homem de convicções inabaláveis.

Quer-me a mim parecer que estas opiniões dizem menos sobre Blair, que provavelmente será mais ou menos quem sempre foi, do que sobre a superficialidade e infiabilidade de quem as produz.

5.10.03

Um destino. Sempre que observo a atitude agressiva de Paulo Portas, cego e surdo ao que se passa à sua volta, imune ao coro de críticas que se levanta cada vez que abre a boca, indiferente à hostilidade que o rodeia, inteiramente concentrado no seu ego, fechado no seu pequeno mundo de auto-proclamado génio, obstinado na sua crença de que tem uma missão transcendente a cumprir, confortado pela pequena clique de apoiantes que o segue sem pestanejar, inflexível até ao delírio no seu caminho sem retorno, sempre que o ouço negar o óbvio com a convicção de quem se nega a admitir o que todos já entendemos, vem-me à memória a sentença que uma vez Sounness pronunciou a propósito de Vale de Azevedo:

«This man is a dangerous man. He lies while looking at you in the eye

Como não ver que, independentemente de tudo o resto, o perfil psicológico é rigorosamente igual? Qualquer outro no seu lugar já teria cedido, mas ele não atira a toalha, segue em frente redobrando a agressividade em relação aos seus adversários. Coragem ou cegueira?

Pessoas assim não reagem aos acontecimentos como nós. O que se diz à volta delas não as toca, porque na verdade não o escutam, certos como estão de que se trata apenas de vozes mal intencionadas sopradas por uma conspiração de gente mal intencionada.

Por isso seguem impassíveis o seu caminho, sem suspeitarem o inevitável destino trágico que as espera.


4.10.03

A rotina das demissões. Mais uma vez, não posso deixar de concordar com Pacheco Pereira. Esta coisa de se pedir a demissão dos ministros por dá cá aquela palha (embora não seja esse, acho eu, o caso de Pedro Lynce) é, talvez, a herança mais negativa que o governo socialista deixou ao país. A título de exemplo dos seus malefícios, chamo a atenção para o facto de que, apesar de só ter havido dois governos nesse lapso de tempo, o país teve cinco ministros das obras publicas em cinco anos, um facto desastroso para uma área onde quase tudo o que se faz demora anos e anos a preparar.

Na origem desta prática excêntrica estiverem dois factores.

O primeiro, puramente pessoal, foi a fraca predisposição de Guterres para aguentar ministros caídos em desgraça. Era assim que a vítima, sentindo a faquinha cravada nas costas, preferia deixar-se cair e fazer-se de morta.

O segundo, mais sério, tem que ver com a confusão que reina entre nós entre culpa e responsabilidade, aliás típica de um país onde não se entende o que esta última quer dizer. O exemplo mais evidente desta incompreensão foi a demissão de Jorge Coelho na sequência da queda da ponde de Entre-Rios.

Porque raio haveria o ministro de se demitir? Evidentemente, ele era responsável, porque nada do que se passava no seu ministério poderia deixar de envolvê-lo. A responsabilidade não é alienável, sequer, pela delegação de competências neste ou naquele indivíduo. A responsabilidade não é delegável. Mas isso não implicaria automaticamente a necessidade de se demitir.

Imaginemos que o ministro tinha sido informado de que a situação da ponte era muito grave, e tinha ignorado o aviso. Ou que tinha dado instruções no sentido de reduzir as despesas de manutenção com as pontes, apesar de estar consciente de que isso poderia ter consequências catastróficas. Nesses casos, obviamente, a responsabilidade coincidiria com a culpa, e só lhe restaria o caminho da demissão.

Poderia também suceder que, na sequência do desastre, o ministro se mostrasse incapaz de retirar todas as consequências do sucedido. Que não abrisse imediatamente um inquérito, que criasse uma comissão incluindo os presumíveis responsáveis ou que procurasse obstaculizar o apuramento da verdade. Que procurasse proteger os responsáveis. Que não tomasse as medidas urgentes destinadas a reparar o que pudesse ser reparado. Se algo deste género sucedesse, à responsabilidade objectiva somar-se-ía uma culpa que só poderia ter como consequência a demissão.

Mas o critério crucial para decidir qual o tipo de responsabilidade que está em causa e que consequências ela deve ter é necessariamente o bem público. É positiva a demissão que fortalece o governo do país e do Estado, é negativa aquela que o prejudica.

Ora o que é que o país ganha quando é afastado um ministro cuja actuação, de facto, em nada contribuíu para os acontecimentos em apreço? Obviamente, nada.

Estou consciente de que esta é uma abordagem demasiado rápida de um problema tão sério. Mas acredito que as questões essenciais são de facto estas.
Ai que fui apanhado! Durão Barroso elogiou o «sentido de Estado» de Pedro Lynce ao demitir-se.

Não sou a favor de se perder demasiado tempo a bater neste ceguinho, até porque, em si mesmo, o episódio é apenas uma instância particular dos nossos mesquinhos hábitos quotidianos de resolver tudo com cunhas. Não estivessem em causas ministros, e ninguém lhe concederia sequer um segundo de atenção.

Mas, sendo a oportunidade de dar um exemplo a partir de cima o único aspecto meritório de tudo isto, é preciso sublinhar que o comentário do primeiro-ministro assume, neste contexto, um aspecto absolutamente contra-producente.

Pois não é verdade que «sentido de Estado» foi exactamente o que Lynce provou não ter ao usar os poderes ministeriais de que foi investido para desenrascar um amigo? Ou será que, no newspeak barrosista, «sentido de Estado» tem um significado diferente do corrente e correcto? Ou será que, no seu entender, o único erro de Lynce foi ter-se deixado apanhar?

3.10.03

Baixando o nível. Percebo perfeitamente o problema do Ivan com o Benfica.

Eu próprio dou por vezes comigo a pensar que, se o Benfica não existisse, Portugal seria um país melhor.

Mas é injusto. Sendo Portugal o que é, se o Benfica não existisse teria que ser inventado.