23.2.09

Onde está o Parlamento Europeu?

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As estatísticas do INE asseguram-nos que o desemprego estagnou no último trimestre de 2008, mas quem escuta as notícias do encerramento de fábricas e vê nas ruas a quantidade de lojas que já fechou não duvida de que a meta do desemprego para o corrente ano (8,5%) estará prestes a ser ultrapassada.

A contínua e acelerada degradação da conjuntura não pára de corrigir para pior as mais negras previsões. Impávidos e serenos, os responsáveis formulam a política económica em função do que observam no espelho retrovisor.

Os líderes mundiais (chamemos-lhes assim, apesar de não liderarem nada) preferem não entender o que está a passar-se, de modo que, quando agem, é sempre demasiado tarde.

Durante quase um ano, assistiram calmamente ao avolumar da bola de neve do crédito tóxico, esperançados num milagre. Depois, declararam-se empenhados em evitar que a crise financeira se propagasse à economia real quando à nossa volta se multiplicavam os sinais de que isso já tinha sucedido.

A política monetária falhou e parece claro que as políticas orçamentais anunciadas serão insuficientes para impedir o pior. Primeiro, caíram bancos. Depois, empresas industriais. Com a falência da Islândia, é da queda de países inteiros que agora se trata.

Sabe-se que a Europa do Leste ameaça desmoronar-se sob o peso da dívida contraída em euros e francos suíços. Promete-se um aumento da capacidade de intervenção do FMI (para quando?) e exclui-se, para já, uma intervenção decidida da UE.

Na zona euro, à difícil situação de países como Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda e Itália, soma-se agora o pânico da Áustria, cujos empréstimos à Europa do Leste montam a 80% do seu produto.

Na ausência das muito prometidas políticas coordenadas, cada país tenta safar-se por si. Toda a gente condena o proteccionismo ao mesmo tempo que lança programas de emergência destinados a prevenir a quebra das exportações expandindo a procura dirigida a bens produzidos internamente.

Os bancos funcionam como mortos-vivos, incapazes de cumprir a função social para que foram criados: remunerar as poupanças e emprestar a quem necessita de crédito.

Os governos seguem agora o mesmo modelo. Aparentemente continuam em funções. Comportam-se como se estivessem vivos e persistem nos mesmos rituais de sempre. Na verdade, todos os dias revelam não se encontrarem à altura das circunstâncias. Ninguém nos governa, encontramo-nos no meio de uma tempestade sem ninguém ao leme.

A União Europeia é globalmente governada por gente que não presta nem pessoal, nem política, nem tecnicamente; gente desconhecedora das suas responsabilidades, destituída de ideias e de generosidade; gente que pura e simplesmente não sabe o que anda a fazer.

Que faz o Parlamento Europeu, agora que tanto precisamos dele? Faltam menos de quatro meses para as eleições europeias. Depois não se queixem de que a abstenção foi elevadíssima...
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5 comentários:

Anónimo disse...

JPC,

Gostava de achar que não tem razão. Gostava mesmo. Mas, o "retrovisor" dá-lhe razão. Na realidade, está tudo entretido à espera que o ano passe. Cá em casa, está tudo a ler o "A grande depressão".

FCastro

Anónimo disse...

É verdade.
Não existe um verdadeiro projecto politico de conjunto.
São só uns tipos que vão para Bruxelas tomar chá, como alternativa a estar a tomar bicas em São Bento.

douro disse...

Em minha casa também jà nos pusémos a ler coisas: uma delas é este blogue e a outra é o horàrio da Carris.

Anónimo disse...

Porém, o que eu estou a gostar da crise é que, aparentemente graças a ela, a Carris começou a funcionar. Nota-se bastante que Lisboa deixou de ficar entupida pelos carros vindos dos subúrbios.

Pontos de vista, suponho.

Teresa.

NSP disse...

Caro João Pinto e Castro,

Permita-me cumprimentá-lo pelo seu notável comentário.
Não posso deixar de estar 100% de acordo com as suas palavras.

Sou participante regular na blogosfera, e tenho procurado alertar para a gravíssima depressão que nos espera ao dobrar da esquina.
O sistema financeiro auto-destroi-se todos os dias, mergulhado nas desigualdades insustentàveis que induziu nos modelos societários ocidentais contemporâneos.
E não me canso de apelar á necessidade urgente de repensar de raiz todo o sistema organizacional e civilizacional actual. Construindo uma "nova ordem" alicerçada nos inesgotáveis recursos tecnológicos, hoje ampamente democratizados. Reduzundo o Estado ás funçôes minimas, e refundando por completo o modelo redistributivo.

Cumps,
NSP