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17.4.09

Acertar contas com o passado

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A apologética bem-pensante imagina que as coisas vão passar-se mais ou menos assim: dentro de meses - vá lá, um ano - a crise estará ultrapassada e as gentes render-se-ão de novo às delícias dos mercados livres, das sociedades anónimas, do crédito fácil e da especulação bolsista.

Enganam-se. Não fundamentalmente porque a recuperação poderá tardar, mas, principalmente, porque o descontentamento que podemos observar não resulta apenas da crise económica e das suas desastrosas consequências sobre as nossas vidas.

A crise funcionou apenas como um catalizador, potenciando o mal-estar acumulado que já vinha de trás. Há muito tempo muita gente sentia que o nosso modo de vida não faz grande sentido.

Agora, que a desconfiança se tornou em certeza, cresce a convicção de que chegou a hora das grandes mudanças.
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3.4.09

Súmula provisória do G20

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Do lado positivo:
1. Compromisso de princípio de acção conjugada ao nível internacional.

2. Papel acrescido das instituições financeiras internacionais: Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.

3. Acréscimo substancial da capacidade de intervenção do Fundo Monetário Internacional: duplicação imediata dos seus recursos financeiros; triplicação se se verificar necessário.

4. Revitalização dos Direitos Especiais de Saque do FMI para enfrentar situações de emergência.

5. Intervenção do Banco Mundial no financamento do comércio internacional.

6. Entendimento geral da China e do Japão com os EUA.
Do lado negativo:
1. Nenhum compromisso real de reforço ou coordenação dos estímulos fiscais já anunciados.

2. Nenhum aumento efectivo das verbas mobilizadas para além daquelas previamente anunciadas para combater a crise pelos diversos estados nacionais.

3. Escassa credibilidade das declarações anti-proteccionistas.

4. Papel desempenhado pela Europa em geral e pela Alemanha em particular.
Balanço final: moderadamente positivo.
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2.4.09

"Não há pensamento estratégico"

Extractos de uma infelizmente premonitória entrevista de Michael Fox, professor da London School of Economics, no Jornal de Negócios de hoje:
"Infelizmente, a minha expectativa é que esta cimeira do G20 confirme a incapacidade de a actual geração de líderes compreender o que está a acontecer e, como tal, que confirme também a incapacidade dos Governos de actuar da forma radical que a situação efectivamente exige. E temo que, mais uma vez, os países mais pobres e frágeis acabem por ser quem vai suportar o essencial do tremendo custo, económico e social, que esta crise vai provocar, e que ninguém parece querer encarar."

"Por que está cada vez mais claro que não vão sair deste encontro as decisões concretas e radicais de que o mundo precisa. Não vamos ter o investimento massivo que é necessário para ultrapassar esta crise, porque, simplesmente, não há pensamento estratégico. Ninguém parece conseguir descolar-se da “velha escola”. "

"O que está a prevalecer é o velho pensamento e a preocupação com os problemas teóricos e não com os reais. Falta visão estratégica. No Congo, por exemplo, há hoje mais 300 mil desempregados da indústria do cobre, e ninguém parece preocupar-se com a miséria em larguíssima escala que esta crise está a gerar."

"Vamos ter milhões e milhões de desempregados, com consequências gravíssimas em termos de estabilidade social e mesmo institucional. E, não obstante, o que prevalece é a preocupação com a evolução do défice ou da inflação, quando, paradoxalmente, o que temos é risco de deflação na Europa e uma deflação reinstalada no Japão. É muito decepcionante, mas é isso que está a acontecer: o G20 vai concentrar-se em problemas teóricos e esquecer os reais."

O que está em jogo na reunião do G20

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Um dos factores que ameaçam fazer durar a actual crise é a persistência de colossais desequilíbrios financeiros à escala mundial, por sua vez alicerçados na dicotomia entre, por um lado, países com crónicos supéravites comerciais (China, Alemanha e China) e, por outro lado, países com crónicos défices comerciais (EUA, Reino Unido, Espanha, Portugal e Leste Europeu, entre outros).

Uma corrente moralista acha criticáveis os défices, mas não os supéravites, quando uns e outros se encontram intimamente associados: quem empresta, empresta a alguém; quem deve, deve a quem lhe empresta.

A Alemanha só pode exportar o que exporta e ter uma poupança tão elevada porque outros países se encarregam de dinamizar a procura que os alemães reprimem ao imporem internamente políticas dissuassoras do consumo e da despesa pública. O mesmo pode dizer-se da China ou do Japão.

Estupidamente, a política económica alemã (e, em parte, a chinesa) aposta na continuação deste estado de coisas, recusando-se a entender que, obviamente, é aos países com superávites elevados e crónicos que, na presente conjuntura, compete pôr em prática estímulos fiscais substanciais.

Para regressarmos à normalidade é também preciso que alguns países compreendam que não podem continuar eternamente a basear o seu crescimento na expansão da procura alheia.

Pretender o contrário é apostar na eternização dos actuais desequilíbrios financeiros. O que, naturalmente, é impossível.
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Pôr a casa em ordem

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Políticas económicas activas em tempo de crise, eis o tema do meu artigo desta semana no Jornal de Negócios, já disponível no Provador de Venenos.
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18.3.09

Soluções

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Os problemas dos EUA resolviam-se prontamente se os salários sofressem um corte de 20%.

Já ouviram algum economista americano dizer isto? Claro que não, embora seja verdade.

E por que não o dizem eles? Primeiro, porque reconhecem não se tratar de uma solução aceitável, o que vale por dizer que não é uma solução. Segundo, porque o simples facto de isso ser dito torna o problema mais difícil de resolver.

Não se pode excluir que, no final, algo de semelhante possa vir a acontecer se tudo correr pelo pior, mas apenas porque todas as restantes alternativas terão falhado. Algo muito diferente, como é óbvio, de se fixar essa meta à partida.

Por que será que só em Portugal é possível escutar-se atoardas deste tipo travestidas de alta sabedoria? E por que serão elas tomadas a sério por quem teria obrigação de saber mais?
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4.2.09

Qimonda e outras confusões

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Já todos sabemos que a Qimonda representa 5% das exportações portuguesas. Mas isso é a exportação bruta, não a líquida.

Qual o valor da exportação da Qimonda uma vez deduzidas as importações que a sua actividade implica? Ainda não encontrei quem soubesse dizer-me, mas, tendo em conta que a incorporação nacional parece ser baixa (apenas mão-de-obra, embora alguma qualificada) parece natural que a sua contribuição para a balança comercial não seja tão grande assim.

Nesse caso, qual a justificação para o governo português estar disposto a mobilizar capitais tão vultuosos através da Caixa para salvar a Qimonda?

Já se ouviu também Manuel Pinho invocar o contributo da empresa alemã para a balança tecnológica - ao mesmo tempo, aliás, que argumentava que ela nos ajuda a importar tecnologia. Ora a balança tecnológica contabiliza serviços, não produtos, pelo que a Qimonda não exporta tecnologia, e a importação de tecnologia, caso existisse, teria sobre a balança um efeito negativo.

Talvez o ministro quisesse dizer que há aqui uma transferência de tecnológica que reforça as competências nacionais. Só que nem tudo o que luz é ouro: a actividade da Qimonda em Portugal parece ser sobretudo de montagem; o trabalho qualificado permanece na Alemanha.

De modo que continuamos sem saber ao certo o que justifica a prioridade que o Ministério da Economia atribui à salvação da Qimonda.

Interrogado no Prós & Contras da passada semana sobre os critérios que usa para salvar esta empresa e não aquela, Pinho retorquiu que essa é uma questão metafísica.

É caso para ficarmos todos muito preocupados.
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