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19.3.09

A educação para a ganância

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Jack Welch, o ex-CEO da General Electric, não inventou nada quando, há dias, criticou a concepção segundo a qual a criação de valor para o accionista deve ser o propósito central das empresas.

Eu diria mesmo que quase todos os principais teóricos da gestão, a começar por Peter Drucker, discordam de que o lucro deva ser o objectivo principal dos gestores. Drucker considerava que o lucro nem sequer é, a bem dizer, um objectivo, mas apenas uma condição de sobrevivência. "The purpose of business", diz ele algures, "is to stay in business".

O lucro empresarial é necessário porque é o custo do futuro. Uma empresa não lucrativa não pode assegurar a sua continuidade investindo nos activos tangíveis e intangíveis em que assenta o negócio.

Mais recentemente, as investigações de Jim Collins divulgadas nos seus livros "Built to Last" e "From Good to Great" confirmaram que as empresas com maior êxito nem sequer se preocupam muito com os lucros - eles resultam naturalmente de uma gestão competente asssente em ideários mobilizadores e lideranças capazes.

Nas escolas de gestão, a ênfase na criação de valor para o accionista (expressão eufemística para designar a ganância sem limites) foi introduzida por pessoas formadas na tradição da teoria económica oriunda de Chicago e sem qualquer espécie de contacto com o mundo empresarial (com excepção, talvez, do financeiro).

Como há um excesso de doutorados em economia e uma carência de doutorados em ciências empresariais, os departamentos de gestão foram progressivamente invadidos por cabeças recheadas de doutrinas dogmáticas mas desconhecedoras das mais elementares realidades empresariais.

E foi assim que, também nas escolas de gestão, gerações de jovens foram formadas nas ideias equivocadas e imorais que atribuem absoluta prioridade aos accionistas sobre todos os restantes stakeholders aos quais as empresas deveriam prestar contas.
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18.2.09

Reforma ou lamento

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Não tenho razão para duvidar que alguns patrões aproveitam o actual estado de confusão para despedir trabalhadores desrespeitando a legislação vigente e valendo-se da ignorância jurídica dos atingidos.

Mas é totalmente descabido que o secretário-geral da Intersindical se esforce por fazer dessa questão o fulcro do debate em torno do crescimento galopante do desemprego a que estamos a assistir.

Esta atitude, na aparência radical, na verdade só serve para desviar as atenções do que mais importa. Não, a origem deste drama não radica, no essencial, na falta de escrúpulos de alguns empregadores, mas em males profundos do nossos sistema sócio-económico que a presente crise fez vir à tona.

Não está em causa apenas o comportamento imoral deste ou daquele patrão, mas a ideologia económica que prevaleceu nas últimas décadas.

Que tem a Intersindical a dizer a este respeito? Pensa que as organizações laborais devem limitar-se a um papel de protesto, ou, bem pelo contrário, entende que elas têm um papel activo a desempenhar na configuração na ordem reformada que na sequência da crise deverá emergir?

Não será este o momento adequado para se começar a discutir isto?
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4.2.09

A exportação líquida da Qimonda

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Esclarecimento:
"Sempre que se fala da Qimonda, por vezes até se omite o nome e se diz "o maior exportador nacional". O título é de 2008 e compreende os 1.400 milhões de euros que a Qimonda exportou, e que a coloca à frente da Auto-Europa.

"Agora o que não se diz é que a Qimonda importa 1.100 milhões de euros. Em termos líquidos, o contributo para a balança das exportações é de 300 milhões.

"Como diz o presidente da AICEP, o problema do fecho da Qimonda não é económico, é social. São 1800 postos, que os apregoados compradores das instalações que por aí andam, nem querem ouvir falar."
Ler ainda um comentário judicioso a este post:
"Ainda falta o graveto que o governo manda para lá... e quase de certeza n de descontos nos impostos."

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Qimonda e outras confusões

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Já todos sabemos que a Qimonda representa 5% das exportações portuguesas. Mas isso é a exportação bruta, não a líquida.

Qual o valor da exportação da Qimonda uma vez deduzidas as importações que a sua actividade implica? Ainda não encontrei quem soubesse dizer-me, mas, tendo em conta que a incorporação nacional parece ser baixa (apenas mão-de-obra, embora alguma qualificada) parece natural que a sua contribuição para a balança comercial não seja tão grande assim.

Nesse caso, qual a justificação para o governo português estar disposto a mobilizar capitais tão vultuosos através da Caixa para salvar a Qimonda?

Já se ouviu também Manuel Pinho invocar o contributo da empresa alemã para a balança tecnológica - ao mesmo tempo, aliás, que argumentava que ela nos ajuda a importar tecnologia. Ora a balança tecnológica contabiliza serviços, não produtos, pelo que a Qimonda não exporta tecnologia, e a importação de tecnologia, caso existisse, teria sobre a balança um efeito negativo.

Talvez o ministro quisesse dizer que há aqui uma transferência de tecnológica que reforça as competências nacionais. Só que nem tudo o que luz é ouro: a actividade da Qimonda em Portugal parece ser sobretudo de montagem; o trabalho qualificado permanece na Alemanha.

De modo que continuamos sem saber ao certo o que justifica a prioridade que o Ministério da Economia atribui à salvação da Qimonda.

Interrogado no Prós & Contras da passada semana sobre os critérios que usa para salvar esta empresa e não aquela, Pinho retorquiu que essa é uma questão metafísica.

É caso para ficarmos todos muito preocupados.
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19.1.09

Deve ser da especialização

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Fiquei surpreendido por descobrir que grandes economistas, alguns laureados com o Nobel, não parecem capazes de entender raciocínios elementares de teoria económica. Paul Krugman sente o mesmo:
"What’s been disturbing, however, is the parade of first-rate economists making totally non-serious arguments against fiscal expansion. You’ve got John Taylor arguing for permanent tax cuts as a response to temporary shocks, apparently oblivious to the logical problems. You’ve got John Cochrane going all Andrew-Mellon-liquidationist on us. You’ve got Eugene Fama reinventing the long-discredited Treasury View. You’ve got Gary Becker apparently unaware that monetary policy has hit the zero lower bound. And you’ve got Greg Mankiw — well, I don’t know what Greg actually believes, he just seems to be approvingly linking to anyone opposed to stimulus, regardless of the quality of their argument."
Krugman acredita que isso se deve ao viés ideológico dos opinantes. Eu desconfio que o excesso de especialização dentro da profissão também explica qualquer coisa.
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18.1.09

O que mudar no ensino da economia

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Surpreendeu-me a prontidão com que, interrogado sobre a necessidade de se reverem os currículos dos cursos de economia, Campos e Cunha respondeu há dias na SIC-N que, no seu entender, é preciso ensinar filosofia aos estudantes para melhorar a sua capacidade de reflexão aprofundada sobre os assuntos. Certíssimo, diria eu.

Surpreendeu-me também, mas negativamente, o Luis Aguiar-Conraria ao afirmar, questionado por Medeiros Ferreira, que nada há a mudar porque, afinal, tudo o que é relevante em matéria cientítica já lá tem cabimento. Eu esperaria que ele opinasse que não há muito a mudar, pelo menos de significativo - mas deixar tudo na mesma?

recentemente abordei o tema da responsabilidade de certas teorias económicas na erosão da confiança das instituições económicas, com particular ênfase no ensino da gestão. Mas talvez seja chegado o momento de, embora brevemente, tentar ir um pouco mais fundo.

A investigação que se faz no âmbito da economia é, em geral, séria e profícua. O principal problema está no modo como ela é embalada para ser ensinada aos estudantes universitários ou para intervir em debates públicos sobre temas de política económica. Em geral, eu diria que, ao contrário do que pretende o Luís, em Portugal como em todo o mundo, os currículos escolares se encontram infectados de ideologia de um tipo muito particular.

De outro modo, como explicar a voga que durante demasiados anos teve nas universidades a teoria das expectativas racionais, algo que se encontra tão afastado dos princípios do são raciocínio científico como o chamado Intelligent Design?

Hoje, é possível estudar-se economia com escassíssima referência a outros factos económicos que não aqueles que podem ser facilmente acomodados pelas teorias dominantes. Acima de tudo, há um evidente défice de cultura história na formação dos jovens economistas.

A base empírica de uma parte substancial das teorias ensinadas é, principalmente no que respeita à microeconomia, extremamente ténue ou mesmo inexistente. Em contrapartida, os alunos são submetidos a intensa lavagem ao cérebro com doses cavalares de modelos matemáticos abstractos de duvidosa relevância. Keynes e Hayek concordavam em classificar isto de pseudo-ciência.

Não será então altura de se começar a pensar em reformar seriamente este estado de coisas?

(Ler também, sobre esta polémica, uma série de posts dos Ladrões de Bicicletas.)
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16.1.09

Bang for the buck

Stiglitz no FT de hoje:
"But household tax cuts, except for possibly the poorest, should have no place in the stimulus. Nor should business tax breaks, except when closely linked with additional investment. The one tax cut that should be included is a temporary incremental investment tax credit; it provides a big bang for the buck, encouraging companies to invest now when the economy needs the spending. Increased investments in infrastructure, education and technology, relief to states, and help to the unemployed need pride of place."

8.1.09

Sociedade anónima

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Marx simpatizava com a coisa, porque a considerava um passo no sentido da socialização da propriedade. Adam Smith era contra. Porquê?
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7.1.09

O orgulho no trabalho bem feito

Não posso concordar mais com o que John Kay escreve hoje no FT:
Young people looking towards the world of work should understand that the greatest reward from a job is the satisfaction of doing it well. The people who are most successful in business in the long run are people who are passionate about business – whose aspirations are to bring new products and services to market, to serve customers better, to motivate their staff to greater efforts. And, by the way, you can make a lot of money in the process. That is why Tesco is prospering and Woolworths has failed. That is the lesson we should teach our kids, and which our cabbies should have learnt. It is a lesson that is as relevant to the public sector as to the private.

4.1.09

Temos a obrigação de dizer a verdade aos portugueses

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Cavaco alertou os seus insensatos súbditos para o contínuo aumento do endividamento do país ao longo dos últimos dez anos. Qual será a causa do fenómeno? Terão os portugueses perdido o juízo, ou haverá outra razão para ele?

Comecemos por perguntar-nos se terá ocorrido algo extraordinário na última década. Olha, é verdade: aderimos ao euro.

E que relação terá essa circunstância com o nosso endividamento? Tendo em conta as carências do país, era previsível que a descida da taxa de juro iniciada no final dos anos 90 incitasse o Estado, as empresas e os particulares a recorrerem mais ao crédito. Foi isso que aconteceu.

No passado, o excesso de endividamento externo resolvia-se aumentando a taxa de juro e desvalorizando o escudo. O país padecia durante um ano, mas, depois, as coisas regressavam à normalidade. Era uma espécie de operação ao apêndice: desagradável, mas eficaz.

Agora, porém, como estamos no euro, não podemos fazer isso. E, como a taxa de juro é fixada em função da situação do conjunto da zona euro, e não da nossa, estamos privados de política monetária própria.

Restaria então a política orçamental. Ao cabo de seis anos, o Estado português conseguiu conter o aumento do seu endividamento (um défice de 2,5% com uma inflação da mesma ordem significa que, em termos reais, o endividamento não aumenta).

Logo, o Estado fez a sua parte, mas as empresas e os particulares continuaram a endividar-se.

Resta a possibilidade de as contas do Estado gerarem um excedente suficientemente grande para compensar o endividamento privado. As contas são facéis de fazer: temos este ano um défice orçamental à volta dos 2,5% e um défice da balança de transacções correntes da ordem dos 8,5% que, a não ser compensado por investimento directo estrangeiro, terá de ser financiado por empréstimos. Logo, o problema resolver-se-ia se o Estado conseguisse um superavit de 6%.

Para isso, o Estado poderia aumentar os impostos num valor equivalente a 8,5% do PIB, ou, alternativamente, reduzir a sua despesa no mesmo montante. Utilizando um multiplicador moderado (qualquer coisa como 1,5), decorreria daí uma quebra do PIB da ordem dos 12%. Não é exagerado prever que o desemprego ultrapassaria os 20% da população activa.

Por outras palavras: para além de ninguém saber como é possível um corte na despesa pública desta ordem, a eventualidade da sua concretização lançaria o país na ruína e no caos.

Chegamos então à tal verdade que os portugueses precisam de compreender. A adesão ao euro foi, nas circunstâncias em que ocorreu, uma enorme insensatez, agravada pela elevada paridade atribuída ao escudo para ajudar o PSD a ganhar uma eleição que, afinal, até perdeu.

Para agravar mais a situação, o primeiro-ministro Cavaco Silva criou um mecanismo de progressão automática na carreira dos funcionários públicos garantindo que a massa salarial cresceria mesmo quando eles não fossem aumentados. Isto sem falar de que usou os dinheiros europeus para comprar o apoio das múltiplas corporações económicas e profissionais que mantêm o país refém.

Por outras palavras, Cavaco Silva fechou o cofre à chave e deitou-a fora. Agora, acusa-nos de não sermos capazes de abri-lo.

Se o actual Presidente tivesse a integridade intelectual e política de Alan Greenspan, reconheceria os erros que cometeu e pediria perdão por eles. Não sendo esse o caso, candidatou-se à chefia do Estado e usa o lugar que ocupa para nos pregar sermões.

No estado a que as coisas chegaram, o Estado português pouco pode fazer para facilitar e acelerar o processo de transição para uma nova estrutura empresarial mais competitiva. Resta-lhe dar tempo para que os mercados façam o seu trabalho, processo em que já consumimos toda a presente década e que ainda não sabemos ao certo quando estará concluído.

Eis a triste verdade que Cavaco Silva não tem coragem para reconhecer.
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31.12.08

Ministro das Finanças alemão teme que juros baixos desencadeiem crescimento incontrolável

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2008, o ano de todos os idiotas. Este chama-se Peer Steinbruck e tem poder para dar cabo da vida a muita gente.
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Palpites e previsões

Suponho que isto pode servir para começar a pôr algum senso nas cabeças dos inteligentes que gostariam de ver o Orçamento Geral do Estado revisto todas as semanas para acomodar as últimas previsões do FMI:
"Although people endlessly ask for predictions, they rarely really want the answers. It was only late – too late – in life that I realised that when people said, “We really want you to challenge our ideas,” they mostly did not. They wanted instead to be congratulated on their wisdom. Similarly, when they ask, “What is going to happen?” they seek reaffirmation and reassurance rather than insight into the future.

"The market for clairvoyance has existed through history and is satisfied by messages based on hope and ambiguity. The market for economic prediction is similar. Successful proponents are distinguished by their television manner rather than the accuracy of their forecasts."
PS - Antes que me esqueça: acho muito bem que tenha sido temporariamente aumentado o tecto dos investimentos em obras públicas dispensados de concurso. É o que todas as nações civilizadas farão para tentar que o dinheiro seja gasto a tempo de contrariar o agravamento da depressão.

19.12.08

TPC

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Os directores dos jornais e suplementos de economia deveriam obrigar os seus jornalistas a escreverem 100 vezes:

Baixa de inflação não é o mesmo que baixa dos preços.
Baixa de inflação não é o mesmo que baixa dos preços.
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11.12.08

Pensar o impensável

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Os Bancos Centrais têm vindo a expandir aceleradamente a base monetária, esforçando-se por contrariar a seca do sistema financeiro provocada pela preferência pela liquidez.

Apesar disso, as taxas de juro cobradas aos particulares e às empresas não descem como seria de esperar e, sobretudo, os bancos mantêm as torneiras do crédito fechadas. Isso não se deve a qualquer má intenção por parte deles, apenas a uma gestão prudente da sua situação líquida.

Diz-se que estão esgotados os recursos da política monetária. Mas estarão mesmo?

Nos EUA, é possível que a Reserva Federal venha a substituir-se aos bancos, oferecendo directamente crédito a quem dele precisar. Nessas circunstâncias, que sucederá aos bancos privados? Provavelmente, terão que ser nacionalizados ou mesmo intervencionados.

Quando a reencontrada virtude da prudência bancária paraliza a economia, a única solução tecnicamente viável poderá vir a ser a nacionalização integral do sector por um período temporário.
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