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16.4.09

O Golpe Tranquilo

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Dois breves extractos do fundamental artigo de Simon Johnson na Atlantic de Maio intitulado "The Quiet Coup":
The challenges the United States faces are familiar territory to the people at the IMF. If you hid the name of the country and just showed them the numbers, there is no doubt what old IMF hands would say: nationalize troubled banks and break them up as necessary.(...)

The second scenario begins more bleakly, and might end that way too. But it does provide at least some hope that we’ll be shaken out of our torpor. It goes like this: the global economy continues to deteriorate, the banking system in east-central Europe collapses, and—because eastern Europe’s banks are mostly owned by western European banks—justifiable fears of government insolvency spread throughout the Continent. Creditors take further hits and confidence falls further. The Asian economies that export manufactured goods are devastated, and the commodity producers in Latin America and Africa are not much better off. A dramatic worsening of the global environment forces the U.S. economy, already staggering, down onto both knees. The baseline growth rates used in the administration’s current budget are increasingly seen as unrealistic, and the rosy “stress scenario” that the U.S. Treasury is currently using to evaluate banks’ balance sheets becomes a source of great embarrassment.

Under this kind of pressure, and faced with the prospect of a national and global collapse, minds may become more concentrated.

The conventional wisdom among the elite is still that the current slump “cannot be as bad as the Great Depression.” This view is wrong. What we face now could, in fact, be worse than the Great Depression—because the world is now so much more interconnected and because the banking sector is now so big. We face a synchronized downturn in almost all countries, a weakening of confidence among individuals and firms, and major problems for government finances. If our leadership wakes up to the potential consequences, we may yet see dramatic action on the banking system and a breaking of the old elite. Let us hope it is not then too late.
Por outras palavras, segundo Johnson, a política económica norte-americana está refém de uma oligarquia financeira que impede o país de tomar as decisões mais apropriadas à actual situação. As consequências serão dramáticas para os EUA e para o mundo.

Boa noite, e bons sonhos.
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3.4.09

Súmula provisória do G20

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Do lado positivo:
1. Compromisso de princípio de acção conjugada ao nível internacional.

2. Papel acrescido das instituições financeiras internacionais: Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.

3. Acréscimo substancial da capacidade de intervenção do Fundo Monetário Internacional: duplicação imediata dos seus recursos financeiros; triplicação se se verificar necessário.

4. Revitalização dos Direitos Especiais de Saque do FMI para enfrentar situações de emergência.

5. Intervenção do Banco Mundial no financamento do comércio internacional.

6. Entendimento geral da China e do Japão com os EUA.
Do lado negativo:
1. Nenhum compromisso real de reforço ou coordenação dos estímulos fiscais já anunciados.

2. Nenhum aumento efectivo das verbas mobilizadas para além daquelas previamente anunciadas para combater a crise pelos diversos estados nacionais.

3. Escassa credibilidade das declarações anti-proteccionistas.

4. Papel desempenhado pela Europa em geral e pela Alemanha em particular.
Balanço final: moderadamente positivo.
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2.4.09

"Não há pensamento estratégico"

Extractos de uma infelizmente premonitória entrevista de Michael Fox, professor da London School of Economics, no Jornal de Negócios de hoje:
"Infelizmente, a minha expectativa é que esta cimeira do G20 confirme a incapacidade de a actual geração de líderes compreender o que está a acontecer e, como tal, que confirme também a incapacidade dos Governos de actuar da forma radical que a situação efectivamente exige. E temo que, mais uma vez, os países mais pobres e frágeis acabem por ser quem vai suportar o essencial do tremendo custo, económico e social, que esta crise vai provocar, e que ninguém parece querer encarar."

"Por que está cada vez mais claro que não vão sair deste encontro as decisões concretas e radicais de que o mundo precisa. Não vamos ter o investimento massivo que é necessário para ultrapassar esta crise, porque, simplesmente, não há pensamento estratégico. Ninguém parece conseguir descolar-se da “velha escola”. "

"O que está a prevalecer é o velho pensamento e a preocupação com os problemas teóricos e não com os reais. Falta visão estratégica. No Congo, por exemplo, há hoje mais 300 mil desempregados da indústria do cobre, e ninguém parece preocupar-se com a miséria em larguíssima escala que esta crise está a gerar."

"Vamos ter milhões e milhões de desempregados, com consequências gravíssimas em termos de estabilidade social e mesmo institucional. E, não obstante, o que prevalece é a preocupação com a evolução do défice ou da inflação, quando, paradoxalmente, o que temos é risco de deflação na Europa e uma deflação reinstalada no Japão. É muito decepcionante, mas é isso que está a acontecer: o G20 vai concentrar-se em problemas teóricos e esquecer os reais."

O que está em jogo na reunião do G20

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Um dos factores que ameaçam fazer durar a actual crise é a persistência de colossais desequilíbrios financeiros à escala mundial, por sua vez alicerçados na dicotomia entre, por um lado, países com crónicos supéravites comerciais (China, Alemanha e China) e, por outro lado, países com crónicos défices comerciais (EUA, Reino Unido, Espanha, Portugal e Leste Europeu, entre outros).

Uma corrente moralista acha criticáveis os défices, mas não os supéravites, quando uns e outros se encontram intimamente associados: quem empresta, empresta a alguém; quem deve, deve a quem lhe empresta.

A Alemanha só pode exportar o que exporta e ter uma poupança tão elevada porque outros países se encarregam de dinamizar a procura que os alemães reprimem ao imporem internamente políticas dissuassoras do consumo e da despesa pública. O mesmo pode dizer-se da China ou do Japão.

Estupidamente, a política económica alemã (e, em parte, a chinesa) aposta na continuação deste estado de coisas, recusando-se a entender que, obviamente, é aos países com superávites elevados e crónicos que, na presente conjuntura, compete pôr em prática estímulos fiscais substanciais.

Para regressarmos à normalidade é também preciso que alguns países compreendam que não podem continuar eternamente a basear o seu crescimento na expansão da procura alheia.

Pretender o contrário é apostar na eternização dos actuais desequilíbrios financeiros. O que, naturalmente, é impossível.
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Pôr a casa em ordem

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Políticas económicas activas em tempo de crise, eis o tema do meu artigo desta semana no Jornal de Negócios, já disponível no Provador de Venenos.
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19.3.09

Economistas para quê?

Os comentários ao meu post sobre a proposta de redução dos salários como forma de o país superar as dificuldades fazem-me pensar que vale a pena aprofundar um bocadinho mais o assunto.

Em primeiro lugar, o Luis Aguiar-Conraria observou que, ao contrário de nós, os EUA podem desvalorizar a sua moeda, pelo que, dispondo dessa solução "fácil", não necessitam de reduzir os salários. Ora a verdade é que, embora o dólar tenha perdido quase metade do seu valor face ao euro na última meia dúzia de anos, nem assim conseguiu resolver o problema, de modo que talvez seja altura de algum economista português escrever ao Obama sugerindo-lhe uma redução dos salários americanos.

Ironias aparte, passemos então ao que mais interessa. Uma pessoa que olhe atentamente para os dados da contabilidade nacional não pode deixar de preocupar-se com o desequilíbrio externo da economia portuguesa. (Note-se que eu escrevo sobre esse assunto há anos.) Que diagnóstico fazer? Umas pessoas dirão que a procura é demasiado elevada, seja porque os salários estão altos, seja porque a poupança é baixa. Outras farão notar que a produção é baixa em resultado da baixa produtividade. Muitas notarão que a situação se deve uma combinação dos dois factores.

Ora bem, os contabilistas só olham para os custos, porque a sua formação não os habilita a entender como aumenta a produtividade e que factores são susceptíveis de estimulá-la. Logo, para eles, qualquer solução só pode vir da redução dos salários.

Pelo contrário os economistas sabem que o desenvolvimento das nações nunca se fez com vastos programas de redução de custos mas com esforços denodados para ampliar por diversas formas a capacidade produtiva.

Os problemas de qualquer género não se resolvem remoendo ameaças ou lambendo feridas, mas tirando partido das nossas capacidades para cavalgar as oportunidades que vão surgindo. "Build on strength" significa que nenhuma pessoa, empresa ou país se desenvolve centrando-se nas fraquezas mas capitalizando as competências.

Malabarismos elementares em torno dos agregados da contabilidade nacional são um sinal distintivo dos economistas da treta, bons a identificar problemas e a prever desgraças mas incapazes de propor soluções viáveis. Não valem, obviamente, o dinheiro que custam. São lídimos representantes da "dismal science" (ciência lúgubre) que De Qincey satirizou.

Outro traço distintivo destes impropriamente chamados economistas é a sua irresponsibilidade. Como eles separam a economia das restantes dimensões sociais dos problemas e, em particular, da política, não se sentem na obrigação de considerar a viabilidade genérica das "soluções" que propõem.

"Eu digo a verdade, os políticos depois que resolvam as minudências inerentes à redução generalizada dos salários". Enoja-me esta atitude - garantia de popularidade nos media para aqueles que a assumem - porque não enxergo nela um pingo de seriedade.

A consequência das opiniões irresponsáveis difundidas por tantos economistas preguiçosos é que, na verdade, o país nunca mais se concentra no trabalho que é necessário levar a cabo para desencadear um crescimento substancial da sua produtividade. O assunto é pouco mencionado, há pouca investigação orientada para esse problema, há pouco debate sério e há, sobretudo, pouca acção.

Para que precisamos nós, afinal, de economistas como estes?

4.2.09

Qimonda e outras confusões

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Já todos sabemos que a Qimonda representa 5% das exportações portuguesas. Mas isso é a exportação bruta, não a líquida.

Qual o valor da exportação da Qimonda uma vez deduzidas as importações que a sua actividade implica? Ainda não encontrei quem soubesse dizer-me, mas, tendo em conta que a incorporação nacional parece ser baixa (apenas mão-de-obra, embora alguma qualificada) parece natural que a sua contribuição para a balança comercial não seja tão grande assim.

Nesse caso, qual a justificação para o governo português estar disposto a mobilizar capitais tão vultuosos através da Caixa para salvar a Qimonda?

Já se ouviu também Manuel Pinho invocar o contributo da empresa alemã para a balança tecnológica - ao mesmo tempo, aliás, que argumentava que ela nos ajuda a importar tecnologia. Ora a balança tecnológica contabiliza serviços, não produtos, pelo que a Qimonda não exporta tecnologia, e a importação de tecnologia, caso existisse, teria sobre a balança um efeito negativo.

Talvez o ministro quisesse dizer que há aqui uma transferência de tecnológica que reforça as competências nacionais. Só que nem tudo o que luz é ouro: a actividade da Qimonda em Portugal parece ser sobretudo de montagem; o trabalho qualificado permanece na Alemanha.

De modo que continuamos sem saber ao certo o que justifica a prioridade que o Ministério da Economia atribui à salvação da Qimonda.

Interrogado no Prós & Contras da passada semana sobre os critérios que usa para salvar esta empresa e não aquela, Pinho retorquiu que essa é uma questão metafísica.

É caso para ficarmos todos muito preocupados.
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16.1.09

Bang for the buck

Stiglitz no FT de hoje:
"But household tax cuts, except for possibly the poorest, should have no place in the stimulus. Nor should business tax breaks, except when closely linked with additional investment. The one tax cut that should be included is a temporary incremental investment tax credit; it provides a big bang for the buck, encouraging companies to invest now when the economy needs the spending. Increased investments in infrastructure, education and technology, relief to states, and help to the unemployed need pride of place."

22.12.08

Pensar o impensável

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Os bancos comerciais não transferem para as PMEs o financiamento que recebem do Banco Central Europeu? António Amaro de Matos, de longe o melhor gestor português que conheci, propõe o seguinte no Público de hoje (link não disponível):
"Talvez, por exemplo, impor que, no final do primeiro e segundo trimestre do próximo ano, o crédito a pequenas e médias empresas atinja, para cada banco, respectivamente, 20 por cento e 40 por cento acima do que figura nos balanços de Dezembro deste ano. Mantendo-se daí em diante. E que, não cumprindo, os bancos tivessem de depositar no BP o montante em falta para atingir aquele objectivo. Remunerado à taxa zero por cento. Podendo ser repassado a outros que o quisessem aplicar em PME."
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