7.6.07

Como não discutir o aeroporto da Ota

Paulo Gorjão discutiu aqui, aqui e aqui a hipótese de a deslocação do aeroporto de Lisboa poder vir a prejudicar o turismo e, por decorrência, a economia da cidade.

Em apoio do seu ponto de vista invocou um estudo encomendado pela Associação de Turismo de Lisboa para avaliar o impacto do encerramento do aeroporto da Portela e da construção do da OTA sobre o afluxo de turistas estrangeiros à capital.

Vejamos então que conclusões podem ser retiradas desse trabalho:

1. Quem tem experiência destas coisas sabe como é difícil obter-se respostas fidedignas quando perguntamos a um grupo de pessoas o que acham de uma situação hipotética cujas consequências têm dificuldade em imaginar em todos os seus aspectos. Foi assim, por exemplo, que a IBM recusou em inícios dos anos 60 do século XX a patente que lhe permitiria fabricar fotocopiadoras por um estudo de mercado ter revelado que, em todo o mundo, não haveria procura para mais de 50 máquinas desse tipo.

2. A pergunta colocada aos inquiridos foi a seguinte: "Caso o aeroporto se situasse a 53 Km da cidade teria realizado esta viagem?" Como correctamente se escreve na Revista Turismo de Lisboa, a questão tem como pressuposto que nada seria feito para minorar o impacto do aumento da distância. Ora trata-se, evidentemente, de um pressuposto irrealista.

3. Apenas 5,6% dos inquiridos responderam "certamente que não". Outros 12,2% responderam "provavelmente não". Logo, não é correcto nem sério afirmar-se que a deslocação do aeroporto para a Ota faria dimiuir em 17,8% o turismo da capital. "Provavelmente não" não é a mesma coisa que "certamente não".

4. Ou seja, mesmo admitindo que os respondentes estão em condições de avaliar rigorosamente a alternativa que lhes é colocada, a conclusão a tirar é que o impacto da deslocalização sobre o turismo deverá ser negligenciável, dado que apenas 5,6% dos respondentes pensam que teriam cancelado as suas viagens. É essa a única conclusão rigorosa que se pode tirar.

5. Imaginemos, porém, que a pergunta era outra, algo do género: "Caso o aeroporto se situasse a 53 Km da cidade, mas fosse possível chegar de comboio ao centro em meia hora, teria realizado esta viagem?" Qual seria a resposta?

6. Poderíamos imaginar outras alternativas: "O que prefere: esperar uma hora pela bagagem, ou recebê-la no prazo máximo de meia hora e gastar mais meia hora para chegar à cidade num confortável comboio?" Ou ainda: "O que prefere: que o seu avião se atrase meia hora devido ao congestionamento do tráfego aéreo, ou gastar meia hora para chegar à cidade num confortável comboio?" É claro que estas perguntas são tendenciosas. Mas também a primeira o é, e ainda tem o defeito de, ao contrário delas, não confrontar as pessoas com as alternativas que de facto se colocam.

Não espero convencer nem o Paulo nem ninguém com estas breves linhas sobre um assunto de enorme complexidade. O meu ponto é que a interpretação das respostas a um inquérito é matéria que exige alguma qualificação e experiência, pois não é óbvio que conclusões poderemos dele tirar.

Agora, note-se que estamos a discutir apenas uma parte ínfima dos inúmeros problemas que envolvem o planeamento e a construção do novo aeroporto. Será possível um grupo de leigos chegar em tempo útil a uma conclusão fundamentada sobre a totalidade das questões que o tema envolve?

Para mim, fica com isto demonstrada a futilidade de se procurar entregar a um público de não especialistas a resolução do assunto. Como já se viu, é fácil lançar dúvidas sobre dúvidas sem qualquer fundamento, mas é muito difícil - em última análise impossível - rebatê-las uma por uma a contento de uma plateia de milhões de leigos.

É peixeirada que queremos?

(Ainda sobre este tema, ler as interveñções de Eduardo Pitta aqui, aqui e aqui.)

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