29.6.07

Roda de Choro: Devagar e Sempre (Pixinguinha)



Está cientificamente provado que João Sebastião Bach teve uma reencarnação brasileira sob a forma de Pixinguinha.

A Roda de Choro gosta de reunir-se na loja Ao Bandolim de Ouro para tocar as suas composições. Um dia destes passa por lá um gringo tipo Ry Cooder e ganha uma pipa de massa a gravar com estes moços.

Novelas do Minho

O Dr. António Salgado Almeida, médico no Centro de Saúde de Vieira do Minho e vereador da CDU na Câmara Municipal de Guimarães tem andado algo deprimido ultimamente. Compreende-se, porque a vida não tem corrido de feição aos comunistas.

No íntimo, porém, conserva o juvenil espírito revolucionário que o tornou conhecido na terra, de modo que, corria o mês de Outubro do ano passado, não resistiu à tentação de fazer pilhéria com uma das bombásticas afirmações que o Ministro da Saúde de vez em quando gosta de fazer para afirmar a sua importância.

Foi assim que, num espaço de acesso público do Centro de Saúde, pespegou uma fotocópia de certas declarações de Correia de Campos acompanhada da frase mais engraçada que lhe acudiu ao espírito: "Façam como o ministro e vão às urgências a Braga."

Aqui ocorre um hiato na narrativa, pois não se apurou ainda como chegou a nova aos ouvidos do Ministro. Conjecturo, porém, que algum militante socialista local mais diligente terá entrado em com contacto um camarada destacado para o gabinete de Correia de Campos em Lisboa.

Quero acreditar que, preocupados com intrigas mais urgentes, quer o chefe de gabinete quer o próprio Ministro tenham começado por sacudir os ombros. Nas suas costas, porém, a tempestade foi-se agigantando. Estes independentes são sempre gente algo suspeita, cão que não conhece o dono predisposto a esquecer-se de quem os pôs lá e a compor alianças com o inimigo se por acaso lhes der jeito.

Pois como se admite que a Directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, esposa do Vice-Presidente da autarquia de Vieira do Minho eleito pelo PSD, fosse mantida em funções depois de um escândalo daqueles - ainda por cima quando o PS dispunha de dedicados quadros locais à espera de uma oportunidade de demonstrarem a sua lealdade ao partido e a sua dedicação ao país?

De concelhia em concelhia, de distrital em distrital, de gabinete em gabinete, o falatório foi crescendo. Não é impossível que algum recado tenha chegado à Direcção do Partido ou mesmo - quem sabe - à própria Presidência do Conselho de Ministros.

É bem possível que, nas suas deslocações pelo país, ao passar perto de Vieira do Minho, as forças vivas do Partido tenham feito sentir a Correia de Campos o mal-estar que se instalara entre os militantes locais. Era necessário fazer alguma coisa para impedir a desautorização do governo e esmagar a agressiva oposição minhota. Chegadas as coisas a este ponto, é muito provável que o Ministro já estivesse convencido. Mas que haveria de fazer-se?

Foi então que, para alivio do próprio, lhe foi proposta como solução a substituição da traiçoeira Maria Celeste por Ricardo Armada, vereador do partido governamental na Câmara de Ponte da Barca.

Corria o mês de Janeiro - três meses, portanto, depois da ocorrência que tão inopinadamente perturbara a paz da família socialista de Vieira do Minho - quando Campos se decidiu a assinar a sentença contra a Directora do Centro de Saúde.

Se quisermos resumir a história em breves linhas, temos aqui um militante comunista que se vale da sua posição de médico para fazer propaganda política junto dos utilizadores do Centro de Saúde onde trabalha, de uma máquina partidária socialista com poder bastante para enredar o governo nas águas turvas da pequena política das vaidades locais, de um vereador do PS que intriga para roubar um cargo ocupado pela mulher de um militante do PSD e de um ministro suficientemente convencido e pouco esperto para se deixar envolver nesta novela minhota de faca e alguidar.

Juro que não tenho nenhum conhecimento directo ou indirecto do caso. Mas, se não foi assim que as coisas se passaram, poderia ter sido. E isso é o que interessa.

Only in America



Mika Brzezinski recusa-se em directo a abrir o noticiário com uma peça sobre a libertação de Paris Hilton, alegando que isso não é jornalismo sério.

Acho esta situação lamentável, porque elimina qualquer possibilidade de uma pessoa assumir o seu anti-americanismo com um mínimo de convicção.

(Via Câmara Corporativa.)

28.6.07

60s Crash Course - Pixinguinha & Baden Powell: Lamento

O clube do 3º anel

O jornalista desportivo britânico Will Brooks teve a ideia de criar o primeiro clube de futebol genuinamente democrático.

Quem desejar ser sócio só terá que dirigir-se ao site My Footbal Club, registar-se e comprometer-se a pagar no futuro uma jóia de 35 libras.

O objectivo declarado é conseguir 50 mil aderentes. Na última visita que fiz ao site já contava 40.279, número a que corresponde um capital social de 1.375.000 ou 2.062.500 €.

Uma vez reunida a soma pretendida, seguir-se-á a compra de um clube à escolha dos sócios. O Leeds segue neste momento à frente das preferências, talvez por combinar um emblema prestigioso com uma situação financeira desastrosa.

As compras e vendas de jogadores serão decididas democraticamente por votação. O mesmo método plebiscitário será usado para contratar e despedir treinadores, bem como para definir a equipa jogo a jogo.

A promessa de My Football Club diz tudo: Just like a football management game – but for real. Que é como quem diz: os jogos de video começaram por imitar o futebol, é agora altura de o futebol imitar os jogos de video.

Não tenho dúvidas que, caso o projecto se concretize, toda a gente vai divertir-se loucamente por apenas 35 libras.

Mas será futebol? Isso já é pedir muito.

60s Crash Course - Bobbie Gentry: Ode to Billie Joe



Nesta canção, Bobbie Gentry conta como a sua mãe a informou com ar desprendido durante uma refeição ter sabido em Choctaw Ridge que Billie Joe MacAllister se suicidou atirando-se da ponte de Tallahatchie.

Na conversa desapaixonada que se segue, a mãe acrescenta que o pregador Brother Taylor terá visto há dias a narradora acompanhada do próprio Billie Joe atirarem algo do alto da ponte para o rio.

Um ano passa. O irmão de Bobbie casou e foi-se embora. O pai morreu. Bobbie visita frequentemente a ponte, de onde lança flores.

Porque se matou Billie Joe? Que relação tinha com Bobbie? O que é que os dois foram surpreendidos a atirar da ponte?

O mistério da canção contribuiu para empurrá-la para o topo das vendas nos EUA em 1967. Conjecturou-se que os dois amantes teriam lançado da ponte um recém-nascido ou um feto e que Billie se matara por remorso. Mas Bobbie jurou que não tinha pensado em nada disso quando escreveu a letra.

Foram gravadas desde então dezenas de versões vocais ou instrumentais de Ode to Billie Joe.

Em 1976, a história deu origem a um romance e a um filme. Nessa versão, Billie suicida-se por ser homossexual e o objecto lançado da ponte é uma boneca de trapos.

27.6.07



Roberto Matta: Sem título, 1956.

Mas será do Islão?

Não sei se estas linhas, escritas pelo economista Brad de Long pouco depois do 11 de Setembro, ajudarão a responder inteiramente à questão do Lutz, mas talvez dêem umas pistas:
If we have thought about it, we have given thanks that we have been spared the burden of living in the Age of the Protestant Reformation. But now we fear that we have been doomed, instead, to live in the Age of the Islamic Reformation. The parallels are striking: a dominant clergy and aristocracy that seem to have lost their way and succumbed to materialism; a rising literate middle class; the mass distribution of personal copies of the Holy Book so that people can read it and think for themselves; and then terror, as those who have convinced themselves that they bear the will of God take action, and people fight and die. In Europe it lasted for more than 120 years--with one third of the population of Germany dying in the 30 Years War--before nearly everyone learned that reading ones private copy of the Holy Book did not make one the vessel of the will of God, and that waging Holy War was not a way to save the souls of others, but a way to lose ones own.
Afinal, eles só estão atrasados uns quatrocentos anos, não é verdade?

Consequências

E se, sendo referendado o tratado europeu, o "não" ganhasse? O que aconteceria?

Desde logo, deixaríamos de ser conhecidos "lá fora" apenas pelo Ronaldo e o Mourinho. "Olha", diriam em Bruxelas, " finalmente aqueles camelos deram sinal de vida."

As restantes consequências ficam para outro dia.

26.6.07

Pensamentos de um circunstante



"Uma pessoa ouve conversas muito interessantes nestas reuniões. Tenho que vir cá mais vezes."

25.6.07

Política sul-americana

É altura de fazer notar que nem todos detestamos Hugo Chavez pelas mesmas razões.


André Breton: Collage Coléctif, 1944.

O génio da nossa política externa

Parece-me justo dizer-se que ninguém entende a política externa portuguesa, a começar pelo titular da pasta.

Mas há que reconhecer que o caso do tratado europeu é uma excepção à regra.

Ouço os comentaristas perguntarem o que acha Portugal do abandono do projecto constitucional, do fim das presidências rotativas, do reforço do poder dos grandes países, da excepção aberta ao Reino Unido a propósito da carta dos direitos fundamentais ou da abolição do princípio da livre concorrência.

Sobre todos esses e muitos outros pontos, Portugal, muito justamente, não acha nada. E faz muito bem, dado tratar-se de bagatelas que de forma nenhuma contribuem para a nossa felicidade e bem-estar.

Pelo contrário, Portugal manteve-se intransigente na posição de que era necessário um qualquer acordo a qualquer preço, única forma de assegurar que, primeiro, José Sócrates faria um brilharete presidindo à transcendente tarefa da redacção da versão definitiva do tratado e, segundo, o dito convénio seria assinado em Lisboa.

É que, como facilmente se percebe, ficará assim garantido, para maior glória da pátria, que o tratado ficará para toda a eternidade conhecido como o Tratado de Lisboa. E isso, evidentemente, é a única coisa que interessa.

Que fiquem os outros com os votos, o poder e os fundos, que nós ficaremos com a Estratégia de Lisboa e o Tratado de Lisboa. Ora toma, que é para aprenderem como se faz política externa!

60s Crash Course - Rolling Stones: Jumping Jack Flash

O poder de pisar

Se as mulheres portuguesas tivessem algum poder, há muito que teria acabado a calçada à portuguesa. Por falar nisso, o que terá a dizer sobre o tema a Dona Roseta?

Valha-me Deus! Esqueci-me por momentos de que as escuteiras não usam sapatos de salto alto!

24.6.07



Cecily Brown: New Louboutin Pumps, 2005.

Língua de redoma

Da primeira vez que visitou os EUA, Jorge Luís Borges ficou maravilhado ao constatar que na rua todas as pessoas falavam inglês, língua que até então era para ele um idioma exclusivamente literário, não comprometido com a torpe realidade quotidiana ou, se preferirmos, não utilitário.

Uma sensação semelhante seria despertarmos um dia e verificarmos que os varredores de rua de Lisboa se expressavam em latim clássico.

60s Crash Course - Steppenwolf: Magic Carpet Ride

A primeira grande vitória de Nicolas Sarkozy

A França exigiu e obteve que fosse retirada do Tratado a referência à União Europeia como um espaço de "livre concorrência".

Já não pode haver dúvidas de que estamos perante um perigoso demagogo do qual só podemos esperar o pior.

Sim, é preciso um referendo ao Tratado Europeu

Como pode José Sócrates continuar a dizer que só faz sentido decidirmos se haverá ou não referendo quando estiver claro qual será o conteúdo do Tratado?

É que já se sabe desde ontem qual será, no essencial, o conteúdo do Tratado. Agora só falta escrevê-lo.

Por mim, quero referendo. E começo a desconfiar que votarei contra.

Na União Europeia o povo é quem mais ordena

Segundo o Eurobarómetro, 66% dos europeus querem uma Constituição Europeia, contra apenas 20% que se lhe opõem.

Ontem de madrugada, ao cabo de uma maratona negocial, os dirigentes eurpeus decidiram abandonar o projecto de aprovar uma Constituição sob o pretexto de fazer a vontade ao povo.

Cada um é como é

Se há coisa que Sócrates nunca poderá esperar de Cavaco, essa coisa é - frontalidade.

Pensar pequeno

Manchete do El Pais: La Unión Europea recupera el pulso com el nuevo Tratado.

Número de páginas dedicadas à cimeira europeia: 6.

Manchete do Diário de Notícias: Sócrates acelera tratado e acelera referendo.

Número de páginas dedicadas à cimeira europeia: 3.

Manchete do Público: Lei do tabaco mais restritiva entra em vigor a 1 de Janeiro de 2008.

Número de páginas dedicadas à cimeira europeia: 4 (incluindo artigo de opinião de Teresa de Sousa.)

23.6.07

22.6.07

60s Crash Course - Fleetwood Mac: Oh Well

21.6.07

O embaixador nas Seychelles (2)

Fui há pouco ler o documento citado no artigo que suporta a manchete do Público de hoje.

Recordo que o título do Público é: "Especialista do MIT diz que Ota é um risco para os investidores", a que acrescentou o sub-título: "Análise recomenda que estudo para aeroporto inclua outras soluções".

Leram bem? Evidentemente, o que se sugere aqui é que: a) a localização da Ota é criticada; b) essa localização implica um risco particular, ausente de outras alternativas; c) devem ser contempladas alternativas à Ota.

Ora, não só o working paper citado não discute a localização da Ota como tampouco põe em causa a necessidade de um novo aeroporto para Lisboa. (A única localização alternativa mencionada de passagem e logo eliminada como inviável é Beja.)

O tema do artigo é o modo como as transformações ocorridas no transporte aéreo e, em particular, o sucesso das companhias low-cost veio introduzir novos factores de incerteza nos investimentos e na gestão aeroportuária, ilustrando o seu ponto de vista com o exemplo do novo aeroporto de Lisboa.

As principais conclusões do autor são estas:

The appropriate development strategy is likely to involve two parallel tracks:
Deferring investments until their need has been fully demonstrated. Thus for example the development of the new airport for Lisbon might first focus on an "inaugural airport" with one major runaway, leaving the investment in the second runaway for a later time when the traffic in the area had been fully justified.

Making investments that enable the development of different kinds of traffic. Thus the plan for the new airport might specifically offer low-cost facilities to the prospective low-cost airlines, thus attracting these customers.

The precise strategy that would be best overall will need careful thought and analysis, which neither the Government of Portugal nor prospective private investors have yet had the opportunity to do.

Tudo sugestões sensatas, como se vê.

Julgue o leitor por si mesmo se isto tem alguma coisa a ver com o que o Público insinua na sua manchete. E julgue também se isto pode ser considerado jornalismo sério.

O embaixador nas Seychelles

Há um bom par de semanas ouvi pela primeira vez alguém falar da alegada nomeação de um novo embaixador de Portugal nas Seychelles.

Ontem, o Público puxou o assunto para a sua secção "Sobe e Desce", criticando o Ministro Luís Amado por colocar um embaixador numa ilha com um punhado de habitantes ao mesmo tempo que encerra consulados um pouco por toda a parte.

Hoje, o Público queixa-se de ter sido induzido em erro por declarações de Manuel Monteiro, penalizando-se de passagem por não ter verificado a existência da dita embaixada no Pacífico.

Terá o Público aprendido a lição?

Reparem no título que hoje puxa para a primeira página: "Especialista do MIT diz que OTA é um risco para os investidores". A implicação é evidente: o tal especialista é mais uma voz autorizada que condena a localização do novo aeroporto na OTA, reforçando a razão daqueles que se lhe opõem.

Todavia, quem se der ao cuidado de ir ler o artigo e conseguir penetrar na sua prosa deliberadamente encaracolada cedo se aperceberá de que o tal especialista não discute a localização do aeroporto, limitando-se a fazer algumas prevenções sobre a necessidade de se adoptar uma estratégia flexível na sua concepção, seja qual for o sítio onde venha a ser construído.

Mais ainda, as citações incluídas no artigo não sugerem a existência de qualquer risco especial para além daquele que é normal num empreendimento de grandes dimensões como este. Os factores de incerteza mencionados são comuns a toda a actividade aeroportuária em qualquer parte do mundo.

Para sermos rigorosos, o título escolhido pelo Público para a sua primeira página é, pois, enganador.

Sejam quais forem as intenções das três autoras (três!) do breve artigo, o resultado prático deste tipo de jornalismo de pacotilha consiste em aumentar o poder negocial dos futuros investidores face ao Estado, o que não podemos deixar de considerar um excelente serviço prestado pelo Público à comunidade.

Como por mais de uma vez fiz notar, o Público de hoje enche as suas páginas de doutrinação e lavagem ao cérebro disfarçadas de notícias.

Mais grave ainda, quando é apanhado a dar cobertura a um boato sobre um alegado embaixador nas Seychelles, o Público, em vez de assumir directamente a responsabilidade pelo erro, passa a culpa para Manuel Monteiro.

Sendo estas situações recorrentes, não teria sido mais sério pôr na rubrica "Sobe e Desce" a fotografia do Director José Manuel Fernandes e assumir o compromisso de no futuro tratar os assuntos com outra seriedade?

20.6.07

60s Crash Course - Neil Young: After the Gold Rush

Pausa na propaganda

A crer nos media, dir-se-ia que, confrontada com uma escalada de hostilidade dos povos, a União Europeia estaria perto de exalar o seu último suspiro.

Mais um pouco, e até eu acreditaria nisso.

A consulta do Eurobarómetro conta-nos, porém uma história muito diversa. Assim:

1. Uma esmagadora maioria dos europeus acha que as decisões relativas ao combate ao terrorismo, à protecção do ambiente e à defesa e política externa deveriam ser tomadas conjuntamente ao nível da UE (pág. 13).

2. O apoio à pertença do respectivo país à UE encontra-se ao nível mais elevado dos últimos 10 anos (pág. 15).

3. A proporção de pessoas que acham que a pertença à UE tem sido benéfica para o respectivo país tem crescido consistentemente ao longo dos últimos 10 anos (pág. 19).

4. Ao longo dos últimos 10 anos, uma clara maioria absoluta dos cidadãos tem exprimido sistematicamente a sua confiança no Parlamento Europeu (pág. 28).

5. Uma clara maioria dos europeus é favorável à continuação do processo de alargamento da UE (pág. 30).

6. Dois terços dos europeus são a favor da Constituição Europeia. Os únicos países onde essa mudança não é apoiada por uma maioria absoluta de cidadãos são a Áustria, a Finlândia, a Suécia, a Dinamarca e o Reino Unido - mas devemos compreender os britânicos, visto que eles ainda não conseguiram aprovar uma Constituição no seu próprio país (pág. 36).

7. 69% dos europeus declaram-se muito optimistas ou razoavelmente optimistas em relação ao futuro da UE (pág. 39)

8. 88% dos europeus acham que é muito urgente ou razoavelmente urgente lidar com o aquecimento global ao nível da UE (pág. 48)

Vocês nunca adivinhariam isto lendo o Público, pois não?

19.6.07

60s Crash Course - The Nice: Hang On to a Dream

Rorty para economistas

Mais um belíssimo artigo sobre Rorty, desta vez saído da pena do economista John Kay:
"Many of Rorty’s philosophical critics claimed he was attacking a straw man, arguing that no one really believes they know, or might know "The Way the World Is". But I have met people who believe they know "The Way the World Is", in executive suites, on trading floors and in investment banks. I know consultants who are employed to report on "The Way the World Is". To be sure, there is an element of pragmatism in their approach. What better demonstration of their insight into "The Way the World Is" than their exalted positions and extravagant bonuses?"

É mesmo... E leiam mais isto:
"I have often given an account of an event in business history and been confronted by a participant who offers an account of "The Way It Was". But all he offers is an account of the way it was for him. Even an aggregation of such accounts can provide only a partial and controversial description of the whole. Economists often assert that economic theory says this or predicts that. But economic theory will never hold a mirror to nature. Good economic arguments are specific to their context. There are no universal economic laws, only trends and tendencies."

Escusado será dizer que os liberais doutrinários nunca entenderão estas palavras.

Para onde vai o capitalismo financeiro internacional



Quem quer que esteja interessado em entender para onde nos leva a presente desregulação do sistema financeiro internacional deve ler este comentário de Dani Rodrik a um não menos notável artigo de Martin Wolf recentemente publicado no Financial Times.

Eis a conclusão geral de Rodrik:
"The problem, at its root, is the incompatibility between global finance and fragmentation of political sovereignty at the national level. Domestic finance could be tamed in the previous century through national institutions (regulation, legislation, central banks, and so on). Global finance, to work well and safely, requires institutions similarly global in scope. The chance that these global institutions can be created is, well, nil—at least in our time.

"So those who like and want to live global financial capitalism owe the rest of us an explanation: how exactly will this new global regulatory order be created to take care of global finance?"

Os liberais dogmáticos são vivamente aconselhados a não lerem isto: pode confundir-lhes o entendimento.

Recorde-se que Martin Wolf é o autor de Why Globalization Works, uma das mais sérias defesas da globalização, que a seu tempo aqui discuti.


Cecily Brown: Sem título, 2004.

18.6.07

Estado mínimo



Ao tempo que Cavaco Silva era primeiro-ministro e o seu fiel escudeiro Ferreira do Amaral tratava das obras públicas, foram desmantelados todos os gabinetes de estudos de que o Estado dispunha.

A ideia não era totalmente errada. O Estado não precisa de ter grandes departamentos de estudos e planeamento que não só é impossível ocupar continuamente como têm dificuldade em atrair os maiores especialistas.

O erro, porém, é que, desde então, a administração pública, nesta como noutras áreas, foi totalmente esvaziada de know-how. Ora sucede que até para contratar trabalho, avaliar propostas e interpretar conclusão são necessárias competências. No Estado português escasseia hoje gente que saiba o que se fez ou não fez, e porquê, há dez ou vinte anos, razão pela qual os mesmos erros são repetidos uma e outra vez.

Um Estado sem know-how nem memória é um Estado incompetente e refém de interesses organizados, como o triste caso do novo aeroporto de Lisboa agora está a confirmar. Por que é que a alternativa de Alcochete nunca foi considerada antes? O mais natural é que ninguém saiba responder, porque quem esteve ligado a este processo há apenas uma década ou foi corrido ou não é ouvido.

E é assim que, na raiz destes males, vamos sempre encontrar a perversa aliança entre a captura do Estado por interesses particulares e a partidarização da administração pública que impede a existência de um alto funcionalismo capaz e prestigiado.

Um Estado mínimo, é o que isto é!

Cada vez percebo menos

O que até hoje tinha ouvido dizer era que a CIP se abalançara a patrocinar um estudo sobre localizações alternativas à Ota, tratando depois de encontrar empresas dispostas a financiá-lo.

Leio agora no DN coisa substancialmente diferente. Nos termos do comunicado do Governo, neste particular não desmentido: "... o senhor Presidente da CIP comunicou [ao Governo] que um grupo de empresários se dispunha a promover a elaboração de um estudo de localização alternativa à Ota (...) tendo solicitado à CIP que encabeçasse essa iniciativa."

Pergunto eu: afinal a iniciativa partiu da CIP, ou não foi a confederação mais do que uma conveniente fachada por detrás da qual se resguardaram os verdadeiros promotores da iniciativa?

(Outra coisa: cada vez se torna mais evidente que a força motriz por detrás destas movimentações é a Lusoponte, presidida pelo ex-ministro Joaquim Ferreira do Amaral. E parece-vos bem que Ferreira do Amaral tenha aceite dirigir os destinos de uma empresa que recebeu a concessão que hoje explora do mesmíssmo Ferreira do Amaral ao tempo em que era Ministro dos Transportes e Obras Públicas? Raio de sociedade civil, esta!)


Cecily Brown: Pyjama Game, 1998

Um problema filosófico difícil de engolir

A propósito da recente morte de Richard Rorty, Greg Mankiw recorda um tema que ele certa vez propôs aos seus alunos para discussão:
"Aliens from another planet, with vastly superior intelligence to humans, land on earth in order to consume humans as food. What argument could you make to convince the aliens not to eat us that would not also apply to our consumption of beef?"

Greg confessa ter-se tornado vegetariano durante algumas semanas.

17.6.07

60s Crash Course - Traffic: Paper Sun



George Herriman: Krazy Kat.

Uma história pouco clara

Segundo Rui Moreira, estava previsto que a Associação Comercial do Porto que ele dirige patrocinasse também, conjuntamente com a CIP e outra confederação não identificada (mistério!) o estudo de uma localização alternativa na margem Sul para o novo aeroporto de Lisboa.

Todavia, na sequência de uma reunião entre Sócrates, Lino e Van Zeller que terá tido lugar nos primeiros dias de Março, ficou decidido que a ACP ficaria de fora.

Parece-me normal que, no âmbito de um relacionamento civilizado entre as duas partes, a CIP tivesse informado o Governo das iniciativas que estava a tomar neste domínio.

Já o resto da história deixa-me algo perplexo, dado sugerir uma articulação de estratégias e propósitos que contraria a impressão geral que tem sido passada para a opinião pública.

Afinal, parece que o Governo não só recebeu bem o estudo da CIP, como terá de algum modo apadrinhado e incentivado a iniciativa, ao ponto de terem sido aceites as suas sugestões sobre o modo como as coisas deveriam ser organizadas.

Mais ainda, como explicar que o Governo tenha continuado publicamente a proclamar a sua inabalável fé na solução Ota, se - desde Março! - em privado já admitira, ao menos tacitamente, poder vir a reconsiderá-la?

Qual seria a intenção de José Sócrates? Como se prestou Lino a desempenhar o papel que desempenhou? Como se sentirão as muitas pessoas envolvidas no processo que, desconhecendo estas negociações secretas, continuaram a dar publicamente a cara pela opção defendida pelo governo? Como espera Sócrates poder no futuro contar com o empenhamento dos seus colaboradores se se gerar a suspeita de que poderá retirar-lhes o tapete a qualquer momento?

Finalmente, qual o papel exacto da CIP nisto tudo? Por que aceitou acertar a sua iniciativa com o governo, nomeadamente no que respeita às entidades envolvidas e às alternativas a analisar?

Fiquemo-nos, para já, por aqui.

PS - Uma nota final sobre a risível alegação de que o anonimato dos financiadores do estudo se deveria ao receio de represálias. Em primeiro lugar, em Portugal são os governantes quem tem receio das grandes empresas, dado que do bom relacionamento com elas depende, como o atestam tantos casos de mansa submissão, a sua carreira profissional após abandonarem o executivo. Em segundo lugar, como se explica que a CIP não tenha tido ela própria receio de represálias, se as associações empresariais sobrevivem entre nós à custa dos subsídios recebidos do Estado?

PPS: Também Pacheco Pereira e Paulo Gorjão acham esta história estranha.

Ir à frente



Toda a gente tem opinião sobre o logo dos JO de Londres 2012? A novidade não é essa. A novidade é que muita gente tem hoje meios para fazer ouvir a sua opinião.

O problema, então, é que cresce exponencialmente a tradicional dificuldade de fazer aprovar um logo por um grupo de pessoas cuja competência é insuficiente para tomar uma tal decisão.

Tenho constatado que, por regra, as pessoas esperam a um tempo de mais e de menos de um logótipo.

Um logo não é uma marca, é um sinal que vai servir de âncora para os múltiplos significados que a futura marca pretende agregar a si.

Assim, é espúrio exigir-se que o logo exprima directamente muita coisa.

Por exemplo, sendo Londres uma cidade tão conhecida, não é necessário que o logo "tenha algo de inglês ou de londrino". Do ponto de vista informativo, basta que mencione Londres e que inclua as cinco argolas olímpicas.

Se o logo é apenas um símbolo gráfico de escassa carga informativa, então o que se lhe exige é que seja compatível (ou,se preferirem, que não seja incompatível...) com os significantes e os significados que projectamos agregar-lhe.

Em seguida, é preciso pensar que, ao contrário do que agora sucede, o público quase sempre verá o logo em aplicações concretas, sejam eles publicidade, equipamentos desportivos, sinalética, mobiliário, bandeiras, etc. É indispensável que funcione bem nesses variadíssimos contextos.

Finalmente, e talvez fosse esse o problema mais difícil para quem se meteu a criar o logo dos JO de 2012, ele deverá ter um look contemporâneo daqui a cinco anos, o que é muito tempo em design.

Ora a única forma de conceber em 2007 algo que permaneça contemporâneo em 2012 é criar algo que, estando muito à frente, tenha a ambição de ser trend-setter. É isso que o grande público não compreende, e conjecturo que é disso que ele não gosta neste logo.

15.6.07

O Estado português ao serviço da Microsoft

Esqueçam por um momento a peixeirada do DREN e reflictam antes na questão que aqui se coloca: deve o Estado português colocar-se ao serviço das estratégias promocionais da Microsoft? O governo Sócrates parece ter criado uma nova figura típica portuguesa: o saloio tecnológico.

(Nota: Há muitas cadeiras Microsoft nas universidades portuguesas, o que não estaria mal se a empresa suportasse os respectivos custos.)

Se não bebe, então inala

14.6.07

60s Crash Course - The Searchers: Needles and Pins

Ele não se resigna

Espero que alguém tenha a bondade de comunicar estes resultados ao senhor Presidente da República. Até para ele poder comparar com os que obteve no seu tempo.

O teorema das vantagens comparativas revisitado

A globalização cultural atingiu um tal ponto de absurdo que, como há pouco pude constatar, os programas culinários que se podem ver num dos nossos canais de televisão são produzidos - de todos os sítios imagináveis! - nada menos do que na Inglaterra, a proverbial pátria da boa mesa.

Seria interessante ouvir o que David Ricardo teria para dizer sobre a maneira mais adequada de interpretar esta situação à luz da sua teoria do comércio internacional baseado nas vantagens comparativas de cada país.

Entretanto, cá fico à espera de programas tauromáquicos produzidos na Finlândia ou de séries de divulgação científica originárias da Mongólia. Pensando melhor, creio que não corremos esse risco...

13.6.07

Richard Rorty (1931-2007)



"What counts as being a decent human being is relative to historical circumstances, a matter of transient consensus about what attitudes are normal and what practices are just or unjust."

"A belief can still regulate action, can still be thought worth dying for, among people who are quite aware that this belief is caused by nothing deeper than contingent historical circumstance."

"There is such thing as moral progress, and (...) this progress is indeed in the direction of greater human solidarity. But that solidarity is not thought of as a recognition of a core self, the human essence, in all human beings. Rather, it is thought of as the ability to see more and more traditional differences (of tribe, religion, race, customs, and the like) as unimportant when compared with similarities with respect to pain and humiliation - the ability to think of people wildly different from ourselves as included in the range of «us»."

"Although the idea of a central and universal human component called «reason», a faculty which is the source of our moral obligations, was very useful in creating modern democratic societies, (...) it can now be dispensed with in order to help bring the liberal utopia [I favour] into existence."

"Criterion of a liberal: somebody who believes cruelty is the worst thing we do."

Extractos de Contingency, Irony, and Solidarity.

60s Crash Course - Taj Mahal: Ain't That a Lot of Love

12.6.07

60s Crash Course - Conjunto Académico de João Paulo: Please Please Me



Tem piada. Na minha recordação, isto ainda era pior do que de fact é. Ou, se calhar, sou eu que estou a tornar-me complacente. (Pronto já aproveitei a oportunidade para usar a bonita palavra "complacente" que raramente vem a propósito.)

11.6.07

Entrevista a Adolf Hitler, ditador



Embora Herman José tenha caído em desgraça, momentos como este tornam evidente que ele permanece muitos furos acima de qualquer outro cómico português. Quem perdeu o programa de ontem não deve perder este sketch.

A argolada

Como avaliar a decisão hoje anunciada por Mário Lino de adiar por seis meses a abertura do concurso de privatização da ANA e construção do novo aeroporto de Lisboa para permitir estudar a alternativa de Alcochete?

Se o Governo estiver de boa fé, teremos que concluir que se preparava para caucionar um projecto de investimento de dimensões colossais sem ponderar devidamente todas as alternativas existentes. Assim sendo, o Governo terá dado provas de insensatez e incompetência em larga escala ao longo dos últimos meses.

Pode, porém, suceder uma das seguintes coisas ou várias em simultâneo:

1. O Governo não estava de facto preparado para lançar o concurso da privatização no segundo semestre de 2007, e o adiamento hoje anunciado destina-se a esconder essa incapacidade à opinião púbica.

2. O Governo quer ajudar a campanha de António Costa retirando a questão do novo aeroporto de Lisboa do centro do debate.

3. O Governo não quer enfrentar a polémica em torno do aeroporto durante a presidência da UE.

4. O Governo quer fingir que dá ouvidos ao Presidente da República.

Francamente, não sei qual será a pior alternativa. Mas o que há de comum entre todas elas é a eventual má fé do executivo, visto que o adiamento seria, afinal, simulado e revelador de reserva mental. No fundo, o Governo apenas fingiria reabrir o processo durante alguns meses para depois, invocando a urgência da decisão, voltar a avançar a todo o gás com a Ota.

A minha conclusão é que, seja qual for a motivação do Governo, agiu mal e, como já se pode depreender dos comentários publicados nos blogues, não ganhará nada com isso.

Quem se lhe opõe vai argumentar que ou o Governo não sabia o que andava a fazer ou apenas pretende iludir-nos. Quem o apoia receia estarmos perante o regresso da pusilanimidade face às pressões das corporações e dos lóbis que caracterizou os governos de António Guterres.

PS - Concordo também com o que sobre este mesmo assunto escreve Vital Moreira. Ler também isto.

9.6.07

60s Crash Course - Manfred Mann: Mighty Quinn

Aventadas localizações alternativas para o novo aeroporto de Lisboa

Metodologia do estudo:
Scale of dragon, tooth of wolf,
Witch's mummy, maw and gulf
Of the ravin'd salt-sea shark,
Root of hemlock, digg'd i' th' dark;
Liver of blaspheming Jew,
Gall of goat, and slips of yew
Silver'd in the moon's eclipse;
Nose of Turk and Tartar's lips;
Finger of birth-strangled babe
Ditch-deliver'd by a drab
Make the gruek thick and slab.
Add thereto a tiger's chauldron
For the ingredience of our cauldron.

Double, double, toil and trouble;
Fire burn and cauldron bubble.

Cool it with a baboon's blood,
Then the charm is firm and good.

(Shakespeare: Macbeth)

Atentado à liberdade de expressão?

A caixa de comentários deste blogue desapareceu outra vez. Garanto que não é censura.

Informação

O Público de ontem informa que, segundo a OCDE, as pensões baixarão 40% em Portugal.

O Diário Económico de ontem informa que, segundo a OCDE, as pensões baixarão 30% em Portugal.

O que dirá, afinal a OCDE?

Desesperadamente em busca de notícias

A moda nova no Público é o Director ocupar os seus editoriais a polemizar com os comentadores do jornal que se desviam da linha justa.

Ontem, foi a vez de, contrariando implicitamente ideias antes expendidas por Vital Moreira, nos ensinar que, segundo um estudo internacional realizado não me lembro onde por não sei quem, o que os leitores de todo o mundo esperam dos jornais é que, primeiro, lhes tragam notícias, e que, segundo, sirvam de watchdogs (cães de guarda, em português) dos poderes públicos.

Será, mas um dos actuais problemas do Público é que, da primeira à última página, só lá encontramos opinião e mais opinião ideologicamente orientada. Se quisermos notícias, se nos apetecer muito saber mesmo o que se passou, teremos que ir procurar noutro sítio.

Notícias da terrinha

A Drª Margarida Carneiro enxovalhou o padre de Vieira do Minho, sugerindo-lhe que deveria voltar para a sacristia. O senhor padre queixou-se ao Presidente da República.

A burra da Ti Jaquina tem passado melhor.

Famosas últimas palavras

De Leonor Suárez, avó de Jorge Luis Borges: "Déjenme morir tranquila, carajo!"

60s Crash Course - P.P. Arnold: First Cut Is the Deepest

7.6.07

Como não discutir o aeroporto da Ota

Paulo Gorjão discutiu aqui, aqui e aqui a hipótese de a deslocação do aeroporto de Lisboa poder vir a prejudicar o turismo e, por decorrência, a economia da cidade.

Em apoio do seu ponto de vista invocou um estudo encomendado pela Associação de Turismo de Lisboa para avaliar o impacto do encerramento do aeroporto da Portela e da construção do da OTA sobre o afluxo de turistas estrangeiros à capital.

Vejamos então que conclusões podem ser retiradas desse trabalho:

1. Quem tem experiência destas coisas sabe como é difícil obter-se respostas fidedignas quando perguntamos a um grupo de pessoas o que acham de uma situação hipotética cujas consequências têm dificuldade em imaginar em todos os seus aspectos. Foi assim, por exemplo, que a IBM recusou em inícios dos anos 60 do século XX a patente que lhe permitiria fabricar fotocopiadoras por um estudo de mercado ter revelado que, em todo o mundo, não haveria procura para mais de 50 máquinas desse tipo.

2. A pergunta colocada aos inquiridos foi a seguinte: "Caso o aeroporto se situasse a 53 Km da cidade teria realizado esta viagem?" Como correctamente se escreve na Revista Turismo de Lisboa, a questão tem como pressuposto que nada seria feito para minorar o impacto do aumento da distância. Ora trata-se, evidentemente, de um pressuposto irrealista.

3. Apenas 5,6% dos inquiridos responderam "certamente que não". Outros 12,2% responderam "provavelmente não". Logo, não é correcto nem sério afirmar-se que a deslocação do aeroporto para a Ota faria dimiuir em 17,8% o turismo da capital. "Provavelmente não" não é a mesma coisa que "certamente não".

4. Ou seja, mesmo admitindo que os respondentes estão em condições de avaliar rigorosamente a alternativa que lhes é colocada, a conclusão a tirar é que o impacto da deslocalização sobre o turismo deverá ser negligenciável, dado que apenas 5,6% dos respondentes pensam que teriam cancelado as suas viagens. É essa a única conclusão rigorosa que se pode tirar.

5. Imaginemos, porém, que a pergunta era outra, algo do género: "Caso o aeroporto se situasse a 53 Km da cidade, mas fosse possível chegar de comboio ao centro em meia hora, teria realizado esta viagem?" Qual seria a resposta?

6. Poderíamos imaginar outras alternativas: "O que prefere: esperar uma hora pela bagagem, ou recebê-la no prazo máximo de meia hora e gastar mais meia hora para chegar à cidade num confortável comboio?" Ou ainda: "O que prefere: que o seu avião se atrase meia hora devido ao congestionamento do tráfego aéreo, ou gastar meia hora para chegar à cidade num confortável comboio?" É claro que estas perguntas são tendenciosas. Mas também a primeira o é, e ainda tem o defeito de, ao contrário delas, não confrontar as pessoas com as alternativas que de facto se colocam.

Não espero convencer nem o Paulo nem ninguém com estas breves linhas sobre um assunto de enorme complexidade. O meu ponto é que a interpretação das respostas a um inquérito é matéria que exige alguma qualificação e experiência, pois não é óbvio que conclusões poderemos dele tirar.

Agora, note-se que estamos a discutir apenas uma parte ínfima dos inúmeros problemas que envolvem o planeamento e a construção do novo aeroporto. Será possível um grupo de leigos chegar em tempo útil a uma conclusão fundamentada sobre a totalidade das questões que o tema envolve?

Para mim, fica com isto demonstrada a futilidade de se procurar entregar a um público de não especialistas a resolução do assunto. Como já se viu, é fácil lançar dúvidas sobre dúvidas sem qualquer fundamento, mas é muito difícil - em última análise impossível - rebatê-las uma por uma a contento de uma plateia de milhões de leigos.

É peixeirada que queremos?

(Ainda sobre este tema, ler as interveñções de Eduardo Pitta aqui, aqui e aqui.)

60s Crash Course - Rolling Stones: We Love You

6.6.07

Maxi-mistério

Que legitimidade tem José Sócrates para apoiar a proposta do mini tratado europeu avançada pelo Presidente francês?

Assumiu esse compromisso perante o eleitorado português? Abordou o assunto com o Presidente da República? Promoveu algum debate na Assembleia? Deu conhecimento do facto ao Governo? Aconselhou-se com a família?

(Mais perguntas relevantes aqui.)

Intimidação

Concorde-se ou não com as declarações do José Luís Saldanha Sanches, do que não há dúvida é que está em curso uma despudorada manobra de intimidação. Olhem para as corporações todas a movimentarem-se em bloco.

E a caligrafia, não é importante?

Toda a gente fala da importância da ortografia, mas esquece-se da caligrafia. Está mal, está mal. Logo que possa, voltarei ao assunto.

PS - É uma tristeza viver num país de gente estúpida.

5.6.07

Teoria da Conspiração

O triste caso Maddie McCann comprova de forma concludente como uma boa agência de relações com a imprensa consegue controlar a agenda mediática durante semanas a fio.

Imaginem agora que, em vez de uma família particular, o cliente era antes, digamos, o Governo dos Estados Unidos.

4.6.07

60s Crash Course - Muhammad Ali Vs. Sonny Liston (1965)



Um público esmagadoramente branco vaiou Ali - que acabara de se converter ao Islão, rejeitar o seu "nome de escravo" (Cassius Clay) e invocar objecção de consciência para se recusar a combater no Vietname - e aplaudiu entusiasticamente o pobre Sonny Liston, que não merecia isso. No final do combate, que não durou sequer um round, o desapontamento dos espectadores foi enorme. Nunca um Campeão do Mundo de boxe foi tão assobiado.

2.6.07

Retaliação

Se o João Miranda persiste em escrever sobre temas económicos, eu um dia destes ponho-me a opinar sobre biologia.

1.6.07

Dicionário de eufemismos

Depois de Telmo Correia ter "de certo modo nascido em Alvalade" é agora a vez de Jerónimo de Sousa admitir que houve conversas "quase telefónicas" entre o PS e o PCP tendo em vista uma eventual coligação para concorrer ao município de Lisboa.

A campanha poderá vir a revelar-se politicamente nula, mas, pelo menos do ponto de vista linguístico, já nos presenteou com alguns momentos de grande valia.

60s Crash Course - The Beatles: Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band

60s Crash Course - John Dunning: Yellow Submarine (Trailer)



It was 40 years ago today...