31.1.08

Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço

Imaginemos que o FMI era chamado a intervir nos EUA para ajudar a fazer frente à calamitosa situação económico-financeira actual. Qual seria a receita proposta?

É muito fácil de adivinhar: aumento da taxa de juros, subida da carga fiscal, contracção da despesa, tudo tendo em vista estimular a poupança pública e privada, equilibrar as contas públicas e melhorar a competitividade externa.

Consequências inevitáveis: quebra do consumo e do investimento e subida em flecha do desemprego; muita gente incapaz de pagar as suas hipotecas a ser despejada das casas que habita; agitação social galopante. Não dava nenhum jeito em ano de eleições, pois não?

Pois é, mas esta receita tem sido imposta sem apelo nem agravo um pouco por todo o mundo, desde a Indonésia à Argentina, sem esquecer as nossas duas crises financeiras de 1978 e 1982. Nessas alturas, os sacrifícios impostos eram declarados inevitáveis para forçar os povos atingidos, alguns bem miseráveis, a "não consumirem mais do que produziam".

Temos que entender que os americanos são demasiado frágeis e sensíveis para poderem suportarem taxas de desemprego elevadas. Para eles, e só para eles, a recessão deve ser evitada baixando os juros e os impostos para estimular o consumo.

Tudo o que vos contaram era mentira.


Yayoi Kusama: Infinity Nets.

30.1.08

2008, Ano Internacional da Batata

Desidério Murcho parece ignorar (ler aqui) a diferença entre língua e ortografia, o que lhe permite investir contra aquilo que designa como tentativa de "legislar sobre a língua" a propósito do acordo ortográfico luso-brasileiro.

E, todavia, basta pensar um bocadinho para entender que nenhuma convenção ortográfica altera sequer o modo como as pessoas pronunciam as palavras, muito menos a língua ela própria. Se assim não fosse, elefante teria de escrever-se "ilfant"; Setúbal, "Stúbol"; e Portugal, "Pretegól".

Como seria de esperar, Desidério believes they order these things better in England: "Não há tal coisa [leis sobre a ortografia], tanto quanto sei, nos países de língua inglesa; e no entanto os livros americanos e ingleses circulam entre os dois países sem dificuldades". Sabe mal, pelo menos em relação à segunda parte da sentença, dado que as obras de autores ingleses, sobretudo ficcionistas, sofrem alterações significativas quando são editadas nos EUA, o que até tem dado lugar a conflitos entre escritores e editoras em certos casos em que as correcções foram muito para além da mera grafia, afectando inclusive a construção das frases.

Mas, sobretudo, Desidério não tem em conta que o mundo de língua inglesa não é esmagadoramente dominado pelos americanos do mesmo modo que o de língua portuguesa o é pelos brasileiros. Ora é essa a raiz do problema que o acordo ortográfico visa resolver.

Desidério, que manifestamente nunca se debruçou a sério sobre o tema, alvitra que a melhor maneira de conseguir a uniformidade ortográfica - à qual, presumo, reconhecerá alguma utilidade - é deixar que ela se inspire nos "dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais."

Não fica claro que espécie de mecanismo de selecção impedirá que um dicionário opte por "elefante" e outro por "ilfant", dado que se trata de uma mera convenção, mas a questão central nem é essa.

Desidério Murcho parece ignorar que na generalidade dos países, e também em Portugal, a normalização da ortografia tem estado a cargo de instituições da sociedade civil aptas para tal, por regra Academias das Artes ou das Ciências, e que os Estados se têm limitado a sancionar essas orientações tendo em vista o seu ensino nas escolas e a sua aplicação em documentos oficiais. Como a leitura dos nossos jornais diariamente o comprova, ninguém vai preso pela prática reiterada de erros de ortografia - embora às vezes cheguemos a perguntar-nos se a pena de morte não deveria ser prevista em certas situações particulares.

Em Portugal, a única vez em que o Estado tomou a iniciativa de intervir directamente na fixação da norma ortográfica, nomeando especialmente uma comissão para o efeito, foi, creio eu, em 1911. De resto, a regra tem sido deixar o assunto a cargo da Academia das Ciências de Lisboa, a qual por sua vez discute desde 1980 com a Academia Brasileira de Letras (retomando, aliás, uma tradição já antiga) os termos de uma possível uniformização válida em todo o mundo de língua portuguesa.

Os Estados português e brasileiro só são chamados a intervir no processo para sancionarem os termos do acordo conseguido.

Suspeito que Desidério Murcho não sabe nada disto. Ele coloca-se na posição do mero técnico de ideias gerais, e a ideia geral que, neste como noutros casos, tem para nos propor é esta:
"A discussão sobre o acordo ortográfico não deve abordar exclusivamente a questão de saber se é linguisticamente acertado ou comercialmente vantajoso. Deve abordar também a questão mais fundamental de saber que tipo de sociedade queremos ser: uma sociedade que preza a liberdade, ou uma sociedade centralista, sufocada por leis sem as quais a vida não seria previsivelmente pior."
Este é precisamente o tipo de abordagem doutrinária que dá má fama ao liberalismo, uma ideia de grande valor que, pela minha parte, não estou disposto a abandonar a quem dela faz tão mau uso.

O autor da citação afirma que sem o acordo "a vida não seria previsivelmente pior", mas recusa-se a ponderar as vantagens e as desvantagens linguísticas e comerciais do acordo. Como pode ele então estar tão certo de que a ausência do acordo não afectará negativamente as nossas vidas?

Não sabe, evidentemente, nem está interessado em saber, porque toda a sua argumentação parte do dogma indiscutível segundo o qual a uniformização ortográfica destrói a liberdade. Retire-se esse postulado insensato, e não fica nada.

(Este post foi também colocado no 5 Dias, onde, a partir de hoje, estarei 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não, o bl-g--x-st- não vai acabar; mas é natural que sofra uma reorientação, embora eu ainda não saiba muito bem como nem em quê.)

Oxalá

O Luís Jorge propõe sobre a demissão de Correia de Campos uma interpretação optimista, mas, creio eu, equivocada. São as reformas da Saúde, sim senhor, que se encontram adiadas, pelo menos até ao fim da presente legislatura.

O mais grave de tudo isto é que, apesar do muito que Campos conseguiu fazer para, racionalizando o SNS, preservá-lo e melhorá-lo, as despesas do Estado com a saúde nunca pararam de aumentar nestes últimos anos. Por outras palavras, as coisas ainda não tinham chegado ao ponto de se conseguir estancar o sorvedoiro de dinheiros públicos.

A escolha de uma mulher próxima de Manuel Alegre faz temer uma nova era de arranjinhos do Ministério com os sindicatos, as ordens e as autarquias, ou seja, com os poderes fácticos cujos interesses no passado tantas vezes hegemonizaram a política de saúde em Portugal. A menos, é claro, que a identificação política da Ministra com a "esquerda" do PS venha a revelar-se um equívoco motivado por uma interpretação errada do seu alinhamento ideológico. Oxalá.

Os primeiros testes às intenções reais da ministra serão a conclusão em tempo útil do processo de abertura de farmácias nos hospitais públicos e a entrada em vigor do sistema de controlo de cumprimento dos horários de trabalho dos médicos, ameaças suficientemente fortes para terem levado Pedro Nunes (bastonário da Ordem dos Médicos) e José Aranda e Silva (ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos) a subscreverem o abaixo-assinado do Bloco de Esquerda em defesa do Serviço Nacional de Saúde supostamente ameaçado pelo ministro cessante.

29.1.08

Pulsão de morte

A primeira página do Público de hoje confirma o entusiasmo que por lá reina face à eventualidade de uma recessão económica mundial. Parece que estão com pressa de fechar o jornal.

28.1.08

O que o Yustrich fez ao Hernâni

Tem alguma razão Pacheco Pereira: o êxito nos blogues assenta em parte na capacidade de emitir patacoadas. Este post, que trouxe hoje até cá uma revoada de benfiquistas ressentidos e portistas assarapantados, não é bem uma patacoada, mas anda lá perto.

Convém deixar claro que, mesmo sem jogar nada, o Sporting mereceu ganhar. O futebol tem mais moral que as fábulas de La Fontaine, razão por que seduz tantas almas perdidas. Essa história das vitórias morais e das derrotas azaradas é, no essencial, apenas uma ilusão para acarinhar o ego de quem nem merece beijar a relva que pisa. Cada bola que bate na trave e se recusa a entrar é uma mensagem do mundo ultra-sensível que significa: "Ora vai lá fazer penitência e depois volta a tentar."

O FC Porto perdeu no domingo com toda a justiça, porque os seus jogadores resolveram vir brincar para Alvalade, e só a uns dez minutos do final se deram conta de que aquilo afinal não eram favas contadas.

O que se passou serve aliás na perfeição para ilustrar o tipo de problemas com que o Jesualdo hoje se confronta. A equipa acha, com alguma razão, que esta Liga não está à sua altura e que os jogos que nela é forçada a disputar não passam de uma perda de tempo e de energias na perspectiva da única prova que lhe interessa - a Liga dos Campeões - tanto pelo gozo que lhe dá como pela valorização desportiva que proporciona aos jogadores que a compõem tendo em vista a ambicionada promoção a uma equipa estrangeira mais rica.

Acresce que o FC Porto tem hoje nas suas fileiras dois grandes talentos enjoados e mal-criados chamados Bosingwa e Quaresma que desafiam quotidianamente a autoridade do treinador e minam o ambiente na equipa, pois o que os motiva é exibirem-se perante os olheiros e serem seleccionados para o Europeu. Noutros tempos, haveria alguém no balneário para metê-los na ordem (eventualmente fazendo o que o Yustrich fez ao Hernâni), mas hoje não há.

A única solução ao alcance do Jesualdo consiste em fazer-lhes ver que só clubes tontos estarão dispostos a investir milhões em prima-donnas indisponíveis para se dedicarem de alma e coração às suas equipas, e que, depois da triste experiência dos Galácticos madrilistas, há cada vez menos tontos desses por aí.

A jogar como ontem o fez em Alvalade, o FC Porto arrisca-se a fazer figura de urso já na próximo mês frente ao Schalke 04, e se não for nessa eliminatória será na seguinte. Julgam que isso é outra coisa? Desiludam-se, com desempenhos como o de ontem, uma equipa desune-se e desaprende de vencer.

Com a atitude que tem hoje, auguro ao Quaresma uma bela carreira como suplente no Real Madrid, depois no Atlético de Madrid, e depois no Bolton, para em fim de carreira recuperar finalmente a titularidade ao serviço do Sporting.

Marie Mengès: Tu Vas M' Prendre

Clareza moral

Interroga o Público de hoje na sua segunda página:
Violações aos direitos humanos e milhares de mortos. Crescimento económico de um país de 17 mil ilhas. O que recordar do Presidente [Suharto] que ontem morreu?
É só fazer uma análise custo-benefício e verificar se o ganho económico por morto é aceitável. Estou certo que o jornal conhece a fórmula.

("Milhares de mortos" é, definitivamente, o eufemismo do dia.)

Para contar aos netos

Hoje foi uma noite de sonho para os lagartos: tiveram direito a uma lição absolutamente grátis de como se joga futebol e ainda conseguiram ganhar por dois a zero. Uma coisa assim, só uma vez em cada século.

24.1.08

Afinal a intervenção da Reserva Federal foi um engano

Esta é a notícia do dia, não sendo claro se é para rir ou para chorar. Segundo o MarketWatch do Dow Jones:
The huge losses in Europe on Monday -- which caused fright throughout the rest of the world -- probably were caused as much, if not more, by Societe Generale unwinding what had been a big long position in Europe's top stock-market indexes than by any concern about the broader economy. (...)

In retrospect, the losses now make much more sense. For example, RWE , a utility, lost roughly as much as Deutsche Bank, the big bank, on Monday. If the bet is that the world, and in particular the U.S. economy, is going to go off a cliff, then RWE won't suffer nearly as much as Deutsche Bank.

However, if the DAX is being sold as a whole -- as would have happened if a big index futures position was being sold -- then those two constituents are going to be bruised fairly equally.

That's not to say that the fears of a U.S. recession aren't valid. But the market's recovery from lows earlier this week hints that perhaps those concerns were overblown.

It also raises the disturbing question of whether the Federal Reserve was spooked into making an emergency rate cut on the back of what was just technical selling. The Fed by its own admission met Monday night - after the overseas selling was clear.

This rogue trader may have ending up pressing more buttons than even he imagined.
Para quem não está a par, descobriu-se esta semana uma fraude em grande escala cometida pelo trader Jerome Kerviel na Société Générale, um dos maiores bancos europeus. Ao que parece, a brusca quebra dos mercados bolsistas na 2ª feira foi uma antecipação das consequências do buraco financeiro aberto na Société Génerale e não uma reacção à perspectiva de uma recessão nos EUA.

Como Bernanke confessou hoje não estar a par do que se passara no banco francês, parece poder concluir-se que, afinal, o corte de 75 pontos percentuais da taxa de juro decidido pela Reserva Federal resultou de um mal-entendido!

É bem verdade que os americanos andam sempre muito mal informados sobre o que se passa no resto do mundo. Ninguém pode sentir-se tranquilo com a falta de discernimento de gente que concentra tanto poder nas suas mãos.

23.1.08



Anselm Reyle: Sem título, 2006.

Fim

Com a lucidez e o sentido de equilíbrio habituais, o Lutz resume em poucas palavras o que ainda poderia haver para dizer sobre a abortada visita do Papa a La Sapienza em dois posts luminosos:

Explica-me outra vez, como se fosse muito estúpido

e

O estatuto

Por mim, dou o caso por encerrado.

Rádios, televisões, jornais, escolas, universidades, etc.

Escreve hoje Pedro Marques Lopes no Atlântico:
"De todos os argumentos que oiço e leio sobre uma imaginária cruzada de algumas almas sem deus contra as igrejas cristãs, nomeadamente a Igreja Católica, há um que me deixa particularmente espantado (o de acharem que se quer cortar a voz a membros desta Igreja não me espanta dá-me apenas vontade de rir. Basta ver os muitos milhares de locais de culto, rádios, televisões, jornais, escolas, universidades etc etc de que dispõe por exemplo a Igreja Católica para se perceber o ridículo da afirmação). É ele o desses hereges estarem muito preocupados com a intolerância da Igreja e supostamente conviverem bem com os fundamentalismos islâmicos. Com as devidas desculpas, isto, além de ofensivo - mas isso, para ser franco, já não faz mossa - é completamente disparatado e em larga medida, perigoso."
Ámen.


Anselm Reyle: Sem título, 2006.

22.1.08

The real thing



Interrogado sobre o que pensa de um dos seus filhos se ter voluntariado para combater no Iraque, John McCain respondeu que as questões privadas não devem misturar-se com as questões políticas.

É evidente que este silêncio pode não passar de uma forma ardilosa de o candidato retirar dividendos políticos dessa particular situação familiar. Mas a verdade é que, vindo dele, não parece.

McCain leva a sua franqueza ao ponto de admitir frontalmente ter cedido por vezes no passado à tentação de pactuar com certas formas de demagogia no propósito de ganhar votos. Mais uma vez, isto pode ser apenas uma forma superior de demagogia, mas eu não fico com essa impressão.

Prisioneiro de guerra torturado pelos seus carcereiros durante a guerra do Vietname a ponto de ter sofrido lesões irreversíveis, o candidato republicano não aparenta ser guiado pelo ressentimento ou pela tentação de se armar em herói, qualidade que poucos como ele poderiam legitimamente invocar.

Na campanha de há oito anos foi alvo das mais torpes calúnias oriundas da candidatura de George Bush, mas recusou-se e recusa-se a pagar-lhe na mesma moeda.

John McCain sustenta que a retirada imediata e incondicional das tropas americanas do Iraque seria uma traição ao povo iraquiano e aos seus aliados. Obviamente, tem toda a razão no que diz.

Numa época dominada pelo cinismo, é excelente aparecer um político cujas atitudes e postura inspiram genuína confiança aos eleitores. McCain é, a meu ver, a garantia de que, também do lado republicano, há pelo menos um candidato cujos padrões de inteligência, carácter e mera decência o tornam numa boa escolha para Presidente dos EUA.

21.1.08

Quem quer mesmo ser milionário?



"O momento ideal para investir é quando há sangue a correr nas ruas", eis o imortal conselho do banqueiro Nathan Rothschild, fundador da dinastia do mesmo nome cuja fortuna se multiplicou com a derrota de Napoleão em Waterloo.

A recomendação é válida com duas qualificações:

a) Desde que se tenha dinheiro - de preferência muito dinheiro - para investir

b) Desde que ao sangue não se siga ainda mais sangue

Entretanto, pelo sim pelo não, recordem nas vossas orações desta noite aquela mão cheia de desgraçados que hoje vai para cama com menos um milhar de milhão de euros do que ontem.

Mentir é pecado



Paul Feyerabend (na foto, pouco tempo antes da sua morte, em 1994) afastou-se do círculo de Karl Popper (Sir para os amigos) quando concluiu que a tentativa de circunscrever a actividade científica a uma metodologia definida por um conjunto de princípios, regras e procedimentos imutáveis coloca entraves inaceitáveis à investigação.

O estudo da prática científica ao longo dos séculos persuadiu-o de que as grandes descobertas só tiveram lugar porque os cientistas se permitiram ignorar um ou vários dos princípios metodológicos popperianos, comportando-se como oportunistas mais preocupados em marcar pontos nas polémicas em que se haviam envolvido do que em seguir os procedimentos considerados mais adequados pelas pessoas respeitáveis, filósofos da ciência incluídos.

O confronto entre Galileu e a Igreja serviu precisamente a Feyerabend para ilustar essa sua opinião. Embora hoje ninguém duvide de que Galileu estava certo, a verdade é que, na altura, a sua posição tinha pontos fracos, entre os quais a ausência de provas concludentes de que a luneta astronómica reflectia adequadamente a realidade. Como seria de esperar em quem parte de uma posição mais fraca, ainda por cima em contradição com muito do que à data se julgava saber sobre o ordenamento do Universo, Galileu recorreu a todos os truques de retórica ao seu alcance para valorizar a teoria heliocêntrica e desacreditar a posição do seu antagonista, no caso o Cardeal Belarmino.

Na ocorrência, Belarmino revelou-se frequentemente mais respeitador das boas regras da Razão (como aliás seria de esperar de um partidário de Aristóteles) do que Galileu, a quem convinha enfatizar certas observações empíricas parcelares. Vê-se por aqui que a passagem de Feyerabend citada por Ratzinger não visava apoiar Belarmino, mas apenas mostrar que, se Galileu se tivesse deixado embaraçar por pruridos popperianos, provavelmente teria perdido o debate.

Ora bem, foi neste contexto argumentativo que Feyerabend lançou a palavra de ordem do seu provocatoriamente chamado anarquismo epistemológico: "anything goes". Com isso pretendia apenas sublinhar que o único princípio metodológico que não corre o risco de inibir o crescimento da ciência consiste em deixar os próprios cientistas decidirem qual a estratégia de investigação mais adequada em cada momento.

Tudo isto permite entender que a invocação que Ratzinger fez de Feyerabend em apoio da sua polémica contra o Iluminismo não foi séria. Ou não entendeu o que ele escreveu (talvez por só conhecer os seus escritos em segunda mão) ou distorceu voluntariamente os seus pontos de vista. Pior ainda é pretender agora - quando, sendo Papa, não lhe dá jeito recordar o episódio - que, em 1990, se distanciou de Feyrabend, alegação que a leitura do texto da conferência não permite confirmar. Num julgamento pouco caridoso, talvez pudéssemos chamar a isto uma mentira, mas não é preciso irmos tão longe, não é verdade?

PS - Morre-se de frio no Metropolitano de Lisboa.

Política tablóide, mas em bom

Remodelação governamental

18.1.08

O palácio das araras

Qualquer pessoa bem informada sabe que, esta semana, o Papa Bento XVI foi impedido de proferir uma conferência na universidade La Sapienza por um pequeno grupo de professores e alunos que denunciaram declarações por ele alegadamente produzidas em 1990 em defesa da posição assumida pela Inquisição na sua condenação de Galileu ocorrida há quatro séculos.

Não ignora tampouco que toda esta movimentação académica assentou numa falsidade, dado que Ratzinger se limitou na mencionada intervenção a citar a opinião do filósofo da ciência austríaco Paul Feyerabend, tendo mesmo aproveitado essa ocasião para se demarcar dela.

Pois é, todos sabemos isso. Mas acontece que essa versão dos acontecimentos, diligentemente propagada por um numeroso coro internacional de papagaios (entre os quais o inevitável Vasco Pulido Valente) é falsa.

Ninguém proibiu o Papa de falar. Um grupo de pessoas criticou o convite dirigido por Renato Guarini, o reitor da universidade romana, a Josef Ratzinger - um direito que ninguém lhes pode negar, por muito disparatada que possa ser a sua opinião. A iniciativa de cancelar a conferência partiu do próprio Papa, segundo o cardeal Tarcisio Bertone para evitar "protestos desagradáveis". Por outras palavras, o chefe do Vaticano não estava disposto a sofrer contestações, o que também se compreende, até porque ele não é nenhum Cristo.

Acresce que, como se pode constatar pela leitura do texto lido pelo futuro Papa há 17 anos atrás (ver o meu post anterior), as suas declarações de então configuram de facto uma polémica contra a ciência moderna e uma tentativa de apagar da memória histórica o obscurantismo de que, durante séculos, a Igreja deu provas.

O recurso à citação de Feyerabend foi um mero expediente de retórica a que Ratzinger já nos habituou: quando quer dizer algo que pode implicar algum risco, arranja alguém que o diga por ele. Lembram-se da citação do imperador bizantino dirigida contra Maomé?

O espantoso disto tudo é que, num mundo em que a informação circula com tanta facilidade e rapidez, seja tão fácil pôr a circular uma versão que deturpa de forma tão grosseira os factos. Que bloggers permanentemente excitados e indignados agarrem neste episódio para agitar o espantalho de um renascimento das perseguições religiosas, ainda vá; mas é muito mais difícil entender que directores de jornais e comentadores com grande impacto se ponham a denunciar a repressão do direito de expressão do chefe da Igreja Católica sem procurarem sequer inteirar-se do que foi efectivamente dito e escrito.

Como será possível uma opinião pública informada nesta situação de permanente cacofonia mediática?

O que Ratzinger verdadeiramente disse

Eis alguns extractos que consegui encontrar (em tradução inglesa) do que Ratzinger verdadeiramente disse na famosa conferência proferida em 15 de Março de 1990 em Parma:
In the last decade, creation’s resistance to allowing itself to be manipulated by humanity has emerged as a new element in the overall cultural situation. The question of the limits of science, and the criteria which it must observe, has become unavoidable.

Particularly emblematic of this change of intellectual climate, it seems to me, is the different way in which the Galileo case is seen.

This episode, which was little considered in the 18th century, was elevated to a myth of the Enlightenment in the century that followed. Galileo appeared as a victim of that medieval obscurantism that endures in the Church. Good and evil were sharply distinguished. On the one hand, we find the Inquisition: a power that incarnates superstition, the adversary of freedom and conscience. On the other, there’s natural science represented by Galileo: the force of progress and liberation of humanity from the chains of ignorance that kept it impotent in the face of nature. The star of modernity shines in the dark night of medieval obscurity.

Today, things have changed.

According to [Ernst] Bloch, the heliocentric system – just like the geocentric – is based upon presuppositions that can’t be empirically demonstrated. Among these, an important role is played by the affirmation of the existence of an absolute space; that’s an opinion that, in any event, has been cancelled by the Theory of Relativity. Bloch writes, in his own words: ‘From the moment that, with the abolition of the presupposition of an empty and immobile space, movement is no longer produced towards something, but there’s only a relative movement of bodies among themselves, and therefore the measurement of that [movement] depends to a great extent on the choice of a body to serve as a point of reference, in this case is it not merely the complexity of calculations that renders the [geocentric] hypothesis impractical? Then as now, one can suppose the earth to be fixed and the sun as mobile.”

Curiously, it was precisely Bloch, with his Romantic Marxism, who was among the first to openly oppose the [Galileo] myth, offering a new interpretation of what happened: The advantage of the heliocentric system over the geocentric, he suggested, does not consist in a greater correspondence to objective truth, but solely in the fact that it offers us greater ease of calculation. To this point, Bloch follows solely a modern conception of natural science. What is surprising, however, is the conclusion he draws: “Once the relativity of movement is taken for granted, an ancient human and Christian system of reference has no right to interference in astronomic calculations and their heliocentric simplification; however, it has the right to remain faithful to its method of preserving the earth in relation to human dignity, and to order the world with regard to what will happen and what has happened in the world.”

If both the spheres of conscience are once again clearly distinguished among themselves under their respective methodological profiles, recognizing both their limits and their respective rights, then the synthetic judgment of the agnostic-skeptic philosopher P. Feyerabend appears much more drastic. He writes: “The church at the time of Galileo was much more faithful to reason than Galileo himself, and also took into consideration the ethical and social consequences of Galileo’s doctrine. Its verdict against Gaileo was rational and just, and revisionism can be legitimized solely for motives of political opportunism.”

From the point of view of the concrete consequences of the turning point Galileo represents, however, C.F. Von Weizsacker takes another step forward, when he identifies a “very direct path” that leads from Galileo to the atomic bomb.

To my great surprise, in a recent interview on the Galileo case, I was not asked a question like, ‘Why did the Church try to get in the way of the development of modern science?’, but rather exactly the opposite, that is: ‘Why didn’t the church take a more clear position against the disasters that would inevitably follow, once Galileo had opened Pandora’s box?’

It would be absurd, on the basis of these affirmations, to construct a hurried apologetics. The faith does not grow from resentment and the rejection of rationality, but from its fundamental affirmation and from being inscribed in a still greater form of reason …

Here, I wished to recall a symptomatic case that illustrates the extent to which modernity’s doubts about itself have grown today in science and technology.
Independentemente de Ratzinger ter ou não razão no que diz - e, em minha opinião, há muito de verdade nas suas afirmações - é inegável, ao contrário do que o Vaticano e ele próprio agora pretendem, a intenção polémica dirigida contra a ciência moderna. Não há nada como falar com conhecimento de causa, não é verdade?

Comércio e desigualdade

Um leitor cuja liberdade de expressão se encontra condicionada pela participação do governo chinês no banco onde trabalha, e que, por isso mesmo, não pode identificar-se, pergunta-me o que penso eu da divergência pública entre Hilary Clinton e o comissário europeu Peter Mandelson a propósito do futuro do comércio internacional, assim resumida no Financial Times do passado dia 6 de Dezembro:
Hillary Clinton, the Democratic frontrunner in the US presidential campaign, came under fire from Europe's top trade negotiator yesterday for suggesting that, if elected, she might not press hard for a new global trade pact.

"The apparent scepticism about a Doha world trade deal that Mrs Clinton expressed in the Financial Times this week, and her suggestion that there is a need to shelter American companies and interests from foreign investment, are a disappointing sign of the times," said Peter Mandelson, European Union trade commissioner.

His remarks represented an unusually direct intervention by a foreign politician in a US presidential election, not least because he singled out the opinions of one particular candidate for criticism.
Em vez de responder directamente, prefiro dar a palavra a Paul Krugman, um indiscutível especialista na matéria:
Those who think that globalization is always and everywhere a bad thing are wrong. On the contrary, keeping world markets relatively open is crucial to the hopes of billions of people.

But I am arguing for an end to the finger-wagging, the accusation either of not understanding economics or of kowtowing to special interests that tends to be the editorial response to politicians who express skepticism about the benefits of free-trade agreements.

It’s often claimed that limits on trade benefit only a small number of Americans, while hurting the vast majority. That’s still true of things like the import quota on sugar. But when it comes to manufactured goods, it’s at least arguable that the reverse is true. The highly educated workers who clearly benefit from growing trade with third-world economies are a minority, greatly outnumbered by those who probably lose.

As I said, I’m not a protectionist. For the sake of the world as a whole, I hope that we respond to the trouble with trade not by shutting trade down, but by doing things like strengthening the social safety net. But those who are worried about trade have a point, and deserve some respect.
Um caso complicado, como é evidente, que não pode ser respondido brandindo proclamações abstractas, mas apenas analisando caso a caso as consequências das políticas comerciais sobre os níveis de desigualdade económica e social.

Fico com o teu sistema se tu ficares com o meu

A aquisição de vultuosas participações no capital de grandes bancos americanos por fundos de investimento controlados pela República Popular da China talvez tenha implícita a ideia de que, embora o capitalismo seja uma boa ideia para a China, os EUA poderão, em contrapartida, ter algo a ganhar com uma dose moderada de socialismo.

17.1.08

Agora é mesmo a sério

Fundos de investimento controlados por estados nacionais asiáticos estão a comprar grandes participações em instituições financeiras americanas de primeiro plano que se encontram urgentemente necessitadas de injecções de capital.

Eis uma lista parcial compilada esta semana por Andrew Leonard:
Citigroup: $7.5 billion from Abu Dhabi Investment Authority and $6.88 billion from Government Investment Corp. of Singapore.

Morgan Stanley: $5 billion from China Investment Corp.

Merrill-Lynch: $5 billion from Singapore's Temasek Holdings, $6.5 from Kuwait Investment Authority, $2 billion from Korean Investment Corp.

Bear Stearns: $1 billion from China Investment Corp.

UBS: $10 billion from the Government Investment Corp. of Singapore.
Meu Deus, agora é que os governos - ainda por cima de olhos em bico ou turbante e, nalguns casos, comunistas - estão mesmo a tomar conta dos bancos! E o mais interessante é que este drama é o resultado da permissividade sem peias das políticas financeiras norte-americanas.

Uma questão séria

Dentro de alguns meses, o Governo terá que escolher o modelo de privatização da ANA Aeroportos de Portugal, um assunto bem mais relevante do que a escolha entre Ota e Alcochete que tanto excitou a opinião pública para além dos limites do razoável.

A ANA gere actualmente todos os aeroportos nacionais, com excepção dos da Madeira, cuja concessão reparte com a Região Autónoma da Madeira. Significa isso que o Estado português se preparar para privatizar mais um monopólio, como já fez com a REN e projecta fazer com as águas.

O modelo de privatização da ANA parece, tanto quanto se sabe, assentar em três pressupostos: a) alienação conjunta de todas as concessões detidas pela ANA a um mesmo consórcio; b) adjudicação a esse mesmo consórcio da construção e exploração do novo aeroporto de Lisboa; c) conservação de uma participação do Estado que poderá ir até aos 50%.

Os aeroportos portugueses concorrem pouco entre si, embora seja possível que no futuro venham a concorrer mais. Por outro lado, não só o sistema aeroportuário nacional concorre globalmente com o espanhol, como o Porto concorre com os aeroportos galegos, Faro serve a província de Huelva (que anunciou a intenção de construir o seu próprio aeroporto) e Lisboa concorre com Madrid nos voos intercontinentais.

Imaginemos que o Estado português aliena integralmente o seu controlo sobre a ANA. Suponhamos, além disso, que a ANA é adquirida, de imediato ou dentro de alguns anos, pela AENA, a sua congénere espanhola. Nessas circunstâncias, o mais natural é que, se a AENA aplicar ao conjunto da península a estratégia de centralização que actualmente aplica em Espanha, o desenvolvimento dos aeroportos de Lisboa e Porto venha a ser subordinado aos interesses de expansão do aeroporto de Madrid e que todos nós, quando quisermos voar para o centro da Europa, teremos primeiro que fazer escala na capital espanhola.

Não sou, em geral, muito sensível ao argumento da defesa dos centros de decisão nacionais, nem simpatizo com as golden shares. Acredito que o Estado deveria retirar-se o quanto antes da PT, e não entendo que interesse público relevante justifica que a Caixa permaneça nas mãos do Estado.

No caso da ANA, porém, inquieta-me o eventual resultado de uma privatização integral da empresa. É certo que está prevista a manutenção de uma participação estatal de 50% no capital da empresa, mas, tendo em conta que o Estado português se encontra financeiramente depauperado e que os interesses privados adoram deitar a mão a tudo o que é monopólio, parece-me indispensável a clarificação da política aeronáutica nacional.

Ora aí está um bom tema para a chamada "esquerda" do PS. Querem aceitar o desafio?

Coisas que não se percebem

Se a intenção do FC Porto é mesmo dar ao Edgar e ao Leandro Lima mais oportunidades para jogarem, deveria antes emprestar um ao Sporting e outro ao Benfica. Na equipa da Académica não é seguro que tenham lugar.

16.1.08



Marilyn Minter: Stepping Up, 2006.

15.1.08

Recordar é viver

Há doze meses atrás, eram mais ou menos estes os principais argumentos contra a Ota:

1. Lisboa não precisa de um novo aeroporto. A ampliação da Portela, eventualmente complementada com um mini-aeroporto em Alverca ou no Montijo, pode responder perfeitamente ao previsível crescimento da procura.

2. A Ota fica a 50 quilómetros de Lisboa. Um aeroporto nessa localização arruinará o turismo na capital.

3. A construção do aeroporto na Ota envolverá custos insuportavelmente altos. O Governo está a projectar um novo monstro de betão que superará em absurdo todos os elefantes brancos do passado.

Hoje, a esmagadora maioria dos que assim falavam entoam uma nova cantiga:

1. Não é possível hesitar mais tempo: Lisboa precisa urgentemente de um novo aeroporto sob pena de o seu desenvolvimento ficar bloqueado.

2. Embora o local do novo aeroporto de Alcochete fique a 50 quilómetros, isso não prejudicará o turismo da capital.

3. O aeroporto de Alcochete custará, na estimativa mais favorável, menos 5% do que a opção Ota, mas a rentabilidade do projecto está assegurada.

Um ano é muito tempo em politica.


Marilyn Minter: Splish Splash, 2004.

14.1.08

Alcochete e depois

O primeiro-ministro precisou de poucas horas para ler o complexo relatório técnico de mais de 350 páginas elaborado pelo LNEC e fazer a sua opção. Desde o tempo do Engº Ferreira do Amaral que não se tomavam decisões de tal importância para o futuro do país com esta rapidez. Será coincidência?

Picardias à parte, o relatório do LNEC conclui que, objectivamente, é pequena a diferença entre as duas alternativas em causa.

As mirabolantes poupanças prometidas pelos autores do estudo apresentado pela SIC e amplamente divulgados por uma imprensa completamente irresponsável reduzem-se afinal uns meros 5% do valor total do investimento, e ainda assim somente se aceitarmos como bons pressupostos altamente discutíveis, tais como: a) não imputação dos custos da travessia à solução Alcochete; b) imputação dos custos do novo campo de tiro também à opção Ota; c) não consideração de outros custos de compensação da Força Aérea; d) valorização a preço zero dos terrenos de Alcochete, desprezando o seu custo de oportunidade; e) expectativa de que a UE comparticipe por igual as duas localizações; e f) subestimação evidente dos custos de movimentação de terras em Alcochete (só este ponto dava um romance).

Quanto à muito propalada superioridade das movimentações horárias conseguidas em Alcochete relativamente à Ota, o próprio relatório indica que seriam necessários estudos mais aprofundados para confirmá-la visto que a comparação não assenta em pressupostos semelhantes, prevenção que tem sido cuidadosa e deliberadamente omitida pelo Presidente do LNEC nas suas intervenções públicas.

Nestas condições, é evidente que, com a sua decisão, Sócrates pretendeu antes de mais livrar-se de uma polémica que fugira ao controlo do governo, porque se sentia incapaz de enfrentar os lóbis favoráveis a Alcochete. Julga que assim matou o problema, mas engana-se redondamente. Na verdade, criou outros, porque agora muita gente e, o que é mais, muitos grupos de interesse terão ficado convencidos de que, afinal, fazendo-se um bocado de barulho, o governo abana e cede.

O mais grave de todo este caso é que o debate da infra-estrutura mais importante do país caíu literalmente na rua. As responsabilidades são múltiplas e de grau variável, mas o facto indiscutível é que a localização do novo aeroporto de Lisboa não foi decicida pelo poder democraticamente eleito, mas pelos lóbis que mais têm a lucrar com a alternativa Alcochete.

Se alguém ainda tivesse dúvidas, lembro que já na 6ª feira passada o Professor Viegas veio a terreiro informar que caber-lhe-á a ele e aos seus colaboradores dizer-nos onde ficará situada a nova travessia do Tejo, se será uma ou se serão duas, e ainda se serão duas pontes ou uma ponte e um túnel. E é claro que o Professor Viegas não tenciona concorrer a eleições para submeter a sufrágio os seus projectos.

Só quem não quer é que não vê o perigosíssimo precedente criado por este caso.


Marilyn Minter: Barbed, 2004.

11.1.08

Outra vez o marketing político

As divergências entre mim e o Luis Jorge a propósito da relevância do chamado marketing político (e que ele fez o favor de explicitar aqui) são provavelmente de detalhe, mas esse detalhe tem alguma importância.

Quando uma ideia funciona bem num determinado contexto é irresistível a tentação de experimentar se não terá um domínio mais vasto de validade.

O marketing é um conceito com mais de um século de existência que, para espanto geral, se revelou útil numa enorme variedade de situações no mundo empresarial. O passo seguinte foi estendê-lo a áreas cada vez mais afastadas dos negócios, de tal modo que se fala hoje com toda a naturalidade de coisas à primeira vista tão inesperadas como o marketing de países, o marketing de pessoas ou o marketing político.

Tenho alguma experiência de actividade política e alguma experiência de gestão de marketing, e é por isso mesmo que me tornei altamente crítico do marketing político. Naturalmente, aconteceu-me usar numa área algumas coisas que aprendi na outra; mas não me passa pela cabeça fazer marketing com ideias políticas ou política com conceitos de marketing.

Julgo ter boas razões para isso. A primeira, muito terra a terra, é que os bons políticos não têm nada a aprender com especialistas de marketing e publicidade acerca de estratégia ou comunicação. E nem é preciso mencionar personalidades de todo excepcionais como Churchill para justificar essa afirmação, basta pensar nos casos algo mais comuns de Mário Soares ou Bill Clinton.

Num plano mais profundo, as razões essenciais da escassa relevância do marketing para a política são três:

a) Uma personalidade política é uma realidade incomparavelmente mais complexa do que o mais complexo produto;

b) Na sociedade actual hiper-mediatizada, é impossível um político fingir por muito tempo ser aquilo que não é;

c) A expressão "vender um político" é uma metáfora coxa. visto que, de facto o voto é grátis, não tem um preço a priori.

É evidente que a política contemporânea recorre a certas técnicas, como os inquéritos de opinião ou as relações públicas, que fazem parte do arsenal da gestão de marketing contemporânea, mas não devemos tomar a nuvem por Juno.

PS - O Luís considera que o público americano não conhece Obama tão bem como eu suponho. Ora o que eu imagino é que, após ouvirem-no alguns minutos, muitos eleitores terão percebido: a) que ele é negro; b) que ele é um negro "respeitável", a não confundir com Jesse Jackson ou Martin Luther King; c) que ele é o único candidato que nunca insistirá nos problemas dos negros americanos; d) que ele é o único possível presidente que jamais tomará nenhuma iniciativa específica destinada a minorar os problemas dos negros; e) que ele é o candidato ideal para aliviar os sentimentos de culpa dos eleitores democratas que têm sentimentos de culpa em relação à questão racial. É preciso saber mais alguma coisa?

Movimento Pró-Badalhoquice

Vasco Pulido Valente, membro honorário do (MPB) Movimento Pró-Badalhoquice, proclama no Público de hoje:
"Nunca ninguém sabe o que está dentro (e fora) de um queijo ou de um enchido. (,,,) Mas talvez seja preferível não saber a uma vida fiscalizada pela ASAE."
O manifesto do MPB pode ser subscrito numa roulotte escalavrada, mal estacionada e fedorenta perto de si.

Desvarios do marketing político

Todos concordámos na altura que algo se passara no Iowa, embora ninguém soubesse muito bem o quê.

Podemos constatar, agora que assentou a poeira, que houve muita teoria para muito pouca evidência empírica, que é o método usual da especulação teológica.

No meio de todas as elucubrações que ouvimos nestes últimos dias, a mim fascinaram-me especialmente, talvez por deformação profissional, aquelas que se centraram na discussão de finas nuances de posicionamento dos candidatos ou estratégias de sentimentalização das suas campanhas.

Parece-me a mim que os eleitores não são tão estúpidos ou sequer inocentes como presumem os especialistas de marketing. O público americano conhece de gingeira Hilary Clinton há uma década e meia e o próprio Obama entra-lhes regulamente em casa nos últimos doze meses.

Gente cuja vida pública e privada é continamente submetida a um minucioso escrutínio não está em condições de fingir credivelmente ser aquilo que não é. Por isso acredito que o marketing político não passa de uma superstição de eficácia similar à dos maus olhados e promessas à Senhora de Aparecida.


Marilyn Minter: Cyclone, 2006.

10.1.08

A Voz de Rilhafoles

Ensina o Sr. Prof. Dr. Luciano Amaral (via Bruno Sena Martins):
"É verdade que os negros se encontram em média no fundo da tabela de quase todos os indicadores sociais americanos. No entanto, trata-se sobretudo de uma desgraça auto-infligida. As portas estão abertas a toda a gente nos EUA. Mas os negros americanos têm vivido o último meio século (basicamente desde o fim do Jim Crow) numa cultura de auto-guetização, de recusa do “sistema”, de racismo contra o “branco” (e mais recentemente o “asiático”). Se há hoje racismo em massa nos EUA é produzido pelos negros."
Lembramos que damos consultas grátis todos os dias úteis das 9 às 13 h.

As sondagens que nem sempre nos governam



O quadro acima, reproduzido por Paul Krugman, mostra a evolução das apostas online na nomeação de Hilary antes e depois da votação em New Hampshire, mas também podia ser a evolução dos resultados que as sondagens têm vindo a dar-lhe.

Muita gente tem aproveitado este caso para criticar mais este fiasco das sondagens, esquecendo o que ele fundamentalmente nos ensina, talvez porque a lição a extrair vai contra a sabedoria convencional.

Ao fazer uma aposta, as pessoas escolhem a hipótese que lhes parece mais provável, não aquela que consideram preferível, porque só isso lhes permitirá ganhar. Ora, como sabem elas o que será mais provável? Escutando o que os media dizem, evidentemente.

O que este e outros casos anteriores sugerem é que, nas sondagens, o mesmo efeito ocorre por vezes, embora a motivação seja distinta. Ou seja, uma parte considerável das pessoas inquiridas declaram ir votar em quem acham que vai ganhar, não em quem querem que ganhe. A razão será o receio de darem uma resposta que "pareça mal", por desalinhada com aquilo que percepcionam, por influência dos media, como sendo a tendência geral.

Chegado o momento de votar, porém, optam pelo candidato do seu coração, deixando mal vistos tanto as sondagens como os comentadores especializados.

Se esta interpretação for verdadeira, isso significa que o poder de manipulação dos media, evidente neste como noutros casos, pode ser eficazmente condicionado pela eventual existência de fortes (repito: fortes) preferências dos eleitores.

An extremely powerful party

Tendo conseguido ser eleito deputado do Partido Liberal pelo círculo de Covent Garden, John Stuart Mill, um personagem muito cá de casa, envolveu-se numa acesa polémica parlamentar ao classificar o Partido Conservador como "o mais estúpido partido". Instado a desculpar-se, eis como respondeu o autor do "Sistema da Lógica":
"I did not mean that Conservatives are generally stupid; I meant, that stupid persons are generally Conservative" (Laughter and cheers.) "And I do not see why the honourable Gentlemen should feel that position at all ofensive to them; for it insures their always being an extremely powerful party". (Hear hear)

9.1.08

8.1.08



Marilyn Minter: Bluest Tears, 2004.

Rigor informativo

Afirma o INE, citado pelo Economia & Finanças:
O indicador de confiança dos Consumidores manteve um movimento descendente desde Novembro de 2006, registando o valor mais baixo desde Fevereiro de 2006.
No entanto, os números tornados públicos mostram um crescimento significativo do consumo no período do Natal em comparação com 2006.

Em que informação deveremos confiar mais: naquela que revela o que os consumidores fazem, ou naquela que reproduz o que eles dizem? Ou ainda: naquela que reflecte o comportamento agregado dos consumidores, ou naquela que toma por base uma amostra do universo?

Pois é, mas os jornais optaram por puxar para as primeiras páginas a informação menos objectiva e rigorosa, de modo que o veredicto está ditado: a crise do consumo agravou-se.


Marilyn Minter.

O clericalismo obliterado

Escreve António Figueira num brevíssimo comentário ao último livro de Vasco Pulido Valente:
A "plebe rural" (leia-se: o pequeno campesinato, sobretudo) levanta-se contra o invasor e junta à reivindicação patriótica a reivindicação social, anti-senhorial, facto facilitado pela miserável acomodação dos poderosos ao domínio estrangeiro. Mas a plebe é um corpo sem cabeça, pede quem a dirija. A burguesia de Lisboa não está disponível, o ocupante impede qualquer veleidade, e então é o clero quem, antes de mais, ocupa o que seria o seu lugar, impedindo que o levantamento mantenha o tom de insubordinação social que o caracterizou de início. A aliança entre a pequena burguesia urbana e a "plebe", ou seja, a receita do radicalismo que irá marcar todo o nosso século XIX, terá de esperar ainda alguns anos para demonstrar a sua relevância política e conseguir promover um programa "avançado". O autor desta tese bem pode ter sido Secretário de Estado e deputado pelo PSD, escreveu um livro que é um 18 de brumariozinho. E mais bem pensado e bem escrito, acho eu, do que tudo o resto que sobre a Guerra Peninsular recentemente se editou.
Campesinato patriótico... Curiosa tese, num Portugal de inícios de oitocentos no qual o algarvio não suspeitava sequer a existência do minhoto... Mas não será antes tudo isso uma forma de obliterar e branquear a memória do clericalismo?

7.1.08

Europa vs. EUA

Paul Krugman no seu blogue:
"What the chart shows is that European countries have lower employment compared with population than the US; that’s a mixture of higher unemployment, lower female participation, and earlier retirement. But since 2000 the US employment record has been weak, while Europe has done much better at creating jobs. As a result, the gap has narrowed substantially.

"This gets at a theme I’ve written about in the past, and will surely return to: a lot of the American image of Europe as a moribund economy is, like, so 1990s. They’re doing better now - and we’re doing worse."
Tenho abordado de vez em quando o tema das comparações distorcidas entre Europa e EUA, cujo único propósito é vender a ideia da alegada falência do "modelo social europeu", mas, diga-se o que se disser, um argumento de autoridade dá sempre jeito.

(Já agora, não tenho visto ultimamente as estatísticas da evolução recente da taxa de emprego em Portugal, mas suspeito que também estará a melhorar. Talvez o Economia & Finanças pudesse esclarecer este ponto. Para os não economistas, convém esclarecer três coisas: a) A taxa de emprego não é o inverso da taxa de desemprego; b) Tanto do ponto de vista da eficiência económica como do ponto de vista do bem-estar social, a taxa de emprego é provavelmente mais importante; c) A taxa de emprego é um indicador mais rigoroso e menos ambíguo do que a taxa de desemprego.)


Wei Dong: Cavalheiros nas Nuvens, 2000.

Liberdade de expressão

Pedro Magalhães escreve no Público de hoje:
"O moralismo com que a legislação sobre o tabaco é apresentada por alguns dos seus defensores incomoda-me, e o mesmo sucede em relação ao crescente espalhafato da actuação da ASAE. Mas incomoda-me ainda mais verificar como pessoas que julgamos serem sensatas se revelam, neste caso, totalmente incapazes de se posicionarem sobre estes temas sem ser com um absolutamente transparente egoísmo, ainda por cima mal disfarçado de uma espécie de liberalismo de pacotilha, ele próprio moralista e paternalista, incapaz de imaginar que aqueles que querem apenas um pouco menos de caos e um pouco mais de respeito nas suas vidas quotidianas também amam a liberdade."
Curiosamente, ou talvez não, o Público decidiu destacar - a vermelho ainda por cima - apenas o primeiro período, ou seja, aquilo que ao articulista "preocupa menos". Curioso, não?


Wei Dong.

Sob o manto diáfano da democracia, a nudez crua da verdade

Os recentes acontecimentos no Paquistão e no Quénia vieram recordar-nos que, nalguns países, a convocação de eleições gerais pode ser o último episódio que precede directamenta a guerra civil.

Como a democracia deve servir, entre outras coisas, para evitar que a violência seja a única via disponível para mudar de governo, segue-se que nesses casos ela não cumpriu o seu propósito.

Não é possível haver democracias liberais do tipo daquela que temos se as pessoas colocarem a lealdade à sua tribo ou à sua religião acima de tudo o resto. Nessas circunstâncias não há indivíduos, só há comunidades, cada uma das quais se acha detentora da verdade absoluta - logo não disposta a ceder seja o que for aos seus antagonistas.

No Ocidente, a dissolução dos laços tradicionais foi um processo longo, cuja eficácia resultou do efeito conjugado da mercantilização das relações sociais e da subjugação de todos os poderes locais e parcelares ao Estado central. É escusado lembrar que isso não sucedeu sem episódios de violência extrema.

Mesmo que concordemos que a democracia liberal é a melhor solução para todos os países, é absurdo pretender-se começar pelo fim.

Países como os atrás citados precisam, antes de mais, enquanto aguardam que o desenvolvimento económico acelere o processo de destribalização, de tribunais independentes e de polícia. Por outras palavras, necessitam de um Estado de Direito, que é a antecâmara incontornável da democracia liberal.

Sucede, porém, que, nesses mesmos países, o exército é muitas vezes a única força com capacidade e motivação para conduzir esse processo. (Lembremo-nos da Turquia e da China, por exemplo.) Aquilo que é detestável numa fase do processo histórico pode ter sido a única solução noutra anterior.

A outra possibilidade será a insitucionalização de formas de representação que reconheçam e acomodem explicitamente a existência de grupos sociais, étnicos ou religiosos distintos sem deixar de assegurar a protecção das minorias, como se está a tentar fazer no Afeganistão.


Wei Dong: Teatro de marionetes, 2002.

O 11 de Setembro dos pequeninos

O cancelamento do Rally Lisboa-Dakar (que os media de todo o mundo designam apenas por Rally Dakar) foi o nosso pequeno 11 de Setembro, uma tragédia pequenininha como seria de esperar num país que até em matéria de desastres se contenta com pouca coisa.

No meio dos noticiários ficámos a saber que o Instituto do Turismo, a Câmara de Portimão e outras autarquias avulsas, que haviam atribuído subsídios à organização da prova, ficaram a arder com verbas significativas.

Sendo o Lisboa-Dakar um empreendimento privado com fins lucrativos, cabe perguntar que razões fundamentam essas benévolas transferências do Orçamento do Estado? Como já se sabe que nem a Espanha nem a França nos disputam a partida do rally, só pode ser para evitar que ele fuja para um qualquer país do Leste.

Curioso: subsidiar empregos em fábricas têxteis pouco competitivas é errado; mas subsidiar lucros de empresas promotoras de eventos desportivos para assegurar a sua vinda para Portugal está certo.

Espanha

Se a igreja espanhola deseja comportar-se como um partido político, não poderá depois estranhar se for tratada como um partido político.

Sobre a promoção do egoísmo

João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas:
"Durante muito tempo a teoria económica dominante alimentou a ideia de que a hipótese do egoísmo racional e o aparato teórico construído à sua volta, com a ideia associada de que todas as interacções humanas podem ser representadas como se de transacções mercantis se tratassem, serviam para compreender o comportamento humano em todas as esferas da vida social. Isto deu origem a um programa de investigação que promoveu a colonização de outras áreas disciplinares pela teoria económica ortodoxa e pelos seus idealismos mercantis. A isto se chamou, e bem, imperialismo económico."
Ler o resto aqui.


Wei Dong: Enigma, 2005

6.1.08

A Voz de Rilhafoles

António Barreto no Público de hoje:
"Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. (...)

"O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra a autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas."
Aproveitamos para lembrar que as nossas consultas são grátis, todos os dias úteis, das 9 às 13 h.

4.1.08



Young-woo Kwon.

Para quê o tal canal?

Não é fácil entender-se as vantagens da autorização de um novo canal de televisão generalista.

Perdem os canais existentes, porque terão que repartir receitas publicitárias tendencialmente estagnadas com o novo concorrente.

Perdem os anunciantes, porque a previsível baixa dos preços dos espaços publicitários não deverá compensar a maior fragmentação das audiências.

Perdem os telespectadores porque, nas actuais circunstâncias, a intensificação da concorrência previsivelmente acelerará a degradação da qualidade da programação.

Tudo isto porque o mercado da televisão de sinal aberto não é um mercado como os outros, visto que a gratuitidade impede os telespectadores de manifestarem a intensidade das suas preferências.

Pode-se argumentar que, nessas circunstâncias, ninguém será suficientemente tolo para concorrer à concessão do novo canal na perspectiva de perder dinheiro. Mas não é assim, porque a propriedade de um canal televisivo, mesmo que deficitário, permite alavancar outros negócios de media. Por isso os anunciados candidatos são a Cofina e a Controlinveste.

Nestas circunstâncias, é inevitável a suspeita de que a única motivação do Estado é a angariação de uma significativa receita extraordinária em resultado da atribuição de uma nova concessão. Pelo menos é aquilo que parece, na ausência de uma explicação mais fundamentada do Governo.

3.1.08



Ross Bleckner: Meditation.

O Túmulo da Liberdade

Tudo começou, compreendo-o hoje, com a interdição de largar na rua os escravos negros mortos, sob o pretexto de que a sua putrefacção punha em risco a saúde pública. Mas era mentira, uma rematada e descarada mentira, porque os cães de Lisboa encarregavam-se de conservar as ruas limpas, de modo que os cadáveres sempre serviam para alimentar os animais.

Passado pouco tempo, a Câmara e a Polícia desataram a aplicar pesadas multas aos habitantes pobres que faziam na via pública os seus despejos por manifesta impossibilidade de resolverem o problema de outro modo. De forma que toda a gente foi obrigada a escavar uma fossa e, mais tarde, a descarregar os dejectos familiares na rede pública de esgotos. Tudo, já se sabe, só para nos cobrar mais taxas, mais multas e mais impostos.

Julgavam os néscios que, podendo a gente fina passear-se pela cidade sem ter que tapar o nariz, o Estado deixaria de incomodar quem trabalha. Puro engano! O passo seguinte foi entrar a perseguir os côvados, as braças, os arratéis e as arrobas, unidades de medida bem nossas e bem portuguesas e forçar o zé povinho a dobrar-se à tirania dos metros, dos litros e dos quilos imposta pelos exércitos napoleónicos.

Ainda o povo não se tinha recomposto de tanta perturbação, quando certos burocratas decidiram que as nossas aldeias, vilas e cidades não poderiam continuar a ter a sua hora solar própria. Parece que, a bem da circulação ferroviária, teria que ser adoptada uma hora nacional ajustada em função de um meridiano estrangeiro. Mas eu pergunto que sentido fez impor-se uma moda inglesa a quem ao comboio preferia o burro?

De modo que não temos nada que nos admirar quando a cáfila que nos governa, impondo a interdição total de fumar em restaurantes e cafés, enterra em definitivo as liberdades ancestrais dos portugueses, viciados na pirisca desde o tempo do Viriato, para não ir mais longe.

Se houvesse algum respeito pelo livre arbítrio do indivíduo e das pessoas em geral, o mínimo exigível seria dar aos proprietários a opção entre autorizarem ou não o fumo nos seus estabelecimentos, de modo que os clientes poderiam também escolher que locais prefeririam frequentar.

Mas parece que não pode ser, porque os comunistas querem proteger a criadagem do fumo passivo. Fumo passivo! Protecção da criadagem! Que repugnante conversa de maricas! Pobre país! Ao que nós chegámos!


Roy Lichtenstein: Nude with Abstract Painting.

2.1.08

Será boa ideia polvilhar o país de unidades de saúde?

Às vezes, eu e o Maradona parecemos almas gémeas (palavrões à parte, evidentemente):
"Esta ideia de que o Estado deve ter políticas que "ocupem" o território é do caraças. Gostava imenso de saber como é que se instalou este dever de missão do Estado na cabeça do Pedro Marques Lopes, e, depreendo, aquela outra ideia sua irmã, a de que a desertificação humana de um pedaço de um país e consequente concentração das populações é uma coisa terrível.

"O Estado não deve gerir (ou melhor, deixar gerir) o território racionalmente de modo a que toda a gente beneficie dos recursos de modo mais eficiente. Não. Deve, primeiro que tudo, ocupar o caralho do território. Isto de criar cidades onde se concentrem o maior número de pessoas possivel, que se iniciou há 10 mil anos e tem vindo aacompanhar sem desvio tudo o que associamos a melhor qualidade de vida, foi um erro.

"Supostamente, para o Pedro Marques Lopes um senhor do Estado que veja um pedacinho de país a despovoar-se deve mandar para lá uns serviços do Estado e depois esperar que as pessoas, convencidas e emocionadas, por lá fiquem. Num ponto o Pedro Marques Lopes tem razão: as pessoas em Portugal vivem do Estado, mesmo que contra toda a vontade e realidade. Agora que penso nisso, talvez o plano do Pedro Marques Lopes resultasse, mas, felizmente, esse não é o país que este Governo e eu estamos (em conjunto) empenhados em conservar."
Já agora, uma pequena observação: já repararam que, depois daquela epidemia de há uns meses atrás, deixaram de nascer bébés em ambulâncias?


Eric Fischl: Bad Boy.

O eco da rua

Há dias, Sócrates aproveitou a despropósito a mensagem de Natal para fazer propaganda aos seus sucessos governamentais.

O Presidente da República parece ter-se sentido na necessidade de ripostar, e o resultado foi o seu estranhíssimo discurso televisionado de ontem à noite.

Há um ano, Cavaco ameaçou que iria estar atento e que exigiria resultados no final de 2007, afirmação que deu azo - lembram-se? - a grande foguetório nas hostes da oposição. Concluida mais uma volta da Terra ao Sol, qual foi então a conclusão do Presidente?

Em breves palavras, nenhuma.

O mais surpreendente para mim, porém, foram estas palavras:
"[Os portugueses] não estão seguros de que os utentes, principalmente os de recursos mais baixos, ocupem, como deve ser, uma posição central nas reformas que são inevitáveis para assegurar a sustentabilidade financeira dos serviços de saúde. (...) Seria importante que os portugueses percebessem para onde vai o país em matéria de cuidados de saúde." (transcrição retirada do Público de hoje)
Deixa-me lá ver se eu entendi. Por um lado, o Presidente considera as reformas da saúde (estas? outras?) inevitáveis, mas apenas por razões financeiras. Por outro lado, em vez de tomar posição, dá voz à suspeita de que talvez os "utentes de recursos mais baixos" tenham razão para estar inquietos, e acrescenta que seria importante os portugueses poderem perceber para onde vai o país.

Que postura é esta? Estamos perante um mero comentador que se entretém a dar notas à Marcello, perante um repórter que transmite as preocupações da rua, ou perante um Presidente da República solidário com o Governo que empossou e co-responsável pelas suas políticas. Onde está afinal a prometida cooperação estratégica?

Mais uma pergunta: o Presidente da República ignora para onde vai o país em matéria de cuidados de saúde? Não é possível imaginar-se que seja esse o caso. Mas, se conhece o rumo, porque não trata de o afirmar claramente em vez de se limitar a insinuar que alguém indeterminado deverá fazê-lo?

Afinal, como interpreta Cavaco Silva o papel e as responsabilidades do Presidente da República? Eis o que não está claro, nem para ele, nem para nós. Já começa a tardar.

O Correio da Manha

Há jornais que vivem de difundir dia após dia notícias falsas que logo são desmentidas. Entre a publicação e o desmentido, porém, vende-se patranhas e lança-se a confusão na opinião pública.

Não haverá limites para o despudor? Onde pára a tão incensada auto-regulação nos momentos em que mais falta faz?


Ross Blackner: Dream and Do.

O acontecimento do ano 2007

Richard Feynman demonstrou certa vez que, marcando átomos com "zeros" e "uns", é em princípio possível concentrar toda a informação criada desde o princípio dos tempos pelo homem numa cabeça de alfinete.

No ano passado, o Governo britânico foi forçado a reconhecer ter perdido dois CDs contendo informação confidencial detalhada acerca de 25 milhões de pessoas. Nas semanas que se seguiram à revelação foram descobertos vários outros incidentes do género. Este foi, a meu ver, o acontecimento do ano.

Na sequência dessas revelações, alguns especialistas afirmaram que o roubo ou utilização indevida de dados pessoais tem vindo a crescer exponencialmente nos últimos anos.

Indignações à parte, o facto indesmentível é que, à medida que progride a miniaturização das memórias digitais, viabilizando a captação e registo de dados em suportes cada vez mais pequenos, mais fácil se torna roubar e traficar dados confidenciais sobre indivíduos e organizações.

A digitalização integral da vida económica, com todos os seus espantosos benefícios , implica ao mesmo tempo que tudo aquilo que fazemos deixa uma pista reconhecível que outros poderão utilizar para nos espiar.

Este é um problema que estará cada vez mais connosco nos próximos anos.

Santos de pau carunchoso

O Correio da Manhã online propõe-nos hoje esta notícia:
Educação: Igreja não gosta das novas orientações - Escolas sem nomes santos
E prossegue com o seguinte lead:
As escolas Básicas e Secundárias vão deixar de ter santos ou santas na denominação oficial. A indicação partiu do Ministério da Educação, no âmbito da aplicação do Decreto de Lei n.º 299/2007, da Lei de Bases do Sistema Educativo.
Será isto verdade? Desconheço o texto do decreto-lei, mas o próprio corpo do artigo do CM sugere que não.

O que está então em causa?

1. Faz todo o sentido substituir designações vazias e burocráticas de escolas, do tipo Escola C+S 1347 da Pontinha, por nomes com os quais os alunos e os seus pais possam identificar-se. Continuamos pela vida fora a ser ex-alunos do Camões ou do Pedro Nunes, não utentes da EB 2/3, por exemplo. É esse o problema essencial que o decreto em questão visa resolver.

2. Ainda segundo o CM, os nomes dos estabelecimentos de ensino passarão a ser decididos pelas respectivas assembleias de escola e não centralmente pelo Ministério da Educação. Também me parece boa ideia.

3. Em seguida, o decreto avança algumas orientações sobre os critérios de selecção dos nomes das escolas, que genericamente me parecem sensatas.

4. Há alguma interdição geral do recurso a nomes de santos? Não: propõe-se tão somente que sejam "evitadas alusões religiosas, como nomes de santos ou santas" (sic). Uma coisa bem diferente, como se vê.

5. Estará a escola de Santo Tirso, por exemplo, impedida de adoptar esse nome? De modo algum, até porque o decreto sugere explicitamente o recurso à toponímia para escolher a designação do estabelecimento. Naturalmente, também nada obsta a que as escolas adoptem o nome da freguesia em que estão localizadas quando calha terem o nome de um santo, como Santa Isabel, Santa Engrácia e por aí fora. É absurdo, por conseguinte, noticiar-se que "as pessoas se recusam a riscar o nome da terra" da escola.

6. Como o decreto sugere que, caso se opte por escolher um patrono, a escolha recaia sobre "uma personalidade de reconhecido valor", nada impede tampouco a opção por figuras da Igreja de reconhecida dimensão nacional.

7. Repito que apenas conheço do decreto-lei aquilo que o Correio da Manhã nos diz. Ressalvado este ponto, pode-se afirmar que, se o corpo da notícia estiver certo, então o título e o respectivo lead encerram uma grosseira manipulação ao insinuarem um ataque à Igreja onde apenas se vislumbra a preservação dos valores da laicidade.

8. Resumindo e concluindo, a lei limita-se sensatamente a impedir que as escolas sejam utilizadas como instrumento de proselitismo religioso. Nem mais nem menos.