30.10.08

Não poupemos no raciocínio

Quem quer que tenha dinheiro investido num fundo de acções pode confirmar que cerca de metade das suas poupanças despareceram de há um ano para cá.

A Drª Ferreira Leite, porém, supõe que a poupança é uma coisa que está ali guardadinha, muito quietinha, à esperar que alguém a vá buscar, de modo que teme que a sua canalização para o investimento público impeça o financiamento de investimentos privados.

Imaginemos, porém, que a produção de um país cai a pique, que é o que poderá vir a acontecer no próximo ano. Que sucede à poupança? Como o rendimento nacional se reduz, cai também, mesmo presumindo que se mantém a proporção do rendimento que é aforrada.

Todavia, o mais natural é que, para tentarem conservar o seu padrão de consumo, as pessoas não só poupem menos como vão gastar uma parte das suas poupanças acumuladas enquanto aguardam melhores dias.

Resultado: caindo a produção, cai o rendimento e cai a poupança; caindo a poupança, contrai-se o investimento, o que por sua vez leva a nova queda da produção, e assim sucessivamente. Chama-se a isto o efeito multiplicador - descoberto por Richard Kahn, incorporado por Keynes na sua Teoria Geral e explicado em qualquer manual de macroeconomia.

O mesmo mecanismo pode funcionar ao contrário, impulsionando uma espiral positiva. Quando o investimento privado se retrai (seja porque as empresas cancelam os seus projectos, seja porque os bancos acham demasiado arriscado apoiá-los), o investimento público pode salvar a situação. O investimento reanima a procura, estimula o crescimento dos rendimentos e, last but nor least, faz crescer a poupança.

Logo, a poupança diminui quando não é usada e cresce quando é investida. Qualquer pessoa, diria eu, pode entender isto.

4 comentários:

Tarzan disse...

«O mesmo mecanismo pode funcionar ao contrário»

Mas você sabe que é necessário que estejam reunidas uma série de condições para que o ciclo se torne virtuoso e não vicioso, não sabe?

João Pinto e Castro disse...

Sim, sabemos os dois. Também tenho sugestões para resolver esse problema. Uma coisa de cada vez.

Horácio disse...

E quem paga o investimento público?

João Pinto e Castro disse...

Você.