15.10.08

E o vencedor é...

O que é que o cidadão comum entende sobre esta crise financeira, se é que entende alguma coisa?

O que ele constata é que uma cáfila de financeiros se apropriou do dinheiro das pessoas por meios fraudulentos um pouco por todo o mundo com a cumplicidade de quem era suposto velar pelos nossos interesses. Para cúmulo, os políticos mobilizam-se agora para indemnizá-los, enchendo-lhes os bolsos com o produto dos impostos pagos pelos pobres cidadãos.

O problema é que isto, sendo meio mentira, também é meio verdade.

De modo que a força mais poderosa nos próximos tempos será o ressentimento dos de baixo contra os de cima, dos espoliados contra os poderosos, dos justos contra os pecadores.

À derrocada do capitalismo negocista não se seguirá o triunfo esplendoroso das virtudes socialistas, mas o ódio indiscriminado contra o dinheiro, o poder e o privilégio. Numa palavra, o terreno é mais propício do que nunca ao avanço do populismo, que é a força real que ao longo dos últimos anos tem vindo a germinar, soprada pelo desvario dos mass media e, em particular, da televisão.

Quando uma crise destas proporções estala, não surgem por milagre novas soluções para os problemas. Só pode ganhar apoio popular aquilo que já existe, e o que existe é o geral declínio da democracia liberal, ameaçada por inimigos que há longo tempo aguardavam esta oportunidade.

Não nos admiremos se assistirmos nos próximos ao recrudescimento do nacionalismo, da xenofobia e do belicismo, na Europa como fora dela.

Pensem nisso.

2 comentários:

GL disse...

Mas os governos estão justamente a gastar bilhões do dinheiro do contribuinte para que as massas não percebam a crise.

Onde está esta desgraça toda para tanto pessimismo?

Ao capital não interessa os radicalismos, populismos e etc. Afinal, no curto prazo, tudo terá de voltar ao que era.

Passados 80 anos, isto está muito mais sofisticado.

O que vem aí é uma era de trabalho. Muito trabalho a baixo preço, para pagar todo este desvario.

Helena disse...

Parece-me que faltam aqui duas nuances importantes:
- Os "maus" e as "vítimas" andam misturados: fomos nós, os nossos familiares, amigos, vizinhos e colegas quem embarcou no milagre da Bolsa e quem comprou aqueles títulos fantásticos que rendiam mais que a D.Branca. Apesar de sabermos todos (é escusado tentar iludir isso) que estávamos em pleno processo de loucura colectiva.
- Aqui na Alemanha estão a deixar muito claro que ajudam os institutos financeiros para evitar uma crise que nos arrastaria a todos; e também estão a deixar claro que se acabaram os salários milionários nas empresas ajudadas pelo Estado.

(Também têm tido o cuidado de pôr o país do lado dos bons: os jornais não se cansam de lembrar o que o governo da Angela Merkel insistiu para haver mais controle do sistema financeiro, e o que os outros países se riram dele...)

Em suma: o que vejo mais por aqui não é o ódio ao dinheiro e ao poder, mas a crítica à ganância.
Mas estou a falar da Alemanha - admito que em Portugal seja muito diferente.